Notas iniciais
Para os leitores que esperaram uma continuação sobre o Ruki-kun, vão ter que esperar um pouco.
Como ficwritters, não subestimaremos a imaginação de vocês, e pedimos que deixem uma parte de suas consciências desvendarem o que aconteceu.
Até lá, até que o quebra-cabeça esteja completo, fiquem com mais um capítulo de "Filth in the Beauty".
É a sua vez, Kou-chan!
by Humanoid Girl.

Chapter 03: On the Road – Part I

Aos poucos, meus olhos pesam.

Quero DORMIR.

Sair dessa maldita estrada de dor.

E voltar pra VOCÊ.

Fácil e divertida foram palavras que raramente apareceram na infância de Takashima Kouyou. Talvez “humilhação” seja uma boa forma de descrever os horrores que o calaram e fizeram pegar uma estrada viciosa. A estrada faz curvas, mirabolantes e imprevisíveis e ele sabe que a qualquer momento deve deixar de lutar, porque não adianta. Não quando quem importava já partiu.

Não quando Takashima Misato parou de consolá-lo e as trevas o envolveram de forma tão convidativa a ponto de ele esquecer quem era.

- Parem com isso! Não batam nela! – era a primeira vez em que seu heroísmo infantil era posto à prova ao deparar-se com os meninos de sua rua acuando uma menina bem menor e muito mais fraca.

- Me dê um motivo, Kouyou-bobão! – rosnou o líder deles, voltando-se para Kouyou com o punho erguido em desafio.

- Ela é uma garota! – apontou o óbvio, acostumado com o estranho imperialismo que os homens tentavam impor às mulheres. Entendia muito disso. Vira o exemplo em sua própria casa, pois a mãe era constantemente ofendida pelo pai, embora não chegasse a ser alvo de violência. Então se pode compreender a indignação do pequeno com tal cena. Mas nem todos poderiam entender.

- Eu dou conta do recado, baka – e inesperadamente ele recuou, espantado ao ouvir as palavras da agredida, que o olhava com raiva. Disso ele não entendia. Que mulher dispensava um homem disposto a salvá-la?

Desesperou-se, conscientemente decidido.

- Batam em mim, deixem ela em paz! – exclamou para os meninos, calando os protestos da menina, que rapidamente foi largada e escondida pelas pernas em fileira dos agressores de frente para Kouyou.

- Seja feita sua vontade – disse o líder, sorrindo e convidando os asseclas a se espalharem em torno do pequeno para em seguida todos atacarem-no impiedosamente.

A menina assistiu àquela covardia como quem assiste a um tedioso filme. Quando eles deram-se por satisfeitos e foram embora, ela continuou observando um machucado Kouyou, que nunca apanhara tanto na vida, mas que se aproxima dela num arrastar penoso.

- Salvei... sua... vida – murmurou sorrindo, embora o gesto fosse muito esforçado. A menina levantou-se do chão e olhou-o com desprezo.

- Baka, não pedi sua ajuda – e foi embora num andar arrogante, deixando um perplexo Kouyou para trás.

O dia seguinte na escola foi uma experiência cruel para o garoto, pois viu-se exposto nos corredores por seus agressores, que trataram de espalhar fotos dele machucado e espalhar boatos de que ele era fracote e idiota. Como se já não bastassem implicarem com seus lábios cheios, agora as piores alcunhas possíveis lhe eram atiradas pelos colegas de classe e apesar dos professores ralharem com eles por perturbá-lo, assim que viravam as costas, a chacota prosseguia.

- Kouyou, você se machucou? – perguntou o pai, Takashima Miyamoto, na mesa de jantar – Sua mãe disse que andou brigando na rua.

- Eu me machuquei faz uma semana – respondeu Kouyou numa voz fraquinha, afundando na cadeira, meio pasmo com a atenção que o pai quase nunca lhe dirigia.

