Five Nights At Decennary

5 Primeira Noite - Parte 1


Uma badalada sonora, de tom agourento, ecoou por trás das paredes da sala.

Dennis ainda mantinha os olhos fixos no local onde o patrono havia desaparecido. Trêmulo, retirou, de um dos bolsos, um velho relógio, consultando-o.

— Meia noite – sussurrou.

Todos se mantiveram quietos, visivelmente atônitos, pro alguns segundos.

Uma armadilha. Tudo não passara de uma armadilha. E os cinco Comensais haviam caído nela, do modo mais tolo possível.

O rapaz encarou cada um dos rostos dos mais velhos, sentindo um arrepio desagradável na espinha.

Não sabia o que achar de tudo aqui. Estava atordoado, temendo represálias — principalmente agora que todos estavam ali, cercados pelo desconhecido, por culpa de sua falsa informação.

Embora houvesse um ou outro olhar direcionado com ódio à Dennis, nenhum deles se manifestou em palavras. O atordoamento era recíproco, entre todos os cinco Comensais.

— Nós vamos — Travers foi o primeiro a falar. Sob a observação indagadora dos demais, ele reafirmou-se, franzindo o cenho – vamos embora! ual é. Acreditam mesmo na baboseira que aquele patrono soltou em cima de nós? – gesticulou a varinha, agora inútil, entre os dedos delgados – podemos estar sem magia, mas ainda podemos fugir. Se eles realmente só virão para cá daqui a cinco dias, é mais que o suficiente para deixarmos o prédio.

— Mas e a tal ameaça que ela disse? – ofegou Dennis – sobre ter algo lá fora...?

— Criança ingênua — Selwyn balançou a cabeça – não há nada lá fora. Essa maldita sangue-ruim está fazendo um jogo com a gente – ergueu-se, encarando as esferas luminosas do teto – façamos assim... eu e Travers sairemos primeiro e procuraremos a saída. Assim que um de nós a achar, avisamos os demais. Esse lugar parece imenso, então não é boa ideia irmos todos juntos. De nada adiantará nos perdermos nos corredores.

— Tem razão – concordou Rowle.

— Tio, talvez devamos esperar... – tentou dissuadi-los Dennis, perturbado.

— E aguardar que os aurores venham e nos capturem outra vez?? – rosnou William – vamos sair agora, garoto. E vamos provar a você… nunca será necessário depender da piedade de pessoas como aquela vadiazinha – o Comensal pôs-se de pé, decidido – com ou sem magia, o que quer que exista por trás dessa porta não irá nos atingir.

Selwyn se levantou, enquanto Travers retirava a tampa da caixa de madeira, verificando seu conteúdo.

— Está vendo? — apanhou vários objetos retangulares, com embalagens prateadas, despejando-os diante dos que ainda estavam sentados no chão – queria que sobrevivêssemos com isso... não vou me admirar se estiverem envenenadas – chutou com desprezo uma das barras de fibras – vamos logo, Don.

Dennis não parecia mais calmo.

Pelo contrário.

Assim que acompanhou os dois Comensais da Morte saindo porta afora, fechando-a atrás de ambos, teve uma desagradável impressão.

A impressão de que não voltaria a vê-los outra vez.

Concordava com Selwyn. Tinha certeza de que a mulher, cujo patrono os atormentara, realmente estava fazendo um jogo com todos ali.

Ainda não tinha ideia.

Eram apenas mais uma atração no show de horrores que estava por vir.

Selwyn e Travers se depararam com um longo corredor, oculto pela escuridão.

Havia dois lados para o qual poderiam se dirigir.

Curioso, Don baixou o olhar, identificando algo cilíndrico no chão. Abaixou-se, apanhando dois itens de aparência vagamente familiar. Passando os dedos pela base, piscou, surpreso, quando um feixe de luz expandiu-se no teto do corredor.

— Lanternas – bufou, desdenhoso, dando a outra lanterna na mão de William, que também a acendeu – eu juro, Travers… a primeira coisa que vou fazer quando sairmos daqui... é dar um jeito de estripar aquela auror maldita – virou a cabeça para o norte – dois caminhos… acho que vamos ter que nos dividir. Você pela esquerda. Eu vou pela direita.

Travers assentiu, começando a ir pelo outro lado. Selwyn aguardou que o colega desaparecesse na escuridão, antes de iniciar sua própria caminhada.

Começou a andar lentamente, inclinando a lanterna pelos cantos, sem saber exatamente o que procurar. Sentia o ar frio da construção uivar baixo em seus ouvidos, fazendo seu corpo enrijecer em alerta. Não havia nenhum sinal de vida que pudesse ser captado por sua audição.

