Fire and Rage

5 V - Without Light or Tent


Notas iniciais
"Tempestade... O desgrenhamento das ramagens... O choro vão da água triste, do longo vento, vem morrer-me no coração. A água triste cai como um sonho, sonho velho que se esqueceu... ( Quando virás, ó meu tristonho Poeta, ó doce troveiro meu!...) E minha alma, sem luz nem tenda, passa errante, na noite má,` à procura de quem me entenda e de quem me consolará..." - Cecília Meireles, "Tumulto".

Sentada ali sem ter nada para fazer, Anya se via obrigada a observar a multidão pulsante que dançava ao seu redor.

Enquanto voltava devagar e a pé para casa, a chuva havia começado, e mesmo sobre a indignação e xingamentos da menina, ela acabara se encharcando toda. E a última coisa que poderia desejar ao chegar em casa, era que ela estivesse cheia de pessoas que desconhecidas e aparentemente felizes. A festa havia começado enquanto ela estava fora.

Se ela não estivesse encharcada, e desesperada para deitar no silêncio de seu quarto e dormir, ela teria achado aquela situação toda muito engraçada. Mas como a condição em que ela se encontrava era deplorável, a única coisa que conseguiu fazer ao invés foi passar apressada pela multidão que pulava no ritmo da música e que fazia a casa tremer, e tentar chegar ao andar superior sem ser vista. Ela viu Leonora dançando grudada com um cara que Anya não sabia o nome, mas felizmente, a amiga não a vira passando, e isso foi um grande alívio.

Para sua surpresa, a jornada até seu quarto não fora tão complicada assim, e além de alguns casais se agarrando no corredor, ela não viu nenhum obstáculo em seu caminho, ou qualquer um tentando impedir sua passagem. Agradeceu mentalmente a Leonora que teve o bom senso de trancar a porta de seu quarto caso algum casal tentasse ter um pouco de privacidade, e o único cômodo destrancado era o escritório, que já se encontrava ocupado. Anya balançou a cabeça e continuou seu caminho.

Trancou a porta do quarto assim que passou por ela, e se encostou na porta fechada logo em seguida. Estava escuro ali, e surpreendentemente quieto. A música dos andares inferiores parecia não conseguir chegar até ali, e se não fosse pelo leve tremor que corria pelas paredes, Anya poderia acreditar que estava sozinha em casa. Ela se deixou escorregar até o chão e observou a escuridão.

O único ponto de luz provinha do lado de fora do grande vidro que ocupava uma parede inteira e que dava para a sua varanda. Ali ela via as luzes da cidade se acendendo como piscas-piscas em uma árvore de natal pela escuridão da noite. Sem conseguir ouvir um único ruído, tudo parecia muito quieto, como se o mundo se preparasse para dormir. Ela fechou os olhos, respirando profundamente.

Ela queria muito estar se divertindo com as pessoas lá embaixo, queria poder sorrir sem ter que se esforçar para isso, mas ela não podia. Não podia porque não sabia mais como fazer isso. Toda sua vida, tudo o que ela era antes havia desaparecido. Ela não conseguia mais reconhecer aquela garotinha de dez anos que Anya Adams havia sido um dia; olhando agora para o passado, toda aquela vida parecia errada, como se de algum jeito, Anya nunca tivesse pertencido a ela.

Ela ficou mais um minuto parada, com os olhos fechados e os pensamentos embaraçados, até que decidisse finalmente se levantar e trocar de roupa. Mais alguns minutos naquela roupa encharcada e ela ficaria resfriada. Esse definitivamente seria o menor de seus problemas. Mesmo assim ela se levantou, e foi tomar banho.