- Então não perca mais uma briga, não desejo um fraco na família – sentenciou Miyamoto, voltando a jantar normalmente como se nada tivesse acontecido. O menino olhou para a refeição inacabada com desânimo. Sabia que deveria esperar nada mais gentil do que isso do pai. Pensou em pedir ajuda da mãe que estava sentada ao lado, mas achou que provavelmente isso só seria mais um sinal de fraqueza.

Preferiu agüentar tudo e depois ir para o quarto.

- Não precisava falar assim com ele, é apenas uma criança. – Misato repreendeu o marido em voz baixa – Não pode exigir tanto dele.

- Quem disse que não posso? – cortou-a, fechando a cara – Ele é meu filho e eu sei o que tenho que fazer com ele e você não se meta – e jogando um guardanapo com força na mesa, retirou-se bufando – Arrume tudo – acrescentou para a esposa, autoritário.

***

- Kouyou, está acordado? – perguntou Misato do lado de fora do quarto do filho, batendo na porta suavemente. Ela era o completo oposto do marido, graciosa e meiga, extremamente maternal e detestava ver seu menino abatido por causa das grosserias de Miyamoto. Nunca um casal fora mais incompatível e nada os teriam juntado que não o tradicional miai do qual suas famílias foram adeptas.

Com o silêncio do filho ela se sentiu compelida a entrar. Kouyou estava deitado de bruços na cama, um travesseiro cobrindo a cabeça. “É uma criança, afinal de contas”, pensou Misato rindo baixinho ao sentar-se na beira da cama. Ao perceber a presença da mãe, ele imediatamente saiu de seu transe e foi buscar alento em seu colo, abraçando-a com força.

- Você está bem, amor? – perguntou Misato, acariciando os cabelos dele.

- Okaa-san, otou-san wa watashi o kiraidesu ka?

A pergunta era sincera e saída da boca de uma criança de sete anos. Ele sabia que havia algo errado e desejava muito poder alcançar as expectativas do pai, mas não podia deixar de querer saber se tudo o que se passava na sua cabeça era realmente verdade.

- Ele só quer o melhor para você. – respondeu Misato, embora não fossem essas as reais palavras que tencionara dizer.

- Tem certeza? – insistiu o garoto, captando uma oscilação nos olhos da mãe. Era esperto e cuidadoso quando se tratava dela, pois tinham uma sintonia sanguínea incrível e sabia quando algo lhe era omitido, embora pouca vontade tivesse de exigir-lhe a verdade já que seu alento lhe era o único refúgio.

- Tenho sim. – suspirou Misato, abraçando-o com mais força e se amaldiçoando por não protegê-lo como devia.

- Okaa-san, não quero mais ir à escola. – murmurou, sem vergonha de sucumbir à fraqueza que seu otou-san tanto odiava.

- Como assim, mocinho? – ela sabia que nessa idade qualquer motivo é o suficiente para não querer ir à escola, desde uma simples preguiça até a desgraça que eram as crueldades infantis, mal dosadas e extremamente ofensivas para uma mente ainda tão sensível às críticas.

Ajeitou Kouyou em seu colo e encarou-o nos olhos, como faziam quando a conversa era séria e ele gostava disso, pois se sentia tratado respeitosamente, fossem quais fossem suas queixas.

- Eles não gostam de mim lá – explicou e isso resumia a pior das hipóteses para Misato — Se eu não fosse mais resolveria os meus problemas.

Tinha que proteger seu menino, tinha que redobrar a atenção contra esse atentados sem importância para uma mente obsoleta como a de Miyamoto!

Arranjaria um jeito que não o deixaria mais frágil ainda.

- Problemas? – repetiu, sorrindo bondosamente — Você é muito pequeno para ter problemas! Além do mais se você não for à escola vai ficar burrinho. – disse ela desarrumando o cabelo dele – Quer ficar burrinho Kouyou? Hein, hein? – e começou a fazer cócegas nele, os dois rindo juntos.

