Fleurir — Capítulo 2.

Angústia

"A vida vai te mostrar quem fez a escolha errada…".

— Autor desconhecido.

Inu-Yasha havia seguido em frente.

XXX

— Kagome? — ele repetiu meu nome quando eu não disse nada, pisquei um pouco aturdida e lhe dirigi o melhor sorriso que eu podia no momento, assentindo. Tentava a todo custo sufocar aquele sentimento que tentava me dominar — Mas… como?

— Eu também não sei — eu disse ainda alegre, minha voz não me traiu, graças aos céus — simplesmente consegui passar o poço e aqui estou.

— Vai ficar até quando? — ele pareceu levemente desconfortável com a situação e eu queria sair dali, aquele aperto estava me sufocando de verdade agora.

— Não tenho como voltar — eu o olhei, mas logo desviei o olhar, não conseguia sustentar o olhar por muito tempo, o sentimento de traição crescendo cada vez mais — Eu vim para ficar…

— Que legal Kagome! — Rin exclamou alegre e eu dei um leve sorriso, eu também achava isso até poucos segundos atrás — Você poderá me ensinar a ser uma sacerdotisa.

— Se você assim desejar — eu disse passando a mão pela cabeça dela, um carinho íntimo que não tínhamos tanto assim, mas ela não pareceu se importar.

— Onde estão seus modos, Inu-Yasha? — Kaede chamou a atenção dele, o olhando severa, ele a olhou confuso e ela prosseguiu — Não vai apresentar sua esposa a ela?

Esposa... Esposa... Esposa… A palavra ficou rodando em minha cabeça, como se eu tivesse levado uma pancada forte e visse tudo girando. Ele havia mesmo seguido em frente, a dor me abraçava aos poucos e eu ainda lutava contra ela, ainda não era a hora de me entregar.

— Ah — ele disse, como se lembrasse da garota ainda ao lado dele, ainda segurando seu braço — Kagome essa é Natsumi — ele apontou para a garota ao lado dele — Natsumi, essa é Kagome — ele apontou para mim.

— Muito prazer — ela disse naquela voz suave dela. Ela era muito bonita, pele pálida, olhos negros e expressivos, cabelos loiros e bem cuidados, e ela era humana, parecia ama-lo verdadeiramente — Ouvi falar muito de você.

— Eu espero saber mais sobre você também — eu disse querendo parecer cordial. Sango ao meu lado estava tensa, assim como todos. Eu me senti uma intrusa no lar feliz deles… Porque eu decidi voltar? Porque acreditei que ele esperaria? — Bom, não quero atrapalhar mais, acho que já vou.

— Para onde? — Rin perguntou pensativa e depois me olha — Você não tem para onde ir ainda, lembra?

Não, eu não lembrava disso, tamanha era minha vontade de sumir — Não se preocupe Rin, eu preciso procurar algum lugar para exercer meus dons de sacerdotisa, talvez já tivesse que sair do vilarejo mesmo.

— Você pode ir ao templo de um amigo meu — Kaede disse atraindo minha atenção e eu a olhei interessada — fica no reino do Oeste.

— Senhor Sesshoumaru poderia te abrigar também, aposto que ele não se importaria — Rin disse empolgada de repente — e você poderia ficar comigo!

— Agradeço, mas eu ainda vou ver o que vou fazer — eu disse me levantando, Inu-Yasha não tirava os olhos de mim e nem Natsumi — Podem se senta… — a frase foi interrompida quando Inu-Yasha foi de cara ao chão, sendo puxado pelo kotodama — Você ainda o usa?

— Só quem tem o dom da palavra pode retirar — Kaede disse dando de ombros. Eu me levantei e segurei o kotodama, puxando pela cabeça dele o mais forte que eu pude e ele saiu, isso era o mais próximo que eu estaria dele... — Finalmente ele está livre Kagome.

— Bom, eu volto depois, irei dar uma olhada ao redor. Ver como as coisas estão... — eu disse me dirigindo para a porta e Sango me seguiu, ambas caminhamos alguns passos em silêncio até que eu o quebrei — Era por isso, não era?

— Eu não sabia como te contar sobre eles... — Sango disse parecendo culpada, eu a olhei ao meu lado, ela parecia triste. Senti meus olhos marejando — Eles estão casados há dois anos.

