Notas iniciais
Capítulo curtinho, mas revelador. Daryl vai sacar de um jeito bem estranho o quanto Luna tem mexido com seu subconsciente.

Vem comiiiiiigo!

Enquanto Daryl estava submerso nos seus pensamentos, observando Luna, viu uma garotinha de uns seis anos, no máximo, se aproximar da cigana:

- Tia Luna, este moço é seu noivo? – Luna tentou conter a cara de espanto, mas seu queixo caiu ao ouvir a pergunta da menina. Depois de pensar por alguns segundos, disse:

- Vem cá, Yanka. Senta aqui do meu lado. – A pequena obedeceu. – Porque você acha que ele é o noivo da Tia Luna? – ela tinha um tom muito doce e maternal neste momento. Daryl se chocou. Aquilo era totalmente novo e diferente do pouco que havia degustado do gênio de Luna.

- Porque vocês chegaram juntos. Mas você disse para mim que nunca ia se casar e agora eu estou duvidando... – rebateu, o rosto dominado pela tristeza. – Eu nunca queria que você se casasse... – desandou a chorar, com direito a soluços e lágrimas pulando.

- Meu pequeno diamante, não chore. A tia não vai se casar nem com aquele moço, nem com ninguém. Não precisa ficar assustada. – respondeu afagando a ciganinha.

- Porque se você se casar, ele vai querer te levar para o acampamento dele e você nunca mais vai voltar. E ontem você quase não volta e eu achei que vocês iam se casar para fazer mais bebês ciganos. Foi a Lôla quem disse... – E continuou chorando compulsivamente.

Daryl achou graça da preocupação da pequena, mas sentiu seu estômago dar uma cambalhota. Não queria admitir, mas podia ser ansiedade pela resposta de Luna...

- Ai, essa danada da Lôla vai se ver comigo! – falou Luna, fingindo estar brava – Eu já não disse pra você que estou casada com Nosso...

- Nosso Senhor Jesus Cristo, em nome de Santa Sara Kali. – a garotinha fez coro com Luna, que riu e mudou de assunto.

Que papo era aquele? Daryl ficou intrigado com essa resposta. Tomou nota mentalmente para descobrir o que aquilo significava. Será que ela era um tipo de freira cigana, vai saber? Será que ela não tinha conseguido pretendentes? Essa hipótese, ele considerava imporvável, dado os atributos daquela mulher. A garotinha passou correndo por ele que se obrigou a sair do transe e caminhar em direção ao banho. A água devia estar fria já... Para chegar até o chuveiro improvisado, Daryl teria que passar por Luna necessariamente. Foi então que se lembrou de que tinham contas a acertar.

- Luna? – chamou. Ela se olhava num pequeno espelho agora, enquanto contornava os olhos com uma espécie de lápis preto.

- O que aconteceu com o meu apelido, caçador? – respondeu sem parar o que estava fazendo.

- Será que você pode me explicar isso aqui? – disse levantando o jarro de infusão. Ela seguiu calada sem tirar os olhos do espelho. – Forasteira? – Luna olhou rapidamente para o recipiente e voltou para sua tarefa, explicando:

- É uma infusão para você usar no seu banho. Achei que fosse gostar. Vai se sentir melhor depois disso.

- Isso já me contaram. E já me falaram também do seu papinho de dor interior. Desde quando eu lhe dei permissão para me avaliar? Além de ler mãos, também é a porra de algum tipo de psicóloga? – o velho Daryl estava de volta. Irritadiço, avesso a relacionamentos, especialmente quando as pessoas se sentiam no direito de querer conhecer sua intimidade. Aquilo era mesmo um saco, ele pensou.

- Primeiro, lave essa boca com sabão. Temos crianças por perto, então deixe seus palavrões do acampamento para fora. Segundo, eu inventei este papo de’ dor interior’ como pretexto para conseguir te entregar esta infusão especial. Não sei se você notou, mas estamos numa comunidade familiar. Não estou disponível, não poderia sequer ficar na presença de um homem solteiro sozinha, como aliás está acontecendo neste exato momento. E um presente desses pode perfeitamente ser considerado uma aproximação inadequada, o que seria uma enorme vergonha para a minha família. Sei que esta receita de infusão, além de curar males interiores, age também como um relaxante natural. Só quis proporcionar um pouco mais de conforto pra você descansar melhor e poder seguir viagem com as forças renovadas. Mas, pelo visto, caçador, a carapuça serviu, certo? – vomitou tudo de uma tacada só, em tom de revolta, o peito arfante.

- Não sou cigano. Não tenho ideia de como as coisas aqui funcionam! – devolveu Daryl – Então, estou correndo risco de vida por estar aqui, conversando com você, a sós? – resolveu jogar verde. Quem sabe não colheria maduro?

- Não seja ridículo. Meu povo entendeu a situação de nós dois, o que não significa que irão tolerar desrespeito aos costumes.

Daryl deu três passos a frente, ficando bem próximo de Luna:

- E será que você podia me informar qual a é “nossa situação”? – perguntou entredentes, com um olhar desafiador.

- Contraí uma dívida de honra com você, por ter salvo minha pele. Só estou tentando pagar o que devo o mais rápido possível para não ter que ficar olhando sua cara por muito tempo! – deu o troco e saiu, batendo o pé.

- Quer saber? Estou te liberando de pagar essa dívida. Amanhã, eu e Merle partimos antes que você consiga piscar os olhos. – gritou para ter certeza de que ela ouviria. Depois entrou no chuveiro improvisado, se livrou da camisa, do jeans surrado e da boxer em tempo recorde. Precisava daquele banho para colocar a cabeça no lugar. Largou a jarra de infusão num canto e começou a se banhar usando a água que as ciganas haviam aquecido. Como ele imaginara, estava morna quase fria, já. Ouviu uma batida na porta:

- Senhor Daryl?

- Sim... – disse sem saber ao certo o que responder. Era a voz de outra cigana, não de Luna.

- Luna pediu para trazer uma nova jarra de infusão para o senhor. Esta está quentinha! Vou deixa-la aqui no chão, do lado de fora. Então, o senhor pode trocá-la quando quiser – disse.

- Ah... hum... Tá certo. Obrigado!

Ela só podia estar de brincadeira. Fazia para irritá-lo e estava conseguindo. Pensou em chutar as jarras no calor da irritação. Abriu rapidamente a porta e botou a outra jarra para dentro, só para evitar perguntas irritantes. Mas o cheiro desta nova infusão estava ainda mais poderoso do que o da anterior. Era envolvente, irresistível. Ele poderia passar o resto da vida sentindo somente aquele cheiro. Instintivamente, começou a despejar o conteúdo pelo corpo. A água estava na temperatura ideal. Conforme deixava o líquido correr por todo o corpo, apreciou os aromas que se desprendiam dele. Ervas, canela e alguns ingredientes que não conseguiu distinguir. Quando faltavam dois dedos para terminar a jarra toda, o aroma que se desprendeu era muito parecido com o cheiro que ele tinha sentido no cabelo da forasteira. Inalou profundamente. Sentiu-se quase zonzo, respirava ofegante. O coração acelerado, batia na sua garganta, uma corrente elétrica percorreu sua espinha, a sensação de bem-estar era viciante... Daryl se lembrou de que já havia experimentado este estado de espírito. Abriu os olhos: ele estava excitado. Estava vivo, afinal.

Notas finais
Gente, espero que estejam gostando. Ainda temos pouquinha gente lendo. Mas não importa! Se tiver uma única pessoa lendo e amando, estarei contente :)

♥ Beijos, Amora