Fleurir
7 Sacerdotisa
Notas iniciais
Fleurir — Capítulo 7
Sacerdotisa
"Em toda mulher que ama há uma sacerdotisa do passado, piedosa zeladora de um afeto cujo ídolo desapareceu".
— H. F. Amiel.
— Boa noite, Kagome — ele disse me olhando intensamente e eu me senti vermelha no mesmo instante. Balancei a cabeça como se desejasse o mesmo e me dirigi para o meu quarto o mais rápido que consegui sem correr, sonhando que fazia amor com Sesshoumaru a noite toda.
XXX
A claridade invadia o quarto e eu continuava sentada na cama, olhando para o nada ainda, eu acordava cedo, independente se não estava no templo, havia me habituado a essa rotina. Eu ainda sentia os estímulos em meu corpo do sonho que eu havia tipo, Sesshoumaru transando comigo... Senti meu rosto esquentar quando lembrei, eu não podia deixar com que minha mente fantasiasse daquela forma, aquilo era algo sério, porque tinha proporções diretas em meu coração e eu não queria sofrer de novo... Ainda mais quando conhecia o temperamento de Sesshoumaru.
Acho que não poderei mais ficar no jardim quando estiver aqui, porém era quase como nosso segredo. Já havia um ano que eu morava no castelo e sempre que Sesshoumaru estava no castelo, nos encontrávamos no jardim. Havia dias que apenas ficávamos em nossos cantos pensando coisas que só diziam respeito a nós, tinha dias que sentávamos próximos na varanda, principalmente quando chovia. Houveram vezes também que conversamos, esses dias eram raros como ontem, mas nunca havia acontecido o que aconteceu ontem.
Quando conversávamos, era basicamente sobre Rin, meu treinamento e ele me perguntou uma vez sobre minha era, e eu contei. Também fiz minhas perguntas, basicamente eram sobre o Reino, como funcionava a divisão de terras e coisas do gênero. Eu não sentia firmeza em perguntá-lo sobre a vida pessoal… Até que chegou ontem a noite… Aquele beijo não era qualquer beijo, claro, digo por minha parte, porque eu me entreguei a ele, de uma maneira que nunca havia feito antes… Talvez porque agora, eu não pensava mais estar traindo Inu-Yasha ao beijar outra pessoa.
Toquei meus lábios enquanto me recordava da noite anterior, suspirei cansada. Eu estava dando mais importância do que realmente merecia, porque eu tinha certeza de que quando saísse por aquela porta e o visse, ele agiria como se nada tivesse acontecido e eu também deveria fazer o mesmo, sem pensar demais na situação. Meu estômago roncou, eu precisava comer, como não havia me alimentado ontem a noite, acordei morta de fome.
Levantei da cama, arrumando-a em seguida. Coloquei a única roupa de minha era que eu tinha, por ficar mais à vontade nela. A saia e a camiseta, coloquei também meus sapatos, a tempos não os usava. Penteei o cabelo e o prendi num rabo de cavalo alto, eu deveria ter trazido algumas coisas quando vim, mas agora não podia reclamar mais. Saí do quarto e segui para a cozinha, alguns me olhavam estranho, afinal usava as roupas estranhas de novo. Quando cheguei a cozinha o silêncio reinou.
— Oh, você chegou agora? — Rin perguntou me olhando — Essas roupas, são do seu tempo né?
— Cheguei ontem a noite — eu disse me sentando, cruzando o olhar com Sesshoumaru rapidamente e depois olhei para a criança ao lado dele — Sim, senti saudades de casa…
— Você tinha irmãos? — Rin perguntou interessada, eu quase nunca falava sobre minha família.
— Um irmão, Souta — eu disse me lembrando dele, a lembrança não era mais tão fácil assim e aquilo me deixava angustiada porque eu sabia que um dia não lembraria mais de seus rostos.
Os outros youkais continuavam a me fitar com estranheza, já estava habituada com aquilo depois de tanto tempo, continuei me alimentando assim como os outros, Rin ainda estava curiosa sobre minha era e Sesshoumaru… Bem, ele continuava o mesmo, como eu pensava, agiria como se nada tivesse acontecido.
— Senhorita Kagome — eu olhei na direção da porta, um dos guardas estava ali, parecia envergonhado em nos interromper — Estão requisitando a senhorita no portão.
Eu franzi o cenho, como assim? — Sabe quem é? — eu perguntei me lembrando do que Sesshoumaru havia me contado ontem.
