Fire and Rage

2 II - Pull the Trigger


Notas iniciais
"É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tenho que falar não só exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo." - Clarice Lispector, "Perto do Coração Selvagem".

Era uma noite fria, aquela. As árvores chiavam ao longe quando o vento ousava castigar seus galhos, fazendo suas folhas secas voarem pelo ar. As folhas caiam em perfeita harmonia, apesar dos ataques do vento, e descansavam no solo asfaltado de uma peculiar viela de Paris.

Ainda havia resquícios da neve nos cantos dos muros, se aglomerando no chão como a falha de um desenho, espalhando um tom de vazio pelo ar. As folhas que caiam das árvores ainda eram obrigadas a voarem uma certa distância antes de finalmente poderem descansar no chão frio da noite e morrem em paz. E foi em uma dessas folhas, que vinha sendo arrastada pelo vento até aquele certo ponto, que uma garota esbarrou.

A folha grudara em seu joelho, por cima de sua meia-calça que era fina apesar do frio e que cobria suas pernas até a altura do joelho, e ficou lá até que o vento a levasse para longe novamente. A menina estava muito distraída para prestar atenção numa simples e insignificante folha que grudara em sua perna, e muito menos para o frio que rondava seu corpo.

Um ruído agitado provinha de seus fones de ouvidos, e ela parecia entretida com a música, sem prestar muita atenção no caminho que andava, como se já o conhecesse a longa data. A garota usava óculos escuros arredondados e grandes para seu rosto ainda jovem mesmo já tendo anoitecido, e usava uma saia justa e curta apesar do frio. Sua blusa estampada era larga e comprida, deixando apenas uma fresta de sua saia rendada à mostra, e usava um sobretudo de lã bege que ia até a barra de sua saia. Seu cabelo preto encaracolado estava solto e agitado no ar, e ao mesmo tempo contido por um gorro preto que quase desaparecia na cabeleira negra.

Ela finalmente virou à esquerda para a Rue des Écluses Saint-Martin e avistou a ponte sobre o canal. Um ou outro inquilino olhou para a garota de relance, e logo desviavam o olhar quando observavam-a com mais cuidado, e percebiam uma áurea estranha cobrindo seu ser. A garota continuou seu caminho, atravessando a ponte e se direcionando para outra viela escura.

O chão ali era mais sujo, e um leve cheiro de tabaco impregnava no ar. Havia uma poça de água que escorria em seu caminho, como se a seguisse de perto, e que emanava um cheiro de podridão. Cheiro de esgoto, pensou a garota. Uma casa térrea se estendia no final da rua estreita, tão solitária que passava despercebida pelos turistas que geralmente rondavam pelo local. Suas paredes já estavam gastas e desbotadas, as gárgulas que protegiam a entrada estavam disformes e o portão de ferro gasto e tombado para um lado. A garota parou de frente à casa e suspirou. No mesmo instante ela sentiu uma leve pontada na região de seu antebraço esquerdo, onde a manga comprida de seu casaco escondia uma faixa preta mal colocada. Ela retirou a faixa e observou as novas inscrições.

Entre na casa.

Ela já estava acostumada com ordens como aquela, que apareciam em seu braço como se tivessem sido transcritas com uma faca, deixando cicatrizes horríveis na região interior de seu braço, entre seu cotovelo e pulso. Na primeira vez que aquilo tinha acontecido, ela se surpreendera e chorara por causa da dor. Era tão ingênua.

A garota entrou na casa sem ser convidada e fechou a porta atrás de si. O cômodo em que se encontrava estava escuro, e ela foi obrigada e retirar os fones de ouvido e os próprios óculos escuros para tatear as paredes até chegar ao interruptor e um jorro de luz quase a cegar. Ela suspirou irritada e observou o recinto.

Aquela era uma das casas mais antigas que visitava, e ela já havia guardado na memória cada canto; do papel de parede antigo e gasto para o carpete mofado e quebradiço. Ela não conseguia imaginar como alguém poderia viver naquela sujeira, mas Hal não era como um sujeito qualquer.

