Forasteira
6 Intocável
Notas iniciais
“Que ótimo! Lugar perfeito pra ficar de pau duro” – bufou. Começou a se banhar de novo, desta vez com a água fria. Isso ajudaria a acalmar os “ânimos”. Aproveitou para ocupar a cabeça repassando os acontecimentos dos últimos dias. Ele e Merle ainda precisariam se fixar em algum lugar. Não era seguro acampar na floresta. Mas agora teriam dificuldades ainda maior para seguir viagem, por conta dos ferimentos do seu irmão. “Mas que merda!”, pensou. Talvez fosse o caso de pensar em voltar ao presídio e tentar convencer Rick a aceitar Merle. Isso ia ser um saco, ele já previra. Glen estava puto com Merle por ter ajudado o Governador no interrogatório quase estupro de Maggie. E era compreensível. Nojento.
Porém, se retornasse a prisão, como ficariam as coisas entre ele e Carol? Quando saiu, tudo estava muito confuso. Ele admitia que quase cedera aos seus instintos masculinos. Apesar de não entender se o amor que sentia por Carol era algo carnal, uma paixão ou apenas uma vontade enorme de ter tido alguém como ela para cuidar dele quando mais novo. Daryl amava a maneira como Carol era dedicada a Sophia e tudo o que ela suportou pela filha. Isso o deixava embriagado de esperança, de alegria. Mas era amor de homem para mulher? Ele não teve tempo para descobrir. Fato é: independente de haver ou não definição para o que ele sentia pela mãe de Sophia, ele teria gostado de transar com ela. “Preciso parar de pensar nisso... Ou nunca vou conseguir sair deste chuveiro...”.
Mais tarde, Daryl sentiu alguém cutuca-lo desajeitadamente. Acordou ainda sonolento, atordoado. Estava realmente cansado.
- Vamos lá... Acorda, irmão! Temos que ir lá bater um papo com o cigano-mór. Você quem em trouxe para este lugar, então vá se resolver com os donos da sua cigana, lá fora...
- Mas de que porra você está falando, Merle? – disse sem entender, esfregando os olhos ainda.
- O dono deste acampamento quer bater um papo contigo. Você não comeu aquela cigana maluca que achou a gente na floresta, não né? Porque se comeu... Nem precisará que um walker o ataque. Vão arrancar seu couro é aqui mesmo... – disse, já saindo e gargalhando.
- Babaca... – Daryl levantou, murmurando. Passou as mãos pelo cabelo para evitar que os fios rebeldes o deixassem com cara de acabou de acordar e desceu as escadas do trailer, sem saber exatamente qual direção tomar. Trombou em Luna.
- Soube que o chefe quer conversar comigo... – disse – Você pode me ajudar com isso?
- Quanta educação. Assim fica impossível não ajudá-lo. Vou te levar até lá. – começou a andar e Daryl a seguiu.
- Ah e ele não é o chefe. É o nosso kuká. Depois que meu pai morreu, ele assumiu o posto e comanda o nosso bando. Seu nome é Valentin. Ele é meu tio. – contou rapidamente.
Chegando até uma tenda, Daryl pode ver os homens sentados numa pequena roda. Luna, anunciou:
- Tio Valetin, este é Daryl Dixon, o caçador que me salvou na floresta do ataque de uma horda de errantes. Gostaria que o senhor soubesse que estou muito grata à ele pela dádiva de vida que me concedeu. A partir de hoje, pedirei a Santa Sara que sempre o guie e o proteje. – falou num tom mais baixo, claramente demonstrando respeito e subordinação.
- Obrigado por nos dar abrigo e comida, senhor Valentin. – Daryl não conseguiu dizer mais nada.