- Para! – pediu ele quando não agüentava mais rir e ela obedeceu, tornando a abraçá-lo com a ternura que só os braços de uma mãe podem oferecer. – Tem razão, se eu não aprender nada não serei útil para otou-san. – ao que ela imediatamente se preocupou com as palavras drásticas dele.

- Pare de pensar nisso, eu quero que se divirta enquanto pode. Você é uma criança e não um adulto.

- Mas okaa-san...

- Faça o que eu te pedi por você e por mim, tudo bem? Agora vai se trocar para eu poder te colocar para dormir – Kouyou a obedeceu. Ela cantarolou uma música que o fez dormir, o beijou e, após prolongar o máximo que pode a vigília a seu anjo adormecido, saiu do quarto.

***

- Disse para você não voltar a fazer isso! – exclamou Miyamoto quando ela entrou no quarto. Era o início de mais uma briga, mais uma inútil briga, onde pensamentos tão paralelos jamais se encontrariam.

- Ele precisa de amor, coisa que você não demonstra que sente por ele! – rebateu Misato, os olhos bem diferentes, cheios de raiva e repulsa — Você é o pai dele! – e ao afirmar isso, sentiu-se suja, suja por um dia ter sido tocada por um ser tão asqueroso.

- Amor, isso é uma coisa muito idiota! – berrou em resposta — Kouyou precisa se dedicar a coisas mais importantes do que essas brincadeiras estúpidas.

- Ele precisa disso! É apenas uma criança, Miyamoto, será que você não vê?

- Meu filho brincando não me serve de nada. – e ela sabia que era uma batalha perdida, nunca o faria enxergar o filho como parte de si próprio e não como um títere a ser manipulado.

- Você sabe o que ele pensa Miyamoto? Ele pensa que você o odeia. – ele não falou mais nada – Não se esqueça que ele é seu filho e não seu servo, não pode exigir que ele seja o melhor em tudo.

Mas o patriarca já dera o assunto por encerrado e deixou a mulher falando sozinha.

O relacionamento entre os pais de Kouyou não era bom, ele chegou a pensar que poderia ser por sua causa, mas Misato logo lhe tirou esse pensamento. O motivo sempre fora o maldito miai. E Misato suportava seu casamento apenas por amar muito Kouyou.

Mas seu tempo estava acabando.

***

- Okaa-san estou indo! – avisou Kouyou, um sorriso nos lábios cheios, a nova manhã fazendo-o esquecer os acontecimentos do jantar passado. – Okaa-san? – chamou do corredor ao perceber que ela não respondera. Resolveu entrar no quarto dos pais e encontrou a mãe ainda debaixo das cobertas, meio sonolenta. – Você está bem? Não desceu para tomar café.

- Apenas um pouco indisposta – ela tossiu, um fraco sorriso nos lábios – Não se preocupe comigo, irei melhorar.

- Quer que eu fique para cuidar de você? – ele debruçou-se na cama e segurou as mãos de Misato entre as suas. Estavam frias e o pequeno ficou preocupado.

- Não precisa, querido, eu vou estar melhor quando você voltar – prometeu-lhe, levantando metade do corpo e se apoiando na parede de travesseiros; puxou o filho para cima da cama e abraçou-o — Aí podemos passar o resto da tarde grudadinhos, desse jeito.

- Tem certeza? – ainda não parecia de todo convencido e franzia as sobrancelhas por baixo da franja perfeitamente lisa.

- Claro! – riu Misato, bagunçando os cabelos dele — Vou esperar por você bem aqui. Ou no jardim, se preferir. Tudo bem?

- Tudo bem. – Kouyou concordou e, após certificar-se de que estava realmente tudo bem, andou em direção a porta, mas parou quando Misato chamou por ele. Um chamado tímido e baixo, feito de um súbito desejo – O que foi? – perguntou, a cabeça pendendo para o lado. De longe sua mãe parecia mais pálida, doente e o garoto sentiu-se nervoso de estar tão afastado.

