Forasteira
15 Desentendimento
Notas iniciais
Dois dias se passaram desde que Hershel havia costurado as costas de Luna... Para ela, parecia uma eternidade. Primeiro por conta da dor. Segundo, pelo fato de que Daryl vinha ignorando-a completamente. Mal respondia às suas perguntas e olhava para a cigana com cara de nojo. Isso a estava matando!
Para sua sorte, Beth, Carl e Yanka mantinham-na entretida. Ela amava crianças e isso revigorava suas forças. Como sentia a pele repuxar nas costas e não podia fazer movimentos bruscos, Luna passava o tempo contando antigas lendas ciganas para aquela turminha. Mas, por mais que quisesse se enganar, não podia ficar indiferente ao tratamento horrível que o caçador vinha dispensando a ela. E para sua surpresa, quem também notou a diferença gritante foi Rick.
Numa de suas visitas à Luna, eles tiveram um diálogo interessante. Ele a incentivou a conversar com Daryl e ela estava pronta para fazê-lo. Naquela tarde, duas horas após o almoço, Luna se levantou devagar e andou até a parte externa da prisão decidida a se resolver com Daryl.
Ele estava parado diante do portão principal, olhando uma moto.
- Oi!
- Que é que você está fazendo aqui fora? Não deveria estar de repouso?
- Deveria, mas queria conversar com você.
- Não tem nada para conversarmos.
- Tem, sim. Você mal tem olhado na minha cara... Quero saber o que foi que eu fiz.
- Não fez nada.
- Óbvio que fiz... Você está diferente, distante...
- Não era isso o que você queria? Distância de mim? Conseguiu. Parabéns, Forasteira. – ele deu-lhe as costas e saiu andando.
Luna sentiu as maçãs do rosto queimaram e seu coração parecia ter sido atingido por uma avalanche. Estava difícil até mesmo respirar depois daquela resposta. Mas ela não tinha medo. Ia descobrir o porquê daquilo tudo. E saiu correndo atrás de Daryl.
- Não quero distância de você. Quem disse isso?
- Você me disse com todas as letras. Disse que se sente mal.
- Daryl – suspirou – Eu quis dizer que é complicado para eu conciliar o fato de que você quer tocar meu rosto, minhas mãos com as crenças que tenho. Não tenho asco de você...
- Pois parece!
Luna segurou-o pelo braço.
- Não tenho!
- Então porque disse para a Carol que tinha medo que eu me apaixonasse, pois não saberia como me dizer que não tem o menor interesse em mim?
Luna ficou chocada. Que história era aquela? O que aquela mulher havia dito à Daryl?
- Nunca disse isso. Daryl, eu nunca disse nada disso! Precisa acreditar em mim... – não queria chorar, mas as lágrimas idiotas pareciam ter vontade própria e já escorriam pela sua face. – Eu estou confusa!
- Confusa com o quê exatamente? – ele perguntou num tom irônico.
- Confusa porque quero você mais perto de mim do que deveria... – ela disse e deixou escapar um soluço.
Agora quem estava chocado era Daryl. Luna poderia ser qualquer coisa, mas ele sabia que falsa, ela não era. Nunca foi.
- Da onde Carol tirou então este papo todo?
- Eu não tenho a menor ideia... Juro por Santa Sara Kali que está nos céus me vigiando! – ela parecia verdadeiramente desesperada.
- Então me prove!
A cigana ficou pensando em como faria aquilo. Então, pegou a mão de Daryl e levou até seu rosto. Ele fez um carinho discreto nas suas bochechas e secou o que sobrara das lágrimas.
- Luna... Isso não é normal. Não pra mim.
- É, eu entendo. Pode ter certeza.
Eles ficaram em silêncio por alguns minutos e Daryl aproveitou para gravar a sensação de tocar o rosto daquela mulher que ele desejava como nunca, mas que sabia que seria praticamente impossível conquistar.
- Você é tão bonita. Já disse isso antes?
Ela corou. Ele deu um passo à frente. Estavam bem próximos agora. Suas respirações estavam aceleradas e quase podiam ouvir o coração do outro batendo. Daryl retirou a mão do rosto de Luna e a segurou pelos braços.
- Por favor... Não me beije. Por favor... – ela murmurou.
- Mas eu quero tanto beijar você, cigana! – ele soltou o ar. Estava tenso.
- Só me dê um tempo para entender o que está acontecendo comigo...
- O que está acontecendo é que nós dois queremos isso. Não enxerga?
- Eu não posso fazer isso sem desonrar minha promessa com Santa Sara, ao mesmo tempo.
- Eu não entendo nada de religião... Mas acha que é isso mesmo o que esta Santa quer? Que você morra sozinha? Que ninguém tenha a chance de cuidar de você? De te dar os filhos que você tanto quer? É isso mesmo?
- Agora você pensa em filhos? Isso é uma novidade pra mim...
- Não estava nos meus planos. Mas se você quiser, juro que vamos fazer isso juntos!
- Eu tenho Yanka para criar agora... Estou tão perdida com tudo o que aconteceu e tem esse sentimento entre a gente que não podia estar acontecendo. Daryl, eu te peço perdão. Eu preciso colocar a minha cabeça no lugar. Mas quero que entenda que não tenho asco de você. Se eu te repeli, foi porque não consigo trair o que sou. Sou cigana e tenho a promessa de meu pai para honrar...
- Tudo bem... Tá certo. Eu entendi. Vamos deixar assim por enquanto. Mas prometa pra mim que vai pensar sobre o que conversamos aqui.
- Prometido!
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