Fire and Rage
4 IV - They're All We Have
Notas iniciais
Anya estava tão distraída que nem ao menos retirou seus óculos de leitura do rosto enquanto descia a escadaria da Universidade. Ela havia se atrasado para a aula — algo que começava a acontecer com frequência -, e isso resultara em mais um sermão de seu professor — algo que agora também ocorria com frequência.
A entrada da Universidade era uma confusão no fim das aulas, e isso a irritava profundamente. Odiava ficar esbarrando nas pessoas e ter que pedir licença para conseguir passar mas, principalmente, odiava ter que estampar um sorriso no rosto e fingir que estava tudo bem. Fingir que era a mesma garota de dez anos atrás e se esforçar ao máximo para que ninguém percebesse sua encenação sempre fora a pior parte.
Anya não sabia porque fazia aquilo. Não ganhava nada com o fingimento além de um pouco mais de popularidade, tudo aquilo não passava de um capricho.
Ao mesmo tempo que Anya sabia que ficar próxima de todas aquelas pessoas era um erro — já que todos que chegavam perto demais poderiam entrar na linha de fogo -, ela não conseguia se ver longe deles.
Talvez ela tivesse medo mesmo de ficar sozinha.
Ela respirou fundo e revirou os olhos, mais por hábito do que para outra coisa, e começou a se direcionar para o estacionamento e sua BMW preta. Mas antes que pudesse chegar aos portões da Universidade, uma mão segurou seu braço e ela se virou, já alerta, mas logo se viu relaxar ao reconhecer quem era.
Ai meu Deus — exclamou Leonora com uma ruga de preocupação exagerada no rosto — O que aconteceu com o seu cabelo?
Anya pôs a mão na cabeça involuntariamente. Ela tinha saído com pressa de casa, e ainda teve que fazer uma longa jornada para o cemitério, e por dentro dele, com o vento batendo em seu rosto com força e embaraçando seu cabelo. E ela também não tinha tido tempo de se arrumar.
Saí atrasada de casa.
Isso é algum tipo de brincadeira? — perguntou a outra ainda com um tom exagerado — Regra número um: você nunca está atrasada demais para que não consiga arrumar o cabelo.
Você já está começando a delirar.
Delirar? Quem não perderia a cabeça vendo um cabelo desse jeito?
Meu Deus, com você falando assim parece que eu raspei a cabeça.
Nem me fale de uma coisa dessas, se algum dia você ousar ao menos pensar em cortar seu cabelo... eu juro que te mato.
Não duvido disso.
Leonora arrumou o cabelo e sorriu, como se estivesse satisfeita, e depois entrelaçou seu braço no de Anya e começou a guiá-la na direção do carro da amiga, como se não houvesse acabado de dar um chilique há um minuto.
Anya sorriu. Toda vez que estava perto de Leonora ou de Donna, ela sentia como se seus sorrisos fossem mesmo verdadeiros. Leonora era apenas alguns centímetros mais baixa do que Anya, mas seus saltos altos sempre compensavam isso. Seu cabelo loiro rodeava sua cabeça como uma coroa dourada, sendo encaracolado e indo até a altura de seu queixo, deixando seu rosto mais magro. Ela usava óculos grandes e redondos com armações finas e douradas e que aumentavam o tamanho de seus lindos olhos castanhos, e seu sorriso era o mais contagiante que Anya conhecia.
As duas se conheciam desde pequenas, por causa de seus pais que também eram grandes amigos, e cresceram praticamente juntas. Anya se lembrava de quando as duas faziam grandes festas de chá com suas bonecas e todas as garotas da escola, onde todo mundo se vestia e se sentia como uma princesa por um dia. Ela era realmente feliz naquela época, tão ingênua e segura de si para uma garota de apenas dez anos de idade.
Ela ainda se perguntava quando tudo aquilo havia mudado, se perguntava o porque de tudo aquilo que havia acontecido, se perguntava porque tudo tinha acontecido com ela. Entre bilhões de pessoas que viviam naquele planeta, porque as Almas haviam escolhido justamente Anya? O que ela tinha de diferente de todo o resto da humanidade? O que uma garotinha de dez anos poderia ter feito de tão ruim para ser obrigada a viver a vida que ela vivia agora?
