Forasteira
7 Me Kon Te
Notas iniciais
E sério: vai ter uma música para dar o play quando vocês chegarem a determinada parte da história. Não deixem de colocar a música para ler. É emoção pura!
Vem comigo!
Daryl estava puto. Muito puto, como há tempos não ficava. Se houvesse uma horda de zumbis agora seria ideal. Ele aniquilaria todos, com requintes de crueldade. Queria colocar para fora toda sua raiva e indignação pelo o que acabara de acontecer. “Esse filho da puta, desgraçado!”
Sua mente parece travada no comando repeat e aquele flashback bizarro não para de ser repassado pelo seu cérebro, com detalhes mórbidos.
(...)
Luna estava em suas mãos. Literalmente. Ele segurava seu queixo simbolicamente como quem diz “não abaixe a cabeça”. Sentiu como se o tempo tivesse congelado para sempre naqueles breves instantes. Não havia zumbis, não havia mortes, não havia horror. Tudo o que havia eram aqueles olhos grandes cheios de encanto que, agora, se fixavam na imensidão azul de Daryl. Era a primeira vez que ele tocava o rosto dela e, Céus, a pele era tão macia e aveludada. Seus dedos formigavam, sentindo a energia de Luna se transferir para ele. A sensação era de completude. Como se tivesse vivido todos esses anos partido ao meio e ,agora, encontrava a outra peça de si próprio em meio ao caos.
Da parte de Luna, tudo o que conseguiu ver foram seus olhos marejando, inundados de lágrimas. E ele poderia ter mergulhado ali. Ele queria ter mergulhado nos cabelos cheios de ondas e na boca carnuda da cigana.
O sonho não poderia ter sido interrompido de maneira mais brusca. Uma força puxa Luna com tamanha violência que ela é obrigada a se erguer de súbito e, ainda assim, sei vestido se rasga atrás, a obrigando segurar a parte da frente om as duas mãos para não ficar desnuda.
– Nunca pensei que você chegar tão perto de honrar seu compromisso com Santa Sarah se enfurnando aqui com o gadjó. Você é uma vergonha pros ciganos, pro seu pai... Vá embora daqui! Vá para o seu trailer! – Gritava um cigano mais alto que Daryl, o único daquele bando que parecia ter menos que 50 anos. Na verdade, se bobear, era mais velho que o filho da mãe que berrava com Luna. Algumas palavras daquele discurso surreal o caçador simplesmente não entendeu. Nem precisava. Concluiu que deviam ser os piores xingamentos que aquele bastardo tinha arrumado em romanês.
– Yago não, por favor! – pedia Luna desesperadamente – Você não entendeu. Ele não sabia que estava fazendo algoerrado.
– Mas você sabia! Primeiro: porque aceitou conversar com o gadjô a sós? E porque raios deixou com que ele tivesse tamanha liberdade para te tocar? – o cigano espumava de raiva.
– E-Eu me distraí. E ele estava só de passagem, não é Daryl? – seu olhaR suplicava ajuda.
– Escuta aqui, cara... Larga a garota. Ela não fez nada demais. Eu quis tocar seu rosto e ela deve ter congelado de medo. Nada que precise disso tudo... – Daryl tentava manter a calma mas, no fundo, sua vontade era de meter uma flecha no rabo daquele filho da puta. O que ele estava pensando? Não devia estar tratando Luna daquele jeito!
– Você vai catar as suas coisas agora, vai pegar o seu irmão e ir embora já. – disse Yago, entredentes.
– Mas que barulheira é essa aqui fora? – Valentin acabava de chegar e tentava compreender o motivo da contenda. Na verdade, todo o acampamento já estava de pé, em torno deles, inclusive Merle.
– Kuká, peguei o gadjó com a mão no rosto de Luna! Ele pensa o que? Nós lhe damos abrigo e comida para ele vir desgraçar nossas mulheres no meio da madrugada? Ainda mais Luna...
