Fogo Inalcançável
30 30º Capítulo - Os sentimentos simples são os mais importantes.
Notas iniciais
Sentia o seu calor, a pele macia dela tocar a sua... o toque suave. A tinha em seus braços, protegida... Aninhada ao seu corpo. Uma brisa passou por elas e o contraste do vento gélido com sua pele molhada a fez arrepiar-se, mas de imediato se aquecendo com o calor viciante que Nashi emanava. Poderia ficar ali para sempre.
— Vão ficar ai até quando? — A voz rouca a despertou, não o suficiente para a serenidade em sua face desaparecer.
— Por que não vem aqui conosco? — O convidou charmosamente.
Natsu, que estava parado nas margens daquele belo riacho. As observava de braços cruzados e com semblante sério. Estavam regressando para Magnólia, e para evitar um possível e desagradável encontro com o Conselho optaram por tomarem um caminho mais discreto. Sem trens, sem passar por meio a vilarejos e cidades... tudo para não serem vistos por possíveis testemunhas que viriam a informar o Conselho precocemente sobre a presença de magos de Fairy Tail naquelas terras.
E nesse trajeto de regresso, já distantes das terras de Tartaros porém ainda longe de chegarem em Magnólia haviam as terras montanhosas de Clover Town, repleta de campinas, riachos e ornamentada pelas mais belas arvores florais de Fiore. O dia estava ensolarado, perfeitamente ensolarado e ao se depararem com um belo córrego de águas cristalinas com pedras em todas a tonalidades ao fundo resolveram descansar bem ali. Erza, Jellal e Gray foram em busca de mantimentos, Gajeel e Gildarts se afastaram para vistoriar o terreno. Já Lucy, resolveu se refrescar no belo riacho, com Nashi e Happy.
— É Natsu... está muito divertido. — Disse o neko azulado, se afundando na água na intenção de capturar algum peixe desavisado que passasse por ai.
— E desde quando gatos gostam de água? — O mago o questionou enviesado, formando um vinco em suas sobrancelhas demostrando a estranheza ao ver o gatinho nadando divertidamente naquelas águas.
— Pare de ser turrão e venha. — O chamou novamente, completamente imersa no seu próprio mundo. E Natsu voltou seus olhos para elas. Lucy usava seu típico biquíni branco com uma flor rosa estampando um dos lados da peça. Os longos cabelos dourados se despencavam em sua curvilínea costas, grudavam-se em sua pele alva por estarem encharcados, e em seus braços tinha a razão que fazia seu coração bater mais forte, a pequena usava apenas uma especie de calcinha, branca e cheia de desenhos coloridos e um babado rosa contornando a peça... Sorriu soltando o ar pelas narinas. Não era de se atentar a detalhes tão supérfluos como os biquínis de Lucy e as roupas que ela vestia em sua bebê, mas tinha que admitir que elas estavam exuberantes naqueles trajes.
— Deixa Luxy.. Natsu não gosta muito de se molhar. — Falou despreocupado enquanto batia os bracinhos na água na intenção de nadar até uma linda rocha que despontava bem no centro do riacho.
— Uhw... está gelada!!! — Resmungou, fazendo Lucy e Happy olharem para as margens do córrego. A loira sorriu satisfeita e surpresa ao mesmo tempo ao ver o mago do fogo se adentrando na água. Ele foi rápido em se livrar do sobre-tudo e da camisa, pois usava apenas sua calça e já havia avançado o suficiente para a água lhe atingir até a cintura.
— Acho que dragão do fogo também não gosta muito de água. — O neko aproveitou para retrucar, vendo o mago se arrepiar por colocar sua pele tão quente em contato com aquela água tão gélida.
— Não está tão gelada assim, é que você não está acostumado. — Falou tranquila, vendo o mago se aproximar sorrateiramente até elas, ele levantava os braços afim de evitar que se molhassem, porém quando Nashi colocou os olhos sobre ele ela logo se esticou em sua direção, buscando por seus braços... Quando já estava próximo o suficiente Lucy a entregou, sendo rapidamente envolvida pelos braços fortes do pai. — Agora que entrou, vai ter que se molhar... — Disse em um sorriso amistoso. Sentindo seu coração pulsar forte ao ver Natsu com Nashi nos braços... A pequena se encaixava perfeitamente no braço dele, e parecia ter ficado ainda mais agitada com sua presença.
— O que ela quer?! — Perguntou confuso, vendo Nashi inclinando o corpinho em direção a água e esticando os bracinhos.
— Ela quer brincar com a água. Diferente de você, ela adora se molhar. — Respondeu tranquilamente, se divertindo com a cara do mago que parecia nada disposto a se molhar mais ainda.
Natsu então, colheu uma porção de água com uma das mãos e jogou cuidadosamente na cabecinha da filha, que sorriu sapeca e se agitou ao sentir aquele líquido lívido escorrer por seu rosto, tirando de Natsu um sorriso apaixonado... e de Lucy, que os observava, um suspiro ainda mais apaixonado, sentindo falta por não ter uma câmera em sua mãos para registrar aquele momento.
Ficaram os quatros naquele riacho, quando menos notou Natsu já estava completamente entregue na tarefa de divertir Nashi, ele a imergia nas águas até o pescocinho e a trazia de volta a levando para o alto, completamente ensopada e com um sorriso banguela e sapeca que não saia de seu rosto. Já Happy, voava para o alto e mergulhava com tudo, espirrando água neles e tirando de Nashi mais sorrisos sapecas.
Vendo seus dois meninos cuidando de sua pequena Lucy resolveu se afastar por um momento, sentando-se sobre uma rocha rasa que havia próxima a margem do riacho, as pernas ainda ficaram em contato com a água, colocou os braços para trás apoiando todo seu corpo sobre eles. Um sorriso bobo teimava em moldar seus lábios e os olhos brilhosos e serenos não saiam de cima dos três.
