— Estou saindo, amor.

— Ah... ok. Bom trabalho, querido. Até amanhã. Tome cuidado.

Assim que Rony deixou a cozinha – após se despedir da mulher – fechando a porta atrás de si, Hermione resfolegou alto, finalmente permitindo-se suar frio.

Havia deixado as crianças com Luna algumas horas antes, alegando um compromisso urgente com os aurores durante aquela tarde.

O peso da mentira era só mais um dos que a auror tentava carregar desde a noite anterior.

Fora de controle.

Os animatrônicos estavam fora de controle.

Quinze horas atrás, conseguira finalmente conectar-se a todos os elementos de sua maquete, por fim descobrindo o que havia ocorrido durante aquelas quatro noites.

O pânico a dominara, quando percebeu as retrospectivas do último Comensal da Morte morto.

Tot não havia o barrado. O jovem sequer havia procurado fugir.

Havia caçado-o até a morte.

Julgara seu plano sem falhas. Achara que, tendo como núcleo a essência das figuras mais justas que o mundo bruxo conhecia, suas criações saberiam o limite entre o bem e o mal, e teriam limites pré-estabelecidos.

Agora, um homem estava morto. Sem razão alguma.

Assim que percebera, havia tentado manter os últimos Comensais a salvo dos demais. Decidira adotar tal plano para poder se organizar melhor, dado seu choque com a situação toda.

Não tivera oportunidade de ajudá-los pessoalmente na noite anterior. Com a visita dos cunhados em casa, sua saída teria levantado suspeitas. E a atividade noturna dos animatrônicos não era algo que Hermione se daria ao luxo de revelar.

Mas agora – remoia-se, preocupada — a gigantesca falha em seu plano levantava questões incômodas.

Se todos estavam aquém de suas ações originais, ignorando suas programações...

Imaginou que fariam á uma pessoa inocente – como o jovem Comensal que seu patrono rastreara na primeira noite.

Não. Não podia permitir aquilo.

Se estivessem de fato se rebelando, seriam ameaças em potencial. Com a inteligência quase humana instalada em seus raciocínios artificiais, imunes quase todas as magias conhecidas, poderiam adquirir uma terrível independência.

Fugir do galpão.

E – pior – deixar um rastro de destruição e morte em seus caminhos.

Seria sua culpa.

Teria que ir até lá naquela noite. Desativar o animatrônico matriz, antes que também se configurasse, encerrando a atividade dos demais.

Seis animatrônicos descontrolados, contra apenas dois bruxos desarmados...

Seria um massacre.

Disparou escadaria acima, correndo até o quarto, sentando-se defronte á mesa onde conjurava a maquete do galpão. Com um aceno da varinha, fez ressurgir a miniatura luminosa da construção.

Perpassou o olhar ansioso sobre os dois pavilhões, ficando atônita, enquanto observava os animatrônicos entocando-se nas salas da ala oeste, demonstrando uma desagradável atividade diurna.

— Não... não deviam andar durante o dia... – resmungou – o que diabos pensam que estão fazendo, afinal?

Para seu maior espanto, Lutra – a matriz, que não deveria se ativar até a última noite – se encontrava num depósito, a poucos passos do cômodo dos Comensais.

— Eles não vão conseguir sair... – exasperou-se – vão encurralá-los..!

Hermione socou a mesa, irritada. Cobriu a testa com as mãos a seguir, pensando numa saída para aquele dilema estressante.

Tocou a maquete, aproximando-se de Lutra.

Surpreendeu-se quando a lontra animatrônica ergueu o focinho para cima, como se pressentisse a presença de sua criadora, mesmo com os quilômetros de distância entre ambas.

Mas seu aturdimento real só surgiu quando o robô balançou a cabeça, num extraordinário meneio de negação, voltando a posicionar-se sobre as caixas do depósito.

— Sinto muito – suspirou, sentindo o peso do remorso a inundar – eu sei o que... o que nós passamos. Foi um plano tolo. Mas esse não é o caminho – rosnou baixo, vincando o cenho – não é o caminho... agora vejo isso. Foi um erro – retirou a mão da maquete – estamos quebrados. Mas eu irei consertar... a todos nós. Eu... eu prometo.

Havia organizado tudo. Rony só retornaria na manhã seguinte, devido aos últimos preparativos para o Decênio. Rose e Hugo dormiriam na casa dos Lovegood. Portanto, teria tempo o suficiente para partir rumo ao galpão, e enfim resolver todo aquele problema, a tempo das comemorações do dia seguinte.

No entanto, algo a incomodava profundamente.

Teria que tocar em seu animatrônico matriz para desativá-lo.

E, levando em conta aquela mórbida demonstração de onisciência da lontra, alguns segundos atrás, Hermione tinha a terrível impressão de que Lutra faria de tudo para que isso não acontecesse.

— Esperta, Lutra – guinchou, numa risadinha desolada – muito esperta. Teve mesmo a quem puxar.

Lutra era sua representação fiel – seu raciocínio, suas emoções e seus sentimentos mais fortes. Para descobrir o próximo passo deles, teria que pensar como ela.

— O que eu faria? – murmurou consigo mesma – se eu fosse uma máquina com consciência, procurando caçar e assassinar alguém... como eu faria isso?

Pôs-se a analisar outra vez a maquete, tentando entender o padrão que os animatrônicos estavam adotando, esforçando-se para encontrar uma brecha que pudesse aproveitar. Como os retiraria daquele local, com todos aqueles robôs assassinos rondando o abrigo que lhes designara?

Após algum tempo, estalou os dedos, soltando um muxoxo.

— Que se dane o plano original – apoquentou-se, erguendo-se da cadeira e fazendo a maquete desaparecer.

Andou a esmo, caminhando até o quarto dos filhos. Só parou quando esbarrou no berço de Hugo, agarrando-se ás grades com excepcional força.

Estava perdendo o controle de si mesma.

E sabia o que vinha a seguir. A falta de raciocínio e foco era a receita para o caos e a tragédia em sua vida. Não podia deixar-se abalar daquela forma — não num momento tão crucial.

Inspirou profundamente, tamborilando os dedos na superfície arredondada.

Acalme-se, Hermione. Suspirou. Não é hora para perder o fio da meada.

Observou o pequeno edredom que recobria o colchão. Segurou-o por um momento, abraçando-o contra o corpo, sentindo o cheiro de colônia infantil que o filho caçula tanto gostava de usar.

Apertou a mão nas bordas, erguendo o olhar para a janela do quarto.

— Eu vou resolver isso – fechou os olhos – prometi que vocês cresceriam num mundo sem ameaças – sua expressão se anuviou, intensa e determinada — vou cumprir esta promessa.