Ela tomou um banho rápido, na água gelada para se manter acordada, e pensou no que poderia vestir. Não estava com a mínima vontade de arrumar o cabelo ou de se maquiar, a única coisa que queria era que aquela festa acabasse de uma vez, e assim poderia finalmente dormir. Quanto mais tempo se mante-se acordada, mais ranzinza ficaria. Ela decidiu então, com um sorriso no rosto, colocar a única roupa que alguém pensaria em usar em uma festa como aquela. Anya se vestiu rapidamente e se despediu de Rory, que se escondia em seu quarto, deitado em cima de sua cama, e saiu do quarto.

E desde que saíra do quarto, pronta para os olhares curiosos e cheios de desprezo que viriam com o tempo em sua direção, ela estava ali, sentada na escada, observando a festa ao seu redor.

Anya começou a se perguntar, entre os goles do ponche que bebia, como ela teria sido se as Almas nunca tivesse aparecido para ela. Talvez ela fosse como todas aquelas pessoas dançando ao seu redor, rindo e sorrindo como se o mundo não se destruísse mais a cada dia. Ela tinha certeza que ninguém ali se importa ou ao menos pensava nas dificuldades que pessoas menos afortunadas — em relação com dinheiro mesmo — passavam. Ela havia tido contato com algumas pessoas que não tinham o prazer de esbanjar tanto dinheiro como ela, e ficava muito feliz por não ser um deles, mas mesmo assim se preocupava.

Ela não sabia se tinha medo de ser pobre ou se desejava isso mais do que tudo. A única coisa que queria era poder viver como se o mundo não te cobrasse a cada segundo, exigindo seu dinheiro e alegando que era para o seu próprio bem. Do que adiantava você ter mais dígitos em sua conta bancário se eventualmente todas acabariam do mesmo jeito: mortos.

Anya não podia reclamar de sua vida. Pelo menos não da vida que ela teria não fossem as Almas. Para alguns, ter dinheiro era sinônimo de felicidade; enquanto para outros o simples fato de continuar vivo era um milagre.

Mas todos aqueles jovens que estavam ali dançando, bebendo e se drogando não viam a vida do mesmo modo que ela. Para eles a única coisa que importava era se divertir. Enquanto seus pais ganhavam mais e mais dinheiro para dar uma vida de luxo aos seus filhos, eles estavam ali, rindo da vida como se essa não valesse nada. Afinal, que diferença faria se eles se importassem? A humanidade havia se organizado daquela maneira, um grupo ou outro de jovens protestando contra isso só acabaria de um jeito: com a morte. Porque, no final, é isso o que realmente importa.

Ela tomou mais um gole de seu ponche e olhou para o líquido com certa desconfiança. Seus pensamentos estavam começando a embaralhar, e ela se via cada vez mais tentada a ir dançar sem se importar com nada. Alguém devia ter batizado o maldito ponche. Ela largou a bebida no degrau debaixo e começou a mexer distraída com a faixa enroscada em seu braço. Anya devia estar mesmo muito distraída, porque quando alguém se aproximou e estendeu um copo em sua direção, ela demorou alguns segundos até perceber que o gesto era direcionado para ela. Anya levantou o olhar para o recém-chegado.

– Não gostou da bebida? — perguntou Charles, com o copo ainda estendido na direção dela.

Ela aceitou a bebida e deu um gole antes de responder:

– Não gosto muito de ter a mente confusa.

Ele sorriu. Naquele momento, seu sorriso pareceu extremamente sedutor.

– Ajuda a fazer as pessoas se divertirem.

– Talvez.

Ele continuava sorrindo para ela, e isso a deixava desconfortável. Charles tinha mudado muito desde a infância. Ele definitivamente não era mais o garoto rechonchudo e irritante que a perseguia anos atrás, agora ela era praticamente um homem; com uma barba por fazer, dentes branquíssimos e um corpo esculpido por deuses. Seu cabelo era de um castanho claro, e era liso até a ponta, onde se enroscava em lindos cachos. Seus olhos eram de um azul profundo, e sobre a luz que piscava de todas as direções dentro da casa, eles se comparavam ao céu estrelado. Seu rosto era perfeitamente angulado, e seus lábios eram de um rosê, tão charmosos e sedutores que ela teve que se segurar para manter o olhar focado em seu rosto. Era uma beleza exuberante, mas ela não notaria não fosse a bebida que corria em suas veias.