Mais uma brisa passou por eles, e Lucy se deu ao direito de aprecia-la, respirou fundo e calmamente fechando os olhos e sentindo o ar entrar em seus pulmões de maneira agradável. Se escutava apenas as folhas das árvores dançando ao vento e Nashi sorrindo inocente ao fundo. Uma paz aconchegante tomou seu coração... Abriu seus olhos e voltou a observa-los. A serenidade do seu olhar brevemente se esvaiu. Resolveu tirar aquele dia para se desligar de tudo e aproveitar sua filha. Afinal, passou dias de aflição e terror constante, o trauma de ter sua filha tirada de seus braços jamais a deixaria. Então, nada mais justo do que curtir sua pequena a cada momento. Porém, haviam muitas questões pendentes... questões angustiantes e misteriosas.
Seus olhos se focaram em Natsu... O mago forte e de músculos muito bem trabalhados se mantinha ocupado em entreter a filha. Mas, não saia muitos sorrisos de seu rosto rígido, a não ser quando eram direcionados para Nashi, e mesmo estando com uma bebezinha nos braços ele parecia emanar poder.
— Tá que o cara é bonitão! Mas, se continuar a encará-lo desse jeito vai acabar por assustá-lo.
Lucy sobressaltou-se apavorada pela voz repentina, os olhos se arregalaram daquela forma exasperada e incrédula ao notar que, inesperadamente Aquarius havia surgido ao seu lado.
— Aquarius-san!?? Quando? Onde... — Ficou confusa por um momento devido ao susto que tomou.
— Não seja tão espalhafatosa garota.. — Cruzou os braços e revirou os olhos. Aquarius estava sentada sobre a mesma rocha acinzentada em que Lucy se acomodou, com o final da bela calda imergida na água.
— Gomem... você me assustou. — Se recompôs, sorrindo amigavelmente e se encostando novamente na rocha.
— Não esperava me deparar com tal cena. — Mencionou em um tom raramente sereno e pensativo.
Lucy piscou calma e levemente, voltando então a olhar para Natsu e Nashi, não deixando seu sorriso amoroso desaparecer dos lábios.
— Nem eu.. — Confessou.
As duas observavam um Natsu completamente alheio a elas, ele estava envolvido em segurar Nashi nos braços e a divertir naquelas águas tão translucidas... O sol ao fundo reluzia graciosamente a cena, refletindo seu brilho intenso na água e nos rostos de Natsu e Nashi.
— Acredito então que nem preciso perguntar como vão as coisas entre vocês. — Olhou para Lucy de soslaio.
— Por que? — A indagou constrangida.
— Oras... Está claro que estão conseguindo se entender... Natsu parece que já está bastante apegado a Nashi... E Virgo e Leo me contaram que ele cuida muito bem da filha. — Olhou enviesada para Lucy.. — Vai me dizer que estão se dando melhor do que imaginei? — Sorriu maliciosamente.
Lucy corou com mais intensidade dessa vez, desviou seus olhos do olhar indagativo de Aquarius e passou a fitar a água que tocava suas pernas. “droga droga droga … “ Ficou desesperada por ser abordada por Aquarius, se ao menos soubesse disfarçar não estaria nessa situação embaraçosa.
— Não precisa se culpar, é normal o constrangimento. — Parou de provocá-la.
Lucy respirou aliviada, sua expressão ficou mais tranquila e seus olhos caíram num devaneio entristecido. Aquarius a pegou de surpresa, tanto na visita inesperada quanto no assunto abordado.
— Na noite em que Nashi foi sequestrada, antes de todo aquele pesadelo começar... eu e o Natsu... — Engoliu em seco e respirou fundo. — Não sei se foi o certo... — A dúvida e o medo voltaram a bater forte em seu coração.
— Pare com isso... — Olhou para Lucy, tentando compreender o quê a deixava tão hesitante. — Antes de Nashi nascer, seu medo era Natsu não aceita-la como filha, e não se preocupar com ela... Você sofria pela distancia que ele impôs entre vocês e por não tê-lo mais ao seu lado. Agora ele está de volta, com a filha nos braços e ao seu lado. — Estreitou os olhos em indagação. — O que te amedronta agora?
Lucy suspirou angustiada, juntou as mãos num enlace entre os dedos . As duas estavam sentadas lado a lado sobre a rocha. O vento soprava fazendo seus cabelos dançarem, Natsu, Nashi e Happy agitavam as águas do riacho e ainda pareciam dispersos sobre a presença da sereia.
— O futuro. — Respondeu melancólica.
— Como assim? Tem medo da relação de vocês dois não dar certo?
— Não... não é isso.
— Então o que te apavora tanto ao pensar no futuro?
— Não sei exatamente. — Olhou para o mago, ele segurava Nashi em um braço e na mão livre havia uma pequena chama, ele deixava Nashi admirar o fogo, e de fato, mesmo ainda tão pequena já parecia estar conectada com aquele poder, pois seus olhinhos brilhavam e seu sorriso era pura empolgação ao vislumbrar a magia de seu pai.
— Tem medo do que Natsu pode se tornar? — Concluiu, só pelo olhar da loira.
— Sim... — Respondeu num suspiro, não se surpreendendo por Aquarius ter descoberto seu medo sem ela necessariamente falar.
— E vai fazer o que então? Se afastar e afastar Nashi dele?
— Não... — Respondeu num rompante, olhando rapidamente para a sereia rainha. — Jamais faria isso. Vou ficar do lado dele... sempre. E Nashi precisa tê-lo por perto, tanto quanto ele precisa dela... — Deu uma pausa e suspirou mais uma vez. — Só tenho medo que ele se esqueça do que prometeu.
— Então faça-o sempre se lembrar dessa promessa. — Concluiu facilmente, não tendo muita dificuldade de imaginar qual promessa seria essa.
Lucy levantou um olhar para sua amiga, em sua face começou a surgir um raio de ânimo diante da solução simples dado por ela. A loira sorriu animadamente — Hai!!
— Mas só quero que me responda uma coisa. — Prosseguiu seriamente, tirando os olhos de Lucy e os direcionando sobre Natsu. Lucy ficou atenta, aguardando a pergunta de Aquarius, a mesma parecia tensa e incomodada com algo. — Como é se divertir com o mago do fogo? Por acaso já se queimou? Em algum lugar? — Formou um olhar de pura malicia e um sorriso travesso.
