Five Nights At Decennary

6 Primeira Noite - Parte 2


William Travers rutilou a pequena lanterna nas mãos, paralisando, ao ouvir um som estrangulado ecoar, ao longo do corredor que acabara de deixar para trás.

Jurava que havia sido sua imaginação. Afinal, nunca ouvira qualquer ser vivo emitir aquele urro pavoroso, tal qual havia sido registrado em sua mente alerta.

— Selwyn? — sussurrou, gesticulando com o feixe de luz em suas costas.

Apenas o suave murmurar do vento lhe respondeu, vindo de algum canal desconhecido, passando por seus ombros como uma respiração ruidosa e hostil.

Distraído, em meio à escuridão, sentiu seu pé chutar algo, que rolou pelo piso com estardalhaço. Parou de andar no mesmo minuto, momentaneamente receoso de haver alguma outra presença nos arredores.

— Droga… controle-se, Travers – murmurou consigo mesmo – não há anda aqui. Aquela mulher está fazendo joguinhos mentais conosco…

Uma voz baixa, incorpórea e suave, quebrou a neutralidade sonora do local, fazendo Travers se arrepiar.

Volte… Volte atrás. Suplicou. Não dê nem… mais… um… passo.

Ele trincou a mandíbula, irritado.

É só um jogo. Pensou. Nada mais que isso.

Ignorando o aviso da voz sem emissor, William continuou seu caminho, perpassando cuidadosamente a lanterna ao seu redor.

Outro som o sobressaltou. Passadas rápidas — embora pesadas — fizeram-se ouvir a oeste, alguns metros adiante.

— Don? — falou, sobressaltado – é você?

Não houve resposta.

Deu de ombros. Talvez fosse apenas uma ratazana, cujos passos, ampliados pela quietude do prédio, pareciam maiores do que deveriam.

Andando ao longo do que parecia ser uma grande sala, identificou vários objetos estranhos – molas desgarradas, peças metálicas de formato irregular, e travas de aço, curiosamente familiares. Tinha certeza de ter identificado, entre os componentes dispostos em caixas, algo que lembrava muito uma cabeça de metal.

Esbarrou acidentalmente em uma delas, fazendo alguns itens rolarem pelo chão.

O objeto que encarara segundos antes surgiu á luz da lanterna, confirmando suas suspeitas – grande, maciço, com um tipo de mandíbula, embutida no rosto descarnado de ferro.

A palavra custou-lhe a surgir, já que nunca havia se deparado com algo daquele tipo.

Robô.

Ouvira falar daquele tipo de coisa, criação exclusiva dos trouxas. Mas nunca havia visto um de perto.

Riu-se mentalmente do formato ridículo da parte robótica, que lembrava algo entre um porco e um javali. Ficou imaginando que tipo de mente débil criaria tecnologia representando algo tão estúpido.

Prosseguindo, chutou para longe a cabeça do endoesqueleto, guinchando baixo, ao perceber o peso que ricocheteara contra a força de seu pé.

Ergueu a lanterna mais alto, agora procurando por qualquer porta, ou divisória, que levasse á uma nova sala.

Enrijecendo, percebeu um gemido baixo, bem próximo dali, vindo de uma pilha de caixas de peças ao seu lado.

Disparou a luz na direção daquele ponto, sobressaltando-se. Ao focalizar a origem do som, recuou um pouco, boquiaberto.

Ao contrário da parte avulsa que encontrara, agora um robô completo encontrava-se recostado nas caixas, pousando as mãos — em forma de cascos — sobre a tampa do caixote que havia diante das pernas. Tinha uma cor alaranjada, crina de tom levemente mais escuro, e um focinho inconfundivelmente eqüino. Trajava um avental florido, cheio de babados. Dois olhos verdes miravam o nada, trazendo uma aura tristonha à égua animatrônica, que, tal como uma sentinela imóvel, contemplava o breu da grande sala.

Curioso, assistiu a boca de Ginger estremecer.

Sua caixa de voz emitiu uma voz melodiosa, agradavelmente suave, enquanto os olhos finalmente piscavam, focalizando-se na direção do Comensal da Morte.

O show vai começar… se preparem para a diversão!

