ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA DE HOGWARTS

1º DE MAIO DE 2008

A jovem primeiranista da Grifinória sorria, maravilhada, apontando na direção do grande leão animatrônico, que interagia docilmente com os alunos.

— Ele podia ser o novo mascote da Casa! — comentou com o coleguinha ao seu lado, rindo.

O homem de óculos deu uma risadinha, com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta.

— Realmente. Seria muito bom.

Harry olhou ao longe, vendo, humorado, Rony ainda se esforçando para convencer Rose a largar a perna de Teddy.

— Filha, eu sei que você gostou dele. Mas as outras crianças querem brincar também!

— Cassolo! — esbravejou-se a menininha, franzindo a testa e batendo o pezinho no chão.

Weasley não aguentou, e começou a rir. Rose parecia muito com a mãe, principalmente quando fazia aquela expressão zangada.

A recepção de todos aos animatrônicos mágicos, a seu ver, havia sido um verdadeiro sucesso. Mesmo sem os núcleos de personalidade, a programação dos robôs havia sido impecável, permitindo que executassem ações extraordinárias.

Além disso, os trejeitos amigáveis das criações de Hermione haviam facilitado a aproximação das crianças menores, que se encantavam com as vozes doces e as cores vivas.

Harry surgiu ao seu lado, suspirando.

— Ela já recebeu alta?

— Sim – confirmou o ruivo – disse que já está a caminho. Pegou o trem essa manhã. Já deve estar chegando… Hagrid vai recebê-la na plataforma.

O auror assentiu, apreciando os quartanistas, que não paravam de admirar a grande lontra castanha no centro da exposição.

Ainda sentia um estranho arrepio ao encarar Lutra. Era como se ela lhe desse a impressão de que, de algum modo, poderia se tornar uma ameaça repentina.

Porém, revirou os olhos, resfolegando baixo.

Hermione era a pessoa mais inteligente e sensata que Harry tivera o privilégio de conhecer. Era idiotice pensar que qualquer coisa criada por ela pudesse ter alguma vocação para o mal.

No fim das contas, passaria o resto da vida sem saber que as chamas das Trevas já haviam brilhado naquele olhar.


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— Obrigada por ter aceitado vir comigo, Dennis.

O rapaz mal movimentou a cabeça, mantendo-a repousada sobre o encosto do banco, dentro do compartimento do trem.

— Tudo bem – sussurrou enfim – eu queria… eu queria vir.

O garoto estava acabado. Aquela semana estressante e horrível havia esgotado-o tisica e mentalmente. Havia concordado em comparecer à cerimônia do Decênio por simples educação, já que seu real desejo era nem sequer sair do leito do St. Mungus.

Hermione suspirou, afagando o braço enfaixado.

A dor do ferimento não se comparava à angústia que ainda sentia. Ver Dennis naquele estado a destruía completamente.- principalmente por que sabia que ela mesma havia causado aquilo.

Mas sabia que nada que tentasse dizer poderia compensar o sofrimento que causara a ele.

Ouviu-se uma batida no vidro do compartimento. A auror levantou-se, abrindo a fresta da porta, focalizando um colega auror do Ministério da Magia.

— Chefe Weasley – ele meneou a cabeça em saudação – ele está comigo…

A jovem sorriu, ligeiramente mais animada.

— Excelente. Deixe-o aí – pediu, encostando a porta outra vez.

Voltou a sentar-se, observando o jovem Rowle finalmente erguer o rosto em sua direção.

— Sra. Weasley…

— Por favor, Dennis… me chame de Hermione.

— Ah. Sim… Hermione… — ele levantou levemente o corpo – eu… achei que a senhora diria, mas… eu queria muito saber…

Viu o rosto do garoto se fechar de tristeza.

— O que? — perguntou, segurando-lhe a mão.

— Sobre… meu tio. Thorfinn Rowle – ele arquejou – eu… quero saber o que aconteceu…

A auror baixou o olhar.

— Ele estava com você na sala da porta de ferro? — Dennis assentiu – entendo – sentiu o peso da morte dos demais Comensais desabar sobre seus ombros – sente falta dele, não é?

Não se sentiu melhor quando o rapaz soluçou baixinho.

— Ele era a única família que eu tinha. Eu…. agora sei que ele fez coisas terríveis… mas era a única pessoa... que se importava de verdade comigo.

Hermione passou a mão pelo ombro.

— Bem… se tivesse uma oportunidade de vê-lo outra vez… isso o faria se sentir melhor?

Dennis ia responder, mas sobressaltou-se quando a porta do compartimento estremeceu. Ouviu exclamações irritadas do outro lado, como se alguém se debatesse para entrar no vagão.

— Está bem – a auror sacudiu a cabeça, falando em voz alta – abra a porta, Walker.

Confuso, Dennis observou a porta abrir0se completamente, revelando o auror do Ministério, e outra pessoa ao seu lado – um homem de rosto coberto, com as mãos atadas em cordas enfeitiçadas.

