GLOUCESTERSHIRE, 25 DE ABRIL DE 2008

O rapaz de cabelos louros bateu os pés contra o solo lamacento, antes de adentrar na rústica cabana.

— Shhh! – alguém cortou o silêncio do lado de dentro – sem barulho!

Enrijecido pelo constrangimento, o jovem entrou, em silêncio, mergulhando na suave penumbra da choupana. Encolheu-se, passando por uma mesa de aspecto miserável, e finalmente se aproximando de um ponto ao fundo da construção, onde quatro homens, sentados em roda no chão, mantinham suas cabeças baixas, absortos em cochichos. A conversa se interrompeu quando ele juntou-se aos demais, despejando o pacote que trouxera a frente de todos.

— Por que a demora, Dennis? – resmungou o maior deles, um grandalhão de cabelos louros, estreitando os olhos para o mais novo.

— Desculpe, tio – suspirou o garoto – foi difícil roubar os suprimentos sem que os trouxas vissem.

— Viu só? – bufou Don Selwyn, outro dos quatro Comensais da Morte presentes ali – por isso temos que fazer alguma coisa. Um legítimo sangue-puro, tendo que pegar comida daqueles sangues-ruins. Bah!

— Eles não pareciam tão ruins – gaguejou Dennis.

O bruxo louro — Thorfinn Rowle — lançou um olhar de censura ao sobrinho.

— Não parecem, é? – o homem rilhou os dentes – até onde sei, é por culpa deles que seus pais morreram, na mão daqueles ridículos traidores do sangue, que tentaram proteger essa laia. Eu prometi a eles que cuidaria de você, Dennis – baixou a voz, irritado – não se atreva a manchar o legado deles com essa sua curiosidade ridícula!

Dennis baixou a cabeça, envergonhado.

— E-eu entendo, tio. Desculpa.

— Em todo caso, o que tem aí, garoto? – William Travers, outro Comensal de feições duras, abriu o pacote que Dennis trouxera – hum... um empadão? – riu-se – onde arranjou isso?

O menino sorriu fracamente.

— Não encontrei nenhum trouxa pelo caminho – falou rapidamente – mas... encontrei um funcionário do Ministério no vilarejo – olhou para Rowle, animado – fiz o que o senhor me ensinou. Consegui enfeitiçá-lo com a Imperius... e depois apaguei a memória dele – apontou para o empadão ainda quente – isso foi só uma das coisas que ele fez... – franziu o cenho – disse que se chamava Córmaco McLaggen.

O Comensal da Morte que ainda não se manifestara levantou a cabeça, interessado.

— Um funcionário do Departamento de Mistérios? – Thorfinn arfou, admirado – aqui em Gloucestershire? O que ele disse?

— Que estava aqui a mando do quartel-general dos aurores – falou – para rastrear alguma presença nossa, até a divisa de New Castle – arrancou um pedaço do empadão, prosseguindo – claro que, depois que alterei a memória dele, ele vai voltar sem pistas – deu de ombros.

— Conseguiu extrair mais alguma coisa? – disse Thomas Untoward, apanhando o próprio pedaço de comida.

— Ah, sim. Disso vocês vão gostar – replicou o rapaz – vai haver uma comemoração de dez anos da Batalha de Hogwarts, no próprio castelo da escola, no próximo dois de maio. E uma reunião confidencial de todos os aurores está marcada para amanhã à noite, nesse endereço – Dennis entregou ao tio um pedaço de papel – todos do quartel-general estão convocados. Consegui até mesmo a chave de acesso ao local.

Os outros quatro Comensais se inclinaram, extasiados, aferindo o pequeno papel nas mãos de Rowle, que apanhou a chave da mão de Dennis, admirando-a como um tesouro.

— Todos os aurores no mesmo lugar! – sorriu Thomas, eufórico – que oportunidade, amigos! – girou a cabeça na direção de uma bolsa ao canto da parede – encurralarmos os preciosos aurores do Ministério, atacando-os quando menos esperarem. Se dermos sorte, talvez até mesmo desarmados! Talvez estas infusões da Poção do Morto Vivo e Poção Polissuco, que Untoward surrupiou no vilarejo, possam ser úteis, afinal. Fechados no mesmo ambiente, aspirando a névoa dos frascos… vai ser fácil demais!

— Acha uma boa ideia atacar dessa forma? – Selwyn contestou – estamos em menor número, se considerarmos que eles têm mais de vinte aurores em serviço. Quantas coisas podem dar errado?

— Está brincando, Don? È a chance mais conveniente que tivemos nos últimos dez anos! Não está cansado de se esconder, vendo os inimigos de nosso lorde vivendo suas vidas, enquanto apodrecemos em uma cabana imunda? – exclamou Rowle – teremos que agir mais cedo ou mais tarde. Um dia, nós, ou nossos filhos, terão que dar prosseguimento à nobre tarefa de nosso mestre. Por que não agora? Vamos atacá-los... ao menos minar suas forças... não podemos deixar uma brecha dessas escapar!

Os outros três assentiram em concordância – mesmo Dennis, que, apesar de inseguro, também meneou a cabeça. Embora ainda transparecesse hesitação, Selwyn revirou os olhos, suspirando em rendição.

— Muito bem, então – Thorfinn colocou o papel no centro da roda – segundo o endereço que Dennis extraiu de McLaggen, a reunião acontecerá às onze e cinquenta da noite, em Londres, no subterrâneo de um galpão alugado – coçou o queixo – lugar bem discreto para uma reunião... excelente.... – deu uma risada cínica – nem vai dar para ouvir os gritos... – olhou para Dennis – muito bom, Dennis. Muito bom mesmo. E bem sensato da sua parte não matá-lo, embora eu também fosse aplaudi-lo por isso. Qualquer ataque à esses vermes, antes da hora certa, poderia nos denunciar.

— Bem, está decidido – Selwyn declarou – no dia e hora marcados, ficaremos de tocaia... e atacaremos os aurores quando estiverem reunidos no mesmo local. Deixaremos dois de nós de guarda, para agirem em caso de alguma emergência. Não é bem um plano... mas vai ter que servir.

— Quanto pessimismo, Don – titubeou Untoward – eu realmente devo alguns cortes a um ou dois aurores em especial – sorriu maleficamente.

— Tome cuidado, Miguel – zombou Rowle – eles não são mais seus colegas fracotes de escola. São bruxos treinados. Acha que dá conta do trabalho?

Untoward fechou a cara.

— Vou arrancar a cabeça de um deles e te embrulhar de presente – rosnou – e aí vou querer ouvir você repetir isso.

Dennis encarou os quatro Comensais da Morte, sentindo o coração saltando no peito.

Durante os últimos dez anos, havia vivido sobre os cuidados do tio, nunca contestando seus objetivos ou ações. Como qualquer outro adolescente, queria provar, à Rowle e a si mesmo, que era capaz de orgulhar o nome da família.

Porém, algo em seu inconsciente o incomodava. Talvez não um tipo de início de remorso pelas coisas que já fizera em nome de Thorfinn, mas uma súbita ansiedade sobre aquele ataque aos aurores do Ministério da Magia.

De repente, por algum motivo, Dennis Rowle sentiu que havia algo muito errado na decisão dos Comensais de atacar o suposto galpão de encontro.

Mas que era ele para contestar a decisão dos mais experientes? Ainda mais seu próprio tio, que sempre fizera de tudo para cuidar dele… não eram eles bem mais sensatos do que um rapazinho de quinze anos, sem nenhuma experiência de vida?

Dennis, porém, estava às portas de descobrir a resposta.

E mais cedo do que poderia imaginar.