— Disse que era Takeo — o guarda respondeu simples e eu assenti.
— Peça pra ele me aguardar na entrada, já estou indo — eu disse me virando para meu lugar. Sesshoumaru estava com uma expressão séria, mas não devia me importar com isso.
— Ele é seu namorado, Kagome? — Rin perguntou do nada, fazendo todos os youkais a mesa me olharem, inclusive Sesshoumaru.
— Meu treinador Rin — eu disse me sentindo envergonhada, ainda bem que já estava terminando de comer e por isso me levantei — Com licença.
Eu saí da cozinha, me dirigindo até onde Takeo me aguardava. O youkai estava ali, parado com os braços cruzados, quando me viu acenou. — Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu — ele disse me olhando sério — Preciso que venha comigo, um senhor quer uma purificação no castelo dele e requeriu a nós, será um treinamento prático para você — Takeo me olhou melhor e franziu o cenho — Que merda é essa que você está vestindo?
— Roupas de minha era — eu respondi revirando os olhos — Venha até meu quarto para eu me trocar.
Takeo deu de ombros e me seguiu, no caminho cruzamos com Rin e Sesshoumaru que nos olharam enquanto passávamos, Rin queria perguntar algo mas se conteve, sabia que não escaparia. Takeo parou na porta do quarto quando eu entrei e eu estranhei aquilo.
— O que foi? — eu perguntei enquanto segurava o kimono nas mãos.
— Nem morto vou entrar aí sozinho com você — ele recuou e apoiou-se na parede atrás dele — Seu corpo está infestado com o cheiro do Lorde, acha que quero por minha cabeça a prova?
Eu me senti envergonhada — Dá pra sentir? — eu perguntei cheirando meu ombro.
— Não muito, mas eu já estou mais do que acostumado ao seu cheiro — Takeo me olhou e sorriu safado, eu revirei os olhos — Não vou perguntar nada.
— Fica aí então — eu disse fechando a porta na cara dele e me trocando em seguida, coloquei minha roupa de sacerdotisa, prendi o cabelo e calcei a geta de madeira — Vamos então, é muito longe?
— Não muito — Takeo disse seguindo no corredor comigo — É um senhor Feudal, Kurama Yokoyama é seu nome.
— Nunca ouvi falar — eu disse dando um sorriso. Saímos do castelo e quando nos afastamos o bastante, Takeo me pegou no colo — O que foi?
— Vamos correr, podemos voltar andando — ele disse correndo muito rápido. Eu gostava de correr com Takeo, ver as coisas passando praticamente como um borrão — Sobre aquilo que você viu outra noite…
— Seu segredo está seguro comigo — eu disse lhe dirigindo um sorriso — Não é da minha conta primeiramente…
— Obrigado — ele disse sorrindo. O castelo não era tão longe, mas era coisa de duas horas andando se você fosse humano — Ele pediu por uma purificação depois que encontraram um youkai escondido no castelo.
— Como não viram ele entrando? — eu perguntei pensativa. Já estávamos andando, o castelo a nossa frente — Dá pra sentir…
— São humanos comuns, Kagome — Takeo disse me olhando de soslaio, as mãos nas mangas do kimono — não tem tanta percepção assim.
— Certo — eu disse parando em frente ao portão. Takeo conversou com o guarda e entramos.
Era um castelo enorme, bem esbanjador como a maioria dos senhores eram. Gostavam de mostrar poder com suas residências, essa em questão era de dois andares, porém eu sabia que pelo futuro elas chegariam ter até sete andares. Havia um rapaz nos aguardando na entrada, ele era muito bonito. Cabelos negros e olhos azuis muito claros, mais até que os meus.
— Sejam bem vindos, meu nome é Ritsu e eu os levarei até o senhor Yokoyama — o rapaz disse nos guiando para dentro da casa. Nós o seguimos de perto, porém não tinha como não notar a beleza do lugar — Senhor Yokoyama, a sacerdotisa e o sacerdote estão aqui.
— Os deixem entrar — a voz de um homem respondeu, tinha um timbre grave e sexy. Ele abriu mais a porta e entramos. Era um escritório, havia uma mesa e vários pergaminhos sobre ela, a sala era repleta de esculturas e pinturas do estilo sumi-ê estavam espalhados por ali — Sejam bem vindos.
Takeo e eu fizemos uma reverência em respeito e ele começou a explicar o que tinha acontecido e porque nós queria ali. Segundo ele, o youkai havia deixado uma grande quantidade de energia maligna ali e tudo ao redor estava morrendo, pessoas ficando doentes e ele se sentia amaldiçoado.