– Não é muito típico a anfitriã ficar longe da própria festa.

Ela observou o garoto mais uma vez. A presença dele costumava irritá-la quando ela era criança, e agora a visão dele passava indiferente por ela. E então ela se pegou pensando como seria se decidisse matá-lo. Pensou nas várias situações em que isso ocorreria, ou como ocorreriam. Calculou com precisão o tempo que necessitaria para retirar a pequena faca que sempre levava no sapato e cortar o pescoço dele. Seria um morte dolorosa, e lenta. Ela o veria sofrer aos seus pés quanto seus olhos ainda surpresos tentavam digerir o que acontecia. Então ela também pensou que poderia quebrar o pescoço dele, e também calculou quanta força seria necessária. Era só ter força de vontade, que a vida dele estava em suas mãos.

– É, concordo — ela se levantou e ergueu a cabeça, e começou a empurrar os corpo a sua volta para que conseguisse passagem — Então acho melhor eu começar a me divertir! — gritou ela para ele por cima e do ombro e da música que ainda pulsava em seus ouvidos.

Ela não sabia o que estava pensando ou o que queria, a única coisa que sabia, era que tinha que chegar até a sala de estar, e até a garrafa de uísque escocês que seu pai trouxera a pouco tempo para casa. Charles a seguia de perto, e isso só fazia com que sentidos ficassem cada vez mais desorientados. Ela chegou até o cômodo com certa dificuldade, percebendo que seja lá o que tivesse no ponche, era muito mais forte do que ela acreditava, e tendo que se concentrar para se manter acordada. Parecia que se ficasse parada, não conseguiria mais se levantar.

Anya encontrou o que procurava no segundo que seus olhos pousaram no pequeno armário cheio de bebidas encostado em um canto da parede. Ela foi até lá praticamente correndo, com a pressa de se manter acordada, e pegou a primeira garrafa que encontrou, descobrindo que não conseguia distinguir as palavras nos rótulos. Ela retirou a tampa com brutalidade, jogando-a para o outro lado da sala, e entornou a garrafa na boca.

No momento que o líquido entrou em contato com a sua língua, ela soube que estava bebendo do uísque escocês que tanto desejava, e isso só fez que ela o engolisse mais rápido. Ela praticamente não respirava, sentindo a bebida entorpecer seus sentido e tornar tudo ao mesmo tempo mais claro e mais confuso. Ela sentia o mundo girar e o líquido a queimar por dentro. Finalmente então, ela parou de beber. E de fato, o mundo girava loucamente.

– Vai com calma aí — ela ouviu a voz de Charles um pouco distante, mas sabia que ele estava na frente dela — Não vamos querer que a anfitrião seja a primeira a sair vomitando por aí.

– Esse foi um comentário nojento e desnecessário.

Ele riu. E de novo, seu sorriso parecia encantador.

– Mas ta bom então, já que você não quer parar, pode ao menos dividir? — ela estendeu a garrafa para ele meio sem jeito e ele entornou a garrafa na boca sem pensar duas vezes.

– Então — continuou ele, depois de vários goles — Por que estava sentada na escada triste e solitária?

– Preguiça de dançar. Exige muito esforço.

– Se não está com vontade de dançar, por que deu a festa?

– Leonora deu a festa, eu apenas deixei que usassem minha casa.

Ele assentiu e tomou mais um gole.

– Mas e você — começou ela — Por que perder seu tempo com a garota triste e solitária sentada na escada?

– Meu cavalheirismo fala mais alto. Você está num estado deplorável.

– É. Isso basicamente resume meu estado. Preguiça é um droga horrível, realmente. Eu pessoalmente a considero perigosíssima.