— Aquarius!!!! .... — A repreendeu apenas com seu nome, totalmente constrangida com a pergunta de duplo sentido da amiga. Mas então deixou a vergonha se dissipar, se acalmou e olhou para Natsu. — Amo o calor dele, poderia ser consumida por aquele fogo que acho que não me importaria. — Respondeu sem hesitação, nem nas palavras nem no olhar. Aquarius sorriu admirada.
— Você tem bom gosto. Ele é um bom companheiro e vai ser um ótimo pai para Nashi. — Admitiu. — Para alguém que sempre sonhou em se casar com um príncipe encantado parece bem satisfeita com esse mago despretensioso e carrancudo. — Sorriu de canto.
— Pra quem é dona de um Dragão, um príncipe encantado não passa de um homem sem graça em cima de um cavalo. — Sorriu abertamente para Aquarius, que se surpreendeu com o brilho que reluziu na face daquela garota-mulher.
Sempre repreendeu Lucy por suas decisões imaturas e inocentes e sempre reprovou seu comportamento romântico e fantasiosos que a loira tinha sobre o mundo. Mas agora, testemunhando o olhar que a loira mantinha sobre o Dragon Slayer e ouvindo aquelas palavras, tinha que admitir que sim, sua menina encontrou o seu dragão.
— Tome... — Entregou para Lucy uma linda bolsa rosa, com babados brancos e dourados. A loira se perguntou se aquela bolsa esteve ali ao lado delas a todo o momento, pois não havia notado.
— O que é isso? — Perguntou curiosa.
— Virgo me pediu para trazer. São mais roupas para Nashi e para você, e alguns produtos para cuidar da pequena.
— Arigatou... — Sorriu docilmente, pegando a bolsa e a colocando do outro lado.
— Vou indo... Só queria ver como vocês estavam.
— Han... Aquarius-san... — A chamou rapidamente, antes que a mesma partisse para seu mundo. — Arigatou!! Por ficar aqui e conversar comigo.
— Não seja melosa garota... — Falou ríspida, mas logo amolecendo o olhar. — E sempre que precisar é só pensar no meu nome que eu aparecerei... Você não precisa de uma chave para me ter por perto. — Terminou em um tom doce.
Lucy sorriu, e o sol, parecendo gostar daquele sorriso doce fez-se iluminar mais ainda sobre a face alva da maga celestial.
[…]
Gray, Jellal e Erza caminhavam na trilha de pedregulhos de uma bela colina de grama verde e algumas flores típicas da região espalhadas aqui e ali. Ao fundo se via uma aldeia pequena, se infiltraram nela e conseguiram comprar alguns mantimentos sem serem notados como magos de Fairy Tail. Agora, voltavam para onde Natsu e o pessoal ficaram os aguardando, carregavam algumas sacolas de pano e caminhavam serenamente.
Haviam recuperado Nashi, e Tartaros não mais existia, era como que se lhes tivessem tirado um mundo de suas costas e agora caminhavam levemente. Hora e outra trocavam algumas palavras, mas na maior parte do tempo os três ficavam perdidos em seus próprios pensamentos. O sol já começava a se pôr e aquele alaranjado aconchegante do final da tarde tomava a flora daquela bela colina assim como a pele e os cabelos deles. Até que o silencio tranquilo daquela caminhada foi quebrado por um roupante chamado.
— Grayyyy-samaaaa.... — O moreno se arrepiou ao ouvir seu nome ser pronunciado com tanto desespero e veemência, o fazendo se virar assustando para trás. Jellal e Erza, que estavam um pouco mais a frente também se viraram.
— Juvia? … Wendy, Charle?! — Se surpreendeu ao vê-las.
— O que fazem aqui? — Erza tratou de perguntar ao ver as meninas, com exceção de Charle, correndo em direção a eles.
— Gomem... — Wendy pediu cansada e apoiando as pequenas mãos nos joelhos assim que alcançou o grupo... — O mestre nos liberou para virmos ao encontro de vocês.
— Por algum motivo de urgência? Pois sei que Gildarts-san conseguiu se comunicar com Makarov através da lácrima. — Jellal se preocupou ao ver que o velho mestre havia enviado mais magos.
— Nenhum motivo importante. Não se preocupe. — Charle o respondeu. — Na verdade ninguém da guilda aguentava mais Juvia chorando com saudade de Gray. Tivemos dois afogamentos e inúmeras inundações.
— Bom... então o mestre achou melhor trazermos ela. Assim eles poderiam se concentrar na reforma da guilda e nos cuidados dos feridos. — Wendy concluiu sem jeito, tirando de Jellal e Erza sorrisos amistosos.
Já Juvia abraçava seu Gray, que pouco conseguia respirar pois os fartos seios da maga se afundavam em seu rosto, ou melhor, seu rosto se afundavam neles. “Será que ela não poderia abraça-lo como uma garota normal?”
— Juvia ficou arrasada por meu Gray-sama ter ido até Tartaros!!! — O apertou mais... — Se algo acontecesse com meu Gray Juvia não descansaria até me vingar de todos.
— Juvia! — O som saiu abafado... E com algum custo Gray finalmente conseguiu se afastar do abraço da maga. Jellal, Erza, Wendy e Charle observavam. As sacolas que Gray carregava haviam caído e espalhado pelo chão as frutas e mantimentos que haviam comprado. O moreno certamente não gostava de ser pego de surpresa, e não escondia o desconforto ao ter que lidar com esse comportamento exagerado de Juvia. Porém, as condições haviam mudado nos últimos dias, e se surpreenderam ao ver o moreno formar um sorriso mínimo e olhar calmamente nos olhos da azulada.
— Não precisa ser tão dramática. Estamos todos bem. — A acalmou, Juvia usou suas duas delicadas mãos, que estavam cobertas por um lindo par de luvas azul claro, para pegar na mão de Gray e se aproximar mais dele.
— Juvia queria ter vindo. — Falou, agora se sentindo mais calma. — Juvia poderia ajudar.
— Eu sei... Mas já tinha Nashi nas mãos de Tartaros, Lucy invadindo a guilda, se você estivesse junto não conseguiria me concentrar.
Juvia corou ao ouvir as palavras tão sinceras de Gray, que a encarava com seriedade.