- Eu te amo, Kouyou – sussurrou Misato, o sorriso interrompendo o ar doentio de seu rosto — Nunca se esqueça disso, viu?

- Não vou esquecer – disse ele, sério. Como criança, aquelas palavras lhe eram muito impactantes e importantes, além de puras, e mereciam um juramento — Eu também okaa-san, amo muito a senhora.

- Boa aula, Kou-chan – e o pequeno alegrou-se, pois sabia que a mãe lhe queria bem quando o chamava de “Kou-chan”.

Apesar das palavras anteriores da mãe, de que ele não podia desistir da escola, novamente o pensamento lhe surgiu como uma boa idéia dado o dia que teve que agüentar num lugar tão desagradável. Rodinhas de xingamentos e empurrões lhe seguiram por todo o tempo, além de habituais bolinhas de papel que lhe atingiam o pescoço exposto. Kouyou cerrava os punhos e fechava os olhos, sabendo que revidar não era uma boa.

Definitivamente, crianças sabem ser cruéis.

Do mesmo modo como a vida é cruel com todos. A Vida, que é uma criança com insetos numa mão e um punhado de confete na outra, pronta para jogar o que lhe agradar primeiro. Em quem agradar ou enfurecer-lhe primeiro.

- Tadaima, okaa-san!- gritou Kouyou assim que chegou em casa. Mas a mãe não estava no hall ou na sala seguinte, nem no jardim, conforme o combinado. Seus pequenos pés ignoraram o silêncio da casa e subiram correndo as escadas. Apesar do pouco tempo longe da mãe, ele estava louco para vê-la.

Os corredores pareciam mais longos e Kouyou começava a desesperar-se com aquele silêncio. Onde estava sua fonte de alento? Onde estava aquela voz que sabia pronunciar as palavras certas para acalmá-lo?

Misato estava caída no chão perto da porta do banheiro. A camisola de dormir ainda lhe cobria o corpo, aparentemente adormecido.

Kouyou apreendeu a cena com lentidão, achando que fosse uma idéia de brincadeira.

Ledo engano.

- Okaa-san! – gritou ao perceber que tudo era bem real; correu até Misato e ajoelhou-se ao seu lado — Okaa-san, acorda! – ele tentou suspendê-la pelos ombros, mas não agüentou. Resolveu pedir ajuda. Ligou para uma ambulância (aprendera os procedimentos básicos de emergência na escola), pediu aos empregados aos berros que a levassem para a sala e lhes perguntou como não haviam visto Misato jogada no chão. Nenhum deles conseguiu se explicar totalmente.

Depois de alguns minutos ao lado da mãe no sofá, lembrou de otou-san. Com desânimo tentou várias vezes o número de Miyamoto, mas ele nunca atendia. Retomou sua vigília, sem fome ou cansaço, apenas apertando os dedos frios da mãe em sua pequena mão e observando-a empalidecer cada vez mais.

Quando por fim a ambulância chegou, Kouyou pulou dentro dela sem ligar para os protestos dos enfermeiros. O ambiente fechado o deixava zonzo e o balanço do carro e suas sirenes o faziam querer vomitar.

“Eu preciso ser forte!”

Misato foi levada às pressas para dentro do hospital e o garoto corria ao lado da maca, desesperado. Queria perguntar o que estava acontecendo, mas os adultos lhe pareciam austeros demais para responder. Tudo parecia grande demais. Complicado demais. Ele queria vomitar. Queria falar com Miyamoto. Queria que Misato acordasse.

Piorou significativamente quando não o deixaram passar da sala de espera. Kouyou ficou sozinho e assustado, mas mordeu o lábio inferior, engolindo o choro. Teria que suportar ficar naquela sala cheia de desconhecidos esperando por noticias de sua okaa-san.

