Fleurir — Capítulo 5.

Passagem

"O tempo não comprou passagem de volta. Tenho lembranças e não saudades".

— Mário Lago.

Takeo me explicou o que e como fazer e passamos a tarde toda ali, apenas exercitando a mente e afastando a dor que ambos sentíamos no momento.

XXX

Saí do meio da floresta como sempre, os guardas do castelo nem mesmo se importavam mais com minha aproximação, algumas vezes eles me cumprimentavam com um aceno de cabeça e eu prontamente retribuía. O castelo do Oeste já era meu lar há um ano. Eu passava a semana no templo com Takeo e mestre Fujimoto e os finais de semana aqui, com Rin.

Passei pelos portões e segui em direção à cozinha, eles provavelmente estariam tomando café da manhã naquele horário. Algumas das criadas já eram minhas amigas, claro, as que aceitavam a aproximação humana, o que não eram muitas. Soltei meu cabelo, colocando a fita no bolso da calça. Eu sentia falta das minhas roupas, eram mais práticas, porém não podia reclamar, havia conseguido alguns kimonos e mais roupas tradicionais de sacerdotisa com Takeo.

Entrei na cozinha e como deduzi eles estavam ali, se alimentando. Sesshoumaru estava sentado na ponta e Rin ao seu lado, Jaken estava do outro lado. Havia outros youkais ali, sabia que faziam parte da guarda de Sesshoumaru, porém eu não era muito íntima deles, apenas trocávamos palavras quando necessário. Quando a pequena me viu entrando no cômodo, me dirigiu um sorriso — Bom dia Kah!

— Bom dia Rin — eu disse me sentando a mesa, o mais afastada, como sempre — Perdoe meu atraso.

— Fico feliz que conseguiu vir hoje — ela disse sorrindo e depois comendo, eu a imitei comendo também.

Sesshoumaru estava apenas sentado, seus olhos pousados em mim, mas eu não tinha nada a dizer. O Daí-Youkai ainda era uma incógnita para mim, mesmo ao longo desse um ano no castelo não trocávamos muitas palavras e quase não nos víamos, às vezes quando eu estava fora ele viajava e ficava semanas fora. Porém em alguns momentos dividimos o mesmo ambiente, às vezes era durante a noite quando ambos ficávamos a observar a lua, o que acontecia com certa frequência, como daquela primeira noite. Outras vezes foram na biblioteca, teve vezes também na cozinha…

Seja onde fosse, acabávamos entrando num consenso silencioso e apenas aproveitávamos o silêncio que um proporcionava ao outro. Não que o youkai fosse muito de conversar, porém houveram perguntas e respostas que foram obtidos em momentos a sós. Percebi que ele ainda me olhava e eu apenas o encarei também, queria saber o que passava na cabeça dele... E apenas talvez ele desejasse o mesmo.

— Vamos fazer o que hoje Kagome? — Rin me perguntou ansiosa, ela parecia alegre por ter alguém com quem brincar. Eu enfim encerrei aquela troca de olhares me voltando para a criança ao lado dele.

— Estou pensando em ir ao vilarejo, ter notícias de Shippou — eu disse enquanto bebia o chá e a olhava — ainda não o vi desde que retornei.

— É, o treinamento dele era mesmo longo — ela comentou pensativa e deu de ombros, se levantando em seguida — Vou com você, irei apenas me arrumar.

Saiu em seguida, assim como Jaken e os outros, ficando apenas Sesshoumaru e eu a mesa. Queria que as coisas fossem diferentes entre nós e que houvesse alguma interação maior do que troca de olhares ocasionais, porém ele ainda era Sesshoumaru e eu Kagome, uma humana insolente. Levantei-me e segui na direção da saída — Espero que não se importe de eu levá-la ao vilarejo.

Eu tinha que dar um parecer a ele no fim das contas, ela era responsabilidade dele ainda.

