Dylan estava caminhando para longe de casa. Estava mais calmo, e pensou em dar meia volta e entrar novamente na casa dos seus tios. A mágoa não havia deixado seu coração, e nem deixaria, é lá que ela passaria a morar a partir daquele dia. Por um momento, pensou em dar meia volta e entrar novamente na casa dos tios. Afinal, apesar de tudo, ele ainda era um jovem de 19 anos. E ele ainda tinha vontade de chorar, o desejo dele não era só voltar atrás somente momentos atrás, mas sim voltar anos no passado, para a época que ele ainda tinha sua mãe ao lado. Na mente do rapaz, aquilo tudo era como um pesadelo. E isso ecoou na mente dele junto ao resto dos sentimentos e lembranças.

Só que a partir daquele dia, dentro dele também ardia a forte vontade de recuperar sua honra, a vontade de ter sua vingança, a vontade de uma vida nova. Ele sabia que aquela era um caminho difícil que não teria mais volta. Então Dylan não parou de caminhar, ele havia tomado sua decisão. Prometeu para si mesmo que iria honrar o caminho que escolheu para si e jamais tentaria correr disso. Naquele momento sumia o que havia restado de sua criança interna, pois ele preferia a morte do que deixar de ir até o fim.

O sol batia no rosto dele. Em sua frente tinha todo um mundão, pessoas andando, e ele nem sabia por onde começar direito. Ele era tão jovem, aquilo tudo ainda deixava ele um pouco confuso. O homem que ele procurava ficava em uma área considerada nada recomendável, a famosa Floresta Melrir, que ficava fora da cidade de Mihard.

— Eu vou ter que passar pela muralha, é óbvio. — pensou.

Algumas garotas olhavam para ele enquanto ele andava, e ele seguia o caminho, retribuindo sutilmente os olhares das que ele reconhecia alguma beleza. Ele caminhava em direção à muralha, só que não era tão fácil, e o calor não colaborava muito. Como estava passando em frente a uma biblioteca, Dylan pensou em passar na mesma para pedir algumas informações sobre a Floresta e resolveu entrar.



Entrando lá — bem cuidadosamente — percebeu em sua frente um homem com um óculos, um manto preto e uma barba cheia até o peito. Tal homem já estava o encarando fixamente. Dylan andou calado até chegar perto do barbudo, e suspirou como quem estivesse cansado do tanto que andou.

— Um rapaz tão novo do centro não devia estar andando em direção à muralha. — afirmou o homem.

— Um bibliotecário não devia estar me dando palpites. — respondeu Dylan.

O homem riu e virou um pouco a caneca bebendo uma bebida alcoólica que Dylan não conhecia.

— Você está querendo se matar, ou estou apenas ficando velho? — perguntou o homem.

— Perdi tudo que eu tinha. Se vai tirar minha vida, saiba pois que esta já não mais faz sentido. Só estará impedindo que a vida de uma pessoa seja vingada. Uma que não merecia o que fizeram com ela. — respondeu Dylan.

— Oh, você está querendo matar então. — comentou o homem em tom irônico.

— ... — Dylan ficou em silêncio.

— Okay, e eu com isso? Quer jogar livros na cabeça dos seus inimigos? — perguntou o homem.

— Muito engraçado. Preciso apenas que me fale mais sobre a Floresta Melrir, eu estou a procura do senhor das encruzilhadas e não sei em qual parte procurar. — respondeu Dylan.

— Sabe, jovem. As coisas não funcionam assim. Ninguém sabe sequer se o senhor das encruzilhadas está vivo, ou existe de fato. Mas reza a lenda que se você quer achar alguém tão sábio e capaz ensinar até os cegos a se guiar pela noite da escuridão eterna... você primeiramente deve ser capaz de tomar bem decisões na sua vida. Do contrário, não adianta ele te guiar para um caminho sabendo que você poderá voltar atrás nele ou se acomodar pensando que pode depender ou se prender à ajuda dos outros para conseguir caminhar. — explicou o homem, se escorando na mesa e chegando mais perto de Dylan.

— Estou há alguns minutos contigo e já percebi que o que você tem de vontade, lhe falta de fé na própria vida e no que te restou. De toda forma, a lenda também diz que o senhor das encruzilhadas só vem quando alguém está sendo muito prejudicado de alguma forma por coisas externas. É algo extremamente raro. Mas quem sabe ele não reconhece seus esforços? Você se manter vivo já seria um milagre.

— Eu fui treinado pelas forças reais especiais. — diz Dylan, mostrando seus braceletes.

— É mesmo? — responde o homem, mostrando SEUS braceletes. Eram 10 serpentes no total, e na cultura do exército real, cada serpente representa um general inimigo morto.

Dylan ficou paralisado e surpreso, pois não esperava que o barbudo tivesse sido das forças reais. Afinal, era só um bibliotecário.

— Olhe, garoto. É uma incógnita, me entende? Estamos sem informações da Floresta Melrir há 280 anos. As poucas pessoas que suspeitamos que entram lá, só conseguem sair se não tiverem intenções falar ou informar nada sobre o que viu. Todos cruzados que mandamos para lá, nunca mais voltaram. Ninguém sabe o que aconteceu lá. — explicou o homem.

— E o que era lá há 280 anos? — perguntou Dylan.

— Era uma floresta mística, onde viviam grandes aglomerações de Elfos, Goblins e Trolls. Mas a maioria deles não ligavam para a presença dos humanos, não havia muitos relatos de ataques. Mesmo assim, nunca foi uma área segura. O último relatório que chegou a realeza de Astogun foi há 280 anos, e dizia que começaram a roubar pertences de humanos e que os soldados do reino falharam em encontrar plantas de essência mística para produzir poções e voltaram. Nada demais. — respondeu o homem.

— Eu tenho muito a te agradecer. Lhe mandarei lembranças e algo interessante quando tiver atingido meu objetivo. — disse Dylan se virando para ir embora.

Só que quando Dylan se virou, ele tomou o maior susto que já havia tomado em sua vida. Havia uma mulher com aparência de uma bruxa trevosa, com um manto negro e um grande chapéu também. Ela estava com um sorriso malicioso no rosto, com uma mão dentro do seu manto, e a outra mão — bem velha, gelada, enrugada e com unhas grandes — estendendo uma maçã mais do que vermelha na direção de Dylan.

Dylan tentou perguntar o que era aquilo, e ficou ainda mais assustado quando percebeu que não conseguia. Ele não conseguia abrir e nem mexer a boca, quanto mais usar sua voz. Estava literalmente silenciado pela bruxa, e não entendia o porquê. Ele pensou em fugir, mas também não conseguia se mover com intenção de correr. É como se ele estivesse preso à aquela situação. Os olhos da bruxa o encaravam de uma maneira que daria pavor a qualquer guerreiro, mesmo estando dentro da biblioteca de uma cidade segura. O homem da biblioteca apenas olhava sereno para a situação, enquanto apreciava a sua bebida.

Não tinha jeito de fugir ou de entender melhor a situação. A maçã teria de ser pega por Dylan ou então ele deveria ficar lá parado em sinal de que estava a recusando. Era decisão dele.