– Não foi nada disso, tio Valentin... Vocês sabem o quanto eu zelo pela minha virtude! – agora grossas lágrimas banhavam o rosto de Luna.
– Luna, seu vestido está rasgado... – balbuciou Magdala
– Foi Yago quem o rasgou, Magdala... Como podem pensar isso de mim?
– Desde sempre Arturo disse que você cuidaria da sua virtude em detrimento do casamento. Quando eu ofereci os dotes para tê-la como esposa, você relutou. Disse ao seu falecido pai que queria honrar a promessa com Santa Sara. Mas olhe o que você se tornou. Não precisou nem de dois dias ao lado deste gadjó até fraquejar. – Yago vomitou as palavras e chegando perto de Luna E fez o impensável: cuspiu em seu rosto e saiu caminhando para dentro do acampamento. Aquilo foi a gota d’água para Daryl. Ele correu em direção ao cigano e iniciou uma briga com socos e chutes. Os dois rolavam na terra, sujando-se com poeira e sangue, sob protestos de todos. E a briga só acabou quando Luna se atirou entre os dois. A parte rasgada de seu vestido cedera e Daryl via o contorno dos seus seios. Ele teria lutado até a morte para ver mais e para tê-la a salvo em seus braços. Foi quando se deu conta do quanto havia se ligado àquela garota. Ele achava que se apaixonar era algo absolutamente gay e piegas. Mas não conseguia achar outra definição para seu estado. Paixão pura, fervendo e pulsando nas suas veias. Ele nunca havia experimentado nada assim e, ao mesmo tempo em que precisava defender Luna, também sentia um medo avassalador invadi-lo. Medo por estar tão exposto, medo por Merle acha-lo uma bichinha apaixonada, medo por viver neste mundo vadio onde pudesse perde-la facilmente. Para zumbis ou para um babaca como o tal Yago.
– Acho melhor, dada a nossa situação, que vocês partam agora mesmo. Não queremos brigas. Como vocês dois podem ver, nosso bando está reduzido. Os homens precisam poupar forças pra lutar contra essas coisas que andam por ai. E Luna nos ajuda muito. Não quero precisar expulsá-la do acampamento... – a voz de Valentin falhou no final. Parecia ferido e confuso.
– Tio, não! – Luna já não conseguia ficar em pé e se agachou como se estivesse com dor. Daryl quis abraça-la, socorrê-la e ajudá-la a se erguer. Mas Merle o impediu.
– Vamos cair fora daqui, Daryl. Já tinha te avisado pra não encostar nesta cigana. Ela fodeu com você bem antes de você poder fodê-la... – Merle não teve tempo para acabar o que estava falando. Pela primeira vez em muitos anos, talvez a primeira vez na vida, Daryl virou um murro na cara do irmão.
– Cala a porra da sua boca, Merle!
– Seu viadinho molenga... Quer saber? Que se foda. Se quiser foder com sua vida por causa de uma cigana, vai fundo. Eu tô vazando. Primeiro você vira a cadelinha do Rick e agora vai virar a cadelinha desta daí... Prefiro ir ali enfrentar aquelas coisas sem braço do que ver esta cena deprimente para os Dixon. – e Merle se retirou para o trailer.
– Seu irmão não parece tão agradecido quanto você gadjó, mas está tomando a atitude certa. Vocês não pertencem a isso aqui. Não vai ser bom pra ninguém... – completou Valentin.
Daryl ouviu aquelas palavras atordoado. Ele pouco se lixava para o fato de estar sendo expulso do acampamento. Mas virar as costas e ir embora significava deixar Luna. Para sempre. E ele não tinha tido tempo para pensar sobre isso, mas desconfiava que não iria conseguir simplesmente pegar a estrada sem olhar para trás. Abaixando-se no nível de Luna, que ainda estava no chão, quase em posição fetal, molhando a terra do acampamento com seu pranto compulsivo, disse:
– Eu não quis causar mal para você ou para a sua família... – Daryl Dixon estava engasgando com as próprias palavras? Sim, estava. E se odiava por isso, mas precisava fazê-lo — Nunca conheci mulher alguma como você. Você ama seu povo muito mais do que a si própria. Fez dessas crianças seus filhos e aceita viver conforme as regras que alguém determinou, por mais que isso a machuque. Queria que soubesse... Só queria que não me odiasse. – Daryl levantou-se e começou a se dirigir até o trailer para recolher suas coisas.