— Desde que leve Arurun — ele disse me olhando de forma apática. Os dourados pareciam diferentes para mim, por um momento desejei que ele me olhasse mais intensamente e me repreendi por isso.

— Por mim, se te deixar mais tranquilo — eu disse dando de ombros e o dando as costas, eu precisava me trocar também e eu sabia que ele não diria mais nada, era o jeito dele afinal.

Segui no corredor em direção aos quartos, eu tinha um quarto próprio agora, ao lado do de Rin, o que me deixava ao lado de Sesshoumaru também. Era uma area reservada, não era qualquer um que tinha acesso ali, quando descobri isso eu protestei e tudo o que Sesshoumaru me disse foi, 'já está feito'. Eu não queria ter tratamento diferenciado, mas ele parecia não dar importância ao o que eu queria.

Abri a porta e entrei, meu quarto era simples, não tinha nada demais, apenas minha cama e algumas roupas. Eu gostava do acesso à varanda, porque dava para aquele pátio reservado, a diferença era que agora Sesshoumaru e eu ficamos mais próximos, por causa dos quartos um do lado do outro, e por vezes ficamos sentados quase lado a lado na varanda, pensando em coisas que nem Kami desconfiava, no fundo eu o achava solitário demais. Tirei a roupa que estava vestindo, pegando um kimono vinho com detalhes branco. O vesti da melhor maneira que consegui e amarrei meu obi, eu não estava tão acostumada assim com uma roupa mais formal. Deixei os cabelos soltos, eles estavam na altura do meu quadril, muito maiores do que usei algum dia.

— Kagome? — Rin perguntou do outro lado da porta e eu apenas mandei que entrasse — Que linda! — ela disse quando me viu. Eu me senti envergonhada e coloquei uma mecha de meu cabelo atrás da orelha.

— Obrigada — eu sorri e segui na direção dela — Vamos, temos que pegar Arurun.

Rin não perguntou por que, no fundo acredito que ela já soubesse que havia sido imposto por Sesshoumaru. Porém não precisamos andar muito, Jaken nos aguardava com o youkai na porta. Ele nada disse, apenas entregou as rédeas a mim e saiu, fiquei observando o ser verde andando para longe e dei de ombros, melhor para nós.

— Vamos Arurun, para o vilarejo — eu disse quando ele se levantou comigo e Rin devidamente acomodadas.

O youkai passou a andar e depois a voar, como ele sempre fazia. Rin a minha frente parecia alegre em sair um pouco, ela sempre ficava no castelo e nunca podia ir além das dependências dele. Então sempre que eu podia eu a levava para sair, Sesshoumaru nunca se importou, porém eu sempre o avisava.

— É bom sair às vezes — ela disse para mim quando já tínhamos nos afastado — Não é que eu não goste de ficar lá... — ela me olhou por cima do ombro — É só que eu me sinto presa.

— Eu te entendo — eu disse pensando no passado, quando Inu-Yasha não me dava um minuto de folga nas buscas da Joia, eu me sentia presa também. Nem em minha era eu tinha descanso.

— Será que Shippou estará lá? — Rin perguntou quando nos aproximávamos do vilarejo.

— Eu espero que sim — eu disse dando um sorriso ansioso, eu queria muito ver Shippou de novo.

O vilarejo já estava a nossa frente. Arurun começava a baixar quando Inu-Yasha saiu da cabana de vovó Kaede, sua esposa o seguiu. Ao o que parece ela vivia grudada nele. Rin seguiu em direção à cabana enquanto eu deixava Arurun num lugar mais sossegado.

— Prometo não demorar muito, logo vamos embora tá bom? — o youkai duas cabeças apenas me olhou e fez um barulho como se concordasse com o que eu havia falado.

O casal ainda me aguardava na porta, porém não precisei me dirigir a eles, senti minha cintura ser envolvida num abraço desajeitado. — Não acreditei quando me disseram! — Shippou disse ainda contra meu corpo e depois me olhou, os olhos verdes estavam avermelhados.

