Às vezes, o tempo passa rápido demais. Outras vezes, ele congela, como se zombasse da nossa tentativa de controlar qualquer coisa.

Naquela manhã, tudo parecia normal.

Renesmee havia acordado alegre e animadinha, Edward estava vindo nos buscar, como de costume, com Snoop pulando na frente dele como se a vida fosse só um grande passeio. Pelo visto o animal se tornou um amigos para ele. Eu estava me sentindo bem. Leve, até. Mais confiante. Mais eu.

E então, o telefone tocou.

Eu não atendi de imediato. Estava terminando de me arrumar para mais um dia exaustivo. No entanto, aproveitei a visita e pedi para que Edward atendesse. Edward viu o nome no visor. Ficou pálido quando me viu passando pelo batente da sala.

— É o hospital. — ele disse, com a voz tensa. — Uma enfermeira ligou. É sobre o Charlie.

Meu coração parou. Uma sensação de frio me percorreu o corpo como uma corrente elétrica negativa.

— O quê...?

Ele segurou minha mão com força.

— Bella... seu pai sofreu um acidente. Ele estava com outra pessoa no carro. Eles não resistiram.

Não houve espaço para ar. Para negação. Só para o peso da verdade esmagando meu peito.

Charlie morreu.

Dizem que a dor da perda é como uma onda. Mas aquilo era um tsunami.

Não era só a morte. Era tudo que ficou pendente. Tudo que ele foi e deixou de ser. Tudo que escolheu, principalmente no fim.

Charlie havia se afastado de mim nos últimos meses. A explicação? Irina.

Sim, ela. A ex amante do Edward. A mulher que quase destruiu meu casamento. Ela havia se reaproximado do meu pai como quem não perde uma chance de causar caos. E ele, cego ou carente, caiu.

A dor de saber que meu pai escolheu alguém que me feriu profundamente foi difícil de engolir. E mesmo assim, mesmo com toda mágoa... eu nunca imaginei que ele iria morrer assim. Do nada. Sem uma despedida. Sem reconciliação. Só... ausência.

Edward foi meu porto naquela hora.

Ele largou tudo. O trabalho, os compromissos. Pegou Renesmee no colo e a levou para Esme. E voltou para mim. Ele segurou minha mão enquanto eu chorava. Enquanto eu gritava. Enquanto eu destruía o quarto tentando encontrar uma saída para aquela dor. E quando caí de joelhos no chão, ele foi o primeiro a se ajoelhar comigo.

— Você não está sozinha. — ele murmurou. — Eu tô aqui. Até o fim. Não importa o que aconteça.

As notícias chegaram aos poucos. Irina estava no carro. Os dois estavam bêbados. Era ela quem dirigia.

Não havia mais dúvidas: a mulher que destruiu parte da minha história... destruiu também meu último laço de sangue.

E, de forma inesperada, morreu junto com ele.

Edward ficou em silêncio por um tempo depois de ouvir. Mas eu vi. Vi o misto de raiva, alívio e tristeza nos olhos dele. Não pela morte de Irina. Mas pela forma como tudo terminou. Pela dor que ela causou — até o último segundo.

— Sabe o que é pior? — murmurei. — Eu não consigo sentir só dor. Sinto culpa. Como se, de alguma forma, eu pudesse ter impedido tudo isso.

Edward se aproximou. Me puxou para o peito dele.

— Não. Você não tem culpa. Ele escolheu se afastar. Ele escolheu quem manter por perto. E ela... ela sempre soube como manipular.

— Eu poderia ter insistido. Poderia ter perdoado antes...

— E se perdoasse, talvez estivesse no carro com eles. — ele rebateu, firme. — Não. Chega de carregar o que não é seu.

Chorei em silêncio. Um choro diferente. Era luto, sim. Mas também era libertação.

Eu estava de luto por meu pai. Mas também... por tudo que ele nunca foi. Pela proteção que ele não me deu. Pelas escolhas que ele fez. Pelo amor que ele sentiu, mas não soube demonstrar. E por mim. Por aquela garota que esperava que um dia o pai fosse o herói da história.

O funeral foi discreto. Algumas pessoas da cidade. Uma chuva fina caía. E mesmo molhados, Edward segurava meu guarda-chuva com uma mão, e minha mão com a outra. Não soltava. Nem por um segundo.

Após o enterro, Edward me levou de volta para casa. Não dissemos muito. Mas houve um momento em que parei na varanda, olhando a cidade, e falei o que ainda me sufocava.

— Ele me amou. Do jeito dele, eu sei que amou. Mas ele escolheu não ficar.

— E você escolheu ficar de pé. — Edward respondeu. — Isso é o que importa agora.

Assenti. Não com raiva. Não com rancor. Mas com clareza. Pela primeira vez, eu via tudo como era. Sem filtro. Sem ilusão.

Charlie morreu. E com ele, parte do peso que eu carregava se dissolveu.

Eu não escolhi isso. Mas eu escolho seguir.

E quando olhei para Edward, e ele olhou de volta, eu soube. Não importa o que o futuro trouxesse... agora, eu estava pronta para viver.



Recomeçar não era fácil.

O luto ainda morava em mim, mas aos poucos se acomodava em um canto silencioso da alma. Doía, sim. Mas agora doía de um jeito suportável, quase respeitoso. Como se dissesse: "Você perdeu, mas não quebrou."

