HOGWARTS, ESCÓCIA — MANHÃ DE 26 DE ABRIL DE 2008

Uma grande comoção se instalava no Salão Principal da escola de magia, onde o burburinho incessante de alunos entusiasmados aguardavam um grande anúncio, que se realizaria em alguns minutos. A curiosidade era evidente nos rostos dos jovens estudantes, que percorriam o olhar ao redor numa ansiedade evidente.

Aparentemente alienado da expectativa das dezenas que aguardavam, porém, Rony se mantinha ocupado, oculto por um familiar quarto de vassouras, mantendo dois pulsos presos contra a parede.

— Mas que droga, Rony… — riu Hermione, tentando se desvencilhar, pela quinta vez seguida, do ataque dos lábios do marido em seu ombro – é sério. Eu tenho que sair…

Sua voz desapareceu aos poucos, conforme Rony descia a boca por sua omoplata.

— Não venha me culpar – sussurrou, com a voz rouca de indisfarçado desejo – você estava pedindo com essa roupinha de secretária…

Hermione, por fim, pisou no pé do ruivo, que a soltou, tropegando para trás.

— Ai! Doeu! — reclamou, massageando o pé.

A sobrancelha da mulher se ergueu num arco perfeito, enquanto hermione voltava a abotoar a blusa, tilintando as unhas bem-feitas nos botões do paletó.

— Eu avisei – fungou – agora, se não se importa, Auror Weasley…

Ela refreou um sorriso quando sentiu os braços de Rony se fecharem em sua cintura por um momento. E mal segurou um arrepio de deleite, quando ele lhe sussurrou ao ouvido.

— Terminamos nossa conversa depois – sentiu o sorriso de Rony em sua orelha, e ele a soltou, espreitando sua saída do armário com um sorriso calculista, antes de acompanhá-la para fora.

Ainda teve que suportar um olhar malicioso da cunhada a caminho do Salão Principal, enquanto terminava de ajeitar o blazer sobre os ombros.

Respirou fundo, aguardando sua deixa na sala lateral, apalpando um pergaminho que havia deixado nos bolsos mais cedo.

Até ali, tudo havia saído perfeitamente bem. Faltava pouco para que o plano oculto, por trás de tanto tempo de pesquisa e testes, viesse a ser posto em prática.

Agora só restava esperar.

— Agora, para mais esclarecimentos sobre o Decenário da Batalha de Hogwarts, deixo a palavra com a Chefe do Departamento de Inteligência do Ministério da Magia, Hermione Weasley.

Sobre aplausos educados – alguns entusiasmados, como os dos estudantes de sétimo ano que a conheciam pessoalmente – Hermione subiu até a tribuna, cujo lugar foi cedido pela Diretora da escola, Minerva McGonagall.

Sorrindo consigo mesmo, Harry Potter assentiu para a discursante, vendo Hermione respirar fundo e se aproximar.

— Muito obrigada, Diretora McGonagall – sorriu, virando-se para os estudantes presentes – é uma grande honra estar aqui, presente neste anúncio tão importante. Em alguns dias, uma data importante acontecerá, como já foi dito. Há dez anos, uma linha inteira de estudantes, professores, e outros bruxos corajosos, confrontou diretamente as forças das Trevas do bruxo que, um dia, se denominou Lord Voldemort. Esse decenário nãos erá apenas um dia de respeito àqueles que caíram, mas também uma data importante para relembrarmos de todos que lutaram para libertar nosso mundo do mal – houve um momento de silêncio quando sua voz baixou, penetrante como uma faca – e, para os que sobreviveram, um lembrete de que o mal nunca é destruído por completo.

Havia uma espécie de brilho duro no olhar da moça, que nem mesmo os mais achegados a ela conseguiram compreender.

Os presentes se entreolharam, subitamente sentindo-se incomodados com declaração tão fervorosa.

Hermione pareceu perceber o efeito tenso que causara, já que, quando prosseguiu, seu tom era bem mais simpático.

— Porém, como não poderia deixar de ser, este evento terá sua parte agradável. Graças à Iniciativa Otter, um pequeno programa iniciado há alguns anos, cujo objetivo é utilizar tecnologias trouxas e bruxas em prol do bem-estar dos dois povos, eu e o pessoal de Engenharia Mágica criamos os primeiros seis protótipos de robôs mágicos do mundo bruxo – meneou a varinha, fazendo surgir seis pequenas figuras flutuantes no ar, representando cada animatrônico. Houve um arquejo de arrebatamento em meio aos alunos – são criações mecânicas, em formas antropomórficas, cada qual representando um animal. Todos são exclusivamente movidas por um núcleo mágico, codificado pelo DNA de seis voluntários. Em outras palavras, não necessitam de energia elétrica ou qualquer outro gerador de energia interno, já que são mantidos em funcionamento pela própria vitalidade do doador.

