Notas iniciais
Espero que tenham gostado :)

— Menina, você é de onde?

— Do interior do Paraná.

— Deve ter tido uma infância boa então.

— Por quê?

— Sabe, aquelas plantações de soja que parecem não ter fim, o frio, as árvores gigantes...

— Como você conhece lá?

— Um dos meus filhos mora lá.

— Ele é velho?

— Um pouco mais velho que você. Se ele não fosse casar ano que vem até que vocês formariam um belo casal.

— Ah não, obrigada. Homem só dá problema.

— Nossa, por que acha isso?

— Só conheci babaca.

— Isso é normal, algum dia você encontra alguém especial.

— Você adora dar conselhos de tiozão né?

Ele não respondeu.

— Sabe o que é? Tenho medo de encontrar a pessoa certa e não amá-la.

— Você já amou alguém? — ela odiava essa pergunta. Mel nunca sabia explicar o que sentia. Quando encontrava um cara legal que achava que estava se apaixonando, o sentimento ia embora, como se nada tivesse acontecido. O buraco da solidão deixado pelo amado já era preenchido por outro. Ela não amava ninguém, ela amava a sensação de ser amada.

— Acho que não tenho capacidade para isso... Meu coração deve ser de pedra sei lá. É bom amar?

— É.

— Como é?

— Não sei explicar, desculpe.

— Tudo bem.

Silêncio. Mel se culpava por aquilo. Aquele assunto era muito delicado para se conversar com um estranho Ela percebeu o quanto a opinião daquele desconhecido era importante para ela. E não gostou daquela sensação. Tentou desviar seus pensamentos. Olhou para a janela, sem disfarçar o desgosto de observar a paisagem.

— Menina, eu te irritei?

— Não me chama de menina, ok? — ela se arrependeu no segundo instante que suas palavras foram proferidas. Ela não deveria se portar assim com alguém que ela gostaria de ficar. As etiquetas do flerte obrigavam a garota ser simpática e sorridente sempre. Também deveria evitar demais expor as ideias que realmente perturbavam seu coração.

— Ok. — respondeu ele, indiferente, já se preparando para dormir novamente. Ela ficou com mais raiva ainda da indiferença dele. Porém, respirou fundo e continuou a conversa.

— Olha, você me desculpa, viu? Falei sem pensar...

— Tudo bem.

— Minha cabeça anda um inferno ultimamente...

— A minha também.

— O que te perturba?

— Tanta coisa...

— Exemplos?

— Um dia te conto, menina.

— Que dia? Já já cada um vai para um caminho diferente.

— Não precisamos tomar rumos diferentes.

— Não tô entendendo.

— Quer ir pra minha casa?

— Quê?

— Quer?

— Você é maluco.

— Você também. Vamos, você não tem nada a perder, nem outro caminho pra ir.

— Tudo bem, se eu morrer ninguém vai sentir falta mesmo.

— Nem o Bernardo? — ele riu.

— Muito menos o Bernardo.

Ele decidiu voltar a dormir. Ficou de costas para que a menina não visse o sorriso em seus lábios. Ela também estava alegre. Mas o sentimento que mais dominava seu corpo era a curiosidade. O que ele queria com ela? Quanto mais perguntas ela fazia mais ela queria ir com ele.

Enquanto ele dormia, Mel começou a confabular como seria a estadia com Tales. Ele poderia ser um traficante de pessoas e fazer ela se prostituir. Ela riu de sua imaginação fértil. Ele poderia sequestrá-la. Mas Mel não se recordou de ter comentado sobre sua herança com ele ( até porque isso não faria o menor sentido). Todos os tipos de imagens ruins foram desenhadas em sua mente. Mas ela deu de ombros, já estava decidida a continuar naquela ideia maluca. Suspirou e tentou dormir. Mas o corpo dele nu em sua mente não deixou Mel descansar.

Ele se movia no banco, procurando uma posição confortável. Mel acreditava que seu incômodo era gerado pelo banco horrível do ônibus. Mas o que perturbava Tales era o futuro. O que ele iria fazer com aquela menina? Ela tinha idade pra ser sua filha...Mas não poderia simplesmente deixá-la ir embora.Mel era um diamante bruto que precisava ser lapidado e ele via esse potencial. Assim como ele tinha visto isso em Roberta.

A Beta era ousada, bela e inteligente. Mas o que mais despertava o interesse de Tales nela era sua curiosidade. O mundo era pequeno demais para Roberta. 20 anos depois, ele ainda não entendeu o que ela vira nele. Tinha dias que ele se perguntava se Beta amava-o ou se apenas amava a imagem que tinha dele. Isso o fazia se sentir sujo. Parecia que nunca seria bom o suficiente para ela. Não importava o que ela dissesse para Tales, ele sempre se sentiu a margem dela.

Então, ele fez de tudo para ser o melhor. Melhor pai, melhor marido (tanto socialmente quanto entre quatro paredes), melhor empresário. E todo esse esforço o sufocava de uma maneira terrível. Parecia que cada vez mais ele se afastava de seu objetivo. Ele sentia que decepcionava o mundo. A mulher, os filhos, a tia ... Todos o julgavam.

Lembrando disso, uma lágrima escorreu de seu rosto. ” Tales, você é patético”- se censurou. Decidiu abrir os olhos. Ficar remoendo o passado não adiantaria nada, afinal. Olhou para Mel, ela era linda. Sorriu e desejou mexer nos cabelos da menina. Mas ele não teria coragem. O que falaria para ela? “ Isso é só uma aventura, não significa nada”- ele se obrigou a pensar.

Então, sentimentos dicotômicos o dominaram: queria que a viagem não terminasse nunca. Isso porque, assim como em toda a sua vida, ele estava com medo. Contudo, ele queria sair daquele ônibus, chegar em casa e levar Mel com ele. Por um momento, o desejo superou seu medo.

E finalmente a viagem acabou. Ele tocou o braço dela para acordá-la. Mas ela já estava acordada.

— Chegamos- ele sussurrou.

— Nossa, finalmente.

— Pois é.

O ônibus parou. Como ela não levou mala grande, levou sua bagagem consigo dentro do ônibus. Pegou sus pertences e esperou ele pegar a mala de rodinhas.

— Vamos?

— Claro.- disse ela, confiante.

— Meu motorista vem nos buscar tudo bem?

— Nossa, você não tinha me falado que era rico.

— Não te falei muitas coisas. — Ao ouvir essas palavras, Mel sentiu o pelo do braço arrepiar. Ela não respondeu.

— Vamos, é aquele carro ali.- Ele apontou para um carro divino que Mel não fazia ideia qual era. A viagem seguiu em silêncio. Pararam na frente de uma mansão.

— Chegamos- disse Tales, sorridente.

Notas finais
hoping for the best xoxo