- Venha até aqui, meu rapaz! Você é um amigo do povo cigano. Nos devolveu nossa Luna Sara Kalí, filha do grande Arturo Ciobanú, joia consagrada a Santa Sara Kalí. – disse o homem mais velho da roda. Ele era magro, pele mais escura que a de Luna, tinha cabelo liso e comprido, preso num rabo. Usava camisa branca e calça preta. Vários de seus dentes eram dourados. Era a clássica figura de um cigano. Daryl foi se aproximando.
- Bem, vou me retirar então, meu tio. – sugeriu Luna.
- Não, não, não... Sente-se conosco, Luna. Nosso amigo tem o direito de saber o porquê de estarmos eternamente agradecido à ele. Precisa conhecer sua história antes de partir. – argumentou Valentin com Daryl já sentado num banco ao seu lado.
- Certo. Como quiser, tio. – Luna acomodou-se numa almofada no canto da tenda. Não aprecia empolgada com o convite. Pelo contrário.
E ali, passaram horas e mais horas narrando cada pequeno detalhe de como Luna, por milagre, voltou à vida. [VIDE SINOPSE].
Ao fim da reunião, Valetin prometeu a Daryl que aquele bando estaria sempre a postos para ajudá-lo com o que precisasse, mas que se optasse por ficar, também seria muito bem-vindo, desde que adotasse alguns costumes ciganos. O rapaz agradeceu e disse que precisaria conversar com Merle antes de dar qualquer resposta.
O que havia de fato mexido com ele foi toda a história de Luna. Como ela havia sido consagrada a Santa Sara, o fato de poder se juntar aos homens para caçar e para tomar decisões, enquanto outras mulheres se atinham aos trabalhos domésticos. Bem, essa era a parte boa. Mas Daryl achou bastante cruel ela não poder se casar e, por tanto, não ter filhos. Ela obviamente tinha um dom para cuidar de crianças. Seria uma mãe exemplar... Num segundo que deixou de vigiar sua própria mente, teve uma visão de Luna segurando um filho seu nos braços, sorrindo para ele. “Pensamento ridículo”. Ele já tinha imaginado uma família fictícia para si, uma vez. Era composta de Carol e Sophia. Sophia... Um aperto no peito o fez chacoalhar a cabeça, numa tentativa de parar de pensar em tudo aquilo. Afinal, Luna não era da sua conta.
Voltou andando para o trailer. Merle já devia estar dormindo ou enchendo a cara. Daryl tinha visto várias garrafas de vinho espalhadas pelo acampamento. Rezou para que o irmão não fizesse nenhum tipo de merda, como tentar agarrar uma daquelas mulheres ou até Luna... A imagem de Merle enroscado em Luna revirou seu estômago.
Sentou-se numa cadeira próximo ao trailer e tentou expulsar os pensamentos atordoantes que andava tendo.
- Meu tio pediu que eu trouxesse isso aqui... Ele acha que pode ajudá-lo de alguma forma. – falou Luna. Será que aquela mulher não poderia deixa-lo em paz por um único segundo? Quando abriu os olhos a viu estendendo dois maços de cigarro. Não dava para negar que aqueles ciganos sabiam como receber uma visita.
- Ah, certo. Obrigado. Uns dias atrás teria matado por um desses. – confessou, pescando u cigarro do maço direto com a boca. Lembrou-se que não tinha fogo. Luna se abaixou riscou um fósforo e ele aproximou-se da chama. Deu uma primeira tragada e afastou a franja dos olhos. Não gostava de admitir, mas ele queria a melhor imagem da cigana que pudesse ter naquele momento.
- Como é mesmo que você tinha dito...? Ah... “Nais tuke”! – agradeceu Daryl em romaní, arrancando uma gargalhada gostosa de Luna. “Droga! Ela é perfeita sorrindo”. Quando a moça ia se retirando sem dizer uma palavra, Daryl disse antes que pudesse se conter:
- Então, cigana, deixa eu entender: você é virgem, é isso?
- Não parece um pouco óbvio, já que não sou casada?
- Não sou casado e boa parte das garotas que eu conheço da sua idade também não são.
- Não são virgens ou não são casadas?
