Forasteira

1 Forasteira e o Caçador


Notas iniciais
Esta história traz um encontro muito místico entre Daryl Dixon, seu irmão e uma forasteira de língua afiada. Espero que apreciem. Deixe seus comentários pra mim, certo? Beijos, Amora

- Temos que dar um jeito de caçar mais alguma coisa pra comer ou vamos morrer de fome – concluiu Daryl olhando para o pequeno esquilo que tinha caçado há pouco. Não faria nem cócegas na fome que sentia.

- Tá maluco? Quanto tempo você acha que podemos durar com o Governador no nosso encalço? Posso te garantir, maninho, que ela não tá nada feliz com a gente depois do estrago que o Rick fez em Woodburry... Se nos achar, ele vai nos dar a morte pior em que conseguir pensar. Temos que continuar andando e de preferência pra bem longe da cadeia...

- Merle?

- Que é?

- Quer ficar quieto um minuto? Escutei um barulho. Acho que veio do outro lado do rio. Tô tentando raciocinar...

Daryl empunhou a besta, agradecendo mentalmente pelo jantar ter cruzado o caminho deles.

Um farfalhar em meio à vegetação que estava bem atrás dos irmãos Dixon fez com que ele se virasse rapidamente. O que quer que fosse, se movia muito rápido e tinha acabado de atravessar o rio sem ser visto. Definitivamente não se tratava de um walker. Não podia ser um cervo. Ele teria visto o animal. O barulho continuava. Estava rondando os dois.

- Vamos, saia logo! – murmurou Daryl no mesmo momento que um punhal voou em direção à sua cabeça, indo se chocar contra uma árvore, onde ficou pendurado. Passou raspando e foi tão rápido que Merle se assustou com o barulho e imediatamente puxou sua arma da cintura.

- Filho da mãe, bastardo. Onde está se escondendo? – se perguntou Merle, fitando o irmão que olhava para todos os lados, tentando entender de onde a arma tinha vindo.

Então, Daryl viu de relance um pedaço de tecido laranja sumir por detrás de um arbusto e correu até lá. O “fantasma” percebeu e fugiu. Mas agora fazia mais barulho que antes e podia ser rastreado. Daryl correu. Logo atrás, vinha Merle com a arma em punho.

Correram até uma área de vegetação mais fechada. O “fantasma” não corria mais. O barulho do silêncio invadiu o ouvido dos irmãos Dixon que, perplexos, tentavam entender o que era aquilo e porque tentou ataca-los.

- Saia de onde estiver, com as mãos vazias e para o alto e prometemos não atirar... – gritou.

- Ele tá prometendo, mas vou meter bala em você seu filho da mãe... – quando Merle começaria atirar, um outro punhal voou acertando em cheio seu braço bom e obrigando-o a soltar a pistola que segurava.

- Vou matar esse desgraçado, filho de uma puta... Juro que vou arrancar seus olhos com meus dentes, bastardo dos infernos... – blasfemava enquanto caia de joelho no chão, com dor.

Daryl continuou em posição, pronto para lançar suas flechas.

- Porra, Daryl. Tá esperando o quê? Venha me ajudar a tirar essa coisa do meu braço ou vou acabar maneta de vez...

Daryl andou devagar até o local em que seu irmão estava e, constatando que não ouvira mais barulho, se agachou para ajudá-lo.

Em uma questão de segundos, sentiu a garganta gelar. Não pôde olhar para baixo para ver o que estava pressionando seu pescoço. Nem precisou...

- Levanta as mãos bem para alto onde eu possa vê-las e NÃO se mexa. Não me importaria nada em degolar você aqui e agora.

Daryl precisou de dois minutos para processar a voz que o ameaçava e constatar que não estava delirando: era uma voz feminina. Estavam sob o julgo de uma mulher. Pensou em revidar, mas teve medo do irmão não conseguir escapar a tempo, já que seu braço parecia bastante machucado.

Enquanto obedecia, resolveu tentar negociar:

- Não estamos aqui para fazer mal a ninguém. Só queremos seguir nosso caminho em paz.

- Seu irmão aí não parece compartilhar da sua ideia sobre seguir em frente e em paz – rebateu a voz, arrancando a besta das costas de Daryl sem mover a faca que segurava contra o pescoço do rapaz.

O braço de Merle jorrava sangue como uma cascata furiosa, mas tudo o que conseguia fazer era olhar para cima sem conseguir piscar. Devia estar cara a cara com a mulher que os ameaçava e a boca aberta dele não indicava que estivessem em bons lençóis.

