Fluxo e atração
3 Enfim sós
Notas iniciais
— Enfim sós. — Tales exclamou, enquanto abria a porta de casa.
— Não sei se isso me dá mais medo ou curiosidade.
— Você acha que é a única que está com medo
— Por que você estaria com medo?
— Bom, eu sempre tive medo de tudo... De me arriscar, de me arrepender... E agora não é diferente.
— É só não deixar o medo te impedir de viver...
— Sabe o que é? Acho que o medo não me impediu de viver, mas me levou para caminhos tortuosos...
— O que você fez de tão errado?
— Outro dia te conto — ele disse isso com um ar sofrido que Mel não teve coragem de insistir, apesar de a curiosidade estar a matando. Então, ela não disse mais nada.
— Enfim, sinta-se em casa. — Tales possuía aquela incrível habilidade de professor. Essa habilidade consiste em mudar de humor de uma frase para outra. Mel lembrou dos surtos de seu professor de matemática, que uma hora estava gritando sobre a incompetência dos alunos em não conseguir uma simples equação fracionária (ela sempre pensou que essa discussão era inválida afinal, era fácil para ele falar já que ele possuía faculdade nisso e os alunos não). Após esse grito, ele elogiava o aluno mais brilhante da sala. Isso em apenas alguns segundos. Mel achava impressionante essa habilidade.
Ela queria ser assim, contida. Mas não conseguia. As verdades brotavam em sua boca e eram incontroláveis. Quando ela omitia algo, as palavras não ditas queimavam em sua garganta. Então, ela começava a imaginar situações em que aquela verdade poderia ajudar alguém e se sentia culpada. Esses pensamentos percorriam em segundos, e ela se arrependia de ter cogitado esconder essas coisas. Claro que sua espontaneidade foi prejudicial, mas mesmo agindo dessa forma sabia das consequências e não recuava.
— Onde posso deixar minhas coisas?
— Segundo andar, 2° quarto a direita.
— Obrigada- subiu as lindas escadas enquanto pensava o que estava fazendo ali.
O quarto era gigante. A mobília era terrivelmente branca, chegava a arder os olhos. Parecia aqueles quartos de revista de arquitetura que era possível inferir que o dono do quarto não possuia personalidade alguma. Ou era um grande banana.
Ela despejou a bagagem e deitou na grande cama. Ela era de casal e sua colcha cheirava a Omo. Após se espreguiçar, foi arrumar as roupas no armário. Anos de prática, ela aprendeu que coisas chatas não são resolvidas só porque você quer.
Finalmente, Mel desceu.
— Gostou daqui?
— Sim, bem grande. Mas o quarto é branco demais, dói o olho.
— Ah sim, eu também acho isso — Tales deu um sorriso amarelo.
— A sua mulher que quis assim?
— Sim. Quer dar uma volta? Essa casa me sufoca.
— Quero sim, podemos ir a um barzinho?
— Claro. Vamos?
— Agora?
— Sim.
— Ok, deixa só eu pegar meu casaco.
Mel voltou e eles foram andando. Pararam no primeiro bar que viram.
— O que aconteceu? — Mel perguntou.
— Não entendi.
— Na sua vida. Seus olhos estão tão tristes.
— Ah… É só a crise da meia idade não se preocupe… Sua vida também não é fácil não é?
— Bom, eu escolhi isso pra mim sabe… Então, meio que não posso reclamar.
— Todo mundo escolhe, ninguém está isento das merdas que faz.
— Sim.O foda é lidar com essas merdas.
— Nem me fala. Ainda estou aprendendo a lidar com algumas.
— Você se arrepende?
— Todo santo dia. E você?
— Não, não mesmo.
— Desculpe te deprimir com as minhas conversas.
— Imagina, adoro papos emos. — Mel riu enquanto ajeitava seu cabelo.
— Mas não é pra isso que bar serve? Pra chorar as pitangas?
— E pra encher a cara também.
— Garçom, uma cerveja litrão.
—Aí sim.Mas é só o começo.
— Meu Deus menina, você é maluca.
— Claro, qual a graça de ser normal? — Os dois riram.
— Entendo. Vamos encher a cara, tô precisando.
— Eu também.
A cerveja chegou. Os dois terminaram o copo sem pestanejar.
— Mais, por favor.
— É só pedir, te acompanho.
— Garçom, vê mais uma.
Eles beberam mais um litrão além daquele e pediram uma maldita Natasha. Mel queria, Tales apenas aceitou. Aquela jovem parecia subtrair toda a sua parte racional. Ele gostava disso. Ele realmente gostava dela. Ela era incoerente : parecia ter ideias tão maduras mas tinha aquela vida desregrada. Suas ideias e frases apunhalaram o coração dele, mas as vezes, ele sentia vontade de deitar aquela garota indefesa em seu colo e fazer cafuné em seus cabelos.
