Fire and Rage
6 VI - Shrapnel
Notas iniciais
O mundo estava em chamas. Porque de um jeito ou de outro, era assim que ele acabaria. Tudo era calor e luz, um emaranhado de sombras no ar que se enroscavam até se condensarem e formarem uma fumaça preta, que se espalhava como poeira. Tudo acontecia lentamente, aumentando o pavor e a noção do perigo.
E também haviam os gritos.
Estes retumbavam por todos os lados, abalando a paz e assinando sentenças de morte.
Mas também havia uma garota.
Ela estava parada olhando para o vazio, alheia à confusão e às vozes do caos, que gritavam desesperadamente. As pessoas que corriam e berravam assustadas não percebiam sua existência, mas também não trombavam com ela. Porque sua presença, de um jeito ou de outro, era inevitável. Mesmo que ninguém a visse, ou soubesse seu nome, todos sentiam — de um jeito ou de outro — que ela estava ali.
O que ela fazia?
Observava.
O quê?
O fogo.
Não havia nada de interessante nas labaredas escaldantes além do fato de que consumiam o mundo. Talvez a garota estivesse perdida — ela parecia, de fato, estar perdida. Perdida de tudo -, já que seus olhos vagavam sem rumo, sem se focarem em nada. Perdidos.
Mas ninguém parecia procurar por ela.
Além das chamas de fogo, é claro.
Pois estas a rondavam, e assim como todo o resto do mundo, não ousavam tocá-la. Uma áurea sombria cobria a garota, como um manto preto e reluzente que espantava os seres vivos.
Mas e os mortos?
Ah, os mortos...
Estes nunca se vão, sabe. Sempre presos em memórias e fotografias dos vivos. Presentes na boca dos viventes, que insistem em pronunciar seus nomes como se o simples fato de nomeá-los pudesse trazer alguém de volta.
Não pode.
Porque, na verdade, eles nunca partem.
Seres humanos são engraçados. Insistem em viver mesmo quando estão mortos. Se agarrando a lembranças de sua antiga vida, e à simples chama da saudade e da tristeza, que os separam de todo o resto do mundo.
Eles nunca se vão.
Mas também nunca ficam.
Assim como a garota.
_____
Ela deu mais um giro com a perna já levantada e acertou seu alvo em cheio: bem no meio do saco de pancadas, onde um rasgo antigo ainda permanecia o mesmo. Anya desfez sua pose de luta e curvou os ombros para à frente, cansada. Estava praticando o dia inteiro.
Mas, felizmente, na noite anterior, ela conseguiu dormir algumas horas antes que seu despertador começasse a tilintar insistentemente fazendo com que ela acordasse a tempo de ir para a Universidade no horário certo — o que gerou uma cara de confusão vindo de seu professor.
Anya pôs uma mecha de seu cabelo que tinha caído em seu rosto atrás da orelha e voltou a se preparar para o combate com um alvo pendurado no teto. Depois que conhecera as Almas, e depois que começou a realizar missões, que eram as tarefas que geralmente exigiam uma luta não muito civilizada, ela foi obrigada a começar a treinar. E para isso, exigiu de seus pais que eles permitissem que ela fizesse aulas de luta e artes marciais — sem nunca revelar o verdadeiro motivo da escolha. Alegando apenas que seria divertido aprender a se defender sozinha -, e eles permitiram.
Na verdade, Anya acreditava que tirando pelo saco de pancada que ficava pendurado em um canto da garagem, eles nem ao menos soubessem que ela realmente um dia fizera as aulas. Ela deu de ombros pro ar e partiu para dar mais um golpe.
Depois que começara a treinar com dois professores particulares, ela descobriu que era incrivelmente rápida e ágil, e que aprender todos os truques não seria um desafio tão grande assim. É claro que ela sofreu nas aulas — principalmente quando era obrigada a fazer horários extras graças as Almas que a convocavam no horário errado -, mas depois de um tempo foi se acostumando com a dor e até gostando de senti-la. Como se cada hematoma fosse um castigo para as coisas muito piores que ela costumava fazer.
Ela girou nos calcanhares e chutou o saco de pancada para longe, não esperou que ele voltasse para seu ponto de origem, foi logo se jogando no chão e rolando para atingi-lo do outro lado com dois socos de cada braço. Ela girou novamente e dessa vez o atingiu com o cotovelo, mas como não fez força suficiente o saco quase não se mexeu, e ela, só por raiva, deu impulso e girou no ar, atingindo o alvo com os dois pés, e ainda caindo no chão agachada, com apenas uma mão apoiada no chão.