- Vou revistar você. Não tente nenhum movimento se quiser continuar tendo uma garganta, me entendeu bem?

Daryl estava chocado.

- Entendeu bem, caçador?

- Entendi. Não vamos revidar... Vá com calma com essa faca, aí!

Sem responder, a mão começou a percorrer seu peito, costas, os bolsos da calça... Daryl moveu os olhos para baixo tomando o cuidado de não mexer a cabeça. Afinal, era seu pescoço que estava em jogo. Literalmente. Conseguiu espiar ligeiramente: era uma mão média, de dedos finos e longos, adornados por anéis dourados e prateados de todos os tamanhos e tipos. Alguns sobrepostos a outros. O punho carregava uma pulseira de elos dourada e fina que se movia conforme a mão passeava pelo seu corpo, ágil e determinada a desarmá-lo completamente. “Era o que faltava. Estamos sendo atacados por algum tipo de perua da selva. Que maluca anda por ai, mata afora, parecendo uma árvore de natal, com esse tanto de anéis na mão?”, pensou Daryl. Depois sentiu suas facas sendo retiradas dos bolsos. Por fim, o pequeno esquilo que caçara foi arrancado do cordão em que ele costumava levar suas presas.

- Certo. Agora, você vai tirar meu punhal do braço do seu irmão e vai colocar no chão para mim. Aproveita e joga pra cá a arma dele e a faca presa nesse projeto de mão aí... Rápido. Não tenho muito tempo.

Daryl assentiu e começou a desenterrar o punhal do antebraço de Merle, enquanto o irmão segurava o grito de dor, mas a distancia entre eles não estava ajudando.

- Moça, não consigo fazer isso sem estar mais próximo dele. Afrouxe só um pouco a faca. Só para que eu chegue mais perto sem me cortar...?

- Pode esquecer, caçador. Dê um jeito de retirar o punhal assim mesmo. Não vou correr o risco de ser atacada e vocês estão em dois...

Não teve tempo de terminar. Merle gritou: “Walkers!” a plenos pulmões fazendo a mulher se virar e enxergar a tempo três errantes já perto de alcança-la.

Daryl se levantou pegando as facas do chão e começou a lutar com outros quatro errantes que se aproximavam pela esquerda. Se não dessem cabo deles, estariam encurralados.

A mulher que antes os subjulgara, lutava bem. Chutava a perna dos zumbis obrigando-os a se inclinar e enfiava algumas flechas do case de Daryl em seus crânios.

Enquanto enterrava suas facas recém resgatadas do chão nos zumbis, Daryl teve a oportunidade de dar uma boa analisada naquela figura improvável que lutava ao seu lado: ela vestia uma saia laranja comprida e rodada. Usava uma blusa branca com decote de ombro a ombro e um cinto de couro amarrado na cintura. Os cabelos castanhos escuros caiam pelas costas. Eram longos, espessos e ondulados. Sua pele, como ele já tinha notado, era alva. Estava suja de terra em algumas partes. O nariz não era grande, nem pequeno. Era proporcional ao seu rosto de maxilares salientes e boca carnuda, levemente avermelhada. As sobrancelhas eram longas e marcadas, assim como os cílios. Os olhos tinham um tom de verde oliva e eram levemente puxados, um pouco como os dos índios.

Ali estava uma mulher de feições fortes e ele não conseguia classificá-la ao certo. Não tinha nada a ver com os tipos de Andrea, Maggie, Carol, Lori... Nenhuma mulher com quem havia passado um tempo nestes últimos meses. Quando a moça deu cabo do grupo de zumbis que a atacavam, se virou para trás e com um pedaço de madeira que apanhou do chão estraçalhou o crânio de um walker que estava pronto para atacar Merle, no chão.

Daryl pisou na cabeça do último errante e o silêncio dominou os três por alguns segundos. A moça, ainda arfante, se reencostou numa árvore para retomar o fôlego. Mas a tranquilidade não durou muito. Merle tinha se levantado e agora prendia a forasteira com seu punho de faca.

- Vadia! Quase nos matou... Vou matar você bem devagar, sua desgraçada! – berrava.

- Chega, Merle. Solta a moça... Ela salvou sua vida agora. Estamos quites. Além disso, ela não fará mais nenhuma ameaça pra gente, não é, forasteira?

- Não vou implorar pela minha vida, se é o que está esperando.

Daryl chegou mais perto, Merle ainda a prensava contra a árvore.