Depois daquela bebida, Mel começou a provocá-lo. Passou a mão em sua coxa. Para sua surpresa, ela era grossa e apresentava a consistência que ela imaginava ser ideal. Apesar de ser surpreendido, Tales não tirou a mão da garota. Era bom ser admirado sexulmente de novo. Sua testosterona pedia por mais.
— Vamos embora? — Ele perguntou. Sabia que se continuasse ali, provavelmente seria expulso do bar pela realização de atos obscenos, coisas que em uma cidade pequena manchariam totalmente a imagem da pessoa, ainda mas alguém como ele, uma figura pública da cidade.
— O que você quiser, eu faço. — Ela se levantou de maneira exagerada e se espreguiçou, enquanto ajeitava o seu vestido.
— Meu Deus, menina. — Ele a pegou no braço.Pagou a conta e foram andando, ou melhor, cambaleando para casa. Ele a colocou no sofá da sala, não antes de lutar para abrir a porta da casa.
— Merda! — Tales exclamou enquanto tentava encaixar a chave na fechadura. A segunda etapa, talvez mais complexa para alguém terrivelmente é efetivamente girar a chave no sentido correto. Mas ele finalmente conseguiu.
Depois de colocar ela no sofá, ele sentou na poltrona.
—Eu estou bem, ok?
—Claro, eu também tô ótimo.
— Você quase nem conseguiu abrir a porta — ela riu alto.
— Ah é? Duvido você conseguir abrir a porta. Vai lá, quero ver. — Ele a desafiou com um sorriso nos lábios.
— Então tá, você vai ver só — Ela se levantou do sofá que quase caiu.
— Começou bem- ele riu.
— Ah, vai se fuder. — Ela é terrivelmente determinada, não iria desistir tão facilmente. Respirou fundo e quase conseguiu andar em linha reta. Chegou no porta-chaves, o qual estava lotado de molhos de chaves.
— Qual é a chave?
— Descubra.
— Aff, sério isso? Você é mau… Pensar que quase te agarrei no bar…
— Ué, achei que garotas adoram bad boys.
— Você não é bad boy, é só cuzão mesmo.
— Nossa, realmente fiquei ofendido. Agora mesmo que não vou dizer qual é a chave. — Ele se divertia.
— Vai se foder. Vou achar sozinha e rir da sua cara.
Ela pegou o primeiro molho de chaves que viu e tentou uma a uma. Uma chave que era colorida chamou sua atenção. Era essa a que abriu a porta. Mel gritou de alegria quando girou a chave e abriu.
— Viu só? Consegui. Mereço um prêmio.
— O que você quer?
— Você sabe o que eu quero.
— Sei.
Ele se aproximou dela, antes que ela pudesse reagir, ele agarrou-a pela cintura e a beijou. “ Que beijo bom para um caralho”- ela pensou enquanto aproveitava os toques delicados dos dedos dele em sua cintura. Ela se perdeu naquele beijo. Ela sentiu uma segurança como nunca antes. Por um segundo, ela se questionou se aquilo era saudável.
Depois daquilo, Tales se sentiu culpado e se afastou dela.
— Eu vou me deitar, ok?
— Tudo bem. Mas vai tomar um banho antes, você tá fedendo.
— Ah muito bem, obrigado pelo conselho. Mas antes de julgar os outros veja o seu estado. — Ele riu.
— Realmente, eu tô um lixo.
— Vem cá, eu te levo lá pra cima.
— Obrigada. — Apesar de ela já estar melhor, Mel decidiu não arriscar.
Eles finalmente chegaram ao banheiro.
— Espera aqui que vou pegar uma roupa limpa pra você.
— Por quê você tá fazendo tudo isso por mim?
— Você é uma pessoa incrível.
— Então por quê fugiu de mim?
— Fugi de você?
— É, não quis me beijar mais. Você não gostou?
— Gostei até demais, e é aí que está o problema.
— Ainda não vi o problema.
— Você é uma desconhecida que tem idade para ser minha filha.
— E daí? Sou maior de idade. Para de ser mané.
Ele riu e a abraçou. Beijou sua testa e foi buscar a roupa limpa.Quando voltou, ela estava nua. Tales ficou boquiaberto com aquele corpo. Ele parecia ser feito na medida certa. Um corpo equilibrado com proporções gregas.
— Porra, aí você quer me fuder.
— O quê?
— Vai, entra no box.
— Tá bom, seu velho chato.- Ela riu
— Boa noite.
— Boa noite.
Enquanto Tales tomava banho, as imagens daquela garota passavam em sua mente, e um desejo repentino o consumiu. Mas se conteve e apenas se masturbou enquanto pensava em como resolveria o que fazer com aquela garota.
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