Finalmente, após alguns minutos, o corredor pareceu terminar, dando lugar a um amplo salão.

Don olhou ao redor, acompanhando a luz da lanterna. Havia um palco improvisado ao fundo, e vários caixotes de aparência hostil, cujas sombras se destacavam macabramente, em sintonia com a luminosidade.

Surpreendido, ouviu uma música baixa, suave, sendo emitida detrás de uma das pilhas – uma canção de ninar trouxa.

Uma voz robótica – aguda, fina e dócil — deu sequência à música, fazendo os olhos de Selwyn saltarem.

— Olá, amigo! Você quer ter um tempo divertido?

O Comensal deu alguns passos para trás, vincando as sobrancelhas.

— Quem está aí? — falou – apareça!

Concluiu ter sido um erro bem antes de completar a sentença. Arquejando, apontou a lanterna para o lugar de onde viera a voz mecânica, vendo o feixe de luz tremeluzir sobre os caixotes a leste.

Por fim, em um dos cantos, a lanterna revelou uma silhueta alta, de feições zoomórficas.

Intrigado, Selwyn encarou a grande lebre amarela, trajada com um delicado vestido branco de alças, decorado com o que pareciam ser padrões de pequenos rabanetes. Ambos os olhos azuis do animatrônico encontravam-se pousados entediadamente na lanterna de Don, destoando do sorriso na máscara do robô.

Sobressaltou-se quando Lunny piscou, movimentando a cabeça de modo artificial, como poderia se esperar de um animatrônico. Uma risadinha, emitida pela caixa de voz da lebre, soou levemente através do ar.

No entanto, a mesma voz destoou, distorcendo-se em lugares estranhos, assim que Lunny prosseguiu novamente a mesma indagação.

— Você quer ter um tempo… — Don congelou quando o som da voz da lebre tomou um tom mais consciente e assustador, perdendo as ranhuras robóticas — … ruim... Don Rowle...?

Don, alarmado, só conseguiu observar Lunny sair detrás dos caixotes, aproximando-se dele a passos lentos, os olhos sem vida adquirindo um brilho azulado apavorante.

O animatrônico abriu a boca, expondo, para terror do Comensal, os dentes afiados de seu endoesqueleto.

Selwyn se afastou, atordoado.

O que era aquilo? E como aquela coisa sabia o seu nome?

— Se afaste! — exclamou, passando os olhos desesperadamente pelo salão, à procura de algo que pudesse se tornar uma arma. Focalizou um pé de cabra ao canto, o qual agarrou, as mãos trêmulas, voltando-se para o animatrônico sorridente.

Coletando as gravações da caixa de voz, para formar frases não programadas, a lebre continuou seu monólogo.

Eu lembro de você— sussurrou Lunny, de um jeito tão agourento, que a fala, supostamente maravilhada, perdeu seu tom agradável – você brincou com meus amigos uma vez. Foi de esconde-esconde, não é? Por que eu não os encontrei…. — distorceu-se outra vez… — nunca mais…

Em pãnico, Don ergueu o pé de cabra, perplexo por concluir que o robô não estava se referindo a um evento recente.

— Eu mandei se afastar! — gritou, brandindo a ferramente contra a cabeça de Lunny.

Antes que a ponta sequer tocasse nas orelhas felpudas, porém, uma mão robótica se interpôs no caminho, agarrando fortemente o pé de cabra de Selwyn.

Lunny riu-se outra vez, virando o objeto de ponta para baixo, num movimento rápido demais para um simples robô executar.

Don mal teve tempo de se esquivar, entes que o pé de cabra desferisse um golpe trucidante contra seu rosto, fazendo-o desabar no chão com o impacto. A lanterna em sua mão rolou pelo chão, indo parar alguns metros adiante.

O Comensal da Morte tossiu, berrando de dor, passando a mão pela face – e ofegando, ao sentir o sangue empapar seus dedos, fruto de em corte profundo em sua bochecha, que a gora expunha dois ou três dentes em sua mandíbula trucidada.

Lunny se aproximou, segurando com firmeza o tornozelo do bruxo, puxando-o para si. Ainda tonto pela pancada, o homem mal conseguiu esboçar resistência, ao ser içado pela garganta por uma das mãos da lebre, até a altura de suas órbitas flamejantes.

O robô balançou a cabeça, tal como uma criança que admirava algo curioso.

— È importante saber a hora de perder – falou em tom baixo, a risada ficando ligeiramente mais seca e rude, enquanto um dedo gorducho deslizou pelo rosto mutilado de Don Selwyn— é sim…

Lunny gritou fantasmagoricamente – não alto o bastante para encobrir o som do pescoço do Comensal partindo-se em suas mãos.