As garotas chegaram no carro e Anya começou a dirigir de volta para casa. Olhando para a Universidade pelo retrovisor, a tristeza só aumentava. Ela estudava Arquelogia na aclamada Universidade de Londres, mas sabia que tudo aquilo não passava de uma fachada. Quer dizer, como alguém como ela, que havia feito e vistos tantas coisas, poderia viver uma vida normal e exercer sua profissão? O choque daquela realidade ainda a assustava.
Ela balançou a cabeça para espantar os pensamentos e voltou sua concentração para a estrada. Ela percebeu então, tarde demais, que Leonora continuava falando, e de algum modo, uma das palavras que a amiga pronunciou chamou sua atenção. Não uma palavra exatamente, mas um nome.
Charles? — repetiu Anya sem entender o resto da frase da amiga que falava sobre mais alguma festa — O que tem ele?
Você não estava me ouvindo esse tempo todo? — perguntou — Eu estava falando sobre a festa de aniversário dele. É na sexta.
Sexta-feira? — repetiu ela assustada — Impossível, eu me lembro muito bem da festa do mês passado.
Alô, acorda garota, aquela foi a festa do mês de Março, o aniversário dele é em Abril.
Anya praguejou baixinho e saiu do carro com raiva quando chegou finalmente nos jardins da entrada de sua casa. Odiava Charles mais do que tudo, e principalmente, porque sabia que não se veria longe dele tão cedo. Já que, querendo ou não, acabaria se casando com ele de qualquer jeito.
Ela se lembrava pouco da sua vida antes de ter conhecido as Almas, mas se lembrava muito bem de Charles. Ele era quando criança um garoto rechonchudo e irritante, que vivia no pé dela o tempo todo, e de algum modo estranho, os pais da garota o adoravam. Mas Anya sabia que não havia nada de estranho em Rick e Cassandra, seus pais, amarem o garoto, já que ele, apesar das aparências, era rico. E para aqueles dois, era isso que realmente importava.
Como os pais dela esperavam que ela se cassasse com ele, ela não sabia. Mas os dois juravam até a morte que isso aconteceria. Anya sorriu para o ar enquanto abria a porta e entrava em casa com Leonora no seu encalço, eles morreriam jurando isso então.
Ela gritou para Donna dizendo que estava em casa e logo ouviu os latidos de Rory vindo correndo pelo corredor para receber sua dona. Anya sorriu enquanto via o grande Labrador Retriever preto correndo ao seu encontro e sentando na sua frente com o rabo abanando no ar. Ela passou a mão em sua cabeça apressada e começou a subir as escadas, com pressa, sem saber exatamente porque.
Leonora a seguia de perto, assim como Rory, que continuava abanando o rabo, ainda gesticulando sobre os detalhes de alguma festa cuja existência Anya desconhecia, e parecia entretida na explicação, sem perceber que a amiga não lhe dava muita atenção.
Anya chegou ao seu quarto e jogou sua bolsa no chão perto de sua bancada antes de andar até sua cama e se jogar em cima dela, sentindo mais um vez o cansaço se apoderar dela. Mas sua paz não durou muito tempo, já que Leonora logo chegou no quarto também e se jogou na cama de casal ao lado de Anya como estivesse em casa.
E então — ela disse depois de uma pausa para respirar entre suas falas — Já decidiu com que roupa nós vamos?
Com que roupa vamos aonde? — perguntou Anya com a voz abafada pelo travesseiro onde sua cabeça se encontrava enterrada.
Na sua festa, obviamente.
Minha festa? — questionou ela com a testa franzida, levantando a cabeça do travesseiro.
Sim — concordou a outra revirando os olhos, como se fosse óbvio — A festa que você vai dar hoje à noite.
Vou dar uma festa hoje à noite?
É claro — Leonora deu palminhas no ar, animada — Hoje é Segunda-feira, lembra? Sempre damos festas nas Segundas-feiras.