— Espero que valha a pena, chefe. Neville está muito zangado com a senhora.

— Fuá para Neville, Walker – fungou Hermione, ignorando of ato de que o amigo auror deveria estar espumando de raiva naquele momento – tire o capuz do homem.

Quando o auror obedeceu, retirando o tecido preto da cabeça do prisioneiro, Dennis sentiu seu estômago dar uma cambalhota de choque.

— Tio Thorfinn!

A mulher sorriu, vendo o rapaz disparar na direção de Rowle, acolhendo-o num abraço.

Thorfinn não parecia menos aliviado, recostando a cabeça na do sobrinho.

— Dennis… — ofegou – você está vivo…

— Achei que o senhor tinha morrido! — Dennis olhou para Hermione, ainda sem soltar Thorfinn – mas como..?

Hermione soltou um muxoxo.

— Quando aparatei na sua frente, eu tinha acabado de sair da sala de ferro. Selei-a para que os demais animatrônicos não a invadissem. Espanquei a porta para que o som os atraísse… e fui atrás de você – comentou, sem graça – não tive coragem de te contar, por que achava que… poderia agir sem pensar naquele momento.

Dennis piscou, compreendendo.

— Obrigado – agradeceu, emocionado – obrigado, Hermione.

Thorfinn passou os braços atados por cima do rapaz, abraçando-o.

Ela e o auror permitiram que ambos ficassem assim por alguns minutos. Por fim, Weasley tocou o ombro de Dennis.

— Dennis… ele precisa ir agora.

O garoto soltou o tio, espantado.

— Para onde o levarão?

Um silêncio incômodo surgiu no recinto.

— Azkaban – Thorfinn falou, por fim.

— O que? — estardalhou-se – mas… eu achei…

— Ei, rapaz – Walker pousou a mão no ombro dele – tudo bem. É só por um tempo. Até ele ser devidamente julgado.

— Infelizmente… isso vai ter que acontecer, Dennis – Hermione disse, penalizada – mas nós ajudaremos vocês em tudo que precisarem quando isso acabar.

O garoto concordou com a cabeça, desanimado.

— Olha, Dennis – O Comensal fitou o sobrinho – quando eu voltar, vamos para bem longe. Sem mais fugas. Vamos começar uma vida nova. Como você disse.

— Entendi, tio.

Hermione viu Rowle virar-se em sua direção.

— Weasley… — pediu – cuide bem do garoto. Por favor.

Ela assentiu.

— Eu prometo, Rowle. Dennis ficará seguro.

Deixando uma porção de crenças ideológicas de lado, Thorfinn Rowle meneou a cabeça num agradecimento.

— Obrigado…

— Bem… vamos, colega. Não quero ver Longbottom me enchendo o saco – falou, puxando Rowle consigo corredor afora.

O peito de Dennis se apertou quando o tio desapareceu corredor afora.

— Vai vê-lo outra vez. Não se preocupe.

— Eu sei – Dennis soltou uma risadinha triste – é que… vou sentir falta dele até lá.

Alguns minutos de quietude depois, o trem começou a desacelerar, finalmente se aproximando da estação.


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Saber que o tio estava vivo havia dado uma surpreendendo guinada no estado de espírito de Dennis.

Satisfeita, Hermione o viu interagir com algumas crianças, conversar com jovens sextanistas da Corvinal, e até mesmo ajudar um pequeno menininho a posar para a fotografia dele com Ginger.

Finalmente, depois de dezesseis anos, Dennis Rowle estava sendo uma adolescente normal, fazendo amizades, e vivenciando a experiência de ser um rapaz comum.

A auror estava decidida a cumprir a promessa que fizera à Thorfinn. Cuidaria para que o garoto pudesse aproveitar aquela oportunidade de uma nova vida.

Distraidamente, caminhou pelas fileiras de pessoas que circulavam os animatrônicos, até chegar à lontra recostada na parede do pátio.

Depois de tudo que havia acontecido, Hermione sentia-se confrontada com sua própria personalidade cruel e vingativa.

Como Lutra dissera… a pior parte dela.

Não havia sido aquilo que causara todo aquele desastre? Não foi a necessidade perversa de ver outros sofrer que a cegou para o erro hediondo que estava cometendo?

Doía saber que, no fim das contas, Lutra realmente dissera uma cruel verdade.

— Ei.

Assustou-se, sentindo os braços de Rony circularem sua cintura.

— Você me assustou!

— Desculpa – ele riu, beijando carinhosamente seu pescoço – parece tão pensativa… — o ruivo sorriu contra sua orelha – e você fica linda quando está pensativa…

— Pode parar – ralhou, ao que Rony riu, ainda abraçando-a.

— Mas então… o que é?

Hermione repousou a cabeça no ombro do marido.

— Existe uma história indígena trouxa, contada pelo cacique de uma aldeia. Ele dizia que existem dois lobos dentro de cada pessoa, e que vivem em luta constante dentro de nós, tentando dominar nosso espírito… um é bom, harmonioso, justo e gentil. O outro é rancoroso, raivoso, violento e cruel.