- Não quero que implore. Quero que seja esperta, recolha seus punhais e saia sem fazer estrago. Você nos ajudou a matar esses errantes aqui... Podia ter corrido, mas mostrou que tem um mínimo de decência. Por isso, vou te dar esta chance. E quer saber? Melhor agarrá-la antes que eu mude de ideia. Merle, solta ela. Deixa isso pra lá... Temos que sair daqui enquanto ainda há alguma luz do sol.

Merle abaixou o braço devagar e só se afastou quando teve certeza de que a estranha estava disposta a cooperar. A moça se abaixou para pegar seu punhal. Daryl apenas observava, já com a besta em punho novamente. Ela se levantou e se dirigiu até a árvore onde o primeiro punhal que atirara estava preso. Começou a desterrá-lo da madeira. Daryl logo atrás.

- Não estamos mais em uma luta. Pode abaixar sua arma, caçador! Não sou um esquilo. – disse, firme. Não havia medo em sua voz, apenas cansaço.

- Porque nos atacou, então? – perguntou Daryl.

- Porque estava com fome e você tem comida. Simples assim. Só queria a caça. Nada mais.

- Você é boa com punhais. Podia ter caçado por conta própria.

- Faz dias que venho para a mata e não vejo sinal de animal algum. Tenho pessoas para alimentar. Quando vi o esquilo pendurado em você, não resisti... – rebateu de olhos baixos, usando a barra da saia para limpar o punhal que estava cheio de seiva da árvore. Foi quando Daryl viu que a garota estava descalça. Como ela conseguia correr e tão rápido nesse chão sem estar calçada?

- Eu até daria o esquilo pra você. Mas também precisamos comer.

- Certo, caçador. Vou seguir meu caminho. – disse começando a andar pela mata de novo.

Mas Daryl se lembrou daquela dúvida: que tipo de mulher era aquela, as roupas estranhas, as feições fortes... De onde ela tinha saído?

- Ei, forasteira, qual o seu nome?

- Porque quer saber?

- Para te chamar de outra coisa que não seja “forasteira”.

- Não importa mais, caçador. Já vou andando.

- Daryl.

- Quê?

- Meu nome é Daryl. Este é meu irmão Merle. Agora você pode parar de me chamar de caçador.

- Mas você não é um caçador?

- Sou...

- Então, muito boa sorte na sua jornada, caçador. Adeus! – e continuou andando.

Ele a seguiu sob os protestos de Merle, que insistia que deveriam deixar a piranha que os havia atacado partir de vez. Mas Daryl queria mais respostas. Ela disse que tinha pessoas para alimentar. Então, existia outro grupo de sobreviventes. Onde estariam eles? Talvez fosse um bando de mulheres e crianças, já que uma moça tinha sido eleita para caçar na mata, em vez de um homem. Ele estava confuso... Correu, alcançou a garota e a puxou pelo braço.

- De onde você é?

- Achei que cada um ia seguir seu caminho sem fazer estragos, caçador. Não foi assim que você propôs?

- Foi, mas você tem um grupo de sobreviventes. Podem querer nos roubar, pegar nossas armas. Você não acabou de fazer isso?

- Filho da mãe! Não somos ladrões como a sua raça de gente gosta de pensar. Estamos tentando sobreviver no inferno com o máximo de dignidade possível – disse apontando a insígnia nazista costurada no colete de Merle — Mas quando nossas crianças choram de estômago vazio, temos que tomar providencia. – agora ela gritava, indignada, como se a tivessem xingado dos piores palavrões.

- Você é judia? É por isso que está se comportando como uma perfeita vagabunda saqueadora, então... – Merle soltou em voz alta.

- Não sou judia. Mas você com certeza é um porco ignorante. Mal sabe o significado absoluto deste símbolo que carrega ai. – respondeu estremecendo de ódio.

- Me diga o que você é, mulher. Diga agora! – exigiu Daryl, apertando o mais forte o braço dela, que já começava a ficar roxo, tamanha a pressão.

- Você é cego, caçador? Ou é tão burro quanto seu irmãozinho nojento ali? Olhe bem para mim. Sou romani, não percebeu?

Daryl ficou na mesma, estava claramente perdido no que ela acabara de falar. O que raios seria um romani?

Então, a forasteira deu dois passos a frente, ficando a três dedos de distância do nariz de Daryl, e murmurou com os dentes cerrados e voz carregada de fúria: “Sou cigana. E você está machucando meu braço”.

Notas finais
Corra para o capítulo 2!