Pensei que essa semana seria na sua casa.
Meu Deus, garota, em que mundo você vive? Minha casa foi na semana retrasada, e a da Alicia foi semana passada.
Anya resmungou baixinho e tornou a enterrar sua cabeça no travesseiro.
Ótimo. Mas você arruma as coisas então, eu preciso dormir.
Ah, é verdade — exclamou Leonora como se tivesse se lembrado de algo — Aonde você foi ontem à noite, a propósito?
Paris.
Pensei que você não gostava dos desfiles da sua mãe.
A mãe de Anya, Cassandra, era uma estilista famosa, e passava a maior parte de seu tempo na França fazendo milhares de desfiles de moda.
E não gosto — ela agradeceu mentalmente por estar com a cabeça coberta pelo travesseiro, assim ninguém poderia ver como suas pupilas haviam se dilatado — Mas sei lá, me deu vontade de ir.
E como foi? — perguntou Leonora com o tom animado outra vez — Glamouroso? Você sabe como eu amo as roupas que a sua mãe desenha. Tia Cassie é o ser humano mais maravilhoso desse mundo.
Você definitivamente precisa conhecer mais gente.
Talvez — ela deu de ombros — Isso não importa, temos que organizar muitas coisas ainda e... — ela parou do nada — Ah meu Deus — exclamou — Nem preparamos a lista de convidados ainda!
Eu já disse. Você arruma tudo, estou cansada demais para pensar em ver a cara de outros seres humanos.
Esse é o espírito.
Mas Leonora não discutiu. Como ela realmente não sabia onde a amiga estava na noite anterior — e principalmente não sabia o que ela estava fazendo -, ela faria tudo por Anya com imenso prazer. Leonora gostava de organizar esse tipo de festa, onde as pessoas eram convidadas na última hora e os preparativos eram feitos às pressas, então Anya nunca via esses eventos semanais como um problema. Era um tradição de seus amigos fazerem as festas mais famosas e concorridas de toda Londres, e ainda tinha a competição para ver quem era o melhor anfitrião. Antigamente, talvez, Anya adorasse preparar e estar em umas dessas festas, mas agora, quando sabia que poderia matar qualquer um que aparecesse na sua frente tão fácil quanto cortar as unhas, ela não via muita questão em prepará-las.
Anya suspirou, se encolhendo mais para dentro da sua cama mesmo sem trocar de roupa, e fechou os olhos, já sentindo todo o cansaço do dia anterior pesando sobre suas pálpebras. Mas assim como antes, sua paz não durou nem um minuto.
Ela sentiu algo vibrando no bolso traseiro de sua calça jeans e quase gritou de frustração. Ela havia recebido uma mensagem de texto. Anya procurou seu celular por meio do edredom em sua volta, e quando finalmente encontrou o aparelho, direcionou a luz para seus olhos, para conseguir ler o remetente.
Ela destravou o celular e abriu a mensagem, já sentindo a raiva fluir em seu rosto como uma praga. A mensagem era curta, mas o que realmente a irritou foi o autor dela:
Estou no cemitério. Me encontre lá. Benjamin me convocou.
Felicity.
Dentre todas as equipes de reforços que as Almas lideravam, Benjamin escolheu exatamente a que Anya mais desprezava. Felicity era a líder do grupo, a garota odiava Anya tanto quanto ela a odiava. A razão de tanto ódio ela desconhecia, mas que o sentimento era recíproco era claro.
Anya se levantou praticamente se arrastando e foi na direção de seu closet. Leonora estava sentada na bancada, e concentrada demais observando os contatos de seu telefone para perceber qualquer movimento que a amiga fizesse. Anya se trocou rapidamente colocando a roupa que ela geralmente utilizava para correr ou para se exercitar: um top, uma legging e um moletom com capuz. Ela prendeu seu grande e liso cabelo negro em um rabo, e já estava preparada para sair do quarto quando Leonora levantou a cabeça, a avistou, e chamou seu nome:
Onde diabos você está indo?
