Fleurir
9 Cercada
Notas iniciais
Fleurir — Capítulo 9
Cercada
"O conhecimento é uma ilha cercada por um oceano de mistério. Prefiro o oceano à ilha".
— Ludwig Wittgenstein.
Novamente o sonho brotou em minha mente e eu não queria que ele percebesse que algo estava errado, pelo menos em mim. Assim mesmo, me levantei e segui na direção da porta, dando uma última olhada em Sesshoumaru antes de me retirar.
XXX
— Acorda Kagome! — me senti sendo balançada. Abri os olhos e Rin estava em cima de mim — Vamos, levante!
— O que aconteceu, Rin? — eu perguntei me sentando quando ela permitiu.
— Você prometeu! — ela disse pulando eufórica — Disse que ia me levar ao povoado, para andarmos um pouco.
— Ah sim — eu disse me recordando da promessa que havia feito no jantar, porém eu havia lido até bem tarde — Vou me arrumar e já saímos, tudo bem?
A menina apenas assentiu saindo do quarto em seguida. Espreguicei-me, eu havia dormido tão pouco, mas valeria o esforço. Segui até meus kimonos e escolhi um preto que tinha o obi vermelho, ele era de verão e estava uma manhã quente, trancei meu cabelo e o joguei por cima do ombro. Fiz minha higiene, peguei meu arco e aljava e segui para a cozinha, Rin me aguardava lá.
— Estou muito animada! — ela disse com a boca suja com migalhas — Faz tanto tempo que não vou num festival.
— É um festival das flores, não vai ter nada demais — eu disse terminando de comer e prendendo minha trouxinha de dinheiro no pulso e a colocando dentro da manga do kimono — Vá dar tchau a Sesshoumaru, estarei lhe aguardando no portão.
Arrumei meu arco e aljava no ombro e caminhei em direção ao portão. Eu estava evitando um pouco Sesshoumaru, porque eu sentia que as coisas estavam fugindo de meu controle… E com coisas eu dizia sobre meus sentimentos, eu estava me deixando levar por ele… E no fundo eu sabia que talvez não me impedisse… Cumprimentei os guardas e esperei por Rin.
— Demoramos? — eu me virei quando escutei a pergunta, afinal ela estava no plural, ali atrás de Rin estava Sesshoumaru. Eu o olhei confusa, porque ele estava ali? Rin olhou de Sesshoumaru para mim e sorriu — Eu o chamei para ir também, algum problema?
— Não, nenhum — eu disse dispersando os pensamentos que se alojaram em minha mente — Vamos então.
Caminhamos em silêncio, eu sentia uma aura ao meu redor, mas era apenas a minha tensão. Eu não queria estar ali, caminhando a poucos passos de Sesshoumaru, mas estava. Enquanto caminhávamos, minha trouxinha fazia barulho e era o único som além dos da floresta. Rin cantarolava alguma música qualquer e eu ainda me sentia nervosa.
— Esse festival tem lanternas de luz! — Rin comentou depois de um tempo andando — Podemos soltar alguma?
— Se assim você quiser — eu disse sorrindo para ela, Sesshoumaru nada disse como sempre. Caminhamos mais algum tempo e o vilarejo já nos estava visível. Era maior do que o de Kaede e parecia ter um centro comercial, ele era todo enfeitado — Não sei vocês, mas eu estou com fome.
Paramos em uma barraquinha que vendia dangos, um de meus doces favoritos! Comprei para mim e Rin, uma vez que Sesshoumaru recusou. Comemos e logo Rin queria ver outras coisas.
— Kagome, pode olhar o que você quer ver — Rin disse quando percebeu que eu fitava uma tenda que vendia kimonos — Senhor Sesshoumaru vai comigo.
— Eu posso olhar depois Rin — eu disse a olhando sem graça.
— Depois os melhores já terão sido vendidos — ela disse me olhando sabiamente e eu sabia disso — Nos encontramos daqui a pouco, tudo bem?
Eu assenti. Sesshoumaru pareceu levemente contrariado quando nos separamos, mas nada disse e seguiu com Rin. Eu me encaminhei para a tenda que havia muitas roupas, haviam tantos tipos de kimonos e também os mais variados preços, eu não tinha tanto dinheiro assim, mas daria para umas duas peças novas.
— Essa yukata é de dormir, — a moça disse me mostrando uma yukata provocante, era muito bonita, preta com adornos em roxo, mas muito caro para mim — combina muito com sua pele.
— Eu adorei, de verdade, mas eu não tenho tanto dinheiro — eu devolvi a yukata levemente desanimada — eu vou levar só essas duas — eu estendi a yukata mais simples de cor cinza e um kimono de calor, que ia até as coxas — obrigada.
