Fleurir
12 Ciúmes
Notas iniciais
Fleurir — Capítulo 12
Ciúmes
"A suspeita e o ciúme são como venenos empregados na medicina. Se pouco, salva. Se muito, mata.".
— Antonio Perez
Aquele pedido de Takeo era sem fundamento, afinal, Sesshoumaru já havia decidido que queria Kagome para si, como sua parceira e se ela o quisesse, assim seria. Para todo o sempre, ou até quando lhes fosse permitido.
XXX
— Vou com você.
Me virei, quando Takeo falou comigo. Ele estava com roupas limpas e pareciam novas, ele passava um ar orgulhoso ao usá-las. Talvez fosse um presente de Yukio. Eu já estava partindo, era sexta-feira e eu tinha um pouco de pressa ao voltar, precisava conversar seriamente com Sesshoumaru… Sobre nosso relacionamento, se é que eu poderia me dirigir assim a nosso envolvimento.
— Não precisa Keo, ainda está claro — eu disse lhe dirigindo um sorriso. Eu não estava com a roupa de sacerdotisa, eu havia vestido o kimono mais bonito que eu possuía e estava com o cabelo bem arrumado.
— Vou assim mesmo — ele me olhou sério. Depois de tanto tempo de convivência, eu sabia que a palavra final era sempre a de Takeo. Eu não tinha muito o que fazer, a não ser aceitar.
Ele me seguiu, quando voltei a caminhar. Não era um caminho muito longo, mas era pela floresta e de vez em quando, cruzava com algum youkai por ali. Eu sempre levava meu arco e flechas, para minha proteção. No fundo, sentia falta do arco do monte Azusa que havia ficado em minha era. Aquele que eu havia ganhado era muito bom, mas não tão bom quanto.
— Bonita roupa — eu disse depois de um tempo que caminhávamos em silêncio.
— Obrigado — ele sorriu orgulhoso e passou a mão pelo peito, mostrando ainda mais a peça — Foi um presente — ele sorriu de forma carinhosa e como pensei, só podia ser de Yukio.
— Combina com seu cabelo, — eu disse espalhando os fios azuis com a mão e ele me olhou emburrado — fica num bonito contraste.
O kimono de Yukio era azul bem escuro, e contrastava com os tons de branco dos detalhes, era muito bonito. Ele me surpreendeu quando colocou uma mecha do meu cabelo atrás de minha orelha, era uma mecha teimosa.
— Você também está muito bonita — ele sorriu gentil e eu me senti envergonhada.
— Obrigada.
O kimono que eu usava era um dos que Sesshoumaru havia me dado, não que houvesse alguma intenção na época, era apenas porque não tinha roupas. Mas eu gostava muito daquele kimono, ele era muito parecido com o que ele usava, branco, com detalhes vermelhos e azuis.
Continuamos a caminhar e conversar sobre coisas banais e sem muita importância. Porém logo estava escuro, uma noite de lua cheia, como eu adorava. Os portões do castelo também estavam a frente, mas pela primeira vez em todo aquele tempo, eles estavam trancados.
— Te deixo aqui — Takeo disse atraindo minha atenção, ele já estava começando a andar na direção do templo — Te pego segunda pela manhã?
Eu assenti e me dirigi para o portão — Boa noite, poderia abrir para mim? — eu perguntei há um dos guardas, ele me olhou e acenou negativamente.
— Desculpe senhorita, sem exceções, ordens do Lorde — eu não o conhecia, deveria ser alguém novo. Eu já ia me desesperar quando Yatori apareceu.
— Boa noite senhorita Kagome — ele se aproximou do portão o destrancado para mim — Desculpe ele, começou essa semana e não sabe que a senhorita mora aqui.
— Não tem problema — eu disse passando pelo portão e ele o fechou novamente — Mas porque está fechado? — eu apontei para o portão de novo.
