Five Nights At Decennary
13 Quarta Noite
30 DE ABRIL DE 2008
— Está pronto?
Dennis soltou um longo suspiro, fechando os olhos por alguns segundos.
Manteve-se em silêncio, já que a resposta sincera não teria efeito algum sobre a decisão do tio, e nem o consolaria de alguma maneira.
Alisou a beirada da estaca de madeira com o polegar, convencido de que aquele espinho não causaria efeito algum contra a resistente carcaça metálica dos animatrônicos.
Porém, como Thorfinn dissera, eles teriam de arriscar.
Observou Rowle posicionar-se defronte á porta de madeira, abarcando a maçaneta com as mãos ásperas. Com um sinal da cabeça, incentivou o sobrinho a aguardar atrás de si. O Comensal resfolegou longamente, e então a girou, abrindo a porta que dava para o corredor.
O corpo em decomposição tinha um cheiro ainda pior que antes, o que fez ambos enrijecerem por um momento, os rostos tampados por uma das mãos e os olhos lacrimejando de agonia. Sabiam que encontrariam o cadáver de Miguel à frente, e decidiram pegar o corredor da direita, correndo o mais rápido possível para longe do odor pútrido.
Ás cegas, tateando entre as paredes, apertaram os olhos, á procura de algum vislumbre ou sombra. Porém, apenas a escuridão – imensa e absoluta — parecia lhes fazer companhia.
— Precisamos chegar a qualquer lugar iluminado – sussurrou Dennis – ou outra sala... não podemos ficar tropeçando a esmo para sempre...
Uma leve – quase imperceptível – luminosidade pareceu ladeá-los, como se estivessem adentrando num ambiente maior que o anterior. Thorfinn piscou outra vez, irritado, sem ver nada além do breu á frente.
— Hooooooa... quem está aí?
Os dois homens se refrearam imediatamente, não ousando soltar a respiração.
Vagarosamente, duas luzes azuladas surgiram alguns metros adiantes, piscando de modo anormal, como se fossem as pupilas tenebrosas de dois enormes olhos.
Dennis não tinha coragem de movimentar um único músculo, enquanto observava o feixe de luz, emitido pelas órbitas, clarear o caminho adiante.
Por fim, puderam ver a silhueta de um curioso animatrônico, de características unguladas, focinho curto e pontudo, com dois pequenos e afiados chifres no topo da cabeça. Trajava um tipo de macacão azul-marinho, e batia as mãos – na forma de cascos – nos bolsos do Jens, com um ritmo arrepiante.
Harty deu alguns passos adiante. A gora auxiliados pela luz dos olhos chamejantes, Thorfinn esgueirou-se para a beira de um caixote, empurrando Dennis consigo, saindo do campo de visão do cervo robótico.
— Saia daí... Harty só quer brincar com vocês!
Sentiu o sobrinho sufocar um guincho de pânico, apertando a estaca nas mãos trêmulas.
Para a perplexidade de Thorfinn, percebeu que havia manchas de sangue nos dentes quadriculados e sorridentes do animatrônico.
A voz de Harty se distorceu, rascante e ameaçadora. Dennis sentiu o cervo passar por trás dos caixotes, que ocultavam a si e seu tio.
— Não segurem isso contra nós... não sairão vivos daqui!
No entanto, para completo choque dos Comensais da Morte – e, evidentemente, até mesmo do animatrônico – uma voz ecoou pelo galpão.
Baixa, e inesperadamente carinhosa.
— Não... não há nada aqui, querido. Volte a dormir. Tudo vai ficar bem.
Confusos, Dennis e Thorfinn ouviram Harty resfolegar, num tipo de soluço penoso.
Os passos mecânicos do animatrônico pareceram se distanciar do ponto em que estavam, ecoando para longe de seus campos de audição, até silenciarem-se completamente.
— Ele já foi? – indagou Dennis, atônito.
Saltaram levemente quando a voz retornou.
— Querem se salvar? Ou querem fugir?
Dennis, espantado, reconheceu a voz como sendo a da auror.
Thorfinn rosnou baixinho, apertando os olhos. As palavras pareceram lhe rasgar a garganta, enquanto eram lentamente ditas.