— Meu menino — eu disse me abaixando na altura dele e o envolvendo em meus braços. Eu sentia muita falta de Shippou e percebi naquele momento que até doía.

— Vamos para o lago — Rin disse alegre atrás de nós — Podemos conversar melhor lá.

Shippou e eu concordamos e seguimos para onde Rin havia sugerido. Acenei de longe para o casal e para ser sincera eu não queria conversar com eles e perceber o quanto eu havia errado com aquele retorno. Shippou segurou em uma de minhas mãos e Rin na outra e logo nos sentamos numa rodinha de três pessoas.

— Como se sentiu em relação... Você sabe? — Shippou desviou os olhos com pesar.

— Estaria mentindo se dissesse que não sofri — eu disse sendo sincera com ele — porém preciso conviver com minha escolha agora e tentar seguir em frente…

— Eu não falo mais com ele, fiquei com tanto ódio — Shippou me fez prestar mais atenção nele depois dessas palavras. Ele havia crescido nesses três anos, o cabelo dele também estava maior e a feição dele não era mais tão infantil, trazia um traço de agressividade que não existia antes — Ele te amava, como pôde trazê-la tão rápido?

— Já foi Shippou — eu disse acariciando a cabeça dele e ele me dirigiu aquele sorriso que eu estava habituada — Me conte sobre seu treinamento.

Shippou me contou como era o treinamento, o que faziam e quanto tempo ele ficava fora. Eram por temporadas, porém dentro de um ano ele se formaria e poderia ficar aqui de novo. — Está morando com Sesshoumaru?

— Moro no castelo dele — eu o corrijo sutilmente — Não podia continuar aqui depois de tudo...

— Será que posso visita-la da vez em quando? — ele perguntou tímido e eu não sabia o que responder.

— Claro que pode, senhor Sesshoumaru não é tão mal — Rin disse dando um sorriso — vou deixá-lo avisado e ele não achará ruim.

— Se Rin está dizendo, então pode sim, sempre que quiser — eu disse o puxando para meu colo e o abraçando. Porém avisaria Sesshoumaru eu mesma, acho que ele não se oporia — Eu preciso levar Rin de volta, já está tarde…

— Por favor, só mais um pouco — Rin disse me implorando assim como Shippou — Ainda nem vi as filhas de Sango, por favor.

— Tudo bem Rin, mas não podemos demorar se não Sesshoumaru aparece aqui — eu disse a olhando séria, ela sabia como ele era super-protetor. — Vão indo na frente que vou falar com Arurun, ele pode se irritar.

— Certo — e ambos correram para a cabana de Sango. Eu os observei um pouco, olhei também para o céu, parecia que ia chover e me levantei, seguindo na direção do youkai. Porém não fui muito longe. Na beira da floresta alguém me surpreendeu me arrastando para o meio dela, dei um leve grito de susto.

— Sou eu — a voz disse em meu ouvido e eu fechei a cara, o que ele queria? — Preciso conversar com você, explicar as coisas.

— Não há nada para ser explicado Inu-Yasha — eu disse forçando os braços dele que me abraçavam e dando dois passos para longe dele, os olhos cor de mel estavam irritados — Por favor, não estrague nossa amizade.

— Não quero só a sua amizade Kagome — ele disse se aproximando e raspando os dedos em minha bochecha, porém eu me afastei — Eu ainda te amo, não sabe minha alegria quando te vi, poderia enfim ser minha.

— Mas isso agora não é mais possível — eu disse o olhando normal, não tinha mais nada o que ser sentido, nem mesmo amargura. — Você seguiu sua vida e eu a minha — fui surpreendida quando levantei o olhar e ele avançava sobre mim me derrubando no chão — Sai de cima de mim agora!

— Não — ele disse passando o nariz por meu pescoço e eu deixei a energia espiritual circundar meu corpo o afastando. Levantei-me o mais irritada que podia, porque eu estava mesmo — Está louca?