Anya se levantou devagar, arrumou o cabelo novamente e colocou a mão na cintura. Geralmente ela treinava por horas a fio, esquecendo de todos os seus problemas enquanto esmurrava o saco de pancadas, descarregando sua raiva e ignorando suas mágoas; mas havia algo de errado agora. Ela não sabia o que era, mas sentia que algo estava errado.
Correu os olhos pelo ambiente vazio — já que quando ela treinava deixava seu carro na entrada -, mas tudo estava igual. Sua garagem era basicamente um retângulo espaçoso, plano e vazio, com algumas poucas prateleiras brancas vazias que se misturavam com a cor da parede e pareciam intactas. O chão não estava nem mais sujo, e nem mais limpo do que nos dias anteriores. Estava igual.
Ela balançou a cabeça e atribuiu a sensação estranha ao cansaço, que vinha pregando peças com a sua cabeça. Anya recolheu algumas facas que deixara espalhadas pelo chão depois que treinou seu arremesso, e foi andando na direção das escadas que dariam até os andares superiores. Rory a esperava deitado na ponta da escada como sempre, balançando o rabo para a dona. Anya sorriu e fez carrinho atrás de sua orelha antes de começar a subir a escadaria.
Quando chegou na entrada, percebeu que os funcionários que Leonora contratara para limpar a casa depois da festa já haviam ido embora, e que além dela e de Rory, apenas mais uma pessoa se encontrava na casa — como era um costume.
– Você estava lá embaixo esse tempo todo? — perguntou Donna assim que ela apareceu toda suada na sala de estar.
– Só estava esperando o pessoal da limpeza ir embora.
– Humm — balbuciou ela, voltando sua atenção novamente para o bordado que fazia. Anya já estava quase indo embora quando sua governanta a chamou mais um vez — Não vai nem tomar o chá que eu fiz?
– Depois eu tomo. Tenho que arrumar a minha mala ainda.
– Mala? — indagou Donna levantando o olhar pela primeira vez — Vai viajar de novo?
– Sim. Itália. Mas eu volto antes da sexta.
– Antes da sexta? — repetiu Donna — Ainda é terça-feira, garota. Você não pode matar aula a semana inteira.
– Claro que posso — retrucou ela — Estamos no começo do ano e as provas são daqui a dois meses, tenho tempo para me recuperar.
– Você sempre diz isso.
– É claro que digo, sou muito boa nisso.
Donna revirou os olhos e fez um gesto com a mão para mostrar que desistia. Anya girou em seus calcanhares e sorriu para as paredes enquanto subia — acompanhada de Rory — para seu quarto. Ela não se deu o trabalho de fechar a porta quando chegou no cômodo, sabendo que Donna ficaria um bom tempo terminando seu bordado, e que teria o andar superior todo para ela.
Anya pegou seu telefone e colocou uma música qualquer para tocar enquanto tomava um banho e penteava o cabelo. Seu voo seria apenas ao anoitecer, e ela ainda teria algumas horas de paz antes de ter que rever Felicity. Segundo o plano, as duas se encontrariam no aeroporto alguns minutos antes da partida, e então viajariam juntas para Arezzo, onde encontrariam o resto da equipe de Felicity e se encaminhariam para a tão famosa biblioteca. Anya não sabia o que estava procurando, mas pelo o que percebia, aquela viagem seria uma das mais importantes de sua vida. Ela só não tinha ideia do quanto.
Ela terminou de se arrumar e pegou uma de suas malas pequenas onde começou a guardar algumas mudas de roupa. Não pretendia ficar por mais de três dias no máximo. Sempre deixava um dia para passear pela cidade e apenas no seu segundo dia começava a fazer o que lhe era requisitado. Mas mesmo assim, enquanto selecionava suas câmeras preferidas, algo a dizia que seria diferente dessa vez. Anya balançou a cabeça para espantar o pensamento e voltou sua atenção para a sua pilha de roupas.
