First Day of Spring
13 A Volta
Notas iniciais
Jack havia finalmente encontrado. A maldita casinha de tijolos realmente parecia um tanto quanto diferente das outras da vizinhança. Havia um grande gramado cercado por flores situadas aos pés de um muro verde e também florido, cheio de trepadeiras. Essas trepadeiras do muro que delimitavam o jardim prolongavam-se pelas paredes da casa até o segundo andar. Seguindo os olhos, a trepadeira chegava até o parapeito de uma pequena sacada, repleta de vasos de flores.
Jack pousou no chão da sacada, e encostou a cabeça na porta de vidro e tentou enxergar algum sinal de vida ali dentro. Ele viu apenas uma cama desarrumada, roupas jogadas pelo chão e uma escrivaninha bem próxima dele. Em cima da escrivaninha de madeira, estava o globo de neve que ele havia dado a Fay. Talvez ela realmente visse o presente como algo importante. Tal pensamento tirou um sorriso de seus lábios. Mas onde estaria aquela menina agora?
Um som de vidro quebrando em vários pedacinhos fez a atenção de Jack voltar-se para o andar de baixo. O barulho vinha da janela aberta da cozinha, onde estavam Vanessa e Theresa.
– Meu Deus Nessa, já chega trazendo a discórdia! Não me assusta assim! – gritou Therry, abaixando para recolher os cacos do prato quebrado.
– Bem, eu já voltei da editora. Decidi terminar o artigo em casa mesmo. – Nessa tirou o casaco e pôs sobre uma das cadeiras. – Precisava ver o último capítulo da novela da tarde.
– Que motivo mais tosco para se trabalhar em casa.
– Ora, ora. E você senhorita Theresa? Também não vi você indo para sua editora de peruas. – Nessa agora dava uma mordida na maçã que tirara do centro da mesa.
Já tendo desistido a tempos de corrigir a forma que Nessa chamava sua editora, Therry ignorou aquele último comentário.
– É porque alguém precisava fazer as coisas nessa casa! Se não fosse eu para lavar a louça, varrer a casa, quem é que ia?
– A Fay ué. – Nessa respondia entre mordidas.
– A Fay... Anda muito distraída esses dias. Não tem um pingo de concentração em nada do que faz. Prefiro que use o pouca sensatez que lhe resta para estudar. Além disso, eu entreguei meu artigo a dois dias atrás.
– Hmm... Falando nisso, que horas ela chega? Já não deveria ter chegado?
– É. Ela deve estar aí a qualquer momento.
Ao ouvir aquilo, Jack tranquilizou-se. Decidiu então esperar no quarto de Fay. Provavelmente por um descuido, a porta que ficava entre o jardim e sala estava aberta, deixando sua entrada muito mais fácil que o de costume. Quando Jack entrou, uma ventania unida a flocos de neve espalhou-se pela sala. Papéis que estavam em cima da mesa de jantar voaram para todos os lados, chamando a atenção de Therry na cozinha, que viu todo estrago.
– Pelo amor de Deus Vanessa! Você entrou sabendo que estava nevando, passou pela sala e não fechou a maldita porta do jardim?
– Eu nem vi aquela porta aberta. Você estava aqui antes, você abriu a porta, você deveria ter feito isso.
– Eu estava ocupada lavando a droga dessa louça!
Jack deixou as duas discutindo no andar de baixo e subiu as escadas de madeira que davam para o andar seguinte. Havia apenas um grande corredor com 5 portas. 3 portas estavam de frente para ele e outras duas no fim de cada ponta do corredor. Pelo o que entendeu da planta da casa, o quarto em que vira o globo de neve deveria ser o direita.
Abriu a porta para descobrir que estava certo. O quarto emanava o cheiro dos cabelos da menina. A cama estava desarrumada, as portas do armário abertas e o pijama jogado em cima da cama. Na escrivaninha, uma pilha de livros e anotações, e no canto o pequeno presente que Jack havia dado a ela. O quarto era bem parecido com o que ela usara na casa de Sophie. A diferença estava no tamanho (com certeza era maior), na cama de casal e na varanda. Jack reparou num ursinho de pelúcia também jogado sobre a cama. Sorriu ao pensar na imagem dela abraçando aquela coisinha todas as noites.
Abriu a porta de vidro que dava para a varanda e viu os vários vasos de plantas. Parecia que flores e essas coisas eram importantes para Fay. Parando para pensar no assunto, Jack nunca deu muito valor para essas criaturas verdes. Afinal, quase sempre que estava no mesmo ambiente que elas, elas não passavam de galhos escuros e mortos. Tentou jogar neve que havia trazido para longe das flores, mas isso só fez com que parte das pétalas se cristalizasse. Jack suspirou.
Fay abriu a porta da frente. Estranhamente notou que suas tias estavam em casa. Nessa estava sentada no sofá da sala, de frente para a tv, com um pote de pipoca em suas mãos. Do lado dela, pegando um punhado de pipoca nas mãos, estava Therry, assistindo atentamente a novela ao lado de sua irmã. O primeiro instinto de Fay foi tirar uma foto. Mas infelizmente já havia sido vista quando sentiu suas mãos alcançarem seu celular dentro do bolso.
– Fay! Chegou meio atrasada hoje não? – Perguntou Nessa desviando os olhares entre Fay e a tv.
– É que está nevando... E daí... Eu meio que me distraí. — Fay dizia enquanto se dirigia às escadas.
– Se distraiu? Com o que? Ficou fazendo bonecos de neve? – Implicou Therry, mas sem desviar os olhos da novela.
– É! – gritou Fay já no fim das escadas.