No momento que ela pensara no nome do homem, ela o encontrou sentado em seu lugar de sempre, em uma poltrona tão gasta quanto o resto da casa, moribundo e com uma coberta cobrindo sua parte inferior da visão alheia. O homem, apesar de seu estado fatal, sorriu.

– Anya — disse ele. A voz cansada entrecortada e fraca, tão baixa que ela teve que se aproximar para ouvi-lo — Eu vejo que veio cobrar a dívida — ele fez uma pausa — Como sempre.

– Ah, Hal, querido — ela puxou uma outra poltrona velha para perto do homem e se sentou lá como se fosse a dona da casa, folgada e relaxada, um sorriso frio estampado no rosto — Também senti sua falta.

Ele começou a tossir e a se dobrar para a frente, mas Anya nem ao menos se mexeu para ajudá-lo. E só quando seu ataque de tosse parou, foi que ele fungou e continuou:

– O quê eles querem dessa vez? — mesmo sua voz soando fraca, ela conseguiu sentir sua raiva cortando o ar — Já não dei tudo o que podia e não podia dar?

– Oh, sim — ela fez uma menção com a cabeça para as partes do corpo que ele insistia em esconder — Já deu tudo sim, posso lhe garantir isso. Mas agora eles não querem nada que lhe causará tanta dor. Eles querem sua ajuda.

Hal estreitou os olhos que quase sumiam nas rugas de seu rosto.

– Eles querem minha ajuda? — repetiu ele.

– Sim — concordou ela, se apoiando para a frente e exibindo outro sorriso — Eles querem uma informação.

Ele fez um barulho num misto de indignação e incredulidade.

– Eu sabia que isso não iria acabar bem assim que te vi cruzar a entrada.

– Por favor, Hal — pediu ela jogando a cabeça para trás — Você já perdeu tanto por causa deles! A sua família, a sua vida, seu corpo, você não tem mais nada a perder. Uma pequena informação não vai te custar nada.

– Eu ouço as pessoas, sabe — começou ele ignorando a menina — Apesar de tudo, eu continuo ouvindo as pessoas. Eu ouço o que elas dizem e eu sei sobre o que elas estão falando. Assim como também sei o que eles querem saber — ele lançou um olhar na direção da menina e, por um momento, ela quase atravessou a barreira que montara contra seus sentimento, e sentiu pena dele. Quase — E depois de tudo o que dei, depois de tudo que sofri, depois de tudo, eu não posso dar essa informação.

Anya o encarou. Encarou aquele corpo quase morto e se lembrou de todas as vezes que viera aquela casa, se lembrou da primeira vez que encontrou Hal e do que tinha levado consigo. Na maior parte do tempo, ela tentava esquecer esse tipo de coisa, tentava esquecer o que era obrigada a fazer, mas toda vez que fechava os olhos ela ainda conseguia ver o horror do sangue escorrendo de corpos mortos e os gritos que ecoavam em sua mente, e nunca cessavam. Ela deixou as lembranças de lado de sorriu.

– Sabe, Hal — começou ela — Desde a primeira vez que eu vim aqui, eu tive apenas uma certeza sobre você — ele não disse nada, então ela continuou — Você daria qualquer coisa pela sua própria vida, para ficar vivo. E depois das milhares de dívidas que eu vim cobrando ao longo dos tempos, eu vi que estava certa — ela se levantou e deu a volta na poltrona, ficando atrás desta e de frente para Hal — E, por incrível que pareça, eu te admiro. Admiro essa sua luta incansável pela própria vida, esse seu jeito de agarrá-la como uma praga, de fazer tudo ao seu alcance para não perdê-la de vista. Eu adoraria estar no seu lugar, adoraria ter a chance de poder amar a minha própria vida. E eu te admiro não só pelo fato de você poder controlar a sua vida, mas por você poder escolher se quer fazer isso ou não — ele agora não mais a encarava, e fitava o chão com os olhos vidrados. Anya suspirou — E eu sei, Hal, que você sempre vai escolher continuar vivo.