“Eu preciso ser forte, eu preciso!” repetiu, os punhos cerrados de novo. Localizou telefones no fundo do aposento e voltou a tentar entrar em contato algumas vezes com Miyamoto, sem sucesso. Pediram-lhe os documentos de Misato junto à recepção e a mulher de branco de unhas compridas atrás do balcão espantou-se de ver um menino em vez de um adulto. Kouyou explicou-lhe a situação e ela insistiu em entrar em contato com o pai dele, outra tentativa fracassada.

- Você é um garotinho muito responsável, Takashima-chan – elogiou, lhe devolvendo os documentos de Misato. Ele assentiu, sem sorrir, e voltou a esperar num banco perto das portas duplas que o separavam da mãe.

Após uma espera que pareceu durar para sempre, o médico entrou na sala de espera, uma cara de poucos amigos e olheiras e, localizando-o, foi até o garoto, que saltou do banco, ansioso por notícias.

- Você é o parente de Takashima Misato? – perguntou, puxando uma prancheta e mal encarando Kouyou.

- Sou, senhor! –respondeu, a boca seca de ansiedade – Como okaa-san está?

- Aaah... – ele esticou bem a hesitação e tirou os olhos da prancheta, prestando atenção em Kouyou. — Onde está seu otou-san, garoto?

- Eu não sei – sibilou, impaciente — Mas agora me fale da okaa-san!

O médico soube que não adiantaria nada enganá-lo. Para quê atrasar o que ele descobriria a qualquer momento? Ele não o conhecia, não tinha nenhuma responsabilidade para com seus sentimentos.

- Qual o seu nome? – perguntou com um suspiro que lembrava desistência.

- Takashima Kouyou – respondeu o garoto, começando a ficar irritado com o médico.

Mas a irritação esfarelou-se diante das palavras seguintes daquele adulto.

- Eu sinto muito Kouyou-kun, mas... Sua okaa-san faleceu.

Sentiu vontade de rir. Quando aquele médico bobo iria falar sério? Até parece que ele seria enganado tão facilmente por uma mentira ridícula...

Ele franziu a testa e percebeu que o médico não ia dizer mais nada. Então percebeu que não viria nenhuma surpresa depois da resposta dele. Nenhuma brincadeira. Nenhuma graça.

- Iie... Não! – gritou e alguns presentes olharam-no — Okaa-san não está morta! Não tá! Ela não faria isso comigo, ela disse que viveria pra sempre, ela não é fraca, ainda temos que passear no jardim e comer bolo...! Minha okaa-san não me deixaria! Nunca!

- Eu sinto muito... – mas não sentia realmente coisa alguma.

- Onde ela está?! – berrou e, de repente, saiu correndo pelas portas duplas.

O médico suspirou novamente e apertou a ponte do nariz.

- Segurem ele – ordenou para o primeiro enfermeiro que apareceu. Kouyou foi facilmente carregado e, aos berros, levado para uma sala.

Deixaram-no aos prantos, mas ele não se importou. Sua garganta estava seca e seu peito doía terrivelmente. Não conseguia mais ficar em pé, desabou em um sofá, inerte, mergulhado naquele pesadelo.

Passado alguns minutos, a porta abriu e fechou-se, sem atrair a atenção do garoto.

- Kouyou-chan? – disse uma enfermeira, trazendo uma bandeja com um copo d’água e ajoelhando-se ao lado dele. Ofereceu-lhe mudamente a água e ele aceitou-a, os olhos fixos no fundo do copo – Está mais calmo? – perguntou, a voz doce muito parecida com a de Misato. Uma voz que não combinava com o mundo dos adultos – Deve estar sendo muito difícil, não é? Você é muito pequeno para receber uma noticia dessas... – ele levantou o rosto coberto por lágrimas e a enfermeira sentiu-se ainda mais apiedada pela situação dele.

- Dói. – murmurou, a voz rouca após tantos gritos.

- Onde?

- Aqui – ele apertou a blusa onde ficava seu coração. Os olhos da enfermeira encheram-se de lágrimas e ela o abraçou num impulso. Kouyou não teve forças para afastá-la.