O youkai que eu não conhecia me respondeu — Está tendo um jantar ou reunião diplomática senhorita, por isso a segurança está reforçada.
— Compreendo.
Então havia pessoas aí, eu troquei o peso das pernas. Talvez eu devesse evitá-los por hora, irei para o meu quarto e amanhã converso com Sesshoumaru… Ele nem vai saber que eu cheguei.
— Agradeço pela informação meninos — eu lhes dirigi um sorriso e o outro guarda me olhou sem jeito — Até mais — e acenei com a mão, me dirigindo para a parte dos fundos do castelo.
Eu não sabia onde eles estavam, então entraria pela cozinha e depois seguiria para o quarto. Talvez eles estivessem no escritório ou na sala de visitas… Eu me senti levemente desanimada e boba, havia me arrumado só para vê-lo. Sorri com esse pensamento bobo, abri a porta da cozinha e ela estava agitada.
— Boa noite Megumi — eu disse quando a cozinheira me viu entrando.
— Boa noite menina Kagome — ela mexeu em uma panela e me olhou — As coisas hoje estão bem agitadas, consegue se virar?
— Sim, pode deixar — eu disse quando a vi sair da cozinha com uma grande quantidade de comida, assim como as outras servas.
Me servi com um pouco de comida, nada demais, um pouco de arroz, um peixe assado e aquela mistura gostosa que só ela fazia. Comi tranquilamente, as vendo passando de um lado para o outro. Eu acho que vim em um mal momento. Terminei de comer e me servi de uma boa dose de saquê, nunca estava à mostra e sempre que estava, eu bebia.
— Estou me retirando — eu disse seguindo para o corredor, que dava acesso interno ao castelo. Era um longo corredor com algumas portas, das quais eu nunca havia entrado, nem sabia dizer o que era.
— Senhorita Kagome… — Megumi me chamou mas continuei a andar.
Uma daquelas portas estava aberta, era a porta mais próxima da cozinha e havia vozes lá dentro. Coloquei aquela mecha teimosa atrás da orelha novamente e continuei a caminhar, sentindo a bebida se espalhando por meu sangue. Havia vários timbres masculinos, mas consegui identificar um feminino dentre eles. Eu precisava passar por ali para poder ir para a parte em que ficava nossos quartos, na área mais reservada do castelo, uma vez que o de hóspedes era mais afastado.
Eu deveria espiar dentro daquele cômodo?
Estava curiosa sobre o que seria, talvez algum tipo de sala de jantar, uma vez que as criadas pareciam se dirigir para lá, elas entraram e eu continuei a seguir, uma espiadinha enquanto passava na frente não me mataria. Diminui o passo e conforme fui avançando fui olhando a sala, era uma sala de jantar.
Estava repleta de youkais, mas parei de prestar a atenção quando o vi. Obviamente estava na cabeceira da mesa, mas havia uma mulher ao seu lado esquerdo, estava de frente para mim. Uma das mãos dela estava no peito dele, o rosto a centímetros do rosto de Sesshoumaru e ela sorria para ele, a mulher estava próxima demais. A cena para mim parecia acontecer em câmera lenta, e eu estava caminhando ainda. Uma raiva me atingiu e senti meu controle me escapar e a energia lilás fluir pelo corredor.
— Mas o que... — alguém comentou dentro da sala e um barulho alto fora ouvido da cozinha. Eu não estava nem aí, Sesshoumaru me olhou no mesmo instante, acredito que tenha o atingido também, mas nada me importava agora — Doeu!
Eu terminei de passar pelo cômodo avistando a parede novamente, eu estava irritada e mais ainda, comigo mesma. Havia me arrumado toda para que?
— Isso é uma sacerdotisa, Sesshoumaru?