— Puxa… — Rony ofegou – e qual deles vence?

A auror tocou o focinho de Lutra, fechando os olhos por um momento.

— Aquele que você alimentar…



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Dennis estava presente — sentado entre alguns sonserinos risonhos — quando o discurso de encerramento do Decênio começou.

Hermione, pela primeira vez, parecia realmente receosa de pronunciar-se, a ponto de ficar alguns segundos emudecida diante da tribuna do Salão Principal.

— Boa noite. Quero agradecer a presença de todos que vieram ao Decênio da Batalha de Hogwarts. Como proferi na última semana, essa cerimônia teve como intuito reavivar a memória daqueles que lutaram e morreram lutando contra as Trevas… e nos lembrar da paz que eles proporcionaram ao mundo bruxo.

Ela fez uma pausa, hesitando ligeiramente, escolhendo bem as palavras.

— Há sete dias, eu tinha a convicção de que o mal é uma espécie de fênix, que renasce toda vez que é destruída. Acreditava que o único modo de lidar com as Trevas é lutar incessantemente contra elas – fez uma longa pausa – ainda acredito nisso. Mas, depois de lidar com uma situação difícil – enrijeceu – eu vejo agora que a maior batalha, na verdade, está dentro de nós.

Não havia nenhum cochicho ou gracejo na assistência. Ninguém conseguia tirar suas visões e a audições de Hermione.

— Por mais que nosso senso de justiça exija que sejamos estritamente racionais quando confrontamos um inimigo, não podemos deixar que isso nos tire a capacidade de sentir compaixão, compreensão e piedade. Mesmo a pior pessoa pode ser salva, se ela assim desejar, e se assim permitirmos.

“A dor da perda pode tirar essa capacidade de perdão. A sede de vingança pode se arraigar em nós como uma erva daninha, nos cegando para a crueldade de nossas ações. Mas pagar na mesma moeda, tentar causar o que sofremos àqueles que nos fizeram mal… isso não nos faz melhores do que eles. Isso só nos fará iguais. Não podemos acusar algo de carregar as trevas, quando nós mesmos temos Trevas em nosso interior.”

O espanto era evidente entre os presentes, que se entreolhavam com perplexidade.

Mas nenhum estava mais surpreso que Dennis, cujos olhos estavam fixos na discursante.

— Por isso, quero fechar essa cerimônia com um pedido a cada um dos que estão presentes aqui neste momento – Weasley suspirou – lembrem-se de manter o melhor de vocês sempre vivo em seus corações. A mudança deve começar em cada um de nós, se quisermos manter a paz e a harmonia em nosso mundo. A magia mais poderosa do mundo… é a capacidade de perdoar – concluiu – obrigada.

Uma ovação solitária na mesa da Sonserina iniciou-se, sendo acompanhada gradativamente por outros estudantes. Finalmente, todo o Salão principal explodiu em palmas, aclamando o discurso da auror.

Hermione desceu da tribuna, agradecendo com um meneio da cabeça, sentindo-se sorrir.

— Brilhante! — Rony riu, girando Hermione num abraço.

— Sempre o tom de surpresa – brincou Hermione, assim que ela a desceu de volta ao chão.

— Ah, dê o crédito a ele, Hermione – Gina cruzou os braços — já é uma surpresa ele conseguir formar uma palavra coerente depois de ficar todo animadinho contigo mais cedo.

— Gina! — todos exclamaram, ao que a mulher ruiva gargalhou.

Depois de conseguir fugir de vários alunos e professores que a parabenizaram pelo discurso, Hermione finalmente conseguiu tomar um ar na sacada da Torre de Astronomia.

Encontrou Dennis debruçado sobre o parapeito, encarando o céu estrelado.

— Linda noite – ele sussurrou, admirando as estrelas.

A jovem concordou, suspirando.

— É Linda noite.

Retirou delicadamente as ataduras do braço, expondo a longa cicatriz, em forma de vergões, que Lutra havia deixado em sua pele.

Sentiu-se dando um sorriso irônico, quando notou que a nova cicatriz recobria a anterior – aquela que ditava a palavra vulgar que os sangues-puros usavam, para tachar pessoas como ela.

Por mais que fosse dolorida – e, provavelmente, perpétua — Hermione estava incomumente feliz por ela estar ali.

Aquilo seria um lembrete eterno, que a faria sempre recordar o que acontecia quando se tentava brincar de Deus, julgando e condenando pessoas ao seu bel prazer.

Dali em diante, viveria a vida com mais humildade. Entenderia que nem tudo poderia estar ao seu alcance. Veria as duas faces da moeda antes de anunciar um veredicto.

E – mais importante – derrotaria seu próprio demônio interior continuadamente, antes de tentar procurar as Trevas em outras pessoas.

O Decênio acabou se tornando uma espécie de renascimento para todos.

E, sem saber, preparou o mundo bruxo para as provações que estavam por vir.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!