Vou correr.
Pensei que você estava cansada.
E estou, mas se eu dormir agora, não vou conseguir acordar a tempo para a festa. Então acho melhor fazer algo para me manter acordada.
Se algum estranho me ligar do seu celular dizendo que encontrou você deitada na rua dormindo, eu juro que finjo que é engano.
Você é a melhor amiga desse mundo.
Eu sei — ela respondeu com orgulho, exibindo um de seus sorrisos contagiosos. Anya revirou os olhos e saiu do quarto.
Ela se despediu de Donna uma vez, que deu uma resposta vaga já que estava concentrada demais assistindo a sua novela preferida, e saiu de casa. Rory a acompanhava enquanto ela corria, como geralmente ele fazia, e isso a fez se sentir bem. Ela gostava de ter sua companhia mesmo sabendo que ele não passava de um cachorro. Aquela era umas das raras ocasiões em que ela se sentia amada.
Eles continuaram correndo, alternando entre uma corrida e uma caminhada. Highgate estava mais calma aquela hora, com seus poucos visitantes e moradores andando na rua apenas para ir ao mercado. O céu estava fechado, nuvens densas cobriam o céu fazendo tudo ficar mais escuro. Logo choveria e a corrida se tornaria mais complicada, e logo ela teria que se separar de Rory, nunca gostava que ele entrasse no cemitério.
Era só pensar nele que ele aparecia. O St. James, ou Highgate Cemetery, se estendendo com seus muros altos e antigos no meio do nada, abalando àqueles que não estavam acostumados com a vista. Ela respirou fundo como sempre antes de mandar Rory para casa — que obedeceu meio relutante como sempre -, fazer um sinal com a cabeça na direção de Gwaine, e passar pelos portões.
Ela pôs as mãos nos bolsos e seguiu lentamente pelos corredores de tumbas. O dia já se tornava noite, e aquele lugar não ficava nada mais atrativo na luz da lua. Sombras escuras se espalhavam pelo chão, e algumas projeções de galhos de árvores se mexiam por causa do vento. Anya já estava acostumada a ser mais cautelosa ali, como se a qualquer momento pudesse ser atacada, e qualquer movimento no canto dos olhos já chamava sua atenção.
Quando finalmente chegou ao sepulcro que procurava, tirou as mãos dos bolsos e empurrou a cortina de hera que escondia a porta para que conseguisse passar. Ela caminhou rapidamente no escuro onde a tumba de um guerreiro já há muito vencido se encontrava, e empurrou a parede falsa do fundo para se ver em outro jardim cheio de sepulturas. As Almas caminhavam pelo pequeno jardim como sempre faziam, desinteressadas, e ás vezes parecendo meio perdidas, como se não se lembrassem o porque de estarem ali; e o brilho fraco da imagem ficava um pouco mais forte na luz da noite. E uma figura se destacava em meio as outras.
Havia uma garota com a pele escura e cabelos crespos e volumosos sentadas em uma das lápides, ela estava de frente para Vincent e de costas para a nova forasteira, e parecia interessada na conversa em que se encontrava. A outras Almas continuavam rondando o local como se a garota não estivesse realmente ali. Mas pelo o que Anya sabia, era a garota que não percebia a presença das Almas.
Ela se aproximou de Felicity e Vincent e ouviu apenas fragmentos de sua conversa antes que eles notassem sua presença.
... não sei. Ele não me disse nada, parece que já faz muito tempo que está perdido — dizia Vincent.
Então como eles esperam que aquela garota estúpida e incapaz encontre algo que ela nem sabe o que é?
Vincent abriu a boca para responder, mas a fechou logo que percebeu Anya se aproximando.
Anya — disse ele — Você veio rápido.
Ela deu de ombros.
Não tinha nada para fazer mesmo.
Felicity se virou para ela e logo fixou aqueles grandes olhos arrogantes nela. Sua boca se contorcia em uma linha reta, de tão óbvio que era seu desprezo, e não parecia nada feliz com a presença da nova garota que chegara.