Escutei a pergunta sendo feita de dentro do cômodo, como se flutuasse até mim. Apertei o punho e segui na direção dos quartos, desfazendo o penteado do meu cabelo no processo. Eu estava me sentindo traída e enganada, ele foi atrás de mim, me disse coisas que por um segundo, acreditei. Abri a porta do quarto e a fechei, trancando-a em seguida. Desamarrei meu kimono e terminei de soltar meu cabelo, ele me envolveu. Havia tomado banho antes de ir e o cheiro de perfume ainda estava em minha pele.
Sentia o saquê fluindo por meu corpo também, eu devia ter bebido mais. Coloquei a yukata de dormir que eu havia comprado no festival, estava calor mesmo. Eu estava me sentindo muito irritada ainda, e tudo o que eu menos queria agora era vê-lo. Por isso peguei minha aljava e arco, saindo pela porta da varanda. Não iria ficar ali hoje, por isso me embrenhei pelas árvores em direção a mata. Havia andado um pouco por ali e já sabia o quão grande aquele pedaço era.
Eu poderia ir para o templo novamente, mas do que adiantaria fugir? Eu morava aqui agora, independente de qualquer coisa, e não tinha para onde ir, por hora. Eu sentia a terra contra meus pés, estava descalça. A lua estava cheia e mesmo que as copas fossem densas, ela clareava o caminho para mim. Eu estava com muita raiva, e eu precisava extravasar. Peguei meu arco e me posicionei, controlei minha respiração e atirei. Observei a flecha viajando sem rumo e veloz, acertando uma árvore qualquer. Estava longe agora, mas eu sabia onde ela estava.
Eu comecei a treinar, na noite mesmo. Eu tentava reproduzir meu feito contra Naraku, acertar o alvo sem vê-lo. Mestre Fujimoto era expert nessa técnica e sempre ensinava-a aos seus discípulos. Maldita hora que contei a ele que havia feito uma vez, todavia eu já estava melhorando e mesmo que ainda não atingisse o alvo, eu já atravessava metade das coisas. Uma brisa leve agitou minha curta yukata, ela ficava na polpa da bunda e tinha mangas curtas. Enrolei meu cabelo e o joguei por cima do ombro, havia esquecido o prendedor.
Eu não sabia dizer que horas eram, só que eu já estava ali há muito tempo. Eu estava cansada espiritualmente, mas meu corpo não. Apoiei o arco no chão e me apoiei nele, eu sentia falta do meu outro arco porque ele era enorme e esse, bem, é um pouco maior do que meu primeiro arco. Minha aljava estava quase vazia, havia apenas duas flechas. As outras estavam espalhadas por ali, algumas pela metade nos troncos das árvores.
Minha mente vagou, sem minha permissão, para o que eu tentava a tanto custo esquecer. A cena na mesa de jantar. A bela youkai. Senti meu coração se apertar, ela é linda… E eu? Uma humana, sem muitos atributos e nada chamativa. Fechei os olhos tentando afastar a imagem dela da minha cabeça, mas foi em vão, eu via claramente em minha cabeça. Os fios vermelho fogo, os olhos verdes, pele caramelo, seios fartos, devia ter um belo corpo também, já que não consegui ver além dos seios, porque a mesa não deixava. Depois a imagem deles flutuou por minha mente.
Os rostos próximos, a mão no peito dele, parecia sorrir para ele, não consegui ver onde a mão dele estava e nem como a expressão dele estava… Será que sorria de volta? Minha raiva cresceu de novo, mas ela foi cedendo pra outro sentimento, amargura. Abri os olhos, eu sabia que em algum momento me machucaria, e mais, que em algum momento ele perceberia a burrada que estava fazendo, porque se envolver com uma humana quando se pode ter qualquer youkai? Eu me sentei, a grama fazendo cócegas em minhas pernas nuas.
Olhei para cima, avistando o que consegui da lua, estava no meio do céu. Meia-noite. Estava a tempo demais aqui, seria seguro voltar? Eles poderiam estar no quarto dele… Suspirei, não era algo de minha conta no fim. Uma sensação me atingiu antes que pudesse prestar muita atenção, observada, era assim que me sentia. Com velocidade me posicionei ajoelhada, com uma das pernas como apoio, armei meu arco e atirei onde eu sabia que havia alguém, vi a flecha viajar velozmente e a pessoa se mover rapidamente para longe da flecha, se escondendo atrás das árvores.
