Rony olhou ao redor do galpão, dando um largo sorriso para o Ministro da Magia.

— Vamos transferi-los para o depósito do castelo em algumas horas. Tudo estará pronto a partir de amanhã... a festa do Decênio vai ser inesquecível!

— Impressionante – aprovou Shackebolt – Hermione realmente criou algo inédito aqui – o ex-auror franziu o cenho – mas ela os manteve... desligados?

Weasley suspirou, encarando o animatrônico mais próximo de si. Teddy parecia tristonho, a cabeça baixa, e os dedos mecânicos fechados na palma das mãos.

— Hum... sim. Ela resolveu retirar os núcleos.

— Os núcleos? – surpreendeu-se o Ministro – o DNA que ela incrementou á inteligência artificial deles?

— Sim. Não pergunte para ela – o rapaz franziu os lábios, num misto de humor e desespero – quanto indaguei, Hermione me encarou com aquele olhar – acrescentou – sabe, o olhar de que eu devia ficar quieto se quisesse manter minha zona sul... ilesa.

Kingsley gargalhou.

— Entendo... mas por que ela não está aqui? Pensei que estivesse animada com os preparativos.

— E está – Rony revirou os olhos – mas ela... mandou-me uma carta, pedindo que eu viesse em seu lugar, para supervisionar a transferência... está no St. Mungus – o auror fez uma careta, enquanto Shackebolt demonstrou espanto – foi enfaixar o braço... disse algo sobre ter prendido o braço sem querer numa das armadilhas de cinzal do nosso quintal – ele estremeceu – eu já disse para tirar aquelas coisas dali, mas Hermione tinha garantido que era seguro...

— Bem... espero que se recupere logo. Desejo melhoras – o bruxo meneou a cabeça.

— Vou visitá-la mais tarde... disse que nunca me perdoaria se eu deixasse de ajudar nos arranjos para ver a fuça dela no hospital – riu Rony, sacudindo a cabeça – ela não tem jeito.

— Espero que isso não atrapalhe a posse dela no próximo semestre. Ninguém vai querer a nova Ministra da Magia ferida em seu grande discurso – sorriu Kingsley – vou verificar o andamento das coisas na frente do galpão. Tome o tempo que quiser, Rony.

O ruivo acompanhou Kingsley se retirar do local, resfolegando suavemente.

Rony ergueu o braço, afagando o focinho do cão animatrônico, sentindo seu carinho pela esposa aumentar ainda mais.

Depois de tudo que haviam passado – de tudo que havia feito, e dos erros que havia cometido – Hermione havia, mesmo assim, aceitado passar o resto de sua vida com ele. Agora, ela era a mulher de sua vida. Tinham dois filhos maravilhosos, e uma família incrível.

Por mais que, depois de tanto tempo, a perda de Fred e outros amigos ainda fosse dolorosa, todos haviam conseguido superar as feridas do passado, apenas preocupando-se com o que estava por vir no futuro.

A oportunidade e a esperança sempre seriam construídas no agora.

Por isso, tinha o nome de presente.

—--------------O-------------

— Ei. Acorde.

Houve um farfalhar nos lençóis alvos do leito. Hermione ergueu os olhos, aguardando pacientemente.

Dois olhos piscaram fracamente, finalmente recebendo a imagem da auror em seu campo de visão.

Dennis gemeu, levantando a cabeça, sufocando um guincho de dor, levando a mão ao abdômen.

— Devagar. Você perdeu muito sangue – alertou a auror.

O garoto, confuso, olhou ao redor. Com dificuldade, identificou-se dentro de um quarto de hospital. Havia um tubo acoplado em seu pulso, gotejando uma poção suspensa por um apoio.

Sentia-se sonolento e dolorido. As memórias turvavam-se em sua mente, desconexas e fracas, voltando aos poucos.

— O que... – guinchou, com a voz rouca – o que... aconteceu...?

Viu o rosto de Hermione se turvar em remorso.

— Eu sinto muito... Dennis, não é? – seus olhos se fecharam de modo aflito – eu não tenho palavras para dizer o quanto sinto...

Dennis a encarou.

Hermione Weasley... ela era quem havia começado tudo aquilo. A causadora daqueles cinco dias de horror e tormento. Quem praticamente havia matado seus colegas...

E seu tio...

Seu tio. Nem sabia como deveria ter morrido.

O rapaz ofegou.

Por mais que quisesse – e tivesse – razões para odiar aquela mulher... não conseguia.

Via, naquele rosto angustiado, a sombra de alguém que sofrera horrores piores e maiores que os dele.

Como poderia ter raiva de alguém que havia perdido tanto para os Comensais da Morte e Voldemort? Se estivesse no lugar dela, inundado pela sede de vingança, também não teria feito alguma loucura igual?

Não se sentia no direito de julgá-la.

Mesmo que a perda de Thorfinn — sua única família – o destroçasse por dentro.

— Você... salvou minha vida – Dennis sussurrou, por fim.

Hermione deu uma risada baixa e desolada.

— Era o mínimo que eu podia fazer. Depois do que eu fiz... – a jovem abarcou o rosto nas mãos – Deus do céu...

Com o movimento de Hermione, o garoto percebeu a faixa ensangüentada no braço da auror. Arrepiou-se, relembrando o momento em que Lutra abocanhara-o.

— O que houve... lá...?

Ela deu um longo suspiro, baixando as mãos.

— Você desmaiou. Eu... – hesitou, como se medisse as palavras – retirei os núcleos da inteligência deles. Limpei... limpei tudo. Não podia... deixar que vissem – arquejou – enfeiticei um funcionário para que... enterrasse os corpos. E aparatei com você até aqui.

O jovem Rowle baixou a cabeça, desolado.

Imaginava aonde teriam enterrado o tio. Talvez numa área rural, á beira da floresta.

Tinha o pressentimento de que Hermione lhe diria sobre que fim Thorfinn tivera mais tarde. Então decidiu que aguardaria... e se prepararia para a terrível notícia.

De qualquer modo, Thorfinn sabia o que o aguardava. E, talvez – Dennis pensou, tristemente – o tio realmente recebera a justiça que merecia.

— Não vou pedir que me perdoe – Hermione soluçou – o que eu fiz não tem perdão. Foi tudo culpa minha... quis fazer justiça com minhas próprias mãos... – ela abriu as palmas – e agora... agora... também tenho sangue inocente nelas... Lutra tinha razão. Não sou melhor do que os bruxos das Trevas...

Surpreso, viu a auror segurar um soluço, e lágrimas escorrerem por seu rosto.

Hermione se sentia destroçada. Tudo havia saído do controle. E não conseguia olhar nos olhos do pobre rapaz, cuja vida quase havia roubado.

Por isso, foi com choque que sentiu uma mão segurar a sua.

Reergueu o olhar lacrimoso, vendo Dennis dar um sorriso fraco, ainda afagando-lhe o dorso da mão.

— Vai ficar tudo bem – ele disse.

Hermione quis responder. Quis dizer tudo que lhe corroia a alma naquele momento. Sobre o quanto estava arrependida. Sobre o quanto queria que — embora não merecesse — ter o seu perdão pelo que havia feito.

Contudo, olhando nos olhos do rapaz, percebeu que ele havia entendido a mensagem.