Eles ficaram um tempo em silêncio, os dois se balançando no ritmo da música.

– Você vai na minha festa na sexta? — ele perguntou de repente.

Ela queria dar uma responta rude como "e tem como não ir?", mas teve que se conter, e para isso, pegou a garrafa da mão dele e bebeu mais um gole.

– É claro — respondeu ao invés — Não perderia por nada. Suas festas são tipo as festas do ano.

– Ha — riu ele — Como se você realmente se importasse com isso.

Ela parou de beber, encarando os profundos olhos azuis dele.

– O que quer dizer com isso?

– Você anda diferente, às vezes. Tipo hoje quando estava sentada na escada ao invés de estar se divertindo como todo mundo.

– Eu já disse, a preguiça...

– É uma droga horrível — completou ele — Eu sei — ela engoliu em seco — Mas eu percebi, Anya. Pelo menos eu percebi o quão diferente você está.

– Diferente? — perguntou bebendo mais. A garrafa já estava quase no fim.

– Eu vejo o modo que você olha para as pessoas, de vez em quando. Como se você tivesse medo de chegar perto deles.

– Eu não tenho medo de...

– Eu sei — cortou ele mais uma vez — Mas você não é a mesma de antes. Leonora também percebeu isso. Você anda mais contida, mais fechada. Eu me lembro de quando éramos crianças e você adorava falar de como suas festas seriam as melhores festas do ano quando crescesse, que as pessoas iriam ter que brigar para conseguir convite. E agora você observa todo mundo se divertindo sentada na escada.

Ela abriu a boca, mas a fechou logo em seguida quando percebeu que não sabia o que falar. Como Charles podia se lembrar de como ela era antes, se nem ela mesmo conseguia se lembrar? Parecia uma ironia do destino. Já que a pessoa que ela mais odiava quando criança, era a que mais a conhecia.

E pelo o que ele contara, ela era praticamente um monstro. Uma garota mimada e fútil que não via nenhum prazer na vida além de se sentir melhor do que todo mundo. "Ai está a Anya que eu conheço: sempre agindo e pensando como se fosse melhor do que todo mundo.", Felicity havia dito. Será que mesmo depois de tudo o que havia acontecido, ela continuava sendo como aquela garotinha mimada de dez anos atrás?

Não. É óbvio que não.

Ela foi salva de dar uma resposta quando Charles retirou uma caixinha retangular do bolso da calça e Anya quase sorriu.

– Você é uma péssima influência em mim — disse ela, enquanto aceitava um dos cigarros, se sentindo subitamente sóbria.

– Eu sou uma péssima influência em você? — perguntou ele rindo, pegando um cigarro para si próprio — Pelo o que eu me lembro, foi você que nos levou a experimentar um pela primeira vez.

– E olhas só, nunca pensei que daria início a a uma vida de drogas para uma série de viciados.

– Pois é. O destino trabalha de uma forma engraçada, às vezes.

– Concordo.

Ele retirou um esqueiro de outro bolso da calça e ela permitiu que ele acendesse o dela. Enquanto dava a primeira tragada, ela sentiu o mundo voltar a ficar em foco novamente. Seus pensamentos ficaram mais claros e sua visão parou de ficar turva. Ela fechou os olhos quando exalou a fumaça, sentindo o cheiro de tabaco que agora impregnava o ar, e sentiu a calma se fixar em seu corpo, fazendo-a relaxar os músculos que ela não percebia que contraia, alerta à algo desconhecido.

Ela abriu os olhos novamente e olhou para Charles, vendo-o novamente como o via todos os dias, indiferentemente.

– Você parece determinado — comentou ela casualmente.

– Determinado a quê?

– Sei lá. Apenas determinado.

– E você parece relutante.

– Um pouco de relutância é sempre bom.

– Eu digo o mesmo sobre determinação.

Ela sorriu, e ele a acompanhou, os dois dando mais uma tragada.

– Concordo.