Silêncio. Então:

– O quê eles querem saber?

– Eu pensei que você já sabia.

– Eu sei — admitiu ele — Mas quero ouvir da sua boca.

– E por que isso?

– Apenas diga.

Anya se jogou no sofá novamente e apoiou os cotovelos nos braços da poltrona.

– Eles me falaram sobre um livro — começou ela — Não me disseram o nome mas falaram que você saberia qual é — como ele não contestou ela continuou — Eles querem saber onde está.

– E por que querem saber disso agora?

Anya deu de ombros.

– Eu nem ao menos sei de qual livro estamos falando, porque acha que eu saberia responder esta pergunta?

Hal levantou o olhar para ela, e mesmo não conseguindo se mexer muito, parecia a estar estudando.

– Você sabe porque eles querem esse livro? — ela não disse nada — Por causa de você.

Ela piscou mas sua expressão continuava ilegível.

– Agora é a hora que eu pergunto o porque e você desvia do assunto?

Hal sorriu. Seu sorriso uma mistura de prazer e desprezo.

– Você nunca se perguntou por que você é diferente dos outros? — ele virou a cabeça para o lado como se estivesse curioso — Por que eles te tratam como se fosse diferente de nós, os endividados? Você deve a eles tanto quanto nós e mesmo assim é a que menos sofre.

Anya retirou uma pistola da parte de dentro de seu casaco e pulou no pescoço do homem tão rápido que ele não teve tempo nem de se assustar. Agora o cano da arma estava apontado para sua testa.

– A que menos sofre? — repetiu ela com nojo — Você não tem ideia de quem eu sou, ou pelo o que eu sou obrigada a passar. Então na próxima vez que se achar no direito de dizer que sou afortunada, por favor, revise seus conceitos.

Para a surpresa da garota, Hal apenas riu.

– Eu não te conheço? — perguntou ele entre gargalhadas cortadas — Eu sei muito bem quem você é, e é por isso que estou tão relutante em te dar a informação que deseja. Porque querendo ou não, minha querida Anya, agora você é um deles.

– Você está delirando.

– Delirando? — repetiu ele — Acha mesmo que seus mestres pediriam que viesse até aqui se eu estivesse delirando? Acredite em mim, criança, eu sou o único aqui que está do teu lado.

– Do meu lado?

– Sim — concordou ele — Quando a história for contada, você estará perdida, e não poderá confiar em ninguém — ele se aproximou dela, desencostando as costas da poltrona, fazendo-a arregalar os olhos com as sobrancelhas franzidas — Ele está te testando. Isso tudo não passa de um jogo, um entretenimento.

– Entretenimento? — repetiu ela sentindo a mão que segurava a arma tremer em sua mão pela primeira vez na vida — Quem é ele? Do que diabos você está falando?

Hal voltou a se encostar na cadeira, assumindo uma expressão séria.

– O manuscrito está no antigo Palazzo Pretorio, na Biblioteca Città di Arezzo, Itália.

Anya piscou. Então recolheu sua arma e se levantou. Ela já estava com a mão na maçaneta quando Hal a chamou uma última vez:

– Você disse que me admirava porque eu tinha a chance de escolher se queria viver ou não — começou ele — Mas você também tem essa chance. Todo ser humano tem. Eles são monstros, Anya, você não pode deixá-los controlá-la, você é mais poderosa do que pensa.

Ela não tinha se virado quando ouvira o próprio nome, então estava de costas para ele quando respondeu:

– Eles não são os monstros. Eu sou — ela finalmente se virou para encará-lo e ergueu sua arma — E eu estava errada, você não pode escolher se vive ou não. Eu posso.

Então ela puxou o gatilho.