— Por isso preciso que façam uma purificação na casa e em mim — ele disse nos olhando intensamente. O senhor feudal era um rapaz bonito, devia estar na casa do 30 anos, possuía olhos negros e cabelos ruivos, muito bonito.
— Podemos ir para uma área aberta? — Takeo perguntou o olhando — Preciso ver o quanto a energia maligna cerca aqui e o local onde vocês o encontraram.
— Ele estava do lado de fora, embaixo da varanda — Yokoyama se levantou e saiu do cômodo, os seguimos, assim como o tal de Ritsu — Estava aqui — ele disse quando saímos para um quintal grande e bem cuidado — Tentou atacar uma das criadas quando ela passava distraída por aqui.
Takeo me cutucou e eu entendi ao o que ele se referia, uma massa de miasma infectava aquela área, como uma neblina escura. O local embaixo da varanda era mais perceptível, porque era onde ele ficava mais. Takeo deu dois passos à frente, descendo a escadinha em seguida. Eu senti sua energia se alterando e ele parecia dançar à nossa frente. Os humanos prestavam tanta atenção quanto eu. A energia azul bebê o envolveu e a maligna começava a se dissipar aos poucos, ela era resistente.
Takeo fazia movimentos com as mãos, e andava de um lado para o outro, entoando cânticos e balançando o rosário de vez em quando. Eu já podia respirar melhor agora e o ambiente ficava cada vez mais claro. Os humanos olhavam admirados assim como eu, já havia visto aquilo, mas não naquela proporção.
— Você percebe como está mais claro agora? — escutei o senhor feudal perguntar baixinho ao rapaz ao seu lado.
— Olhando agora, parece até que era noite — o outro respondeu igualmente baixo.
Takeo encerrou a dança e se aproximou de Ritsu — Pode me levar até o outro lado para que eu faça o mesmo? — o rapaz assentiu e ele se voltou para mim — Faça a purificação do senhor feudal, já aprendeu a fazer.
Eu assenti e me virei para o senhor feudal que me olhava com interesse. Eu me senti envergonhada — Venha, preciso que o senhor se sente, quer que eu pegue algo?
— Me sentar no chão uma vez não vai me matar — ele disse se sentando no chão da varanda. E me olhando — Eu preciso falar, você é muito bonita.
— Obrigada — eu disse sem graça. Pedi para que ele fizesse posição de meditação ou o melhor que ele conseguisse — Agora preciso que feche os olhos e se concentre.
— Posso me concentrar na sua beleza? — ele me perguntou abrindo um dos olhos para me olhar, aquilo iria demorar.
— Se assim você achar melhor — eu disse dando de ombros, aquilo estava incômodo, estava claro que ele estava dando em cima de mim. Eu sentia a energia de Takeo, ele havia começado a purificação do outro lado — Agora fique quieto.
Eu coloquei as mãos nos ombros dele, deixando que minha energia o envolvesse, limpando tudo o que havia de ruim. Eu entoava um cântico específico que mestre Fujimoto havia me ensinado e eu sentia minha energia sendo canalizada através dele, o envolvendo. No cântico havia palavras de bençãos e prosperidade. Eu terminei de cantar e fiz minha energia recuar, havia terminado minha parte.
— Terminei — eu disse quando puxava minhas mãos, mas ele segurou uma delas — O que foi?
— Só queria saber se eram tão macias quanto pareciam — ele disse acariciando a pele de minha mão. Eu a puxei gentilmente de sua mão — Você já foi prometida a alguém? — a pergunta tinha um interesse verdadeiro.
— Terminou Kagome? — Takeo perguntou quando se aproximou, olhando para nós dois com desconfiança — Quer ajuda?
— Já terminei — eu disse me aproximando dele — Se já quiser ir, podemos.
— Fiquem para o almoço — Yokoyama disse enquanto era ajudado por Ritsu a levantar — Em instantes ele será servido.
— Agradecemos a oferta, mas temos outros serviços depois daqui — Takeo disse gentilmente dando um sorriso para reforçar suas palavras.
— Uma pena, mas o dever chama, não é mesmo? — Ritsu disse olhando para o senhor desconfiado — Eu os guiarei até a saída.