Armei novamente meu arco e antecipei a movimentação da pessoa, atirando novamente, porém ele era muito rápido e conseguiu se afastar, subindo em uma árvore mas eu sabia que havia o acertado levemente. Estiquei a mão para pegar mais uma flecha, mas foi em vão, elas haviam acabado. Me concentrei e estava prestes a expandir minha energia espiritual quando ele se pronunciou, fazendo com que eu parasse — Sou eu.
Observei Sesshoumaru descer a minha frente, um leve filete de sangue escorria de sua bochecha. Ele parecia zangado porque eu havia o atacado, mas eu não disse nada, apenas o olhei impassível. Ele parecia estar com a mesma roupa de antes, talvez tivesse apenas ido para o quarto agora. Refreei meus pensamentos, aquilo não me dizia respeito. Mudei minha posição, ficando de pé, ainda o olhando sem mostrar nenhum sentimento, o arco em minha mão.
— O que você quer? — perguntei quando ficamos ali, apenas nos olhando como dois idiotas que nada diziam.
— Esse Sesshoumaru estava aguardando o seu retorno há um tempo, — ele deu um passo para mais perto e eu o olhei, advertindo-o com o olhar — mas você estava demorando.
— Não preciso de babá — eu disse irritada. Ele me olhou confuso, claro que ele não entendia o termo babá — Estou nos limites do castelo, sei me virar, não preciso de sua proteção.
— Não era essa a intenção — os âmbares desviaram de mim e eu dei de ombros — Você melhorou.
Eu sabia que ele estava se referindo ao arco e ao arranhão na bochecha dele — Takeo tem feito um bom trabalho — eu mudei o arco de mão — e eu tenho dado duro.
— Percebo — ele se aproximou novamente e eu estava cansada, estava confusa, não sei o que pensar — Está com raiva.
Ele não perguntou e sim afirmou. Eu olhei para o outro lado, porque precisávamos ter aquele tipo de conversa? Escutei seus passos se aproximando mais e eu estiquei a mão na direção dele, o parando.
— Não.
— Está com ciúmes — estava, mas não assumiria.
— Não...
— Sabe que não tem como mentir para esse Sesshoumaru — ele parou ao meu lado, deveríamos estar assim tão próximos? — seu cheiro diz tudo, Kagome.
— Porque está aqui? — eu o perguntei raivosa, eu apenas queria fugir dele, deles… — Você deve ter outras prioridades no momento.
— Não tenho.
Eu o olhei, estava com as mesmas roupas do jantar, elas pareciam bem alinhadas… O que eu estava pensando?
— Certo, já podemos voltar — eu disse dando um passo para frente, quando ele me bloqueou, fazendo com que batesse meu rosto no peito dele — O que foi?
— Não é o que está pensando... — eu o cortei.
— Não estou pensando nada — eu desviei o olhar. Eu estava pensando muitas coisas, mas ele não precisa saber disso.
— Queimou a todos na sala por nada?
Ele estava me persuadindo, mas eu não ia assumir, não mesmo. Ele passou a mão por minhas costas, subindo na direção da minha nuca, enfiando a mão em meu cabelo.
— Está bonita nessa roupa — eu senti minhas bochechas coradas, ele aproximou ainda mais nossos corpos — Maruim e eu não temos nada — os âmbares estavam em meus olhos — Ela é casada.
Eu senti o choque percorrer minha face antes dos lábios dele tomarem os meus. Eu não queria me entregar, eu queria recusá-lo, gritar com ele, mas eu estava um pouco fora de mim, e não controlava muito bem meus impulsos. Eu levei meus braços ao pescoço dele e aprofundei o beijo.
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