Fleurir
4 Templo
Fleurir — Capítulo 4.
Templo
"O corpo é o templo onde a natureza pede para ser reverenciada".
— Marquês de Sade.
— Sou Kagome Higurashi — eu disse fazendo uma leve reverência — A sacerdotisa Kaede me enviou, estou procurando por mestre Fujimoto ou senhor Takeo.
XXX
— Seja bem vinda — o youkai disse se aproximando e me dirigindo um sorriso hospitaleiro — eu sou Takeo, ajudante do Mestre Fujimoto.
Ele me estendeu a mão e eu a peguei, o cumprimentando. Os olhos dele eram sérios, mesmo que seus lábios demonstrassem um sorriso. Deveria tomar cuidado com ele, era esse o aviso claro em seu olhar.
— O que te trouxe aqui? — ele me olhou, parecia me analisar, eu queria puxar minha mão da dele, mas seria falta de respeito.
— Soube que estão treinando sacerdotisas, eu tenho energia espiritual, mas não sei usá-la muito bem, apenas através de uma flecha e ocasionalmente com as mãos — eu disse o olhando o mais decidida que conseguia, com a maior quantidade de coragem que conseguia reunir — quero que me ensine a canalizar o meu dom para ajudar outras pessoas.
— Uma atitude nobre, mas primeiro preciso saber se pode falar com meu mestre ou não — Takeo soltou minha mão e me deu as costas, passando a caminhar — Aguarde um instante.
Ele entrou no templo as costas dele, como eu desconfiava havia mais dois toris depois do primeiro. O templo era de um único andar e era bem maior do que o templo de minha casa, ele era branco com um teto azul escuro, um pilar no centro, havia também uma longa varanda que o circundava de um marrom bem escuro, quase preto. Eu desejava muito treinar ali e Kami me ajudaria.
O vi se aproximando com um arco e uma única flecha, ele parou a minha frente e me estendeu os mesmo. Eu os peguei e os observei, eram ambos entalhados, o arco todo trabalhado na madeira, nunca vi um tão lindo assim.
— Canalize sua energia para a flecha, como diz que faz — Takeo me olhou e sorriu — Mire naquela árvore ali, está vendo? A que tem um alvo — eu a vi, muito longe, assenti para ele — Vamos ver se ela flui ou fica presa.
Eu segurei a flecha como sempre no arco, ajeitei a postura e senti aquela energia fluir por mim, há quanto tempo eu a não sentia? Foquei no meu alvo e apenas lancei-a. Vi a flecha viajar envolta naquela energia rosada e por entre as árvores até atingir o alvo, despedaçando um teco do tronco. Abaixei o arco e olhei para Takeo que me olhava impressionado.
— Vamos ver o Mestre Fujimoto — ele disse quando estendi o arco para ele, Takeo passou a andar em outra direção diferente da que ele havia ido anteriormente e eu o segui, a passos rápidos.
Caminhamos tranquilamente pela varanda, nossos sapatos fazendo sons ocos na madeira, eu estava ansiosa, porque se eles me recusassem, eu não sabia o que faria, com certeza procuraria outro lugar para aprender mais. Alguém havia de me ajudar... Takeo puxou a fusuma a nossa frente, me mostrando o interior do templo. Era a parte do santuário, havia um senhor sentado no meio deste, Mestre Fujimoto de certo. Seu cabelo já era totalmente branco e a pele branca era enrugada, aparentava estar na casa dos 70 anos. Ele nos olhou quando Takeo abriu a porta e colocou o rosário ao lado dele.
— O que os trazem aqui Takeo? — ele disse numa voz serena e tranquila.
Takeo adentrou o cômodo e me conduziu até estarmos de frente ao senhor, o mesmo nos mostrou os futton a sua frente e nos sentamos. Eu estava muito ansiosa agora e estava com medo de fazer algo errado.
— Essa sacerdotisa quer aprender com o senhor — ele começou apontando para mim, os olhos cansados do senhor se voltaram para mim — disse que foi a sacerdotisa Kaede que a mandou.
— Uma velha amiga — ele comentou me analisando e dirigindo um sorriso — Como descobriu que era uma sacerdotisa?
Eu fiz um breve resumo de todo meu passado até ali, como enfrentei cada inimigo e a pouca coisa que eu havia aprendido desde então. Eu não sabia nada sobre a minha energia espiritual e queria muito aprender mais, assim como me defender sozinha e se essas pessoas pudessem me ajudar, eu me agarraria a aquela oportunidade com unhas e dentes.
— Um grande mal esse Naraku nos causou — Fujimoto disse pensativo — existe um grande poder em você que não sabe como sair e nem você sabe como dá-lo vazão — os olhos negros pareceram ler o fundo de minha alma — Vamos ensina-la, molda-la e aí estará pronta para seguir seu caminho.
— Não é um treinamento fácil, já te adianto — Takeo disse me olhando sério — uma vez que começar irá até o fim, entende isso? — eu assenti decidida — começaremos bem cedo e vamos até bem tarde, os finais de semana são livres, não precisa ficar aqui se não quiser, porém é terminantemente proibida a saída na semana.
— Não pretendo sair na semana — eu disse os olhando decidida — Vou me esforçar em aprender, não vão se arrepender.
— Seja bem vinda ao nosso templo, Kagome — Fujimoto disse me estendendo a mão e eu prontamente a apertei.
—-
1 semana depois.