A faculdade era o meu novo fôlego. Sair de casa, sentar na sala, escrever, participar das aulas… tudo isso fazia com que eu sentisse que ainda podia construir algo meu. Inteiramente meu. Sem heranças do passado. Sem nome de ninguém me definindo.

O trabalho, por outro lado, exigia mais da minha paciência — especialmente agora, com a chegada de Paul.

Paul era novo na equipe. Bem-humorado, bonito, objetivo e... observador. Percebi desde o primeiro dia que ele me notava mais do que deveria. Olhares longos. Comentários carregados de humor e atenção. Eu não dava abertura, mas não podia negar que fazia bem ser vista. Admirada. Desejada. Por alguém que não me conhecia apenas pelo que fui.

— Você sempre tão séria ou só quando está perto de mim? — ele perguntou em um intervalo.

Revirei os olhos com um leve sorriso.

— Só quando percebo que o novo funcionário acha que pode me provocar impunemente.

— Então estamos avançando. Você já admite que eu te provoco.

Respirei fundo, tentando esconder o sorriso.

Edward não fazia ideia de que Paul e eu trabalhávamos mais tempo juntos do que outras pessoas do setor. E eu não sentia necessidade de contar. Ainda.

Na faculdade, o cenário era outro. Lá, Edward aparecia quase todos os dias para me buscar — com Nessie no banco de trás e um sorriso torto que sempre me fazia esquecer por um segundo o mundo ao redor.

E, como sempre, ele chamava atenção.

Num fim de aula, saí da sala com duas colegas — Amanda e Júlia, mais jovens, barulhentas e completamente sem filtro. Quando viram Edward encostado no carro, braços cruzados, calça social escura, camisa branca dobrada até os cotovelos... foi inevitável.

Pelo amor de Deus, Bella, aquilo ali é teu EX? — Amanda quase gritou.

Ex-marido? Com essa cara de CEO da Calvin Klein? — Júlia completou.

— Ex-marido, pai da minha filha... e motorista ocasional. — respondi seca, mas com o coração disparando.

Edward sorriu ao me ver se aproximar. Cumprimentou minhas amigas com um aceno educado, mas não sem perceber os olhares que elas jogavam em cima dele como se estivessem num desfile de modas.

— Você está gostando de fazer sucesso, né? — perguntei ao entrar no carro.

— Se você estiver com ciúmes, já valeu a pena. — ele murmurou com um sorriso malicioso.

Não respondi. Mas ele percebeu o rubor no meu rosto. E o aperto mais forte com que fechei a bolsa no colo.

O caminho até o escritório de Esme era tranquilo e rápido, não demorava nem 15 minutos de carro.

Paul apareceu no meu escritório com dois cafés.

— Eu sabia que você estava cansada. Trouxe reforço.

— Obrigada... mas você não precisa...

— Eu sei. — ele me interrompeu. — Mas eu quero.

Ele estava perto. Não ultrapassava os limites, mas a tensão era evidente. Eu me sentia... dividida. Entre o conforto de uma nova possibilidade e a profundidade do que ainda sentia por Edward.

E como se o universo conspirasse por puro drama... Edward apareceu.

Ele tinha vindo deixar um documento que eu havia esquecido no carro — o horário da consulta de Nessie. Aparentemente inofensivo. Mas bastou entrar na sala e ver Paul para que seu olhar mudasse.

— Ora, Ora, o que temos aqui...?

— Paul. Meu colega de trabalho. Acho que não precisam de apresentações, não é mesmo?

— A quanto tempo, “amigo”. — Paul ofereceu a mão, educado. Edward apertou, firme demais.

— Ah, então é você o pai da Nessie. — Paul comentou.

— E marido da Bella por anos. — Edward completou, com um sorriso que não chegou aos olhos. — Ainda passo bastante tempo com ela. Mas você provavelmente já notou isso.

Silêncio.

Paul saiu poucos minutos depois, educadamente. Edward me olhou.

— Então é isso agora? Ele?

— Ele nada. É só um colega.

— Que quer claramente ser mais que isso.

— E você? Vai ficar com crise a cada homem que respira do meu lado?

— Se ele estiver babando por você, sim. Com todo prazer.

— Você parece esquecer que a decisão é minha. Não dele. Nem sua.

Edward se aproximou, agora com os olhos baixos, mas a mandíbula tensa.

— Eu sei. Só... não quero te perder de novo.

Respirei fundo.

— Então pare de agir como se já tivesse me perdido.

Demos a conversa por encerrada. Edward se despediu, ainda que contragosto, e foi embora.

Meu dia no trabalho foi tranquilo, apesar de corrido. Esme não passava tanto tempo no escritório, mas isso eu já sabia desde o começo. A grande parte do meu trabalho era anotar agenda, atender telefonemas, agendar reuniões, dar assistência para os outros profissionais e ser o mais ágil possível. Ao final do espediente me despedi de todos e fui para casa. Paul até tentou me oferecer uma carona, mas recusei.

Naquela noite, Edward me mandou uma mensagem:

"Você está incrível. Forte. Linda. Independente. Mas se um dia quiser... ainda pode ser minha também. Inteira."

Apaguei a mensagem. Não porque me ofendi. Mas porque doeu. Porque parte de mim queria exatamente isso.

Ser inteira.

Ser livre.

Ser dele.

Tudo ao mesmo tempo.

Notas finais
Mais um capítulo para vocês! ☺️