Eles ficaram mais um tempo novamente em silêncio, até que Charles resolveu falar mais uma vez:

– Posso te perguntar uma coisa? — ela assentiu — Você, por algum acaso, está de pijama?

Ela arregalou os olhos e quase engasgou com a fumaça com a lembrança de que estava de fato de pijama. Quando não encontrara uma roupa ao mesmo tempo confortável e descente para ir na sua própria festa, ela decidiu colocar seu pijama de uma vez, com a vontade de dormir dominando sua cabeça. Seu pijama não tinha nem desenhos de animais ou frases alegres como antigamente; agora era apenas uma blusa lisa normal, um shorts de moletom curto. E ela também havia adicionado um blusão de moletom aberto, e arregaçara as mangas.

– Eu não dormi noite passada — esclareceu ela — Dormir é a única coisa que consigo pensar no momento.

Ele riu.

– Teve pesadelos?

– Não — negou ela — Fiquei presa em um aeroporto lotado em Paris. Aquele lugar consegue parecer o inferno quando quer.

– E o que você foi fazer em Paris?

– Desfile da minha mãe — ela disse apenas. Ele assentiu, entendendo tudo.

Seu cigarro já desaparecia entre seus dedos, e ela já estava pensando em se despedir de Charles e ignorar toda aquela festa que acontecia ao seu redor para ir dormir, quando ela ouviu a voz de Leonora a chamando, e virou para trás.

– Anya! — exclamou ela com um sorriso no rosto. Sua pele brilhava por causa do suor, e sua respiração estava ofegante — Eu te procurei a noite toda? Onde você estava até agora? Correndo na chuva?

– Eu acabei dormindo mesmo no meio da estrada, mas nenhum estranho tentou me estuprar ou roubar meu celular. Estranhamente ele só me pediu pra sair da frente ou ele passava por cima de mim com seu carro.

Leonora riu, mas não parecia achar a situação toda engraçada, apenas não conseguia se conter de tão forte que seu coração pulsava.

– Que ótimo pra você — ela disse animada — Mas isso não importa, tem um cara lá fora que quer falar com você.

Anya deixou o cigarro cair de suas mãos e pisou em cima do resto, formando fagulhas e cinzas no chão.

– Que cara?

– Eu vou lá saber? — perguntou ela — Mas é um cara estranho, e queria falar com você.

– Parece até que é pré-requisito para querer falar comigo.

– É o que eu penso todo dia — ela balançou a cabeça como se estivesse ponderando — Mas vai logo, antes que o traste fique impaciente e resolva atirar em todo mundo.

– Ele estava armado por acaso?

– Vai saber, nesses dias tudo pode acontecer — ela agarrou o braço de Anya — Vêm logo, sua lerda.

Anya revirou os olhos e se despediu de Charles rapidamente, que tentou parecer indiferente com a partida dela, mas seus olhos brilhavam um tom a menos enquanto ela se distanciava.

Ela seguiu Leonora por meio da multidão, e por meio segundo se sentiu sufocar, como se todo o ar de seus pulmões houvesse sido retirado. E só quando se viu do lado de fora da casa, com o ar gelado da noite batendo em seu rosto e o cheiro da cidade invadindo suas narinas, foi que ela se sentiu relaxar novamente. Até ver quem era o cara que Leonora descrevera.

– O que você quer aqui? — perguntou Anya assm que Leonora saiu correndo de volta para a festa.

Vincent sorriu. Ele não estava suando a túnica branca que geralmente vestia, mas sim uma calça jeans normal e uma camiseta. E de fato ele parecia muito normal ali, com os olhos azuis ainda mais vivos.

– É sempre um prazer te rever também, Anya.

– Não — ela passou a mão pelo cabelo — Não é isso o que eu quis dizer. É só que nunca te vi fora do cemitério.

Na verdade ela não sabia que as Almas poderiam sair de lá. Essa não foi uma notícia muito reconfortante.

– É, não costumo sair muito.

