Capítulo 11 — Falhas

Dennis estava em choque.

Ainda ajoelhado diante do urinol, tentou se apoiar contra a parede, sentindo seus joelhos tremerem um contra o outro.

Ainda tinha a cena gravada em sua retina.

Miguel aproximando-se da sala… seu berro de dor… uma sombra difusa no corredor. Algo grande, voraz, atacando-lhe a perna, arrastando-o pelo chão como se fosse menos do que nada.

E então, depois, gritos, e vários estalos de algo se partindo ao meio.

Mas o pior de tudo foi ver, com seus próprios olhos, o misterioso monstro que tanto temera nas últimas três noites.

Nem em seus pesadelos mais sombrios teria conseguido concretizar algo tão tenebroso.

Uma criatura mecânica, claramente feita para diversão infantil, distorcida com um olhar brilhante e demoníaco, decididamente incomum ao seu sanguinário proprietário.

Não era humano. Não era vivo.

Mas tampouco era inconsciente.

Temia ter que, em algum momento, sair da sala, e se deparar com o novo cadáver destroçado de um de seus mentores.

O silêncio já perdurava por vários minutos, mas ainda parecia que gritavam dentro de sua cabeça. O terror ameaçava engolfá-lo, fazendo-o se encolher em seu canto, com o estômago revirado, e a boca seca de indisfarçada agonia.

— Tio… — sussurrou Dennis, apertando as mãos contra o reboco, sentindo a tintura da parede arranhar-se sobre suas unhas — Miguel…

— Está morto – Thorfinn suspirou, agoniado – droga – o Comensal socou a parede, erguendo o olhar para a fresta da porta de entrada, que já expunha o brilho da manhã – não acredito nisso. Como ela pôde ser tão… — Rowle recuou, a mão sobreposta na testa, indo até a caixa destroçada se suprimentos e plantando um chute violento contra a sua base – parece que subestimamos aquela sangue-ruim, Dennis. E ainda não fazemos ideia de onde está a saída sesse lugar infernal!

O rapaz fechou os olhos, trêmulo.

— Tio… já chega… vamos ficar aqui. Por favor….

Thorfinn deu uma risada seca e exasperada.

— Não vê, Dennis? Se ficarmos aqui, mais cedo ou mais tarde, eles entrarão atrás de nós. Vamos morrer de qualquer forma. Miguel não estava sequer procurando fugir, e acabou sendo morto. Temos que revidar. Vamos ter que lutar para sair daqui. Mesmo que isso seja impossível.

O garoto baixou a cabeça, aflito.

Estava começando a achar que Rowle tinha razão. E se os robôs realmente fossem atacá-los de qualquer forma, independentemente do que fizessem? Talvez, simplesmente, já estivessem condenados à morte, desde que haviam colocado os pés naquele galpão

Dennis não queria morrer.

Só queria ficar livre. Queria poder evitar um destino tão cruel. Não queria acabar como os demais, esquartejado ainda vivo por aqueles demônios metálicos.

Tinha, aliás, a impressão de que a auror não havia mentido para eles.

A terrível impressão de que a morte de Miguel não estava nos planos dela.

Algo havia saído errado. Muito errado.

Se os animatrônicos, de fato, perdessem o controle, não haveria sequer uma quinta noite para sobreviver. Dois deles já estavam mortos. A bem-dizer, Travers também poderia estar. Se as coisas permanecessem daquela maneira, nunca chegariam vivos ao fim do prazo que Weasley lhes estipulara.

Mas o que fariam agora?

— O que vamos fazer, tio?

O bruxo encarou seu sobrinho, franzindo o cenho.

Mesmo que, por algum milagre, conseguissem se manter vivos além daquela porta, o seu senso de autopreservação estava sujeito a uma falha enorme.

Uma falha que surgira há dezesseis anos.

Por mais que quisesse fugir do galpão, jamais conseguiria fazê-lo se, por infortúnio do destino, tivesse de escolher entre ele e Dennis.

Por mais que o tratasse com frieza, a maior parte do tempo, Thorfinn realmente se apegara ao menino.

Depois de tanto tempo, encouraçado psicologicamente por seus crimes e insensibilidade, Rowle apenas não conseguia demonstrar isso.

— Nós vamos sair daqui, Dennis – declarou – agora sabemos contra o que lutamos. E assim que sairmos – rosnou – faremos aquela desgraçada pagar por isso.

Rowle viu Dennis sacudir a cabeça de um modo desolado.

— Por favor, tio. Só fugir – ele guinchou – vamos fugir para longe. Nos esconder. Chega disso… chega de lutar. Vamos começar uma vida nova. Esquecer disso tudo….

Thorfinn revirou os olhos.

— Veremos isso depois, Dennis. Apenas vamos… — bufou – pensar. Podem ter algum tipo de vitalidade… mas ainda são máquinas. Qualquer bugiganga desse tipo, com tecnologia trouxa, sempre possui alguma falha. Eles tem que ter algum ponto fraco. Podem ser destruídos.

— Mas como? — Dennis indagou – não temos armas! Não temos nada!

Rowle murmurou, olhando para a porta.

— Mas temos todo o complexo. Podemos usar esse local todo contra eles – ofegou – se sairmos, e reconhecermos cada parte do galpão, podemos fazer uma armadilha com os recursos que tivermos lá fora.

Dennis arquejou alto.

— Os senhor está sugerindo… que saiamos para procurar por eles?

— Bem… — o Comensal da Morte cruzou os braços – se eu entendi bem do que Weasley disse, eles estão nos perseguindo. Não vão esperar quenós estejamos no encalço deles. Duvido que isso esteja em sua programação. Podemos confundi-los. Untoward, Selwyn e Travers foram pegos de surpresa… não sabiam o que encontrariam – ele baixou a cabeça, tamborilando os dedos impacientemente sobre a parede em que se apoiava — mas nós sabemos. E vamos passar a perna nessas sucatas idiotas.

O garoto queria contestar a ideia mirabolante do tio, mas já não tinha forças. Tudo que vira e sentira nas últimas sessenta horas haviam reduzido o jovem Rowle a uma mera bagagem de Thorfinn, que estaria onde ele viesse a estar.

Se apegou mentalmente à frágil esperança de que o tio estivesse certo. De que tudo terminaria bem. Que, de alguma forma, conseguiriam sair dali com vida.

Porém, mesmo que não fosse descobrir tão cedo, sua primeira suspeita se comprovaria verdadeira.

O que acontecera com Untoward realmentehavia sido um acidente.

Tal como uma criação arriscada, indo contra os planejamentos de sua criadora, os animatrônicos já não estavam mais agindo de acordo com o plano.

Os planos haviam mudado.

Já não eram mais prisioneiros…

Eram alvos.

Marcados para morrer.