O suor escorreu em minha face. Eu já estava encerando a varanda do templo há mais de duas horas, tinha certeza. Era necessário para, além de manter o local limpo, resistência física. Eu sentia minha garganta seca, mas não me daria por vencida. Do outro lado, apoiado graciosamente numa árvore estava Takeo. Ele observava a forma como eu exercia meu trabalho e eu dava tudo de mim.
— Pode descansar um pouco — Takeo disse atraindo minha atenção, porém faltava tão pouco para eu terminar que se parasse agora, com certeza me desanimaria.
— Já estou quase terminando — eu disse encerando mais um trecho do piso de madeira. Eu não queria demonstrar fraqueza, mesmo que ela fosse necessária às vezes.
Takeo não contestou minha decisão e continuou ali, me observando. Nessa uma semana que já havia passado eu treinei bastante minha concentração e fazia alguns exercícios físicos como o de hoje. Eu não voltei para o castelo no final de semana, porém mandei um recado a Rin para que não ficasse preocupada comigo.
Mestre Fujimoto e Takeo eram ótimas pessoas, sempre sérios, mas boas pessoas. Quando não estava em treinamento, eles me perguntavam sobre minha vida, e me contavam um pouco sobre o lugar, como era a rotina do templo e os deveres de cada um. Eu me sentia muito bem aqui, mas eu sentia que de vez em quando precisaria dar uma volta e quando sentisse necessidade disso, voltaria para o castelo no fim de semana.
Encerei o último trecho do piso e me levantei, secando o suor da testa. Estava satisfeita com o meu trabalho e me sentia feliz de ter conseguido terminar sem desistir.
— Agora pode descansar — Takeo comentou novamente e eu apenas assenti, juntando os utensílios que havia usado e os colocando num canto da varanda para ninguém tropeçar.
— Obrigada — eu disse me sentando no chão, usando a mesma árvore que ele para me apoiar. Minhas sandálias de madeira incomodavam no pé, mas nada que não desse pra suportar, eu ainda precisava me acostumar com elas.
Uma brisa agradável passava pelo local e eu a recebia de bom grado, uma vez que meu corpo estava úmido de suor. A presença de Takeo sempre me passava muita tranquilidade e eu agradecia, porque no momento eu ainda estava ressentida com o que havia acontecido, ainda machucava.
— É difícil termos uma presença por tanto tempo — Takeo disse me olhando divertido e depois observou o templo, eu fiz o mesmo — As pessoas acham que vai ser fácil e cômodo a estadia aqui e quando percebem o quão árduo é o treinamento, — os olhos chocolates pousaram em mim — eles desistem.
— Talvez porque não tenham um desejo verdadeiro dentro deles — eu o olhava também, sentia que ele valorizava meu desejo — Eu vim de um lugar onde tradição e respeito já não são tão importantes… — eu olhei para o templo novamente — Mesmo agora, as sacerdotisas e sacerdotes são respeitados, em meu tempo, poucas pessoas os respeitam.
— Eu não consigo imaginar algo assim — sua voz me pareceu pensativa e eu apenas assenti.
— Você está aqui há muito tempo? — eu perguntei curiosa, afinal ele ainda era um youkai e youkais eram contra pureza.
— Tempo suficiente — ele disse me olhando com interesse — Porque pergunta?
— Você é um youkai e bem... — eu disse sem graça desviando os olhos, odiava ser intrometida — você sabe, são contra pureza.
— Sou um tipo diferente de youkai — eu o olhei curiosa, Takeo estava pensativo — meus dons são de cura…
— Nunca ouvi algo assim… — eu disse surpresa por aquela informação.
— Porque eu sou o último de meu clã — seus olhos ficaram sombrios e por um momento eu tive medo dele. — Vamos para o próximo exercício.
Takeo se afastou de mim, suas costas pareciam tensas e por um instante desejei não ter tocado nesse assunto com ele. Mestre Fujimoto o olhava partir, havia saído de uma das várias portas daquela varanda, seus olhos se voltaram para mim e ele me dirigiu um sorriso triste e acenando um não, como se disse 'não ligue para ele'. Olhei novamente para o rapaz e ele me aguardava mais a frente. Levantei-me e o segui, eu já sabia para onde ele iria.
Quando percebeu que eu o seguia, Takeo voltou a andar, seguindo na direção da campina que ele me treinava, fosse meditação ou defesa pessoal. Não havia evoluído muito em nenhum dos dois quesitos, mas me esforçava.
— É questão de tempo, logo estará acostumada — Takeo me disse em um dos dias que eu não consegui me desligar.
Meu esforço e força de vontade eram grandes, porém cada falha me desmotivava um pouco, contudo eu era consciente e sabia que não podia ser boa em tudo, afinal eu não era um robô.
— Desculpe minha inconstância — ele disse quando nos acomodamos de frente um pro outro, em posição de lótus, para continuar com o treinamento de meditação — Eu ainda tenho certa dificuldade em falar sobre meu passado, mesmo após tanto tempo.
— Eu quem tenho que me desculpar por ser intrometida — eu disse com um peso imenso na consciência, ele respeitava a minha dor em relação ao que havia acontecido com Inu-Yasha, porque não posso respeitar a dele? — Não devia ter tocado no assunto.
— Se tem curiosidade, deve perguntar — ele disse me olhando brevemente e eu o olhava nos olhos — Um dia eu lhe contarei, mas não hoje.
— Se assim você quiser — eu disse lhe dirigindo um sorriso sincero e ele assentiu — Bom o que devo fazer?
Takeo me explicou o que e como fazer e passamos a tarde toda ali, apenas exercitando a mente e afastando a dor que ambos sentíamos no momento.
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