Forasteira

2 Luna Sara Kali (Ciobanú)


Notas iniciais
Neste capítulo, vamos conhecer um pouco do gênio de Luna. Daryl está se metendo numa encrenca daquelas...

Daryl Dixon tinha um problema: seu irmão Merle, de gênio indomado e agressivo, que o obrigou a deixar para trás um abrigo seguro. Agora, ele tinha acabado de encontrar uma cigana que tentara lhe roubar sua caça em meio a um apocalipse zumbi. Era informação — e confusão! — demais para um dia só. Daryl estava exausto, a pouca luz natural havia se esvaído e eles sequer tinham conseguido um local seguro para acampar. Essa avalanche de pensamentos o deixara em transe, mal se dava conta da forasteira gritando em seu ouvido...

- Exijo que me solte. Preciso voltar! Está me ouvindo? Ei, caçador em que planeta você está agora, hein? Você é maluco. Me laaaaarga... — e lutava para se desvencilhar de Daryl, sem sucesso. Até que... SLAPT! Ele nem viu a outra mão da cigana voar em direção ao seu rosto num tapa ardido.

- Você bateu na minha cara? Enlouqueceu, é? – Daryl Dixon tinha se irritado pra valer e seu rosto agora se transformara. Ele estava vermelho, inchado de fúria e podia ser facilmente confundido com um psicopata de filme de terror. Tapas na cara ressuscitavam algumas das piores lembranças de sua infância junto a um pai bêbado e descontrolado.

- O que você quer? Meu braço está gangrenando... Eu nem estou sentindo mais. Olha aqui para ver a merda que você está fazendo! – a cigana pedia, alucinada de dor, tentando lhe mostrar o braço agora pintando por manchas roxas de um lado e absolutamente sem cor do outro. Sem se dar conta, Daryl o apertava tão forte que interrompia quase que completamente o fluxo de sangue do membro.

- Mas que porra eu tô fazendo...? – exclamou, largando a moça na hora, um tanto atordoado.

- Que veadinho! Você devia ter quebrado o braço dessa piranha, Daryl. Esqueceu que ela atirou a porra de dois punhais na nossa cabeça? Esses tempos com Rick fizeram com que você voltasse a ser frouxo de sempre, mesmo! – era Merle quem gritava agora.

- Merle, você vai calar a porra da sua boca agora ou só quando tiver atraído todos os zumbis num raio de 50 quilômetros? Eu resolvo essa merda sozinho. Como sempre. – E voltando-se para a garota, que agora balançava o braço freneticamente, numa tentativa de fazer o sangue circular de novo, disparou:

- Escuta, não quis te machucar. Mas não posso deixar você ir embora agora. Você vai levar a gente ao seu acampamento, tá entendendo?

- Mais fácil você meter logo uma flecha dessas na minha cabeça, caçador. Não vou leva-lo para lugar algum. – respondeu, num tom entre raiva e um grunhido de dor.

Daryl empunhou a besta, mirando a têmpora da garota.

- Não vou ter o menor problema em enfiar uma flecha no seu cérebro aqui e agora. – rebateu, irônico, usando a mesma frase com que a forasteira o havia ameaçado quando colocou uma faca em sua garganta.

- Demorou, maninho! – riu Merle.

A garota se ergueu e se virou até encarar Daryl de frente. A besta, agora, apontava para o meio da sua testa. Ela o enfrentava.

- Como você deve imaginar, não tenho muitos motivos para querer continuar viva em meio aos comedores de carne humana. Quer saber, caçador? Você vai me fazer um favor muito grande se decidir atirar! – vomitou as palavras, enfrentando um Daryl Dixon pasmo. Sua expressão era a mesma de sempre, ele aprendera a não transparecer medo ou dúvida. Sabia que isso dava aos inimigos um trunfo valioso. Mas, por dentro, se perguntava quem era aquela infeliz arrogante que o chamava para a briga. “De onde saiu essa mulher?”. Foi então que se lembrou: “Grupo cheio de outras mulheres e crianças famintas”... Os filhos dela podiam estar no meio, quem sabe? Ele tinha uma carta na manga. Pelo menos, achava que tinha. Resolveu arriscar:

- Primeiro, meu nome é Daryl. Já me apresentei. Estou esperando você fazer o mesmo. Segundo, é bom ficar bem viva e alerta. Afinal, suas crianças ainda estão lá, famintas. Se o grupo perder a mantenedora, quem vai encher o estômago vazio daquela gente, forasteira esperta?

