Notas iniciais
"Diante da ave feia e escura, Naquela rígida postura, Com o gesto severo - o triste pensamento Sorriu-me ali por um momento, E eu disse: 'Ó tu que das noturnas plagas Vens, embora a cabeça nua tragas, Sem topete, não és ave medrosa, Dize os teus nomes senhoriais: Como te chamas tu na grande noite umbrosa?' E o Corvo disse: 'Nunca mais.'" - Edgar Allan Poe, "O Corvo"

França, 1453

O sino soava ao longe, e a Cidade Baixa parecia desvanecer com gritos que repercurtiam de todas as direções. Todos, assim como os guardas, estavam tão ocupados correndo de um lado para o outro, sem realmente reparar nas pessoas em que esbarravam, que um vulto escondido nas sombras foi obrigado a exibir um sorriso. Tão fácil.

Ele passou despercebido pela multidão, envolto em uma capa comprida que o cobria dos pés a cabeça. Era uma figura singular, aquela. Suas costas eram levemente curvadas para à frente, num vestígio claro de desleixo; o capuz, que não cobria todo seu rosto, deixava visível seu sorriso vitorioso, mostrava uma barba por fazer e um semblante impiedoso. Uma figura singular devido ao leve toque desumano que cobria seu ser.

O vulto se dirigiu para uma das entradas do castelo, como um monstro seguindo seu caminho sem se importar com as vítimas que deixava para trás. Um rastro que não chegava nem a preocupá-lo.

O castelo estava vazio, pelo menos de almas vivas, já que o soalho estava manchado de um líquido escarlate que escorria de corpos mortos e mutilados, irreconhecíveis até mesmo a algum parente das vítimas. Ele passou por cima dos corpos como um soldado faria no campo de batalha, desprezando os que não foram fortes o suficiente para sobreviver. Ele continuou como um Deus se livrando dos que ousavam cruzar seu caminho, até chegar ao pé da escadaria e se direcionar ao segundo patamar.

Quase todos os muros ardiam com respingos de sangue no corredor. Enrubescendo o mármore de esculturas de Reis e Rainhas já há muito perdidos, dando um tom de vida à pedra calcária.

O vulto continuou entre tochas que crepitavam em seu caminho, as sombras das chamas dançando em seu rosto meio encoberto. Ele chegou em seu destino e parou.

Estava de frente a uma porta de madeira, a única coisa entre ele e seu desígnio. Então deu um passo à frente e entrou no quarto.

Como esperado, este estava vazio, seus capangas já haviam feito todo o trabalho sujo e se livrado dos guardas que protegiam a menina. Ele se aproximou do único traste que restava, um berço de uma criança, com seu facão já em punhos.

Ele percebeu indiferente que sua vítima não passava de um bebê. Uma menininha recém-nascida, mas que lhe resultaria em uma boa grana. Ele levantou a adaga antes que a misericórdia infringisse ordens que ele recebe claramente há uma semana, e desferiu o golpe.

A criança havia aberto seus olhinhos segundos antes da lâmina tomar-lhe a vida, então agora seu assassino se deparava com aqueles grandes olhos mortos que o fitavam como se ainda fossem vivos.

Ele limpou sua faca no tecido de sua capa escura e se virou para ir embora. Mas agora ele e o corpo morto do bebê não eram os únicos presentes na sala.

– Você chegou atrasado, Sicário — disse o garoto que se encontrava com as costas apoiadas na madeira velha da entrada.

– Receio que você que se atrasou — ele respondeu ainda indiferente — Minha vítima se encontra logo ali, caso queira checar.

O Patrono sorriu. Um sorriso que quase fez um Sicário experiente como ele perder a calma.

– Tem certeza? — perguntou o garoto — Porque pelo o que me lembro, cheguei aqui há alguns minutos e salvei a alma de uma criança.

Apesar da expressão do Sicário se manter serena, seus olhos ardiam de raiva. Uma raiva que teria feito qualquer um ajoelhar-se aos seus pés rogando-lhe perdão. Mas aquele Patrono não era como os outros.

– Não importa quanto tempo leve — proclamou ele aceitando a derrota mas não a deixando transparecer na voz — Eu o encontrarei novamente. Você e sua alma roubada. E concluirei meu trabalho.

– Eu, na verdade, estarei esperando por isso — admitiu o Patrono — Ou melhor, esperando por você.

Então seu corpo começou a resplandecer em chamas, queimando até transformar-se em pó e fundir-se ao ar.