A Dama D'água ajudou seu mago a recolher os alimentos que se espalharam em sua volta devido a sua abordagem exasperada, pegou uma das sacolas e se dispôs a carrega-la, e já recompostos trataram de caminhar novamente, ela do lado de seu Gray.
…
— O que você e Aquarius estavam conversando? — A pergunta repentina fez Lucy o olhar assustada, ela tentava secar as madeixas loiras com as próprias mãos, puxando delicadamente toda a extensão dos seus fios até uma bica d'água se formar nas pontas. Estava ajoelhada próxima ao riacho ainda vestindo seu biquíni, porém com um pano branco transparente amarrado na cintura.
Ela subiu os olhos para o mago, que estava de pé ao seu lado. E para igualar os olhares ela se levantou, não que tivesse ficado exatamente na altura do dragão tendo ainda que manter o rosto levemente arqueado para melhor ver aqueles olhos puxados.
— Achei que nada escapava dos ouvidos de um Dragon Slayer. — Respondeu descontraída, tentando não dar muita atenção ao fato do rapaz ainda estar apenas de calça, com toda aquela pele bronzeada a mostra. — Falamos sobre você. — Foi sincera. — Eu e Nashi... — Olhou com mais afinco nos olhos ônix dele, buscando ao mesmo tempo compreender como Natsu conseguia a encarar com tanta veemência, sem vacilar um segundo sequer... e se surpreendendo mais uma vez ao ver na face dele brotar um sorriso de canto, quebrando um pouco a feição séria que ele mantinha.
— Ela nos deu sua benção? — Brincou... Sim, ele brincou. Referindo-se a tradição antiga em que o responsável da amada abençoa a relação.
Lucy sorriu sem jeito. — Sim...
— Isso é bom.. — Falou inebriado, pois nesse ponto ele já estava próximo o suficiente da maga para envolver um de seus braços em sua cintura. O coração da maga sobressaltou-se nervosamente ao sentir suas peles se tocarem novamente e o calor dele invadir cada centímetro do seu corpo. Não demorou para Lucy subir seus braços e os repousarem sobre os ombros largos dele. As respirações se mesclaram antes de juntarem seus lábios num beijo apaixonado e sereno.
Happy, que estava sob uma bela arvore, com Nashi deitada numa confortável caminha improvisada feita com cobertor e manta, enrubesceu ao ver a cena. Mas de imediato seus olhos se marejaram em pura alegria. Depois de um ano de muita angustia, eles finalmente estavam juntos.
E não foi só o neko que teve o grande privilégio de ver o Dragon Slayer e a Maga Celestial entregues num momento tão romântico, o grupo de Erza e Gray cessou os passos assim que seus olhos se chocaram com a imagem do casal. Era a loira que estava completamente envolvida pelos braços do mago, presa em seu enlace forte, mas quem parecia realmente capturado era ele... as mãos delicadas de Lucy acariciavam seu rosto e parecia que era ela que o sustentava naquele toque suave.
Erza deixou seus olhos se reluzirem, e segurou a mão de Jellal para que ele não avançasse mais, já que o próprio não havia notado o que acontecia ali. Juvia abraçava o braço de Gray e repousou sua cabeça no ombro dele, sorrindo bobamente ao ver sua amiga segurando seu dragão. Wendy ruborizou, colocou as mãos nas bochechas afim de conter o constrangimento ao ver seus estimados amigos se beijando.
— Hurrun... — Pigarreou... — Esperamos não estar atrapalhando. — Gray falou travesso, não escondendo o sorriso de canto.
Lucy afastou seus lábios do dele ao ouvir a voz do amigo, mas não ousaram afastar seus corpos. A loira apenas olhou para seus amigos, envergonhada por ser flagrada em um momento tão intimo.
— Vai com calma ai dragãozinho, você precisa da minha liberação para se envolver com ela. — Provocou, voltando a caminhar e deixando as sacolas perto de Happy e Nashi.
— Não enche cubo de gelo... — Resmungou impaciente...se virando para o grupo, mas ainda mantendo seu braço em torno da cintura de Lucy.
— Me chamou do quê?! Hem... seu esquentadinho!!! — O encarou irritado.
Começaram então a rosnar um para o outro, como os velhos tempos, um desferindo provocação para o outro e tirando dos amigos risadas descontraídas e uma deliciosa sensação nostálgica. Há quanto tempo não via Natsu assim? Trocando farpas com Gray. Todos os observavam, mesmo que seu semblante ainda fosse sério e rígido demais comparado com o Natsu antigo, e ainda que sua postura e a aura; constantemente emanada; seja um pouco pesada... Eles ainda podiam sentir um pouquinho do velho Natsu... Era ínfimo, mas era o Natsu.
…
— Então Minerva realmente ajudou vocês?! — Wendy perguntou surpresa. O céu estrelado já cobria o manto acima de suas cabeças, e o grupo estava agora reunidos em volta de uma fogueira, contavam com detalhes para Juvia, Wendy e Charle a aventura vivida por eles dentro de Tartaros.
— Sim... se não fosse ela não teríamos conseguido invadir a guilda a tempo de ajudar Natsu e Lucy. — Erza lhe respondeu, estava sentada sobre um tronco de arvore, ao lado de Jellal e Gildarts.
— Mas... se todos da guilda morreram... Ela também... — A pequena sacerdotisa se ressentiu por imaginar o fim trágico de Minerva.
— Não.... — Erza logo a respondeu com um meio sorriso.
— Então o que houve com ela? — Charle também estava bastante interessada no assunto, e mesmo sempre tão distinta e elegante não conteve a ânsia em saber sobre a pobre mulher que renegou o instinto sombrio dentro de si para ajudar a salvar a pequena Nashi.
Erza olhava para as meninas, Wendy e Charle estavam sentadas sobre uma manta branca com franjas rosadas que estava estirada no chão, ambas a encaravam com um brilho de curiosidade nos olhos inocentes delas.
— Bom...
Flash Back On.
A poeira pesada vinda das ruínas do que um dia fora a guilda Tartaros ainda pairava no ar, e uma fumaça densa subia para os altos demostrando que o fogo de Natsu ainda destruía qualquer vestígio que restara daquela guilda.