Anya — saudou ela rispidamente — Quanto tempo, querida.
É — concordou ela com um sorriso falso — Você andou fazendo dieta? Parece que está mais magra.
Impressão sua — respondeu a outra com um sorriso na mesma intensidade.
É, realmente, minha visão vive me enganando.
Garotas! — Vincent chamou a atenção das duas — Por favor, vocês não vieram aqui para brigar.
Então para que nós viemos? — perguntou Anya sarcasticamente — Para pintar a unha uma da outra?
Felicity revirou os olhos. Vincent a ignorou.
Vocês vieram para combinar os detalhes da missão.
As duas se calaram meio relutantes, assumindo um tom profissional e escutando suas ordens. E por mais de uma hora eles ficaram assim, discutindo, debatendo e argumentando sobre como chegariam a encontrar o livro cujo título desconheciam. Anya não estava muito interessada na conversa, passando a maior parte do tempo apenas concordando ou discordando caso Felicity falasse alguma coisa que não a agradasse, já que ela sabia que não importava quanto planejassem, as coisas sempre aconteceriam de outra maneia.
Isso sempre acabava acontecendo de uma forma ou de outra. Era como se o destino se divertisse pessoalmente com a desgraça de Anya. Talvez ela fosse a única que realmente não achava sua vida engraçada. A noite foi passando, e cada vez mais Anya desejava poder voltar para casa e se jogar na sua cama.
Finalmente, Vincent decidiu que eles já tinham discutido o suficiente, e garantiu-lhes que tudo ocorreria como planejado — Anya teve que rir nessa parte, mesmo recebendo um olhar de reprovação dele e um de desprezo de Felicity -, e permitiu que elas fossem embora. Mesmo se odiando, e tendo um desejo insano de enfiar uma bala de cobre no cérebro da outra, elas concordaram em seguir juntas o caminho de volta. E foi aí que Felicity tornou a falar.
Você não estava prestando muita atenção na conversa.
Não gosto muito do som da sua voz. Você poderia dar uma checada nisso.
Felicity parou e se virou para ela, irritada.
Ai está a Anya que eu conheço: sempre agindo e pensando como se fosse melhor do que todo mundo.
E você por algum caso age diferente? Nunca notei.
Eu posso até agir assim, mas diferentemente de você, não fico me gabando por ai — cuspiu ela de volta.
Me gabando por ai? — repetiu Anya — E posso saber sobre o que eu fico me gabando?
Sobre as Almas, quem sabe.
As Almas?
Você acha que é melhor do que nós só porque pode falar diretamente com eles — Anya abriu a boca para debater, mas Felicity a cortou — Não adianta, Anya. Não adianta ficar pensando que eles são seus amiguinhos, porque eles não são. Na primeira oportunidade eles vão te jogar fora, assim como fazem com todo mundo. Você não é diferente de ninguém.
Você deve ser a única pessoa louca o suficiente para acreditar que entrar em contato direto com eles é alguma coisa boa.
Você acha que nós gostamos disso? — riu ela com desprezo. Anya conseguia ver um brilho negro em seus olhos, mais profundo que a cor natural deles — Ninguém nunca teve escolha. Ou você obedece, ou você obedece. Não existe terceira opção. Nós apenas vivemos com isso.
E você supõe que eu tive escolha? Que eu pedi por tudo isso?
Sabe o que eu acho? — começou ela, olhando para o chão como se tivesse perdido alguma coisa ali — Eu acho que nós apenas dizemos que não temos escolha da boca pra fora. Pra parecer que não somos tão ruins quanto realmente somos. Eles sempre nos deram escolhas, nós apenas sempre escolhemos errado — Anya não disse nada — Mas de um jeito estranho, nós ao mesmo tempo não temos escolha, porque nos vemos obrigados a servi-los de bom grado. Eles são os mais próximos de deuses que nós, seres humanos, conhecemos.
Ainda bem que eu nunca acreditei em Deus.
Eu começaria a acreditar então, se eu fosse você.
E por que isso?
Porque eles são tudo que nos resta.
Fale com o autor