Five Nights At Decennary
12 Dedução
Ferrados no sono da tarde, os dois Comensais custaram a acordar, mesmo quando as batidas começaram.
Dennis se remexeu em seu canto, incomodado, imaginando que o som palpitante e alto era apenas mais um sonho ruim.
Porém, quando as pancadas se intensificaram, o rapaz percebeu que não era.
Assustado, abriu os olhos, erguendo a cabeça. Bateu de leve no ombro de Thorfinn, que também despertou, erguendo os olhos sonolentamente para o sobrinho.
— O que…?
Sua resposta surgiu na forma do barulho agoniante de garras arranhando a porta da sala.
— O que está havendo? — sussurrou, em pãnico.
O som aumentou, fazendo ambos se encolherem nas paredes, a tensão percorrendo cada centímetro de seus corpos.
— Heeeey, Harty— ouviram a voz de Teddy arrulhar – acho que nossos amigos não querem brincar com a gente!
Uma voz nova – porém igualmente inumana e alta – sibilou do outro lado da porta.
— Beeeem… acho que eles vão ter que esperar por uma surpresaaaa!
As pancadas se tornaram socos violentos, altos o bastante para mergulharem a sala em ondas de som ensurdecedoras.
— Eles estão ativos de dia… — guinchou Dennis – vão arrombar a porta!
Rowle levou o indicador aos lábios, pedindo silêncio. Dennis obedeceu, recolhendo-se, segurando a respiração.
Os impulsos continuaram por longos minutos, e o rapaz começou a temer o pior, imaginando que a desgastada porta de madeira cederia sobre o ataque furioso dos punhos robóticos.
Por fim, depois de algum tempo, as pancadas cessaram-se por completo.
Dennis viu o tio erguer a cabeça, franzindo o cenho.
— Foram embora – falou em voz baixa – que diabos… agora estão nos acossando durante a tarde também. Que raios…?
O garoto piscou, retraindo os braços.
— Tio… eu acho… — sentiu seus olhos saltarem, conforme formulava sua tenebrosa teoria – que eles estão com… defeito.
— Dennis…
— Não…é sério! — reafirmou, ofegante – desde a primeira noite, eles só davam algum sinal quando estava escuro, não é? Tem alguma coisa errada…
— Garoto tolo – ralhou Thorfinn – claro que há algo errado. Essas máquinas malditas foram criadas justamente para nos matar! — rilhou o chão com as unhas, irritado – o que você esperava de alguém como aquela auror desgraçada?
O rapaz permaneceu em silêncio, percebendo que o tio não se daria por convencido;
Ainda assim, Dennis tinha a sensação ruim de que aquilo estava fugindo ao controle de todos – até mesmo da desconhecida e ameaçadora mulher que os enclausurara ali.
Não podia afirmar que sabia muita coisa, naquele curto período de tempo que vivera.
Mas de algo Dennis tinha certeza.
Magia e tecnologia não eram a melhor combinação.
Sujeito a falhas.
Toda e qualquer criação humana – tal como seus próprios criadores – estavam sujeitos a falhas.
E por mais que a admirada Hermione Jean Weasley ainda fosse uma pessoa fora do comum, ainda era um ser humano.
Estava claro, na mente atordoada do garoto, que não isso não seria diferente com aqueles animatrônicos. Porém, conscientizar Thorfinn disso, pelo menos por hora, seria um esforço fadado ao fracasso.
Em vez de ainda tentar convencer o tio, Dennis recostou-se de volta a parede, encarando as esferas apagadas do teto, e se pôs a refletir.
Fazendo um cálculo rápido, estavam prestes a iniciar a quarta noite naquele local.
O único robô que eles haviam visto era o feroz leão de colete vermelho. Mas poderia haver muito mais lá fora, segundo as vozes que havia ouvido até então.
Certamente, mais de três.
Não teriam nenhuma chance.
— Assim que chegar a noite… — Thorfinn disse – nós sairemos. Juntos. Será pior se continuarmos aqui. Caso consigam passar pela porta, estaremos encurralados. Teremos mais chance se nos refugiarmos lá fora. Tem que haver outro lugar para nos escondermos.
Era um plano arriscado. Mas Rowle tinha razão – teriam para onde fugir ou se refugiar do lado de fora. Ali, caso os animatrônicos resolvessem finalmente adentrar, não teriam nenhuma escapatória.
Porém, precisariam de um plano para se proteger de qualquer um deles que, porventura, surgisse em seu caminho.
— Tio… — Dennis fechou os olhos por um momento.
O rapaz surpreendeu-se, quando a mão de Thorfinn pousou-se em seu ombro.
— Precisamos arriscar, Dennis. Morreremos de qualquer maneira.
Dennis ergueu o olhar para Rowle. Espantou-se ao ver a angústia em seu olhar.
— Tio… — repetiu.
— Talvez isso tudo seja culpa minha. Não é? — suspirou o Comensal – desde que adquiri a Marca Negra, tudo que fiz, em prol do Lorde das Trevas… nossos serviços… — fungou – não era para eliminar a ameaça doa sangues-ruins? Não era para libertar o mundo bruxo, para que pudéssemos retomar nosso lugar de direito, e sairmos de uma vez por todas da clandestinidade?
— Sim – concordou Dennis, confuso.
— Pois bem – Thorfinn balançou a cabeça – e o que conseguimos com isso, além de matar vários de nosso povo? Foi tempo perdido – passou a mão pelos cabelos – eu sinto muito, Dennis. Essa ideia de vir emboscar os aurores… eu deveria ter desconfiado. Agora, três de nós estão mortos. E provavelmente seremos os próximos – olhou para o sobrinho – tudo que seus pais me pediram foi para que eu cuidasse de você. Nunca deveria ter te envolvido nisso. Não até que estivesse realmente pronto.
O menino emudeceu-se, sem saber o que responder à súbita confissão do tio.
— Bem… de qualquer forma – Rowle deu uma risada amarga – é tarde para isso, não é? — deu um longo suspiro – é tarde demais para qualquer coisa agora – Thorfinn levantou-se, cruzando os braços ao redor do corpo – recolha o que sobrou dos suprimentos, Dennis. Vamos sair daqui… ou morrer tentando.
Dennis não discutiu. Ainda perturbado pelo que o tio lhe dissera, começou a recolher as barras que haviam restado da caixa de suprimentos, tentando ocupar a mente com o que estava fazendo.
Longe dali, a vários cômodos de distância, um estalo profundo ecoou defronte ao palco do galpão.
Uma mandíbula mecânica guinchou, movimentando-se contra a parte superior da cabeça de sua proprietária.
Ainda que houvesse testemunha ocular, a escuridão ainda era densa o bastante para que jamais fosse possível perceber, ao longe, dedos robóticos contraindo-se num fechar de punhos.
Duas órbitas acenderam-se repentinamente, destilando chamas infernais em seu olhar.
Uma risada — baixa como um sussurro, mas retumbante como um trovão — escapou do focinho cerrado do animatrônico matriz.
Depois de três adormecida, Lutra finalmente começaria sua vigília.
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