Improvisaram um assento para Lucy, com restos dos escombros para que ela se acomodasse com Nashi nos braços e pudesse alimentar sua pequena, que estava faminta. Erza estava ao seu lado, admirava a pequena nos braços da loira e acariciava seus cabelinhos rosas. Os rapazes se mantinham um pouco afastados, Natsu sentando no chão, ainda tentando se recuperar. Gray parecia perdido em seus pensamentos, estava encostado nume velha arvore com os braços cruzados e com o olhar distante, Jellal, Gajeel e Gildarts conversavam, traçavam a melhor rota para tomarem em regresso para Fairy Tail.
Uma breve paz se instaurou naquele fúnebre e sombrio lugar, onde mesmo com o sol começando a raiar no céu os raios sempre belos e radiante pareciam não querer tomar aquelas terras. Deixando o ar denso, gélido e um tanto que escuro. Mas ainda assim, os magos de Fairy Tail sentiam uma gota de tranquilidade pingar em seus corações... Mas, essa breve tranquilidade se quebrantou quando Natsu sentiu um cheiro já bem conhecido. Levantou-se num salto se pondo de pé e encarando uma silhueta que começava a surgir entre a neblina e a poeira que se misturavam no ar.
Gajeel também notou a presença e se pôs em alerta. Erza e os demais notaram a súbita atitude dos Dragon Slayers, Lucy percebendo que alguém se aproximava apertou Nashi nos braços e Erza se colocou na frente delas. Seria algum demônio? Alguém de Tartaros sobreviveu?
Natsu estreitou os olhos assim que aquela silhueta tomava cada vez mais forma. Não era um demônio, e sim uma mulher comum. Sem chifres, sem garras nem armadura. Ela se cobria com um sobre-tudo negro, e puxava cada lado do tecido afim de apertado em seu corpo e lhe cobrir melhor, seus cabelos longos e escuros caiam bagunçados sobre seu rosto.
— Minerva!! — Rosnou irritado. Havia se esquecido completamente daquela mulher.
A mesma se aproximou, os ombros estavam caídos e o olhar parecia envergonhado por estar ali. Natsu cerrou os punhos e bufou impaciente, injetando um olhar raivoso sobre a mulher. Pouco se importou por ela não aparentar mais ser um demônio e fez menção em avançar sobre ela e dar fim no que restara daquela maldita guilda. Mas antes que voasse no pescoço dela ele sentiu uma mão forte sobre seu peito, como um pedido para ele não se mover.
— Calma Natsu... — Gildarts pediu, olhando firmemente para Minerva.
— Ela nos ajudou a invadir Tartaros sem sermos notados. — Vendo que não era um perigo, Erza se afastou um pouco de Lucy e tratou de explicar para eles o que havia se passado entre eles e Minerva.
— Como assim? — Perguntou desconfiado, não conseguindo acreditar que aquele ser repugnante poderia ter os ajudado depois de passar tantos meses o ameaçando, e atrapalhando sua vida.
Lucy olhava atentamente para a mulher, não poderia deixar de sentir um certo desconforto por tê-la tão perto. Arfou quando viu que os olhos dela caíram sobre si. Minerva viu Lucy sentada com a filha nos braços, a pequena, totalmente alheia ao que se passava ali mamava com vigor. Lucy apertou a filha nos braços direcionando um olhar apático e desconfiado para Minerva.
— Ela cuidou de Nashi nesses dois dias.. — Erza olhou para Lucy, vendo o olhar agressivo da loira esmorecer. — Se não fosse ela, talvez Nashi não estivesse tão bem quanto está. — Imediatamente o olhar de Lucy tomou outro brilho. Porém, o olhar de Natsu não mudou, nem sua postura.
— E por que fez isso? O que você quer em troca?
— Dê uma trégua Natsu... — Jellal interveio.
Minerva abaixou o olhar, evitando assim de se ver encarada pelos olhos tão ardidos do mago do fogo. Envergonhada e sentindo um amargor incomodo na boca ela falou:
— Gomem... — A voz saiu baixa. Mas alto o suficiente para todos escutarem. — Eu... não sei como fui chegar nesse ponto. Infernizei sua vida e a vida dos seus colegas... Ameacei Lucy e Nashi... tudo que fiz parecia irreal, não me atingia... Mas, quando vi sua filha chorando naquele quarto frio e escuro... eu enxerguei o verdadeiro mal. — Natsu a encarava com severidade. — Usarei todo o resto da minha vida para me redimir dos meus pecados, mas por hora só posso lhes pedir perdão. — Olhou para Natsu, depois para Lucy que estava mais atrás, a loira viu que seus olhos mostravam uma resignação cheia de mágoa e culpa.
Jellal compreendia bem os sentimentos de Minerva, ninguém melhor do que ele sabia como era tortuoso viver com a culpa pesando sobre si. Ele não tinha o direito de intervir, e pedir para que Natsu e Lucy a perdoassem, mas no ínfimo era isso que ele desejou naquele momento.
Mas Natsu não se pronunciou diante do pedido de perdão, seu olhar ainda era repreensivo e raivoso e Lucy a observava calada, parecia analisar se Minerva estava sendo realmente sincera.
— Vejo que não tem mais a aparência de um demônio. — Gildarts comentou a esmo. Dando tempo para Lucy e Natsu absorverem a nova-velha Minerva.
— Não sei bem o que aconteceu, mas acho que com a eliminação de Tartaros eu acabei liberta dessa maldição. — Respondeu pausadamente, mantendo o olhar baixo e envergonhado.
— E o que você vai fazer agora? Digo... pra onde você vai? — Erza perguntou
— Não sei.. — Seu olhar ficou ainda mais dolorido. Lembrou-se de sua antiga guilda, seu antigo e verdadeiro lar. Depois de tudo o que fez... jamais seria digna de pisar lá novamente.
— Tenho certeza que Sabertooth te receberia de braços abertos. — A voz doce e mansa de Lucy fez os olhos de Minerva subirem rapidamente para sua direção.
— A-acho melhor eu encontrar um caminho só meu... Sozinha. Se me transformei naquele demônio e se fiz tudo aquilo... é porque tenho maldade dentro de mim, não posso ficar perto deles... não quero machuca-los como machuquei vocês. — Se retraiu.