– O que te fez sair dessa vez?

Ele olhou por cima dela, para a casa que brilhava com luzes coloridas e piscantes. De algum modo, ele parecia maravilhado.

– Você quer sair para uma caminhada? — perguntou ele.

Ela deixou os ombros penderem para a frente, cansada, mas concordou mesmo assim. Pelo menos a chuva havia parado, ela não queria ficar mais molhada.

Eles começaram a andar pela calçada, se distanciando cada vez da casa, fazendo com que os ruídos da música fossem levados para longe pelo vento. Ela puxou a manga de seu blusão até as pontas do dedos, e se abraçou, com frio. Praguejava mentalmente por estar de shorts em uma noite tão fria. Vincent reparou no se desconforto.

– Acho que eu devia ir direto para o assunto. Antes que você congele de frio.

– É. Eu recomendo.

Eles pararam alguns quarteirões de distância da casa de Anya, e ali a noite estava tão silenciosa quanto uma noite na cidade poderia ser, com os ruídos distantes de pneus de carros ralando sobre asfalto molhado, levantando pequenas gotículas de água no ar.

– É que você parecia estar com a cabeça em outro lugar lá no cemitério.

Ela suspirou.

– Eu estou cansada, isso é tudo.

– Eu só achei que você quisesse conversar com alguém.

Ela deu um sorriso fraco.

– Não adianta nada, você não pode me contar nada.

– Eu sei, mas... — ele suspirou — Eu estava preocupado com você, com o que você podia fazer se não conseguisse as respostas rápido.

– Sei me cuidar sozinha. Eu to bem, sério.

– Essa é a mentira mais antiga do universo.

Ela grunhiu irritada, sentindo todo o cansaço do dia sobre seus ombros.

– Eu só estou cansada. Cansada de tudo em geral — disse ela — Eu sinto como se eu estivesse prestes a explodir, e as vezes eu acho que se explodisse, seria algo bom! Eu só quero dormir e acordar descobrindo que tudo isso, toda essa vida não passou de um simples pesadelo. Só quero correr pro meu quarto, me jogar debaixo dos cobertores e ficar no silêncio, eu estou cansada de tanto barulho, de tanta coisa!

Ela tentou controlar sua respiração enquanto esperava que ele dissesse alguma coisa, mas ele demorou muito para responder. Anya já pensava que ele não responderia nada até que ele tornou a falar:

– "O silêncio deve ser ouvido, e o barulho deve ser observado".

– Agora você recita poesias também?

– Isso não é poesia, é um fato.

– Quem disse que a poesia não é um fato?

– E quem disse que o fato não é poesia.

– Justo.

– E só para deixar claro, aquilo não era realmente poesia, era uma música.

– Oh — exclamou ela — Então os mortos também podem ouvir música? Vocês tem wi-fi nesse lugar que vocês vão onde conseguem acessar o youtube? A morte nunca foi tão interessante.

– Não seja ridícula, garota. As árvores cantaram para mim.

– Certo. Agora você está me assustando.

Ele riu e virou ela de costas, pondo as mãos nos ombros dela e guiando-a de volta para casa.

– Acho que já está na hora de você dormir. Muitas emoções para um dia só.

– Já vivi dias piores.

– Essa é minha garota.

– Eu bateria em você por me chamar de "minha garota", mas, infelizmente, me encontro em um estado deplorável de cansaço e fraqueza no momento.

– E como eu disse, essa é minha garota. Sensível e dócil como uma flor.

Ela riu. Mas não retrucou enquanto deixava-se guiar pela rua.

Notas finais
A frase "O silêncio deve ser ouvido, e o barulho deve ser observado" é de um música chamada "Silence must be heard" do Enigma. Eu pessoalmente nunca ouvi a música, mas adorei a frase, e achei que combinava com o momento. P.S. Eu também coloquei o link de uma música (se alguém percebeu), é só pra acordar vcs mesmo kkk