29 DE ABRIL DE 2008

— As badaladas – anunciou Untoward – começou.

Dennis soltou um suspiro exasperado. Ainda achava uma péssima ideia deixar a segurança da sala. Por mais que as vozes perturbadoras o acossassem, tinha quase certeza de que o que encontrariam lá fora seria bem pior.

Miguel adiantou-se, segurando a maçaneta e girando-a.

— Tio – o rapaz ofegou subitamente, segurando o pulso de Thorfinn – eu não quero ir. Devíamos esperar…!

Untoward se virou violentamente, rosnando.

— Esse garoto ainda vai nos matar, Rowle! — titubeou, aborrecido – quer saber? — brandiu a estaca afiada de madeira – fiquem aí então. Vou na dianteira… vou só observar seja lá o que esteja nos vigiando aqui fora… e volto assim que souber mais – franziu o cenho – pensemos assim… Weasley disse que só morreríamos se procurássemos fugir. Não disse nada sobre uma pequena incursão pelo prédio. Se eu retornar logo, não acontecerá nada. Teremos melhor conhecimento do que nos aguarda, e poderemos ultrapassá-los sem problemas.

O jovem Rowle franziu a testa, comichando-se para dizer que a mulher fora bem clara sobre não poderem nem sequer sair da sala. Porém, limitou-se a recuar alguns passos.

Thorfinn revirou os olhos, olhando o sobrinho de modo irritado.

— Está bem então. Veja o que está lá fora. E volte logo. Vamos precisar de um plano de ação assim que soubermos o que enfrentaremos.

Miguel assentiu, finalmente puxando a porta.

A sua primeira reação foi levar a mão ás vias respiratórias, quase engasgando com o odor putrefato do corpo no corredor. Talvez pela alta circulação de ar, o cadáver de Don Selwyn já se mostrava em avançado estado de decomposição, o que trazia um cheiro insuportável para dentro da sala.

— Saia logo! — tossiu Rowle, enojado, empurrando Miguel para fora da sala.

Bufando, ainda com o rosto abarcado por uma das mãos, Untoward ouviu a porta atrás se si se fechar. Tropeçante, começou a apalpar as paredes — contrárias às que se recostavam no corpo dilacerado ao lado — tentando andar em meio à escuridão, balançando a estaca no outro punho.

— Andem, vamos lá – fungou – onde vocês estão?

Sentiu algo entrar em contato com seu pé, rolando adiante com um som bem peculiar. Abaixou-se, tateando o chão, finalmente apalpando algo de forma cilíndrica.

— Ah, fala sério – gesticulando o polegar, fez acender a lanterna em sua mão – para alguém do alto escalão dos aurores, você até que é previsível, Weasley.

Continuou vagando corredor afora, agora com o auxílio do mirrado feixe de luz da pequena lanterna. Nervoso, diminuiu o som de suas passadas, esgueirando-se lentamente pelos cantos. Começou a piscar a lanterna, como se quisesse chamar a atenção de algo – algo que, no entanto, estava intimamente torcendo para não encontrar.

Com apenas o uivar do vento a lhe fazer companhia, Miguel começou a mostrar-se apreensivo.

A súplica do garoto Rowle agora lhe parecia um tanto quanto sensata. Não fora boa ideia sair desacompanhado, afinal… como encontraria o caminho de volta, entre os labirintos de corredores que estava percorrendo agora?

—Ah, dane-se — decidiu-se, continuando seu percurso. Contanto que encontrasse o que estava os ameaçando, poderia retornar à sala sem problemas em seguida.

Interrompeu-se, porém, ao ouvir um guincho alto adiante.

Ergueu a lanterna para o alto, tentando identificar a origem do som. A outra mão balançou a estaca pontiaguda, já em posição de defesa.

— O que diabos são vocês? — sussurrou em voz baixa.

Uma gargalhada alta e sonora, de tom amigável, ecoou na sala à frente, paralisando Untoward no lugar onde estava.

Ei, amigo! Está perdido? O que faz por aqui?

O som era definitivamente inumano, tal como as vozes que haviam sido ouvidas no dia anterior.

Usando o bom-senso pela primeira vez, Miguel manteve-se quieto, prendendo a respiração. Deu alguns passos para trás, como se fosse dar meia volta e retornar.

Ainda assim, arriscou dar mais uma olhada no ponto onde a luz da lanterna se estendia.

E o que viu fez o ar que segurava escapar de imediato.

Observou, espantado, o leão animatrônico, postado de modo rústico entre várias caixas de isopor.

A juba — provavelmente feita de algum pelo sintético — era tão negra que misturava-se com a escuridão do local, dando-lhe uma aparência um tanto mórbida. O focinho arredondado, entreaberto, deixava a mostra os afiados dentes do endoesqueleto.

Talvez pelo nervoso, Untoward pensou, por um momento, que os olhos castanhos e sem vida do robô haviam piscado em sua direção.

— Calma – disse a si mesmo – é só sua imaginação.

Provou-se errado, entretanto, quando o suporte abaixo dos pés de Tot gemeu alto, comprovando sua movimentação.

Quando reergueu o olhar, sentiu seu estômago dar uma cambalhota.

Em vez de olhos materiais, ambas as órbitas do leão agora exibiam um forte e assustador brilho acastanhado.

— Não se preocupe… — sussurrou Tot, descendo de seu suporte – isso é apenas um sonho ruim… — sua voz distorceu-se, arranhando-se violentamente, conforme dava uma risada alta e demoníaca – E VOCÊ... NUNCA... IRÁ... ACORDAR!

Foi a deixa para Miguel começar a correr de volta a sala, ouvindo o som metálico de passos velozes atrás de si.

Conseguia testemunhar os rosnados animatrônicos do leão em seus calcanhares. Por mais que tivesse se preparado para fincar a estaca em Tot, percebeu que de nada adiantaria naquela hora. Teria que retornar a sala, e anunciar à Thorfinn e Dennis sobre o que vira.

Correndo ao longo do corredor, fazendo a luz da lanterna dançar pelo teto, procurou desesperadamente a porta da sala de onde saíra.

— THORFINN! — exclamou, percebendo a aproximação diabólica do animatrônico em seu encalço.

Adiante, uma porta abriu-se, revelando sua débil iluminação. Miguel acelerou o passo, pronto para se lançar para dentro do cômodo.

Agarrou a borda da porta, pronto para dar a ordem de fechá-la.

Não chegou a entrar.

Berrou alto quando as garras afiadas de Tot se plantaram em seu tornozelo, puxando-o de volta para o corredor. A força com que o Comensal se segurou à guarnição da porta, somado ao impulso contrário do animatrônico sobre seu corpo, foi o suficiente para estilhaçar-lhe todos os ossos do ombro.

Miguel soltou-se, agarrando as articulações, destroçadas internamente. Tentou em vão agarrar a estaca que caíra no chão, cego de dor.

Viu duas silhuetas lhe encararem ao longe. Uma delas empurrou a outra de volta à sala, e a luz do cômodo desapareceu quando a porta se fechou.

Foi a última coisa que viu, antes que os dentes de Tot se fechassem em seu pescoço, dilacerando artérias e espirrando sangue pelas paredes.

Os gritos só cessaram minutos depois.

E, assim como seu colega, o corpo de Untoward se tornou mais uma decoração para aquele famigerado show de horrores.