Fay abriu a porta de seu quarto e tirou o casaco de lã de seu corpo. Estava prestes a tirar o resto para entrar no banho, mas a figura em sua sacada impediu-a. Sentado no beiral de sua sacada, de capuz e pés descalços sobre o apoio de madeira, ele estava simplesmente olhando o céu. Quando de repente os olhos dele encontraram com os dela. Meu Deus, havia um anjo sentado ali. Aqueles 15 dias sem vê-lo havia feito com que ela se esquecesse do quão bonito ele era. Na verdade, agora parecia que ele estava ainda mais atraente. Aquela pele perfeita, o cabelo prateado, os olhos azuis. E agora ele estava sorrindo. Fay parecia estar ficando sem fôlego. Sua vontade era correr para abraçá-lo. Um primeiro passo para frente foi até aonde aquele pensamento se estendeu. Seu próximo pensamento foi de enchê-lo de tapas por a tê-la deixado sem dizer nada depois de se declararem amigos.
– Por que? – Foi tudo o que o corpo paralisado de Fay conseguiu dizer.
Jack agora estava de pé, aproximando-se dela, sentindo a culpa de deixá-la por seu próprio medo estúpido tomar conta de sua expressão.
– Eu sinto muito... Eu...
Mas foi tudo o que Jack conseguiu dizer. O primeiro pensamento de Fay havia vencido novamente, e agora ela estava com a cabeça encostada no peito de Jack, seus braços em volta dele, abraçando-o com toda a força que tinha.
Jack estava sem reação. Seus braços estavam parados no ar, e ele estava só olhando para a menina sob seu queixo. Segundos depois, seus braços também estavam em volta dela, e seus olhos estavam fechados, curtindo aquele momento.
Quando finalmente se afastaram, ambos estavam sorrindo.
– Eu também senti sua falta. – disse Jack, relembrando do bilhete que Fay havia deixado para ele.
Fay só sorriu e assentiu com a cabeça, envergonhada com a lembrança do que havia escrito. Mas aos poucos seu sorriso foi desmontando, até só restar uma expressão furiosa, pronta para atacar a qualquer momento.
– Agora... Por que você não veio antes? – perguntou Fay furiosa, dando soquinhos no ombro de Jack.
– Aconteceram várias coisas... – Como iria Jack explicar sobre seu receio de ficar ao lado dela? Não poderia. Era humilhação demais. – Sabe como é. As crianças da Europa precisavam de neve, e... E o Norte me chamou!
– O Papai Noel chamou você? Pra quê?
Jack evitava o olhar desconfiado de Fay a todo custo, enquanto se punia mentalmente por não ter planejado uma desculpa antes.
– Porque uma avalanche passou por cima da casa dele! Ficou uma bagunça! E foi super complicado de consertar tudo. – Jack terminou a história rezando para ter convencido a garota.
– Ah... Coitado! – Aquela última palavra tirou um suspiro invisível de alívio da boca de Jack. – E está tudo bem agora?
– Está sim, tudo perfeitamente sob controle.
– Mas que coisa! Por que você não tem um celular? – Fay dizia de braços cruzados ao mesmo tempo em que sentava na cama.
– Como eu poderia ter uma conta, ou qualquer coisa em meu nome? – Jack quase riu da pergunta da jovem. A verdade é que a idéia nunca nem mesmo ocorreu a ele. Mas analisando agora, de fato era impossível.
– Verdade. – Fay soltou a palavra depois de um suspiro. – Mas enfim. Nossa você nem faz idéia. Enquanto você estava lá feliz voando com a neve, eu estava aqui sofrendo nesse inferno.
– Nossa. O que pode ser assim tão ruim a ponto de fazer você reclamar? Nunca vi você detestar nada. – Jack estava se deitando na cama ao lado de Fay, enquanto brincava com seu cajado.
– A escola.
– Escola? – Jack parou de brincar e sentou-se. – Sempre achei que escola fosse um lugar legal.
– Eu também achei que fosse. – o rosto de Fay mostrava pesar. O mesmo pesar que sentia todas as manhãs quando saía pela porta. – Eu não entendo. Realmente não entendo. Todo mundo simplesmente... Finge que eu não existo. – Aquela última frase machucava as esperanças ainda guardadas em seu coração de ter uma vida como ela via nos filmes e nas revistas que lia no hospital. Ela também sabia que não seria nenhum mar de rosas como as histórias faziam parecer. Mas esperava que pelo menos um pouquinho fosse verdade.
Jack viu a expressão de dor no rosto de Fay. Ele sabia como era. Mesmo assim, não podia acreditar na possibilidade de fazerem isso com alguém vivo. Isso era cruel. Além de tudo, era Fay. Como não notá-la? Ela era incrível.
– Talvez não seja assim... Deve haver algo por trás disso tudo. Não faz sentido. – Jack passava a mão atrás da cabeça enquanto se perdia naqueles pensamentos. – Eu posso descobrir pra você. – Ele agora fitava a garota ao seu lado, que reagiu com confusão, seguida de surpresa.
– Você vai na escola comigo? – Meu Deus, ela estava tão feliz. Tão feliz por finalmente ter alguém para conversar, alguém que a visse durante aquelas longas sete horas. – É sério? – agora ela segurava as mãos de Jack, como se não quisesse deixar que ele dissesse outra coisa.
Impossibilitado mais uma vez de sequer provocá-la, graças aqueles grandes olhos azuis profundos que o hipnotizavam, ele riu.
– Claro. Não é grande coisa. E vai ser divertido, tenho certeza.
– Yes! – E lá estava Fay, agarrando o pescoço de um Jack desconsertado. – Obrigada!
Já se acostumando com aquela reação, Jack apenas riu de novo e bagunçou os cabelos da garota.
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