Sempre reservava uma jaqueta de um tecido mais resistente para esse tipo de missão, onde querendo ela ou não, haveria derramamento de sangue. A única coisa que não sabia era o de quem seria. Vincent dissera que aquele livro seria de algum modo importante para ela, como se algumas palavras inscritas em um livro pudessem salvá-la daquele inferno. E mesmo ela não acreditando em tudo aquilo – ou na simples possibilidade de que ela teria alguma sorte na vida – ela esperava que ele estivesse certo. Não havia um dia sequer que ela não acordasse de manhã e desejasse do fundo de seu coração que toda aquela realidade que ela acreditava ser real – as Almas, os assassinatos, os corpos mortos estirados no chão por causa dela – não fosse real.
Anya tentou dormir por alguns minutos assim que terminou de se arrumar, mas não conseguiu, a cada minuto se pegava abrindo os olhos para espiar o relógio. Nunca esteve tão ansiosa para viajar assim, mas do mesmo jeito não conseguia se controlar. Seja lá o que fosse que a mantinha tão focada naquilo, era mais forte que ela.
Ela trocou a música algumas vezes, não conseguindo encontrar paciência para terminar nenhuma, e ficou assim pela tarde toda até que a campainha tocou. O som vibrou pela casa toda até chegar aos seus ouvidos, despertando-a de uma linha de pensamentos sem sentido. Ela se levantou, torcendo para que fosse Leonora, e desceu as escadas. Donna havia adormecido no sofá de frente para a televisão ainda ligada, e não despertara mesmo com o ruído estridente da campainha. Anya deu de ombros e foi abrir a porta. De todas as pessoas que ela acreditava que estariam ali na sua frente, Cassandra DeVitte Adams era definitivamente a última.
Sua mãe usava uma camisa social de seda com duas faixas transparentes na frente que exibiam parte de seu sutiã cuidadosamente desenhado especialmente para ela; um casaco de pele de animal preto que ia até a altura de seus joelhos e uma saia justa com recortes e mixes de texturas cobrindo parte de suas lindas e longas pernas. Para alguém na casa dos quarenta, a famosa estilista Cassandra Adams estava definitivamente acima de seus padrões.
Anya deu um passo para trás de tão surpresa que estava.
– M-mãe? – engasgou ela – O que diabos você faz aqui?
Cassandra murchou o sorriso desenhado perfeitamente em seu rosto para a filha.
– Eu não te vejo há cinco meses e é assim que você me recebe?
Há alguns anos atrás, Anya talvez teria rido e logo abraçado a mãe, bombardeando-a com perguntas e mais perguntas sobre sua mais nova coleção, de tão animada que estava por finalmente poder rever a mãe; mas agora as coisas eram diferentes. E mesmo que Anya tenha tentado ao máximo esconder isso de todo mundo, seus pais não eram exatamente sua maior prioridade.
– Pensei que ficaria fora por sete meses.
Cassandra bufou e empurrou a filha para que pudesse entrar em sua própria casa, seu mordomo e fiel escudeiro Flecher, veio logo em seguida carregando suas milhares sacolas de compras.
– E é assim por acaso que você cumprimenta sua mãe, mocinha?
– Ah, pelo amor de Deus – pediu Anya cruzando os braços – Não me venha com esse papo de “Eu sou sua mãe, você me deve respeito”, porque pais de verdade não abandonam a filha por mais de sete meses!
– Eu fiquei fora por cinco meses, queridinha, refaça suas contas.
– Eu pouco me importo por quanto meses você ficou fora, só não venha me tratar como se eu fosse sua filha.
Cassandra parou e se virou para ela. Seu rosto era quase que ilegível, tão forte que era a força que ela fazia para cerar seus perfeitos lábios em uma linha. Mesmo que ela tentasse ficar brava com filha, ou ficar triste por saber que Anya pouco se importava com ela, ela ainda se importava mais em não borrar sua maquiagem. Ela revistou a filha por completo com os olhos, dos pés à cabeça, um símbolo de interrogação no olhar.
– Onde você está indo?
Anya olhou para as próprias roupas tentando encontrar qualquer indício de que estava prestes a viajar.
– Como assim?
– Suas roupas – esclareceu sua mãe – Você usa esse tipo de roupa para viajar.
– Quem disse isso?
– Sou sua mãe. Eu sei das coisas – ela olhou ao redor – E também me lembro de quando você me pediu para desenhar essa jaqueta e me disse que a usaria apenas quando fosse viajar.