- Nem uma coisa, nem outra – respondeu Daryl.
- Tanto faz... Essa informação não vai lhe servir para nada, não é mesmo? – rebateu com os olhos baixos.
- Era só uma curiosidade mesmo. Eu a vi com as crianças hoje. Não sentirá falta de ter filhos?
- As crianças do acampamento são como se fossem, caçador. – havia um quê de tristeza em sua voz ou Daryl estava ficando maluco. Alguns minutos de silêncio constrangedor depois, ele arriscou um elogio:
- Você a mais bonita das mulheres que vi aqui.
- Você está de brincadeira comigo, né? – disse, desconfiada.
- Juro que não. Você é a mais bonita de longe. – foi a vez dele olhar para o outro lado – Acho bonito você usar o cabelo solto e não amarrado como as outras. Fica bem!
- Eu não posso usá-los preso. Somente as mulheres casadas usam cabelo preso por um lenço.
Caramba! Daryl não estava dando uma dentro hoje.
- Mas e aquele papo de você cobrir a cabeça com o véu no ano que vem?
- É um véu diferente. O significado é outro e ele só vai por cima do meu cabelo, que continuará solto. – respondeu. Logo apareceu uma garotinha e se sentou junto a Luna. Era a menina que Daryl tinha visto mais cedo, enquanto Luna penteava os cabelos.
- O vovô Valentin disse que se quiser conversar com ela você deve fazer isso próximo aos outros ciganos. – disse.
- Você conta como um outro cigano? – Daryl perguntou.
- Sim! – respondeu Yanka.
- Então, fique aqui com a gente. Ela pode? – a pergunta agora era para a Luna.
- Pode, sim. – e estendeu os braços para receber Yanka.
- Você vai levar a tia Luna para o seu acampamento, moço? – Yanka perguntou sob olhar de protesto de Luna.
- Como assim?
- Ué, achei que vocês fossem morar lá no seu acampamento e fazer mais bebês ciganos...
- Yanka, já conversamos sobre isso, lembra? Não...
- Você gostaria de ter mais primos? – Daryl se divertia com a garotinha
- Sim! Muito. O bebê de vocês podia ter a cor dos olhos dele, né tia? – Luna não sabia o que responder. Ficou vermelha, sem-graça... Já Daryl sentiu um calor irradiar a partir do umbigo, se expandindo por cada canto do seu corpo.
- Chega! Dá licença, vou colocar Yanka para dormir. Tenha uma boa noite, Daryl Dixon.
Porra, ela tinha que falar seu nome inteiro? Aquilo o deixava maluco. Ele não sabia explicar.
Resolveu que era melhor se deitar. Chegando no trailer encontrou Merle adormecido. Ufa! Estava sem paciência para os discursos dele. Deitou-se na rede ao lado da do irmão e tentou se balançar um pouco para pegar no sono... Tinha gostado de como Luna ficara vermelha quando Yanka revelou que adoraria se o bebê deles tivesse a cor dos olhos de Daryl. Odiava a ideia de colocar seres inocentes neste mundo perdido, devastado pela morte. Mas não conseguiu deixar de gostar da possibilidade de fazer bebês ciganos junto Luna. Simplesmente era incapaz de desgostar disso. Sim, ela era uma mulher atraente. Mas também era o tipo de mãe que gostaria de dar a qualquer filho seu: firme, corajosa, leal, inteligente. “Isso aqui está muito quente!”. Tentou abrir a janela, a porta... O trailer parecia pegar fogo. E Daryl suava em bicas, desconfortável. Levantou-se para dar uma volta. Encontrou Luna diante da fogueira. Ela estava de guarda naquela noite.
- Oi – disse Daryl
- Porque não está dormindo?
- Estou com calor. Vim dar uma volta. Está de guarda?
- Sim, hoje é a minha noite. Quiseram trocar comigo, mas eu não conseguiria dormir mesmo... – deu de ombros.