“È uma tecnologia inovadora, e pensamos em expandir essa descoberta para auxiliar na área da medibruxaria. A intenção é, até o final do ano, criar mais seis novos animatrônicos do mesmo tipo. Todos serão apresentados no evento, podendo ser vistos e interagir com os presentes. Cada um tem personalidade própria, e tem programação segura o bastante até para divertir as crianças. Esperamos sinceramente que sejam um entretenimento agradável, e convidamos a todos aqui a conhecê-los de perto quando chegarem”.

Hermione suspirou, sorrindo novamente

— Bem, por hora é só. Estarei disponível até hoje à tarde para esclarecer quaisquer dúvidas – assentiu para McGonagall – obrigada, Diretora.

McGonagall sorriu, assentindo para ela. Mais aplausos se seguiram, enquanto a diretora retomava seu lugar, observando-a descer em direção à mesa mais próxima.

Harry a envolveu num abraço, rindo baixinho.

— Nada mal, Chefe da Inteligência.

— Cala a boca, Harry – a mulher revirou o olhar, estendendo os braços para o bebê ruivo no colo – vem com a mamãe, querido.

O pequeno Hugo arrulhou, jogando-se no colo da mãe.

— Onde está Rose?

— Com Rony – o homem de óculos titubeou – ele disse que ia mostrar a lula gigante para ela.

— Sempre irresponsável – resmungou Hermione, embora houvesse um quê de diversão em sua voz – vou avisá-lo para não se demorar. Depois das cinco da tarde, vou ter que deixar as crianças na casa de Luna.

Harry franziu o cenho.

— Vai para a reunião?

Surpreso, viu Hermione negar com a cabeça.

— Tenho… algo para fazer mais tarde – murmurou baixo, repentinamente erguendo o olhar – a propósito, Harty ficou excelente. Adorei a escolha da cor do traje.

Escura. Discreta. E a mais difícil de sujar. Pensou, segurando um sorriso. Realmente a escolha perfeita.

— Sério? — Harry deu uma risadinha – foi quase ao acaso. Achei que preto ficaria meio assustador. Aqueles endoesqueletos cheio de dentes são meio medonhos, afinal – mordeu o lábio – Neville gostou de Tot?

— Ele não disse. Simplesmente espetou o dedo para o teste do núcleo, anotou o nome do bicho e foi embora – respondeu, com um traço de exasperação na voz – imagino que esteja achando um mico ver o patrono dele andando por aí e rugindo.

Harry não se atentou ao comentário. Sua mente divagou por um momento, até relembrar a figura da lontra animatrônica que vira mais cedo no depósito.

Podia estar enganado, mas jurava que havia algo de intimidador na máscara aparentemente agradável do robô.

Era como se, surpreendentemente, mesmo desativada, Lutra tivesse algum tipo de… consciência.

Sacudiu a cabeça. Devia ser apenas um devaneio de ansiedade com toda aquela situação.

— Bem… vou avisar Gina então – levantou-se – quer que eu leve Hugo para ela?

— Por favor – concordou, vendo que o filho caçula tinha acabado de pegar no sono em seu ombro, devolvendo-o delicadamente para Harry – vás na frente. Encontro vocês depois.

O rapaz assentiu, transportando o sobrinho adormecido nos braços e se levantando da mesa, começando a sair do Salão Principal.

Hermione voltou-se para o grupo de estudantes que conversavam animadamente, ainda em rebuliço pelo anúncio do Decenário.

Dentre todos os pensamentos que rondavam em sua mente privilegiada, a única coisa que a incomodava era saber que ocultava dos seus melhores amigos algo relativamente importante.

Não transportara para os animatrônicos apenas o código genético deles, mas também suas memórias.

E seus sentimentos. Seus piores sentimentos.

Ativados apenas à noite, quando tudo havia acontecido.

Quando sonhos e esperanças haviam sido destruídos.

Consultou o relógio em seu bolso, abrindo um esgar ao rever a carta que recebera de Córmaco McLaggen naquela mesma manhã.

Tudo corria como havia planejado.

Faltavam quatorze horas.