28 DE ABRIL DE 2008

Não se ouvia sequer um ruído de respiração entre os três Comentais da Morte, cujos olhos, apregoados no corpo dependurado adiante, recusavam-se a piscar.

— Don – ofegou Miguel – não acredito... está morto.

Dennis não agüentou. Sentindo as pernas amolecerem, esgueirou-se pelas paredes, até encontrar o urinol, onde vomitou metade do pouco que comera durante o dia.

— Espere… não… não é possível… — rosnou Thorfinn, alarmado – o que diabos está aí fora?

Ao contrário do tio, que não parecia estar abalado pela morte do colega, o jovem Rowle tossiu, sentindo o amargor do refluxo na boca.

— Fechem a porta – suplicou, limpando a boca na manga da blusa – o que pegou Don vai nos atacar também!

Untoward fechou a cara.

— Está com medo, Dennis? — titubeou – fizeram pior conosco há dez anos! Deixe de agir como um covarde!

— Numa coisa o garoto tem razão, Miguel – Rowle disse, afastando-se um pouco da porta – seja lá o que tenha atacado Selwyn… pode nos atacar também. Vamos nos preparar melhor, antes de sairmos daqui.

— Sairmos daqui? — gemeu o rapaz – tio Thorfinn…!

O garoto baixou o olhar diante da expressão aborrecida do tio.

— Se ficarmos aqui, passaremos o resto de nossos dias dentro de Azkaban, Dennis. Qualquer tentativa de escapar disso é válida. Essa demônia acha que nos apavora, fazendo uma pequena atração de terror? Bem… eu prefiro mesmo morrer á me submeter á uma sangue-ruim imunda como ela. Fugiremos daqui. Vamos fazer o que, pelo visto, Don e William se mostraram fracos demais para conseguir.

Dennis arfou, aflito. Não lhe agradava nem um pouco a ideia de sair dali. Não depois de ver o que a ameaça invisível havia feito com um de seus mentores.

— Alguma chance de William estar vivo, então?

Thorfinn limitou-se a sacudir os ombros.

— Saiu depois de Don – respondeu – talvez sim. Talvez não – bufou, olhando para o cadáver ensanguentado na parede – podia ao menos ter tido a decência de morrer perto da saída, não é, Selwyn?

Para o alívio de Dennis, Rowle fechou a porta, ocultando a silhueta morta de Don atrás de si.

— Bem… — Miguel cruzou os braços – é óbvio que a vadiazinha nos deixou alguma surpresa lá fora. O que faremos então?

Rowle ergueu o olhar para a caixa de suprimentos no canto da sala.

— Não temos magia – encaminhou-se até o caixote, pensativo – mas podemos nos armar. Qualquer que seja a criatura de tocaia lá fora, com certeza pode ser morta ou destruída.

O Comensal levou a mão ao pescoço, tirando dali três minúsculas lâminas, do comprimento de um fósforo, retirando-as da bainha em forma de adorno que havia no colar. Em seguida, agarrou um dos lados da caixa, chutando-o violentamente, até despregá-lo do restante. Várias barras se esparramaram pelo chão.

— O que vai fazer, tio?

Concentrado, Rowle não lhe respondeu, arrancando mais pedaços de madeira da borda, e dando-as para que o rapaz as segurasse. Apanhando uma das toras destruídas, começou a raspar as bordas, afiando-lhe a ponta, apontando com o queixo para as outras duas lâminas.

— Comecem a trabalhar. Antes da próxima noite, quero estar fora daqui.

Miguel e Dennis também se puseram a raspar as demais toras.

Dennis não conseguiu dar a devida atenção ao que fazia, permanecendo o tempo todo com uma expressão tensa e alarmada, saltando o olhar toda vez que ouvia o uivo do vento, ou qualquer outro novo som.

Não conseguiram medir o quanto de tempo decorreu durante aquela lenta e arrepiante noite.

Depois do que pareceram várias horas, no entanto, um novo som coalhou o silêncio dentro da sala, fazendo todas as cabeças se reerguerem, atônitas.

Ouviu-se o som de passos velozes e barulhentos percorrendo o corredor.

Um eco violento, criado por uma pancada agourenta na porta, ribombou dentro cômodo, enrijecendo os corpos dos três Comensais da Morte.

As batidas prosseguiram, arrepiantes e rítmicas. Uma risadinha robótica e açucarada fez-se ouvir pela fechadura.

Volte a dormir. Está tudo bem por aqui – a voz gracejou, de modo meigo e suave – onde estão nossos amigos? — sons de arranhões contra a madeira se seguiram – vocês não querem brincar com a gente? — acrescentou, risonha — não querem se divertir com a Lunny?

Dennis segurou a respiração quando outra voz robótica acompanhou a primeira – do gênero masculino, amigável e quase estridente.

Saiam de onde estiverem… Teddy quer brincar com vocês!

— O que diabos é isso? — sussurrou Miguel, aturdido.

Houve um arfar coletivo e baixo, quando a maçaneta estremeceu, girando com um som sinistro para os lados.

— Não, não… — o garoto estremeceu – vão entrar aqui…

Dennis olhou ao redor, em pânico.

A mulher havia lhes dito que, contanto que permanecessem na sala, estariam seguros de qualquer ameaça.

Por que teria mentido?

Os socos aumentaram em intensidade. O rapaz estava começando a se convencer de que iriam arrombar a porta em breve.

Ambas as vozes se uniram num dueto maligno, perdendo o tom agradável, e tornando-se rascantes, obscuras e distorcidas.

— Não... segurem... isto... contra... nós.

Dennis gritou quando a porta estremeceu, golpeada ferozmente, emitindo um guincho alto e aterrorizante.

Retirou as mãos, piscando.

O silêncio retornara.

Apertou os olhos contra a porta, agora novamente quieta.

A maçaneta parara de tremer.

Miguel levou os olhos ao alto, encarando as esferas, que começavam a se tornar opacas – provavelmente anunciando a chegada da manhã.

Thorfinn soltou um muxoxo, que mesclava descaso e tensão.

— Bem... – falou em voz baixa – já sabemos que não são humanos – sacudiu a cabeça, como quem espanta a insegurança tal qual uma mosca irritante – não importa. Não vamos cair no erro de sermos pegos desprevenidos por essas coisas – recomeçou a brandir a pequena lâmina contra a tábua que segurava – amanhã á noite, quando essa porta reabrir, estaremos prontos. E iremos sair desse lugar de uma vez por todas!

Dennis podia ser inexperiente.

Mas de uma coisa ele começou a ter certeza.

Quando saíssem dali, apenas os céus poderiam protegê-los.

Por que havia mais do que um cadáver destroçado os aguardando lá fora.