Um ano, apenas isso que ele esperou por mim. E eu o esperei até agora, meu coração foi levemente esmagado de novo. Eu sabia que não conseguiria conter mais as lágrimas e deixei que viessem. Sango me abraçou, já estávamos longe deles — Porque Sango? — eu perguntei ainda não acreditando naquilo.

— Eu realmente não sei Kah — ela disse me acariciando na cabeça e nas costas — Vamos pra minha casa, lá você pode chorar mais confortável.

Sorri de forma amargurada, só Sango pra dizer algo assim. Porém quando entrei na cabana dela, eu deixei que dor viesse de uma vez, e me entreguei a ela, por inteiro. Eu o amava, muito, e ver que eu não passava de um passatempo para ele, deixava tudo pior. Eu havia retornado por ele, para viver com ele. Agora nada daquilo faria sentido, porque eu tentei?

— Ela vai ficar bem — escutei Sango dizendo a Miroku, eles estavam preocupados comigo. Aquela angústia estava me sufocando, e não era pouco. Eu não sabia ao certo o que fazer agora, afinal eu tinha certeza de que ficaria com ele.

Nunca me passou pela cabeça que eu não fosse ficar com ele, porque sempre achei que ele me esperaria. Talvez faça como Kaede disse, vou treinar com esse amigo dela, me afastar dele. Do que adianta eu continuar aqui e sofrer toda vez que vê-los juntos?

— Como está se sentindo? — Sango perguntou quando entrou no quarto, eu estava sentada no canto, chorando encolhida.

— Vou superar — eu disse dando um sorriso amargurado. Ainda sentia a dor em meu peito, mas nada mudaria aquilo. Já estava feito. — Estava pensando em fazer o que a vovó me sugeriu.

— Treinar no Oeste… — Miroku afirmou e eu assenti — Tem certeza disso? — eu assenti, o mais confiante que eu pude — Sabe que sempre terá a nós, não é?

— Eu sei e agradeço por isso — eu disse dirigindo o melhor sorriso que eu podia no momento. Eles se aproximaram de mim e se sentaram no chão comigo. Eu não podia pedir amigos melhores.

—-

— Quer mesmo voltar para a cabana da Kaede? — Miroku perguntou me olhando ainda incerto.

— Eu gosto de lá, e vocês já são muitos aqui — eu disse os olhando séria, não queria ser um incomodo — Não quero dar trabalho, e preciso falar com a vovó para saber como chegar lá e essas coisas.

— Esse templo, deve ser o que está recrutando sacerdotes e sacerdotisas, sei qual é — Miroku disse pensativo, depois olhou para mim novamente — O treinamento não é fácil lá, nem rápido.

— Mas eu não quero que seja rápido — eu disse dando de ombros, eles entendiam por que — quero ter meu próprio templo, e meus próprios afazeres.

— Se sairá bem, acredito no seu potencial — Sango disse me animando. Minha amiga sempre me bajularia no fim — Sentirei sua falta duas vezes mais.

— Eu também — eu disse a abraçando. Eu saí da cabana deles, seguindo para a de Kaede. Já estava escuro, havia anoitecido e eu nem havia percebido. Meus olhos já haviam desinchado, mas ainda estavam irritados. Passei a tarde toda chorando, aquilo não iria fazer bem no fim. Eu tinha tentado inutilmente ultrapassar as eras novamente, mas fora em vão, como todas as vezes que eu havia tentado antes dessa.

A floresta continuava a mesma coisa aos meus olhos e o céu... Ah, o céu, ele sempre me encantaria no fim. Amava aquela vista clara que tínhamos de tudo e a forma como não havia poluição. Eu percebi, tarde demais, que estava sendo seguida, e quando fui reagir, as mãos dele seguraram as minhas. Os olhos cor de mel me fitavam ansiosos, talvez porque tenha fugido da esposa para falar comigo.

— Podemos conversar? — ele disse me olhando, e eu não queria, de verdade. Porque eu sabia que aquilo apenas me machucaria mais.

— Não acho que seja necessário — eu disse me desvencilhando das mãos dele, me afastando, o cheiro dele, continuava a mesma coisa. Os olhos, o cabelo, as orelhas que mexiam casualmente... Era como se o tempo tivesse parado para ele... E avançado para mim em mil anos — Eu espero que você seja feliz.