Eu peguei o embrulho e comecei a andar, eu havia ficado com tão pouco dinheiro agora, mas valeria a pena. Cruzei olhares com Sesshoumaru, ele estava um pouco mais distante com Rin, ela brincava em uma das barracas. Ele parecia ter visto o meu problema com dinheiro e me senti envergonhada com isso.
O povoado estava cheio, havia muita gente andando para lá e para cá, haviam youkais também, claro que eles não se mostravam, eu sabia porque era sacerdotisa. Apenas Sesshoumaru era perceptível, uma vez que não escondia sua origem. Haviam muitas flores espalhados pelo caminho e muitos casais... Suspirei seguindo na direção deles, mas não caminhei muito porque fui impedida.
— Ora, o que temos aqui! — eu escutei uma voz atrás de mim e quando me virei, senti seu braço em meus ombros e seu corpo colado ao meu — Sacerdotisa Kagome, belas vestes essas, melhores do que as que te vi usando pela primeira vez.
Kurama Yokoyama. Ao meu lado, só pode ter vindo do inferno. Eu o olhei irritada e ele me olhava sorridente, ao seu lado estava Ritsu. Eu segurei o pacote em uma das mãos e com a outra tirei seu braço de meus ombros, me afastando dele.
— Senhor Yokoyama — eu disse o cumprimentando, mas não o reverenciando como da outra — Agradeceria se o senhor não fizesse mais isso.
— Desculpa, não queria irritá-la — ele disse me dirigindo um sorriso e me olhando mais abertamente — Não gostou de meu presente? — eu franzi o cenho, mas me recordei — Algumas delas combinaria com esse lindo kimono.
— Eu agradeço a sua intenção, mas pretendo devolvê-las — eu disse o olhando o mais seria que eu pude, ele me olhou surpreso — Não acho justo.
— Mas é um presente — ele disse se aproximando de novo e colocando uma mecha de meu cabelo atrás da orelha, eu dei um passo para trás me afastando dele — Não precisa me devolver.
— Senhorita? — uma garota se aproximou timidamente de nós, com um embrulho em mãos — Pediram que eu entregasse a senhorita — ela me estendeu e eu não o peguei a princípio, mas fiquei com dó dela quando percebi seu embaraço.
— Quem? — eu perguntei olhando ao redor, sem ver ninguém.
— Um homem alto e bonito — ela disse sem graça — Ele não quer que eu diga... Mas mandou isso — ela me entregou uma fitinha vermelha — disse que você entenderá quando o vir.
Ela terminou de falar e saiu, me deixando ali parada com aqueles dois. — O senhor tem deveres, senhor Yokoyama — Ritsu disse, aproveitando a oportunidade.
— Tudo bem — ele o olhou irritado — Quer vir conosco, você parece tão sozinha — ele se aproximou de novo quando senti a presença dele antes de vê-lo.
— Estava demorando Kagome — Rin disse me olhando irritada — porque tanta demora? — ela pareceu notar que eu não estava sozinha — Oh, quem são?
Porém Kurama não olhava para a criança e sim para Sesshoumaru que havia parado atrás de mim. Ritsu olhou de um para o outro e eu me sentia em alerta, Sesshoumaru estava irritado com alguma coisa.
— Taisho — Kurama o cumprimentou, fazendo uma leve reverência.
— Yokoyama — Sesshoumaru disse apenas.
— Bom, precisamos ir agora, senhor Yokoyama — Ritsu disse novamente e dessa vez Kurama começou a andar.
— Até a próxima, Sacerdotisa Kagome — ele disse saindo em seguida.
Eu suspirei, esse cara ainda iria me dar bastante nervoso e mais, quem havia me mandado esse presente? Puxei o embrulho mais próximo de meu corpo. — Vamos Kagome — Rin disse me chamando, ela estava um pouco mais a frente com Sesshoumaru.
Eu assenti e passei a segui-los. Rin estava radiante, havia uma trança no cabelo dela agora, e uma coroa de flores. Ao seu lado, Sesshoumaru estava com os cabelos trançados também e uma fita vermelha prendia o cabelo daquela forma. Eu senti meus olhos arregalados, ele havia me mandando o presente! Os âmbares me olharam por um segundo se voltando para o caminho.
— Conseguiu comprar o que queria? — Rin perguntou quando nos aproximávamos do rio, onde iriam soltar as lanternas flutuantes.
— Sim — eu disse sorrindo para ela — Eu não tenho tanto dinheiro assim, mas o pouco que consigo dá pra comprar algumas coisas…
— Venham, comprem suas lanternas! — um homem gritava com uma variedade de lanternas a frente dele. As lanternas seriam soltas apenas a noite, mas como não íamos ficar até esse horário, eu e Rin soltaremos antes.