— Queremos... queremos nos salvar. Só... nos salvar. Salvar meu sobrinho.
O rapaz arquejou de perplexidade, virando-se para onde sabia estar o tio. Sentiu as lágrimas encherem seus olhos, vendo o quanto Thorfinn, apesar de tudo, se preocupava verdadeiramente com ele.
Houve um minuto de silêncio. E então a voz de Weasley retornou.
— Estão fora de controle— anunciou agourentamente – não há nada que possa ser feito por vocês agora. Terão que se manter a salvo por hora — mais uma longa pausa – andem até noroeste. Há uma sala vazia, selada com uma magia razoavelmente forte, onde poderão se abrigar. Mas não se demorem. Teddy estará por perto. Tentará acuá-los para outro lado. Se fizerem isso, vocês irão morrer — sibilou alto – shhh. Ele está entrando. Vão. Agora.
Assim que a voz desapareceu, Thorfinn puxou Dennis para junto de si, rumando a noroeste, como Weasley havia orientado.
— E se for uma armadilha? – murmurou o garoto.
— Teremos que arriscar – guinchou Rowle, ofegante.
Afortunadamente, não houve nenhum sinal do animatrônico que Weasley mencionara, enquanto se dirigiam velozmente na direção que a auror indicara.
Porém, quando uma forma retangular surgiu diante se suas fracas visões periféricas, um par de novos feixes de luz surgiu no horizonte.
De uma forte cor esverdeada, as novas órbitas piscaram na direção dos Rowle.
A claridade foi o bastante para iluminar completamente o corpo mecânico do cachorro animatrônico, cuja cabeça envergou-se suavemente para o lado, observando, de modo imóvel, os dois invasores do galpão.
Dennis enrijeceu-se ao encarar os dentes afiados, também maculados de vermelho, escancarados no focinho entreaberto de Teddy.
Thorfinn sufocou um berro de exasperação. A porta estava logo ao lado daquele maldito robô. Seria impossível passar sem que fossem atacados.
Houve uma contração de susto quando a voz de Weasley ecoou novamente.
— Shhhh... está tudo bem, meu amor. Eles não estão aqui para nos machucar. Eles só querem ir para casa – seu tom baixou, provavelmente inaudível ao animatrônico – prossigam. Devagar. Não façam movimentos bruscos. Entrem assim que chegarem á porta.
Thorfinn e Dennis voltaram a andar, a passos lentos e nervosos. Quase pararam outra vez quando Teddy emitiu um alto e aflito choramingo, ainda paralisado defronte ao corredor de caixotes.
Passaram pelo cachorro animatrônico de respiração presa, sentindo seus corações saltarem dentro do peito, o sangue rugindo em seus ouvidos.
O alívio os inundou quando apalparam a superfície plana da porta de aço. A mão de Dennis agarrou um tipo de trinco de ferro, abrindo-o.
Atrás de si, no entanto, ouviram Teddy rosnar alto, parecendo despertar de seu transe.
— Entrem. AGORA!
O rapaz abriu a porta, empurrando o tio para dentro, e lançando-se ao seu encalço logo em seguida. Os dois empurraram o interior da porta de aço, fechando-a pelo trinco de dentro, a tempo de sentirem Teddy jogar-se contra ela do lado de fora.
Pela janela de vidro blindado, ainda podiam ver a cabeça do cachorro, cujas mandíbulas se contraíram, ferindo a superfície, deixando um rastro de sangue e arranhões na vidraça.
Ficou alguns segundos ali, encarando-os demoniacamente, até que, finalmente, sua silhueta desapareceu em meio á escuridão.
Duas luzes esféricas acenderam-se no teto, idênticas a da antiga sala. Dennis escorregou pela porta, caindo de joelhos no chão.
— Por que – ofegou – por que ela nos ajudou?
O Comensal da Morte não respondeu – afinal, não tinha uma resposta realmente válida.
— Não sei.
— O que fazemos agora?
Rowle piscou, franzindo a testa.
Não soube por que, mas o que disse em seguida, pela primeira vez naquele período de tempo, refletiu a coisa mais racional – e única — a se fazer.
— Agora – suspirou – nós esperamos.
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