- Escuta... Queria te pedir desculpa pelo lance da infusão. E também por ter alimentado a brincadeira da pequena sobre bebês ciganos...
- Está perdoado. Não foi o primeiro, nem será o último a zombar da minha condição... – ela parecia estar realmente ferida. E Daryl se assustou porque não imaginou que pudesse tê-la feito se sentir tão mal.
- Não quis zombar, Luna. Só achei graça...
- Achou graça? Graça eu acho daqueles que acham graça. Meu fardo é pesado. Sou uma cigana, tenho 24 anos e minha vida é bem diferente do que deveria ser. Minhas primas e amigas – as que estão vivas ainda, já estão casadas com filhos, marido e um lar. Puderam saber o que é ser amada por um homem. Eu jamais terei isso. Mesmo que um cigano chegue aqui com um baú de moedas de ouro para meu tio Valentin e ofereça como dote por mim, jamais aceitarão me casar. Sou como um amuleto da sorte para este acampamento. E casar significa ir embora, deixar este lugar. Sabe quantos acampamentos ciganos caíram neste apocalipse? Todos acham que resistimos porque estou aqui. Porque fui tocada por Santa Sara Kali e ela olha por mim com carinho especial... – as lágrimas escorriam pesadas de seus grandes olhos. Mas ela não soluçava ou mudava sua expressão. Era um choro tão cheio de dignidade.
Daryl se levantou e se sentou bem perto de onde a cigana estava. Os dois não pararam de fazer contato visual em momento algum. Ele ergueu a mão para tocar seu rosto. Ela o rejeitou, desviando do carinho.
- Não posso. Você não pode me tocar. Não entende? – sim, agora Daryl via desespero nos olhos de Luna e quis pegá-la nos braços e fugir com ela para bem longe daquele acampamento. Fodam-se os zumbis, fodam-se as tradições ciganas, a promessa patética do pai dela, foda-se até Merle... Ele queria estar com ela do outro lado do mundo, onde pudesse, pelo menos, limpar suas lágrimas sem que isso significasse para seus familiares que ela havia virado uma vadia. Ainda olhando em seus olhos, Daryl questionou:
- E o que eu posso fazer que irá fazê-la se sentir melhor? – ele tinha que ser direto, pedir instruções. Ele não tinha jeito algum pra lidar com gente. Imagina com aquele tipo de gente, cheio de novos códigos morais. Era um saco. Mas Luna era cigana e ele se sentia encorajado a enfrentar até mesmo um pouco de envolvimento emocional.
- Talvez possa me falar algo legal... Ou simplesmente mudar de assunto. Apesar de tudo, eu ainda sou uma mulher. Tenho sentimentos. E as pessoas correm de mim, Daryl. Especialmente os homens. Os solteiros têm medo de me desrespeitar. Os casados, não tem liberdade. Eu sei que a promessa deve ser cumprida, que tenho dívidas espirituais. Não estou fugindo disso. Mas não gosto que me marquem como uma intocável... Você é o primeiro homem com quem converso por mais de 10 minutos a sós em anos. Nem meu tio Valentin faz isso. – rebateu. – Aquela conversa sobre minha vida hoje mais cedo foi como um recado: não chegue perto, não construa laços com ela, pois ela está indisponível até mesmo para uma amizade com qualquer homem...
- Bom, se eles queriam isso, já é tarde demais. – e dessa vez Daryl segurou o rosto da cigana de leve pelo queixo, como quem a analisa. – Quer saber? Eu sou um caipira sulista muito ignorante. Não estudei muito, não conheço muita gente. Mas até eu sei que você é especial. – "Droga! O que eu tô fazendo? Se eu beijá-la, Merle tem razão, vou arrumar uma guerra com estes ciganos."
Luna parecia sem fôlego. Sentir o toque dele em seu rosto foi muito mais intimidade que ela teve com um homem desde que se entendia por gente. Abaixou o rosto e tentou se recuperar.
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