31 DE ABRIL DE 2008

As badaladas voltaram a soar na quinta noite.

Dennis fungou, recostando a testa sobre os joelhos enregelados.

Havia passado o dia num estado de tensão latente, receando que o novo esconderijo fosse invadido à qualquer moimento pelas abomináveis criaturas metálicas.

Porém, pelo menos uma vez, o plano de Weasley parecia ter dado certo. Por mais que os animatrônicos tivessem passado o dia socando a porta de metal, rilhando seus dentes e garras sobre a superfície vítrea, não haviam conseguido abrir a sala.

O único problema era a fome.

Na pressa para escapar de Teddy e Harty, na noite anterior, o rapaz havia deixado cair todas as barras de suprimentos pelo caminho. Com isso, ele e Thorfinn haviam passado várias horas sem comer nada. A fraqueza, somada à debilitação causada pelo estresse, havia reduzido ambos á corpos trêmulos e assustadiços, cujos olhos saltavam com qualquer som que parecesse anormal.

— Você acha… — ofegou Dennis – acha que ela vai vir nos ajudar?

Rowle suspirou, esfregando a têmpora.

Depois daquelas cinco noites de tormento, o Comensal da Morte já não tinha coragem de acreditar em mais nada. Tudo que queria agora era fugir daquele terrível pesadelo, e salvar seu sobrinho da morte certa. O fardo de sentir isso sobre seus ombros, contudo, parecia lhe provocar um estado de letargia tenebroso.

— Não sei – respondeu, enfim – não sei, Dennis.

Um som alto e guinchante despertou a atenção dos dois Comensais, que viraram os rostos na direção da saída.

Sem explicação, a porta destrancou-se sozinha, abrindo-se amplamente.

— O que…? — o rapaz piscou, erguendo a cabeça levemente – quem…?

Antes que pudesse levantar, sentiu a mão de Thorfinn fechar-se em seu pulso.

— Não – sussurrou – não… não é ela.

— Tio… — sacudiu o braço – temos que sair. Eles vão nos encurralar se ficarmos aqui!

Dennis tentou puxar Thorfinn, mas o bruxo parecia ter perdido qualquer vontade de fugir. Ergueu o olhar para o sobrinho, a expressão fechando-se em desolamento.

— Vá, Dennis. Fuja. Vou ganhar tempo para você.

O garoto ofegou, sem acreditar no que ele estava ouvindo.

— Ficou maluco, tio? Não vou deixar você aqui! — continuou tentando erguer Thorfinn – você… é minha única família… — guinchou – por favor…!

Sem sucesso, o rapaz soltou Rowle, segurando um soluço.

— Tio…

Sentindo os olhos arderem, Dennis se afastou, os braços entrepostos sobre o tórax.

Rowle soltou uma risada amargurada.

— Ande, garoto. Saia daqui – inspirou profundamente – olha… isso tudo é culpa minha – acrescentou – culpa nossa. Você não devia ter se envolvido nisso. Se Weasley quer justiça… então que seja. Mas você não deve pagar pelos meus erros, Dennis. Por favor – meneou o queixo – vá.

— Não vou conseguir sem o senhor.

— Vai sim… você é forte o bastante para isso, Dennis… mesmo que não acredite nisso. Olha… vou tentar aguentar o bastante. Quem sabe não dou sorte?

Imóvel, Dennis observou-o apanhar uma das estacas, colocando-a em sua mão aberta.

— Eu… — o garoto murmurou, desolado.

— Podem ser uma ameaça, mas ainda são máquinas, Dennis. Temos algo que elas não tem – pousou o dedo sobre o topo da cabeça – use isso ao seu favor.

O rapaz balançou a cabeça, tentando dizer que era loucura.

Mas percebeu, no olhar de Thorfinn, que ele já tomara sua decisão.

— Fique vivo, tio.

Ainda aflito, refreando-se para não chorar, Dennis disparou porta afora, lutando para não sucumbir ao desespero de deixar o tio para trás.

O galpão parecia remotamente mais iluminado do que Dennis se lembrava – ou talvez fosse a adrenalina aumentando sua acuidade visual.

Esforçando-se para não retornar às pressas para a sala, o rapaz esgueirou-se pelos caixotes, temendo a presença incômoda de um dos animatrônicos nos arredores.

Mesmo que não estivesse vendo, as vozes, mecênicas e estridentes, não tardaram a começar, ecoando pelo ambiente e arrepiando cada poro de pele de Dennis.

Hey… alguém saiu para brincar!

— Junte-se à festa!

— Vai ser divertido!

— Vamos adorar jogar com você!

— Vai ser inesquecível!

Uma nova voz – embora terrivelmente familiar, de alguma forma – acrescentou-se às demais. Sem o timbre alegre, agourenta e imponente.

— Não se preocupe. Só vai doer por um momento.

Sobressaltou-se com o som de algo golpeando uma superfície férrea, vindo da sala da qual acabara de fugir.

Por fim, Dennis ouviu passos robóticos se encaminhando na direção do ruído. Paralisado contra os caixotes, sentiu um dos animatrônicos passar a centímetros dele, inacreditavelmente parecendo ignorar sua presença ali.

Imaginou o tio chamando a atenção dos robôs com o estardalhaço da porta, e reprimiu a vontade de gritar.

Continuou andando lentamente, percebendo que todos eles aparentavam ter deixado o galpão, dada a falta de órbitas brilhantes ao seu redor.

Foi quando duas luzes esféricas irromperam na escuridão diante de Dennis, quase o cegando pela claridade.

Já estava travado de choque, bem antes de conseguir enxergar a silhueta a poucos metros dele.

Ela parecia bem mais assustadora do que ele havia concebido em sua imaginação.

Nem o focinho arredondado, o corpo mogno ou o delicado vestido branco tornavam a visão da lontra menos mortal e ameaçadora.

Lutra entreabriu a boca, expondo os dentes letais do endoesqueleto, fazendo luzir a ponta do nariz negro.

— Ah – Dennis percebeu de quem era a voz de momentos atrás, recuando quando Lutra envergou a cabeça – há algo muito importante que deve ser aprendido… — riu-se, uma risada sombria e cínica – como fingir. Encenar, se preferir – aproximou-se um passo – ela pensa que há algo de ruim do lado de dentro. Mas a verdade é que o mal não está aqui. Está lá fora… e há um pouco disso em todos nós. Só se pode erradicar algo… erradicando seu portador.

Prensado contra os caixotes, Dennis cruzou os braços, posicionando a estaca defensivamente, quando Lutra rugiu roboticamente, investindo contra ele.

Houve um clarão, e Dennis escorregou para o chão, ainda com os braços sobre a cabeça.

Atônito, enxergou Lutra sacudindo a cabeça, vários passos afastada de onde estava anteriormente.

Nesse momento, percebeu o que a fizera recuar.

E, arquejando, voltou a se reerguer, encarando os cabelos castanhos da mulher que aparatara diante de si, a varinha erguida imperiosamente na direção da animatrônica resfolegante.

Lutra riu.

— Eis a portadora do maior mal de todos, criança.

Hermione sorriu, embora sua expressão mais se assemelhasse a de uma fera prestes a atacar.

— Hora de acertar as coisas, Lutra… de uma vez por todas.