— Esperem — Yokoyama disse se dirigindo para dentro do castelo de novo, Takeo e eu trocamos olhares. Logo ele voltou com algumas coisas em mãos — Aqui está a quantia pelo serviço — entregou a trouxinha a Takeo, se voltando para mim em seguida — Fique com este pergaminho e com esse presente, assim se lembrará de mim sempre — ele me entregou uma caixa muito bonita, toda adornada.
— Agradeço mas não posso aceitar — eu disse estendendo a caixa de volta e ele recusou.
— Volte quando sair dessa vida — ele me olhou sedutoramente — Se eu ainda estiver disponível, te farei minha senhora.
Eu revirei os olhos e apenas sorri. Ele não aceitou a caixa de volta e no fim acabei ficando com ela. Quando fui me despedir, fazendo a leve reverência em respeito, ele me abraçou, eu fiquei surpresa, mas me afastei.
— Volte sempre que quiser, as portas estarão abertas para você, Kagome — ele disse fazendo um aceno com a mão.
Ritsu nos olhava surpreso e eu estava morrendo de vergonha e raiva, como ele ousa? Quem ele acha que é? Dei as costas e comecei a andar, Takeo veio logo em seguida, aposto que depois de se despedir. Eu sentia a raiva emanar de mim como ondas e Takeo ao meu lado estava morrendo de rir.
— Acho que você arranjou um pretendente — Takeo disse em meio as risadas e eu quis bater nele — Porque não pensa na proposta dele?
— Porque não pensa você? — eu perguntei irritada — Eu não estou interessada.
— Eu só estava brincando Kagome — Takeo disse como se pedisse desculpas.
Fomos andando até o Oeste, Takeo me deixaria onde me pegou, segundo ele. Eu ainda estava bufando de raiva, a caixa em minha mão. Eu estava curiosa para saber o que era, mas só abriria quando estivesse sozinha, Takeo poderia entender errado o motivo. Depois de duas horas caminhando eu já avistava os portões, me despedi de Takeo e segui para enfim entrar, porém...
— Senhor Sesshoumaru solicita que a senhorita se dirija ao escritório dele — um dos guardas me disse assim que me viu.
— Agora?
— Ele foi bem claro, assim que a senhorita chegasse — o guarda respondeu sério e eu assenti.
Eu iria, ele saberia se eu não fosse até lá. Segurei a caixa melhor nos braços e me dirigi até o escritório. Eu não ia muito ali, apenas quando queria me distrair. Havia muitos livros de vários tipos e muitos deles eram esclarecedores. Bati na porta e ele logo me mandou entrar. Os âmbares estavam frios, Sesshoumaru estava muito sério e uma aura levemente assassina o cercava.
— O que foi? — eu perguntei quando fechei a porta após entrar, os olhos dele focaram na caixa que eu levava e depois voltou para o meu rosto.
— De quem é esse cheiro? — ele perguntou parecendo levemente feroz para mim. Sesshoumaru se levantou de onde estava sentado e contornou a mesa.
— Que cheiro? — eu perguntei confusa. Os âmbares me fitaram com desdém.
— Esse que está em toda sua roupa — ele disse se aproximando e cheirando o ar — E está nessa caixa.
— Deve ser do senhor feudal — eu disse dando de ombros — fomos fazer uma limpeza lá e ele gostou de mim, mas não conhece limites — porque estava falando aquilo para ele? Eu não sei.
— Qual? — ele perguntou me olhando sério, eu sentia seu youki alterado, me afetava levemente.
— Isso importa? — eu perguntei o olhando irritada — Não pense que manda na minha vida apenas porque me deu abrigo — eu me afastei na direção da porta — estou cansada disso!
Não cheguei a abrir a porta, porque Sesshoumaru me impediu. Ele segurou minha yukata, me puxando levemente para trás, minhas costas bateram contra seu peito e eu deixei a caixa cair, devida a surpresa, mostrando a quantidade absurda de jóias que nela continha. Seus braços me envolveram e eu senti seu nariz em meu cabelo de novo.
— Sesshoumaru… — eu disse segurando um dos braços dele. Eu não sabia o que pensar, não sabia o que ele queria. Uma hora ele finge que não liga, em outra parece morrer de ciúmes... Eu não sabia o que fazer.
Ele me fez olhá-lo, os âmbares estavam mais calmos agora. — Não quis ofender — ele disse depois de um tempo. Ele me soltou, se afastando.
— Certo — eu disse recolhendo as coisas pra dentro da caixa de novo — Irei me retirar agora — eu disse seguindo na direção da porta e saindo. Deixando um Sesshoumaru perdido em pensamentos para trás.
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