Anya revirou os olhos.
– Isso faz anos. Não quer dizer nada.
– Bom, você continua usando.
As duas ficaram em silêncio, travando uma batalha silenciosa, enquanto todos os outros espectadores da sala – Donna e Flecher, no caso – apenas as observavam com cuidado. Donna havia se levantado no momento em que Cassandra cruzara a porta, e tentava lentamente arrumar suas roupas amassados; um claro indício de que estava dormindo em pleno horário de trabalho.
Anya fez um som de impaciência com a garganta e bateu o pé.
– Tudo bem, eu talvez esteja indo viajar.
– Onde você está indo? – perguntou sua mãe.
– Não te interessa, tenho mais de dezoito anos, não te devo nenhuma explicação.
– Enquanto você viver debaixo desse meu teto, você me deve uma explicação, sim.
Anya sorriu, já começando a se direcionar para as escadas.
– Tudo bem, então – disse ela – Se esse é o problema – ela foi até seu quarto e pegou sua pequena bolsa já arrumada, tomando o cuidado apenas de colocar o celular no bolso antes de partir. Ela voltou ao andar debaixo e encarou Cassandra – Eu posso resolver isso agora.
Então saiu de casa e entrou em seu carro, se apressando logo a partir para longe dali. Ela pisou no acelerador, e quase não conseguiu parar quando se deparou com um sinal vermelho. Ela esfregou o rosto desesperadamente e se segurou para não gritar. Cassandra, tanto quanto Rick, tinha esse efeito sobre ela. Ela os odiava com todas as suas forças, e mesmo assim, todas as vezes que eles apareciam – o que era raro – ela sentia algo mais. Como se não importasse quanto mal eles tivessem feito para ela, Anya sempre os incluiria na lista das pessoas pelas quais ela daria sua vida de bom grado.
Quer dizer, eles eram seus pais, sangue do seu sangue, e mesmo que ela tentasse odiá-los a ponto de não se importar para o que for que pudesse lhes acontecer, ela ainda os protegeria. Assim como fazia com todo mundo.
Ela chegou no aeroporto e logo pôs seus óculos escuros – mesmo já tendo anoitecido – mais preocupada em manter seus olhos inchados escondidos, que eram o símbolo de sua fraqueza. Não demorou muito até encontrar Felicity, que a esperava impaciente sentada encolhida em uma cadeira no salão de espera, tentando ao máximo passar despercebida pelo resto das pessoas ao seu redor. Anya se aproximou dela se recompondo e exibindo seu sorriso mais falso.
– Por que quer tanto se esconder dessas pessoas?
O rosto de Felicity ficou vermelho, ela se levantou e colocou sua mochila nas costas.
– Cala a boca – ordenou ela, quase cuspindo em Anya – Você está atrasada. Já deveríamos ter embarcado.
– Oh, sim – Anya fez beicinho – Me desculpe por te deixar no meio de pessoas normais. Me esqueci que esse não é seu tipo.
Felicity passou por ela sem falar mais uma palavra, esbarrando em seu ombro de propósito, e se encaminhando para onde as pessoas de seu voo iam embarcando. Anya a seguiu e também não olhou em volta. Não se importava de ficar no meio de uma multidão de pessoas, só tinha medo de que pudesse machucar qualquer uma delas. Se as Almas quisessem alguém morto, Anya ia lá e a matava. Ela às vezes se esquecia do porquê disso tudo, mas no mesmo segundo o rosto contorcido de Leonora vinha em sua cabeça e ela era obrigada a baixar a cabeça e obedecer suas ordens.
Uma vez Leonora já sofrera por causa dela – mesma ela ainda não sabendo que a culpa era na verdade de Anya -, e não poderia deixar que isso acontecesse com mais alguém. Talvez a verdadeira razão era que Anya não suportaria ver mais alguém que ela ama sofrer por causa dela.
As duas garotas embarcaram e logo se sentaram em seus assentos – perigosamente próximos – sem dizer mais uma palavra. Anya agradecia por isso. Gostava de ficar em silêncio enquanto observava a culpa varrendo qualquer outro sentimento dentro dela. Anya era praticamente uma arma letal, como uma bomba que estava prestes a explodir. Ela fechou os olhos.
O único problema é que ela nunca sabia qual seria a próxima vítima que seus estilhaços chegariam a atingir.
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