— Não se engane. — Natsu falou, fazendo todos se sobressaltarem. — Se afastar e andar sozinha por ai não vai ajudar. Você vai começar a se esquecer do que realmente é importante e do motivo que a fez querer se afastar. — Seu tom era sério, e seu olhar mantinha a mesma rigidez. — Volte para sua guilda, e não saia de lá.
Minerva se encolheu, e lágrimas grossas começaram a descer por sua face, Natsu, Lucy e os demais estavam lhe impulsionando a viver e seguir em frente, mesmo depois de tudo que ela fez contra eles.
— E se eles não me aceitarem de volta? Eu deixei que me transformassem em um demônio. Posso não ter mais a aparência de um, mas, e se ainda restou algo aqui dentro?! — Estava perdida, confusa e desesperada.
— Eles vão!! — Lucy a respondeu com firmeza. — Não importa o que você é... eles sempre vão te aceitar, porque no final das contas, você faz parte da família deles. — Natsu olhou para Lucy e sorriu. Não era só para Minerva que ela falava aquilo.
— Arigatou... arigatou.... — Falou embargada, levando as mãos para o rosto no intuito de secar as lagrimas pesadas que passavam por ali descontroladamente. — Ariagatou...
Flahs Back Off.
— Então ela voltou para Sabertooth? — Juvia perguntou.
— Esperamos que sim. A convidamos para nos acompanhar, já que a cidade de Sabertooth é caminho, mas ela preferiu seguir sozinha. — Respondeu serenamente, lembrando-se de ver a pobre e perdida maga caminhar sozinha para longe deles, sumindo gradativamente na neblina.
E assim o grupo ficou por algumas horas, emendavam um assunto atrás do outro, mas muitos deles eram perguntas de Wandy e Juvia, curiosas para saber cada detalhe daquela aventura vivida por seus amigos.
Gray, estava sentada próximo a fogueira com Juvia ao seu lado, usavam um pano amarelo para se acomodarem na terra batida e Nashi se distraia com algum brinquedinho enquanto se mantinha acomodada entre as pernas do mago. Gajeel estava estirado no chão puro, com a cabeça apoiada em um dos braços olhando desinteressadamente para o céu. Natsu se manteve sentado sob uma bela arvore cujo os galhos e folhas serviam como um teto para o grupo, ele estava recostado no tronco e Lucy se mantinha sentada bem ao seu lado, seus braços se tocavam e ela deixava seu peso cair sobre ele.
— Luxyy.. — Happy surgiu, dengoso e sonolento ao seu lado. — Vamos dormir...
A loira sorriu, de fato Happy estava acostumado a dormir junto consigo e com Nashi. Mas não imaginou que tanto assim.
— Hai hai... Realmente já passou da hora de dormirmos. Amanhã partiremos logo cedo. — Por mais que estivesse apreciando aquele acolhedor momento com seus amigos ela se rendeu ao pedido do gatinho manhoso.
Então, cada um se acomodou onde pôde, afinal, era um acampamento improvisado, e não tinham barracas nem sacos para dormir, apenas algumas mantas e cobertores que os amigos celestiais de Lucy trouxeram dos mundo espiritual. Porém, cada um encontrou o seu devido lugar, e talvez, muitos ali não estariam tão confortáveis quanto em uma cama. Lucy e Nashi se aninharam em Natsu, até mesmo Happy usou a perna do mago como travesseiro. Juvia se uniu ao seu mago do gelo e dormiram encostados em umas das belas arvores que tinha ali, Wendy e Charle dormiam serenamente sobre a manta branca, a azulada abraçava sua gatinha e parecia apreciar lindos sonhos, pois sorria docemente. Gildarts e Gajeel despencaram feito pedra próximos a fogueira mesmo.
Entretanto, Erza não tinha sono, caminhou até o belo córrego e tendo na marge uma enorme rocha foi lá que ela se acomodou, a mesma rocha em que Lucy e Aquarius haviam ficado. Sentou-se e dobrou as pernas numa maneira em que ela própria pudesse abraça-las. Os olhos refletiam as luzes das águas do córrego, pois nelas a lua e suas estrelas reluziam graciosamente.
— Não me diga que está sem sono. — A voz mansa e grossa a fez olhar para o lado, vendo Jellal próximo a rocha a encarando.
— É um belo lugar... seria um desperdício dormir sem contemplar essa paisagem por mais algum tempo. — Respondeu sutilmente, lançando um sorriso doce para seu amigo.
— Então venha comigo. — Estendeu a mão para a ruiva.
— Como?
— Quer apreciar esse lugar não quer? — Sorriu charmoso.
Erza desceu da rocha e acompanhou Jellal numa curta caminhada. E como suspeitou devido ao ruido que continuamente os acompanhou a todo o momento, havia uma bela cachoeira não muito longe da onde haviam se acampado. Ela olhou admirada para a linda cascata, as águas que se chocavam com as pedras reluziam sob a luz do luar.
— É lindo... — Falou impressionada.
— Sim.. é lindo. — Ele concordou, porém com seus olhos direcionados na face perfeita de sua ruiva.
— Hoje está sendo uma noite muito agradável. — Comentou pensativa, ainda admirando a cachoeira majestosa a sua frente.
— Sim, de fato... e parece que as coisa finalmente estão se acertando entre Natsu e Lucy-san.
— Hai... finalmente. — Respondeu, virando para Jellal e o olhando com uma ternura e intensidade que só entregava para ele.
— E é impressão minha ou Gray está se envolvendo com Juvia-san?
— Sim... — Sorriu sem jeito, mas sentindo-se feliz pelos amigos.
— Talvez agora seja hora de nos preocuparmos um pouquinho com nós.
— Como assim? — Ruborizou e logo sentiu suas pernas vacilarem. Erza tinha peso nas duas balanças: Era uma forte guerreira. Intocável e almejada como a poderoso Titânia. Mas, por outro lado, quando não esta vestida de sua impenetrável armadura, Erza é uma garota amorosa, carente e sonhadora. Assim como Lucy e suas amigas... Talvez, até mais.
— Estamos chegando num ponto onde precisamos nos unir a alguém para assim seguirmos seguir em diante. — Se aproximou da ruiva, que o fitava com intensidade.