Rin escolheu uma vermelha com uma flor branca no centro do papel, eu escolhi uma comum, com um desenho de meia lua. Pagamos por elas e nos dirigimos para a margem do rio, onde Sesshoumaru nos aguardava. Eu havia prendido a fita que ele havia me dado no cabelo, num laço perfeito. Eu ainda não havia aberto o pacote com o presente, faria apenas em meu quarto.
Os olhos dele se abriram quando nos aproximamos, ele estava relaxado embaixo de uma árvore. Eu ainda o sentia estranho perante mim, mas não seria algo diferente do que eu já estava habituada a receber dele, indiferença. Coloquei os embrulhos no chão e segui Rin para a beira do lago. Ela já havia começado a abrir a lanterna dela, e com um pouco de dificuldade consegui montar a minha. Rin já havia colocado a dela na beira do lago e já a acendia.
Me aproximei dela e coloquei minha lanterna ao lado, a dela já partia acessa e a minha também estava indo, sem acender. Eu, por impulso, pulei na água atrás dela, a pegando por pouco, porém algo passou em meus pés fazendo com que eu perdesse o equilíbrio, iria cair se ele não tivesse me segurado. Sesshoumaru estava como eu, com água até a cintura, sua mão em meu quadril. — Obrigada — eu agradeci, colocando a lanterna no rio novamente e pegando o acendedor, por sorte não havia molhado.
— Cuidado Kagome! — Rin acenou, mas sorria.
Eu acendi a lanterna e pensei em minha família, pedi a kami que os guardasse onde eles estivessem e pedi também proteção para os meus, e Sesshoumaru estava entre eles. Eu soltei a lanterna e vi a água o carregando. Sesshoumaru ainda me dava suporte e eu me virei em seus braços, os âmbares pareciam fechar me observando e eu sorri em agradecimento.
— Ainda bem que está calor, não é mesmo? — eu disse quando ele pareceu não se mover.
— É — respondeu-me se virando e voltando para a margem. Eu o segui.
— Seu corpo está todo marcado agora — Rin disse apontando para o kimono que havia grudado em mim, mostrando tudo.
— Já vai secar — eu disse o puxando o melhor que dava, desmarcando meu corpo. — Vamos voltar ao vilarejo, amanhã cedinho estou de saída.
— Ainda vai ficar muito tempo nesse treinamento? — Rin perguntou quando começamos a caminhar para o oeste. Os pacotes em meus braços e Sesshoumaru a nossa frente.
— Um tempo ainda — eu dei de ombros e o povoado ia ficando para trás.
—-
Ainda não posso acreditar nisso.
Eu estava olhando para aquela roupa há pelo menos dez minutos, Sesshoumaru havia me dado a yukata de dormir que eu tanto queria, porém ele parou para pensar ou simplesmente agiu? Vindo dele, sei que apenas agiu. Não haveria nenhum motivo implícito por trás da compra...
Eu a vesti. Ela era muito provocante, como não percebi isso quando a olhei pela primeira vez? Seu tom preto da seda destacava a minha pele e os detalhes em cetim roxo a deixava mais sensual e ela era tão curta, a polpa da minha bunda ficava um pouco para fora. Mas eu me sentia linda, e era isso o que importava. Soltei meus cabelos fitando o meu reflexo, eu me sentia muito bonita, atrativa. Sexy. Era essa a palavra.
Do lado da varanda ouvi pequenas batidas na porta. Já estava tarde, a maioria já dormia. Rin deve ter tido outro pesadelo, ela tinha a mania de vir pelo outro lado, por isso, com esse pensamento, abri a porta da varanda. Porém não era Rin do outro lado e sim Sesshoumaru. Eu me senti corar no mesmo instante e os âmbares percorreram meu corpo calmamente.
— Aconteceu algo? — eu perguntei quando ele não disse nada, mas invadiu o meu quarto.
— Ficou melhor do que pensei — ele disse me olhando novamente, eu podia identificar algo ali, algo que só vi através dele. Desejo.
— Não precisava ter gasto tanto dinheiro com ela — eu disse trocando o peso das pernas — Mas agradeço, eu realmente a quis muito. — Sesshoumaru assentiu, eu sabia que ele havia visto agora.
Ele fechou a porta da varanda a suas costas e se aproximou mais de mim. Ele estava apenas com a calça que ele usava para dormir, ela era mais leve do que a do kimono, seu peito a mostra, como eu queria tocá-lo novamente. Ele venceu o espaço que existia entre nós, eu sentia algo me atraindo para ele. O cheiro dele nunca havia me atraído tanto. Senti quando ele passou a mão por meu rosto e eu fechei os olhos para o que vinha a seguir.
Seus lábios tocaram os meus e eu o retribui, ciente de que talvez não ficaria apenas naquilo, mas naquele momento, nada importava…
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