— Eu quero te dizer os meus motivos... — eu o cortei, os olhos dele estavam irritados. Eu sabia que ele não gostava de ser contrariado, mas o que eu podia fazer?

— Não tem o que me explicar, Inu-Yasha — eu o olhei o menos ressentida que eu conseguia, mas devia ter algo ali ainda — Você seguiu sua vida, como eu devia ter feito… — ele me interrompeu.

— Não — ele deu dois passos na minha direção e eu estendi a mão para ele, fazendo com que parasse — Eu devia ter te esperado Kagome, devia…

— Mas não esperou — eu disse sem pensar muito. Repreendi-me mentalmente, eu estava entrando no jogo dele e não queria — Sério, não precisa me explicar nada, não era como se eu fosse voltar, não é?

— Não fala assim — ele disse se sentindo culpado e eu sabia que era de verdade — eu a conheci quando você partiu — ele começou a falar e eu não queria ouvir, porque ele estava continuando a falar? — eu estava mal e ela… cuidou de mim — ele estava chateado, e eu não queria ouvir mais nada. Porque eu havia cuidado dele quando Kikyou partiu… — Estamos juntos desde então...

— Você a ama? — eu não consegui conter a pergunta para mim e acabei mordendo a língua. O que mudaria saber disso? Apenas me causaria mais dor.

— Amo — ele disse num sussurro, mas para mim, continuou ecoando em minha mente. Senti a ferida em meu peito arder de novo, eu já não sabia daquilo? — Mas não acho justo agora…

— Você simplesmente seguiu em frente, como qualquer pessoa sensata faria — eu desviei os olhos dos dele, não queria mais ver que ele não mentia quanto ao sentimento dele — Eu que me prendo a algo que não me era certo…

— Você ainda me ama — ele não perguntou e sim afirmou. O que também não era mentira, eu o amava, demais.

— Os sentimentos mudam, não é verdade? — eu virei às palavras dele contra ele. Eu troquei o peso das pernas, eu não queria mais ouvir nada. Senti o vento da primavera me atingir, ele era suave e quente — Preciso ir — eu disse me virando na direção da cabana e Inu-Yasha me seguiu.

— Estou indo para lá também — ele caminhou ao meu lado e eu apenas me afastei mais dele. Senti que ele queria se aproximar, mas não o fez e eu agradeci — eu ainda moro com a velhota.

— Hm — foi tudo o que eu disse.

O caminho pareceu maior do que realmente era, aquele silêncio entre nós estava cada vez pior e mais incômodo. Eu queria correr, mas ele ia estar lá também, eu só queria sumir. Quando a cabana entrou em meu campo de visão eu estranhei. Sesshoumaru estava ali, um pouco mais afastado, com Rin.

— Que bom que você voltou! — Rin disse alegre, correndo na minha direção. Inu-Yasha olhava para Sesshoumaru, mas aquela hostilidade entre eles havia diminuído bastante, porém ainda existia — Vamos para o castelo!

— Como assim vamos? — eu perguntei confusa. Olhei para Sesshoumaru que continuava impassível, mas parecia que seus olhos continham uma leve curiosidade.

— O templo é no Oeste, não é? — eu assenti, onde ela queria chegar? — Senhor Sesshoumaru é o senhor do Oeste, você pode ficar no castelo e treinar no templo! — os olhos dela me mostravam toda a alegria que sentia, como eu podia dizer não a ela?

— Não quero incomodar Rin — eu disse lhe acariciando os cabelos. E ela me olhou confusa, depois franzindo o cenho.

— Não vai — ela disse por fim, olhando para o homem que a trata como filha — Senhor Sesshoumaru já autorizou, eu expliquei para ele — ela sussurrou e eu assenti. Seria uma coisa boa, não?

Afastar-me de Inu-Yasha e viver a vida que estava desejando no momento. E aposto que quase nunca veria Sesshoumaru, e teria sempre Rin por perto, uma presença humana. Faria-me bem no fim…

— Tudo bem então — eu disse lhe dirigindo um sorriso.

Notas finais
Obrigada por terem lido. Bjos baby *m*