— E sua busca por rendição? — Perguntou incrédula. Jellal foi tão firme e decidido em renegar sua vida em busca de rendição, que agora lhe era difícil acreditar no que ouvia. Mesmo que seu coração já jubilasse apaixonado e esperançoso.
— Natsu está certo. Quanto mais tempo vagar por ai, sozinho, pior é... Chega... Posso continuar minha rendição, mas sem me afastar de você e sem reter esse sentimento que toma meu coração a cada dia.
— Que sentimento?
Ele se aproximou, quase colando seus corpos e tocou a face da maga.
— Quer mesmo que eu diga?
— Sim.
Aproximou seu rosto, a ponto de tocar a ponta de seu nariz no dela.
— Vamos seguir de agora em diante essa jornada junto, Erza. Porque eu te amo...e não quero mais ficar longe de você.
— Promete? — Começou a esmorecer.
— Sim...
— Não vai mais sair do meu lado?
— Não...
— Ok... vou acreditar em você então. — Seus olhos estavam transbordados e sua voz era tão mansa que Jellal só a escutara pois estavam colados um ao outro.
Enfim se entregaram em um beijo, calmo e repleto de saudades. Enquanto a cachoeira ao fundo fazia o trabalho de emoldurar aquela linda lembrança, que carregariam para o resto de suas vidas.
[…]
Fairy tail, mais uma vez, se reerguia após uma árdua batalha. A guilda estava rodeada por andaimes e por todo o seu jardim haviam montantes de pedras, areia e madeiras dormentes. Os magos trabalhavam agitadamente, ansiosos para verem sua guilda imponente novamente. Corriam apressados um entre os outros, segurando madeira, ou arrastando carrinho de mão repleto de cimento e areia.
Comparado com outras situações até que a guilda não sofreu muitas variações. No ataque, os demônios arrancaram e destruíram janelas e paredes no andar principal, as mesas e cadeira também viraram amontados de lixo após a batalha. Mas, contudo o precioso lar daqueles magos ainda estava de pé, firme e mostrando que era tão resistente quanto seus residentes.
Makarov estava no jardim dos fundos junto com Mira e Laxus, o velho mago estava sentado sobre um balcão de madeira improvisado por Mira e Kinana, assim elas poderiam servir os magos e eles teriam um lugar para descansar em seus momentos de pausa. O lugar parecia como uma tenda comum dos festivais da região, porém mais comprido e com banquetas na frente. Ele se atinha em cuidar de alguns relatórios, parecia aprofundado na leitura e alheio ao casal que estava mais ao lado.
— Eles estão mais animados agora que Gildarts deu noticias sobre Nashi. — Mira comentou, em seu usual tom doce enquanto observava seus companheiros correndo apressados de uma lado para o outro.
— Sim... Confesso que até mesmo eu estava a ponto de partir em encontro a eles. — O grande mago loiro comentou, estava recostado no balcão, e seu olhar paivara desinteressado sobre os colegas.
— Lucy deve ter vivido o pior pesadelo de uma mãe. Pobrezinha.
— Mas agora ela está com Nashi nos braços e voltando pra casa. — Rebateu a preocupação desnecessária da albina.
— Sim... — Tirou os olhos gentis que vagavam pelo jardim e olhou para Laxus, parecia pensativa. E de fato estava, a imagem de Natsu não saia de sua mente. — O que você faria?
— Como? — Laxus a fitou duvidoso com a pergunta repentina, e Makarov que estava em silencio apenas olhou de canto para o casal. Logo voltando para sua leitura.
— O que faria se sequestrassem seu filho?
— Por que a pergunta? — Se recostou mais no balcão e cruzou os braços fortes, não tirando os olhos de Mira.
— Os olhos dele, a aura que ele emanou... as palavras e o seu desinteresse quando eu e Erza dissemos que Lucy estava gravida, meu coração foi moído naquele momento e depois daquilo, eu jamais imaginei que o viria daquela forma que o vi há duas noites atrás. Ele apareceu, e apenas com algumas palavras e um gesto fez Lucy se levantar e o seguir... Lucy entrou em choque quando levaram Nashi... e ninguém da guilda sabia o que fazer naquele momento. Mas...ele soube.
Laxus soltou um curto sorriso de canto e piscou compreensivo para a albina. Makarov continuava a ler os relatórios, e parecia concentrado em suas tarefas.
— Acho que eu ficaria louco. — Mira o olhou aturdida, e o velho mestre finalmente demostrou alguma reação, pois mesmo concentrado em seus afazeres ele ainda assim prestava atenção na conversa do casal. — Se invadissem minha guilda, machucassem meus namakas e levassem meu filho eu sairia louco atrás deles... perderia completamente o controle. — Olhou para Mira. — Afinal, todos nós temos uma parte obscura vivendo aqui dentro. — Jogou o polegar contra o peito, sobre o coração. — Mas Natsu está um patamar acima de todos nos Mira-chan... — Admitiu em um sorriso charmoso.
— Mesmo assim... por que Natsu não ágil assim? Isso que me intriga, ele andou tão distante e frio nos últimos meses, se tornou outra pessoa... Mas naquela hora, ele se controlou... Por quê? — Tentava compreender o comportamento de Natsu.
— Porque ele já vem lutando contra seu eu obscuro há muito tempo. — Makarov a respondeu, tirando de Mira um olhar surpreso, pois só então ela notou que seu mestre estava atendo ao que conversavam. — Até mesmo eu, Gildarts... Gajeel. Qualquer um ficaria enlouquecido, tirar sua cria dos braços da mãe é uma afronta a qualquer homem. Mas o único que já provou da própria loucura foi Natsu, e ele sabe que no dia em que se deixar tomar por toda sua obscuridade, talvez, ele jamais volte a ser o que foi um dia.
Mira entristeceu o olhar e pôs a mão sobre o peito, tentando conter a aflição ao ouvir tais palavras.
— E como ele conseguiu se conter? Sendo que um dia antes ele quase matou Sting... — Lembrou-se da fúria que o mago do fogo emanava na luta contra Sting, o olhar feroz a postura altiva...
— Esse foi um dos dias em que Natsu se deixou tomar pelo seu obscuro.