Travers estreitou os olhos, desconfiado, dando as costas para Ginger, e afastando-se lentamente do animatrônico.

Mal deu cinco passos à frente, quando sentiu uma mão enganchar-se em seu casaco, puxando-o novamente para trás.

Ginger virou-o violentamente em sua direção, ainda agarrando-o, deixado William de frente para os olhos pulsantes e esverdeados do robô.

Ah, já está indo embora? — emitiu a voz afável – fique mais um pouco… — a caixa de som emitiu um ruído pavoroso, e a voz de Ginger se distorceu, tornando-se ameaçadora e rouca – eu… ainda não terminei… com vocêêêêêêêê...!

Desesperado, Travers desvencilhou-se da blusa que usava, fugindo aos tropeços do animatrônico de olhos rutilantes. Apertando a lanterna contra o peito, numa tentativa de abafar sua luz, e sentindo o coração disparar, esgueirou-se pelas montanhas de caixotes, procurando se esconder.

Ouviu passos se aproximando, e o guincho metálico das juntas do robô estalarem, conforme se movia.

William Traveeeers…— cantarolou Ginger, distorcendo as frases gravadas em sua caixa de voz – onde você está? Saia daí… vamos brincar!

O bruxo prendeu a respiração, sentindo algo se arrastando demoniacamente por trás de seu esconderijo, resvalando os pés robóticos sobre o chão, numa procissão quase cínica.

William perpassou o olhar sobre as sombras, aflito, procurando algum meio de escapar da diabólica animatrônica.

O som dos passos desapareceu repentinamente. Em vez de tranqüilizá-lo, a ausência de movimento o deixou ainda mais perturbado. Não ousava acender a lanterna outra vez, receando que isso denunciasse sua posição.

O sussurro suave voltou a atingir sua audição, agora num tom exasperado e cruel.

Devia ter voltado naquela hora... agora é tarde demais... ela vai te pegar.

Estremecendo, Travers deslizou o corpo silenciosamente pelos caixotes, movendo-se lentamente, suando frio, sentindo o sangue rugir em seus ouvidos.

— Não... não vou... eu vou sair daqui... – rosnou num cicio, apertando a base da lanterna desligada.

Por fim, sem alternativa, diante da escuridão que imperava no ambiente, o Comensal arriscou piscar um fraco feixe de luz adiante.

A máscara de Ginger surgiu á sua frente.

Os olhos acesos e furiosos.

Um som demoníaco escapando de sua boca entreaberta.

Não teve tempo de se esquivar da mão mecânica que lhe prendeu a garganta contra os caixotes.

— N-não... – engasgou, tossindo, com os dedos que lhe fechavam as vias respiratórias.

Ginger piscou, não demonstrando a menor empatia pelo bruxo agonizante que se debatia sobre seus cascos de ferro.

Vocês não nos ouviram — a voz da animatrônica suspirou, suave como antes – vocês nunca aprendem. Não sentem o peso de seus pecados sobre os ombros – o tom maculou-se, retornando ás distorções medonhas – então faremos com que sintam... o que nós sentimos!

A mão da égua soltou o pescoço de Travers, apenas para tapar-lhe a boca, esmagando sua mandíbula para dentro da cabeça.

Com um misto de veias estouradas e uma língua quase arrancada engasgando-lhe a garganta, foi impossível William Travers gritar de dor, quando a outra mão de Ginger penetrou-lhe o abdômen, enganchando os dedos dentro de seu corpo, e fazendo o sangue espirrar em seu avental de jardineira.

A animatrônica retraiu o braço, trazendo consigo um emaranhado de vísceras na mão ensangüentada.

Foi só então que, dando-se pro satisfeita, Ginger soltou o Comensal da Morte moribundo, afastando-se dali e deixando-o gorgolejando, numa mistura grotesca da própria carne dilacerada.

Definhando, afogando-se dentro das próprias entranhas, o bruxo não morreu de imediato.

Ainda conseguiu arrastar-se pelo chão, ensangüentando o piso com as tripas retiradas, tentando voltar para a sala principal – talvez pensando que, caso retornasse, seria poupado daquela terrível dor.

Não chegou lá.

E, a poucos metros da porta, seu cadáver seria encontrado, com a lanterna apagada nas mãos.

Tal como sua vida.