— Nunca mais faça isso — eu disse o olhando mais agressiva possível, eu queimava de raiva — Eu não quero mais você, e acho que nem sua amizade mais…

Eu dei as costas e comecei a andar, porém senti a mão dele segurando meu braço — Kagome... — o queimei de novo e não o deixei falar. Arurun me olhou em alerta, sabia o que ele estava sentindo. Minha energia espiritual alterada.

— Vem — eu peguei as rédeas dele, e ele me seguiu. Se eu pudesse estaria espumando pela boca. Segui na direção da casa de Sango, mas não fiquei mais do que cinco minutos — Eu preciso ir, Rin tem horário a cumprir e parece que vai chover.

Despedi-me deles e logo Arurun partiu. Eu não olhei para trás quando fui, mesmo que me sentisse observada. Rin também não falou comigo, percebeu que algo havia acontecido. Quando chegamos ao castelo às primeiras gotas de chuva nos acompanhou, eu deixei Rin seguir na direção da cozinha e fui para o meu quarto, não tinha fome. A raiva me consumia, como ele podia agir assim quando ele quem seguiu em frente?! Abri a porta da varanda e me dirigi ao meio do jardim, pouco me importando para a chuva que caia me sentando ali.

Eu sentia a raiva como pequenos choques elétricos pelo meu corpo, eu havia sido obrigada a seguir em frente e agora ele age como quer. Eu sentia as lágrimas quentes contra a água fria da chuva. Fiz a posição de lótus e fechei meus olhos, eu precisava me controlar e eu o faria, Inu-Yasha não valia a pena. Eu senti a presença dele antes mesmo de abrir os olhos, quando o fiz ele estava ali, na varanda, me observando.

Os ambares estavam sérios e eu não sabia o que pensar. Sesshoumaru não parecia ter vindo do quarto dele, e sim do meu. Eu suspirei e me levantei seguindo na direção dele. — Quer falar comigo?

— Rin disse que tinha um pedido a fazer — ele me olhou e eu sustentei o olhar, eu estava encharcada agora, mas não me importava.

— Ah, isso… — eu disse me lembrando da promessa que fiz a mim mesma de questiona-lo sobre Shippou — Queria saber se autoriza Shippou de vir me ver aqui — eu acabei dando um suspiro irritado — sabe, agradeceria se deixasse, não pretendo ficar voltando ao vilarejo.

— Isso tem a ver com o cheiro de Inu-Yasha em todo seu corpo? — ele me olhou e por um segundo acreditei ter visto algo além da apatia de sempre — Se deseja que o moleque venha, tudo bem.

— Obrigada — eu disse quando o choque por suas palavras havia passado. Sesshoumaru ainda estava ali, como se esperasse uma explicação e aquilo me era novidade, ele não se importava no fim — Sobre Inu-Yasha existiu um contratempo que não acreditava ainda ser possível.

Não queria mais dizer nada, eu sentia a raiva querendo ressuscitar. Sesshoumaru me olhou e colocou uma mecha de meu cabelo atrás da orelha, levantando meu rosto me obrigando a olha-lo — Apenas não o dê esperanças se elas não existem — os ambares me fitavam como se pudesse ver minha alma, por um momento senti que podiam mesmo.

Levei minhas mãos até a dele, a retirando de meu rosto — Ele tem um pensamento deturpado quanto ao meu retorno, e acredito que queira que eu seja sua amante — os ambares deram uma alterada assim como a energia dele, eu percebi que ainda segurava a mão dele, a soltando — Eu estou cansada, amanhã cedo estou no templo. Boa noite Sesshoumaru — eu disse passando por ele e entrando em meu quarto.

— Boa noite, Kagome — ele disse quando eu fechei a porta da varanda e eu ouvia seus passos seguindo para o dele.

Notas finais
Como perceberam tem um pulo de um ano ai ♥ Espero que tenham gostado ♥ Bjos baby *m*