— Como assim jii-chan? Que todos temos uma parte insana adormecida nós sabemos... Mas, por que com Natsu parece ser muito mais intenso?
— Não se preocupem com isso. Vamos apenas nos ater em que Natsu está voltando junto com Lucy e Nashi, e que ele está disposto a protege-las.
— E isso basta? — Mira questionou preocupada. Aquela conversa estava misteriosa demais para seu gosto.
— Por enquanto sim... Por enquanto. — O mestre apenas respondeu.
…
O grupo caminhava numa tênue estrada que cortava umas das ultimas florestas que os levariam até Magnólia. Os meninos na frente e as meninas logo atrás, Nashi nos braços de Gray. Erza, Wandy e Juvia conversavam banalidades, e apenas Lucy se mantinha calada, olhando pesadamente para Natsu e caminhando a passos lentos. Sempre tão sagaz e intuitiva ela devaneava em pensamentos angustiantes que por um tempo tentou invalida-los. A conversa com Aquarius de fato ajudou a acalmar seu coração. Porém, mais questões pairavam sobre sua mente, não conseguindo evitar a preocupação a tomar novamente.
“Lucy, o que sou pra você?” Latejou em sua cabeça, e no mesmo instante outras centenas de dúvidas. Cada uma era uma linha de uma cor em sua mente, elas se entrelaçavam, davam nós... mas no fim se encontrava no mesmo ponto “Natsu”. Tartaros, Zeref o Conselho, todos atrás dele. Sim, sabia que era pelo enorme poder do mago, todos sabiam. O que não havia parado para pensar era, por quê tanto poder assim? Da onde vem todo isso? … Por que ele é diferente dos outros Dragons Slayers?
Deixou seus olhos pousarem apaixonados sobre os ombros largos dele, notando o movimento a cada passo, a firmeza, a postura rígida, mesmo num simples andar ele parecia impor respeito. Não via seu rosto, mas conseguia imaginar o maxilar travado e a feição séria, os olhos puxados e severos... diferente do despreocupado e tranquilo Natsu que conheceu um dia. Sim... era diferente, mas ainda assim continuava perdidamente apaixonada por ele.
Suspirou, por que se colocava frente a tantas duvidas se já sabia a resposta? … Mesmo diante dos momentos tensos e de toda aquela confusão Lucy pôde olhar para Mard Gree enquanto era carregada por Gray sendo levada para fora. Abriu os olhos naquela hora, estava tudo embaçado, tinha muito ruido... mas viu e escutou
"— Quero dizer que você tem que nos agradecer por termos te procurando antes de Zeref. Ainda estamos te dando a chance de mante-las vivas... Mas... se Zeref resolver intervir, não posso nem assegurar que Fairy Tail saia com vida. Olhe para sua filha... para a maga celestial.. veja como estão feridas. Tudo isso porque você ainda insiste em fingir ser uma Dragon Slayer Natsu... Você não é um mero Dragon Slayer, muito menos um mago qualquer de uma guilda qualquer... aceite o seu verdadeiro poder, ou nunca, jamais Lucy Heartfilia e Nashi Dragneel terão paz!!! …"
— Fingir ser um Dragon Slayer? O que ele quis dizer com aquilo?! Uma guilda de demônios o perseguindo... Por quê? “Demônio”?!
Nesse momento Natsu olhou para trás, por sobre os ombros e viu os olhos da maga sobre si, a loira se retraiu ao ser flagrada, perguntando se ele havia ouvido seus pensamentos. E Natsu logo conseguiu interpretar aquele olhar. Parou de caminhar e deixou os rapazes seguirem, mais alguns passos e Lucy ficou bem a sua frente. As meninas seguiram em diante também, apenas olharam preocupadas com a repentina parada do casal.
— O que foi Lucy? — Perguntou sério e com um olhar compenetrado.
Lucy não pode conter a hesitação tomar seu coração... “Vai demorar para me acostumar com essa postura dele”. Pensou e então o encarou com mais afinco.
— Pra mim você é o Natsu... — Retomou a conversa que tiveram frente a guilda das trevas. — Mas... para Tartaros e Zeref o que você é? Digo, por que eles te perseguem?! — Seu olhar era receoso e em seu semblante era notável sua preocupação.
— Também não sei ao certo...
— Você é importante para eles... Por algum motivo. — Parecia querer ouvir da boca do mago o que ouviu de Mard Gree.
— Talvez...
— É o seu poder né?!
— Está com medo do que posso me tornar? — Sabia onde a loira queria chegar. Lucy o fitou com os olhos trêmulos... se perguntando novamente se ele conseguia ouvir seus pensamentos.
— Não exatamente... Estou com medo que você se esqueça de mim e de Nashi. — O olhar castanho se destoou diante da admissão de seu medo.
— Isso nunca vai acontecer. — Falou confiante, mantendo-se sério frente a ela.
— Como pode ter tanta certeza?
— Por que fiz uma promessa não fiz?! Que ficaria ao seu lado e ao lado de Nashi... e que nunca mais iria me afastar. E também... tudo dentro de mim é louco por vocês duas.
— Tudo dentro de você? Como assim?
— Um dia talvez você entenda. — Sorriu de canto. Um sorriso charmoso e que fez Lucy suspirar. E num pulo o surpreendeu num abraço apertado, ela recostou seu rosto no peito dele e fechou os olhos para assim melhor apreciar aquele contado. O mago ainda não estava tão acostumado com esse tipo de contato inesperado, mas depois de alguns segundos envolveu seus braços em torno dela.
— Aquarius disse quê, para você não se esquecer da promessa eu teria que fazê-lo se lembrar dela todo dia. — Falou sonolenta, pois apreciava o calor que seu mago lhe passava.
— Tudo bem... se for ficar mais tranquila, podemos fazer assim então. — A apertou mais contra seu corpo.
— Ela também disse que deixei de ser uma menininha boba que acredita em contos de fadas... pois agora tenho um dragão.
Natsu sorriu e encostou seu rosto no topo da cabeça da maga, usou uma mão para acaricia aqueles cabelos sedosos.
— Eu não te prometo um conto de fadas Lucy... Mas você será a rainha em qualquer castelo que eu construir.
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