Um lapso de dor transpassou o rosto da mulher. Ela ficou séria e claramente tentou acalmar a respiração. Só depois falou, numa tacada:

- Não posso levar a morte comigo para o meu acampamento. Vocês estão armados! Como posso confiar? Só quero ir embora. Numa boa. Deixe-me ir, caç... Da-Daryl! – tinha dado certo. Ela estava entregue. Tentava negociar. Daryl tinha encontrado seu calcanhar de Áquiles.

- Você não vai ter escolha agora, forasteira. Comece a andar. Vamos atrás! – disse cutucando as costas dela com a Besta. – E é bom nem pensar em nos dar um perdido. Você já tentou me roubar, atirou punhais em mim e me deu um tapa na cara. Estou bastante motivado para manda-la direto pro inferno. – avisou.

- Frouxo! – murmurou Merle, começando a seguir os dois.

Começaram a andar de volta em direção às margens do rio. Iam abrindo caminho na vegetação. A garota era ágil. Seus pés descalços se moviam sem fazer barulho. Daryl agora entendia por que não a viu atravessando para o lado deles, antes de serem atacados por ela.

Assim que chegaram perto da água, ela avisou:

- Teremos que atravessar o rio. É o caminho mais curto. Já está anoitecendo. Não dá para arriscar...

- Pega essa lanterna aqui...- ofereceu Daryl – Mas não pense em fugir nadando. Cresci na beira de um riacho como esses. Vou busca-la no fundo da água se for preciso.

- Use você a lanterna, se quiser. Estou acostumada a fazer esse trajeto de noite. – disse, irritada, mas tentando se controlar.

Ela se agachou e entrou na água, segurando a saia comprida em uma das mãos. Com a outra tateou até encontrar uma dúzia de pedras que formavam uma espécie de ponte submersa até a outra margem. Daryl se movia rápido, mas precisava se virar constantemente para auxiliar Merle, que não tinha uma das mãos e estava com o outro braço em frangalhos. Tudo parecia estar correndo bem, quando a garota alcançou a margem. Daryl pisou em terra firme 3 segundos após a forasteira. E se virou para dar apoio ao irmão... Erro fatal.

A moça saiu em disparada, correndo pela vegetação com facilidade, pulando galhos e rochas com a destreza de um lobo selvagem. Daryl saiu em seu encalço. Ele corria há questão de dez ou quinze passos atrás da maldita.

- Merle, fique onde está. Vou voltar pra busca-lo! – lembrou-se de avisar ao irmão, a plenos pulmões.

Ela corria com gana, como se sua vida dependesse disso. E, naquele instante, dependia mesmo. Daryl estava cansado e já cogitava seriamente mandar uma flecha na perna da cigana, só para dar fim naquela maratona bizarra. Não foi preciso. Uma horda de walkers formava uma barreira bem à frente dela que, sem conseguir frear, estava prestes a se chocar com um deles.

Uma flecha cruzou o ar, passou de raspão pelos longos cabelos dela, indo se alojar na cabeça do zumbi com quem trombara. Ela se ergueu, atônita, o coração na boca. Sentiu seu ombro ser puxado por uma força sobre-humana. Fechou os olhos e preparou-se para ser devorada viva. Pediu a Virgem que fosse rápido. Apenas isso. Aterrisou no solo molhado e sentiu um peso cair por cima de parte do seu corpo. O fim era torturantemente lento. Quis abrir os olhos. Tomou coragem e... Se deparou com o caçador metade em cima do seu tronco, fazendo um sinal de silêncio para ela.

Os dois tinham caído numa pequena valeta e um tronco de árvore grande e podre camuflava o esconderijo de forma que os errantes, sem conseguir enxerga-los ou ouvi-los, se dispersaram aos poucos.

Quando o silêncio voltou a reinar, Daryl fez força para sair da valeta. Estendeu o braço para ajudá-la. Assim que a moça alcançou o solo, ele a virou de barriga para cima, passou uma perna de cada lado da cintura da forasteira e prendeu seus braços para o alto. Ela estava imóvel, parecia que toda a energia tinha sido sugada de seu corpo, antes tão rápido. Um filete vermelho descia dos lábios de Dixon. Ele limpou o sangue com as costas da mão que estava livre, aproximou seu rosto do da garota e grunhiu:

- Agora você vai me dizer a porra do seu nome e vai e explicar di-rei-ti-nho em que direção é a merda do seu acampamento. – no entanto, ela não respondeu. Os olhos fixados no nada, estava em choque, em transe. Daryl não teve dúvida, estapeou sua face, sem força para machuca-la, mas forte o suficiente para despertá-la.

- Eu nunca estive tão perto de um deles. Nunca! – balbuciava.

- Diz seu nome. Diz agora, porra! – ele gritou, segurando mais forte os braços dela.

- Luna. Meu nome é Luna Sara Kali. – respondeu, sem piscar, sem esboçar reação alguma.