PLAY > http://www.youtube.com/watch?v=5bkC8Ul0zww
– Espera... Tio Valentin, este homem salvou minha vida. Posso ao menos me despedir decentemente? – Luna estava de pé, num estado lastimável. O vento soprava pelos seus cabelos, bagunçando-os. O lápis preto derretera e desenhara o caminho das lágrimas pelo seu rosto. O vestido estava sujo, rasgado...
– Vá, mas seja breve. – determinou Valentin.
Daryl se virou. Não ousou a caminhar até ela. Não queria causar mais problemas do que já havia causado. Mas esperou que ela fizesse o trajeto. Enquanto caminhava, ela tentava segurar os trapos que vestia colados ao corpo com as mãos. As lágrimas continuaram a escorrer silenciosamente. Quando atingiu a metade da distância que precisava cumprir, Yanka se soltou da mãe e foi até ela, grudando-se às suas pernas. Luna liberou a mão direita e estendeu para a pequenina cigana, que se agarrou a ela como um náufrago se agarra ao bote salva-vidas. E, juntas, como se apoiando uma na outra, se aproximaram de Daryl.
Luna ergueu a cabeça para olhar Daryl nos olhos. Ele ergueu um pedaço da gola do seu vestido que caia pelo ombro do lado direito. E ficou esperando pelas palavras que vinham.
– Ei, caçador... – ela praticamente sussurra.
– Ei, forasteira!
– Pelo visto é a aqui que o destino nos separa, né? – ela força um meio sorriso.
– Não tinha que ser assim... – Luna o interrompe, balançando a cabeça de um lado para outro, como quem diz “não”.
– Sabe? Um cigano não é nada sem seu bando. Mas você conseguiu enxergar apenas a mim em meio a todos aqui. E fazia muito tempo que eu não sabia como era a sensação de ser única, porque meu pai era quem costumava fazer isso. E o zumbi que o devorou mastigou minha alma junto com a carne dele. Então... – as lágrimas agora caiam sem intervalo entre uma e outra – muito obrigada! Quero que leve algo com você. – Ela desprendeu uma pequena medalha dourada de sua pulseira de elo e estendeu. – É a imagem de Santa Sara Kali. Vou pedir que ela ilumine seus passos na escuridão deste mundo horrível. Pegue-a! Fique com ela.
– Luna... – ele suspirou enquanto a cigana prendia a medalha na sua blusa xadrez. Quando estava bem presa, ela colocou uma mão no seu ombro e fez um movimento mínimo indicando que ele se aproximasse. Ele obedeceu. Yago estava por perto novamente. Daryl o odiava como havia odiado pouca gente na vida.
– Akana Mukav tut le Devlesa! Me Kon Te! – ela sibilou sem pressa. Daryl não entendeu, mas sabia que vindo dela era especial.
– Kak camena tute prala! – Yanka era quem falava agora em alto e bom som.
– Quê? Quê você disse, Yanka?
– Nada! – a menina responde assustada, agora abraçada a perna de Luna.
– Você teve coragem de se declarar ao gadjó em romani, Luna?
Daryl percebeu que o que quer que tenha saído da boca da menina tinha os colocado em maus lençóis.
Notas finais
- Eu agora deixo-o com Deus. Eu amo você!
E Yanka diz:
- Como nós te amamos, irmão!
Lindo demais, né?
Próximo capítulo o pau vai comer. Literalmente!
Deixem seus comments pra mim, tá?
beijos, Amora
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