- Ela foi para um lugar melhor, querido. – apesar dos lugares-comuns da desconhecida, não houve como não questionar aquele tipo de raciocínio.

- Por que ela me deixou? Se cansou de mim? – e a dúvida começou a erguer-se como uma monstruosa sombra, muito mais ameaçadora do que qualquer outra coisa que ele conhecesse.

- Ela estava doente, Kouyou-chan. – respondeu a enfermeira, soltando-o. Sabia nos poucos minutos em que esteve com Takashima Misato que ela não queria partir, que tentara muito lutar contra a morte... Não podia contar tudo o que vira para aquela alma tão despedaçada à sua frente — Mas tenho certeza de que ela te amava muito e vai sempre amar onde quer que esteja.

- Como você sabe? – questionou o garoto, franzindo a testa — Nem a conhecia.

Ela sorriu-lhe, paciente. Não podia culpá-lo por estar tão desacreditado.

- A última palavra que ela disse foi o seu nome, sabia? – respondeu, segurando-lhe a mão — Kouyou.

Eu te amo, Kouyou... Nunca se esqueça disso, viu?”

- Posso vê-la? – pediu, esquecendo-se brevemente da dor – Preciso ver minha okaa-san de novo.

A enfermeira sabia que não adiantaria nada impedi-lo.

- Pode sim, mas antes me dê o número do seu otou-san. Não pode ficar sozinho aqui.

- Ele não vai atender – avisou ele, num tom frio, pulando do sofá. Suas pernas ainda estavam entorpecidas. Entregou-lhe o cartão “para emergências”, que descobriu não servir para nada.

- Ah... Vem, vou te levar até ela. – Kouyou segurou a mão dela e obrigou-se a andar. À porta de um quarto, a enfermeira pediu que ele prosseguisse. Engolindo em seco, entrou na sala onde sua mãe estava.

A mulher pegou o próprio telefone e ligou para o número do cartão com um mau pressentimento. Após duas tentativas, finalmente conseguiu que atendessem.

– Alô? Takashima-san?

- Sim, quem fala? – uma voz áspera lhe respondeu do outro lado da linha.

- Takashima-san, eu sei que isso não é uma noticia que se dê por telefone, mas... Sua esposa acabou de falecer e seu filho está aqui sozinho... Perdoe-me a intromissão, mas o senhor não deveria estar aqui com ele?

- É mesmo? – ela ouviu risos sarcásticos do outro lado — Não me diga o que fazer – e desligou. A mulher balançou a cabeça e foi ver como Kouyou estava.

O garoto segurava a mão de Misato e observava seu rosto pálido e morto enquanto lágrimas desciam silenciosamente de seus olhos.

“Eu te amo, Kouyou.”

Vou esperar por você bem aqui.

- Nande, okaa-san...?

O sol começava a retroceder e abandonar aquele pequeno quarto, mas não ouve nada que demovesse Kouyou de continuar ao lado de Misato. A enfermeira vigiava-o o tempo todo, sentida.

Ao cair da noite, o silêncio do quarto foi interrompido pelo barulho dos passos que ele conhecia muito bem.

Miyamoto.

- Vamos, Kouyou — ordenou ele, a voz irritadiça, parado no umbral da porta, parecendo não ver a esposa morta há menos de dois metros.

- Não vai se despedir dela? – murmurou o garoto, sem olhá-lo, sentindo uma profunda raiva subindo-lhe pelos pés.

- Não vim aqui para isso. – retrucou o homem, puxando um maço de cigarros do bolso — Vim te buscar. Não posso fazer nada se ela morreu. E por favor, pare de chorar, isso faz com que você pareça mais fraco do que já é.

A enfermeira olhava do homem para o menino, boquiaberta. Agora fazia sentido o motivo para Kouyou estar sozinho aquele tempo todo.

- Por que não atendeu quando eu liguei? – prosseguiu, sem se importar com a grosseria de seu otou-san.

- Estava ocupado.

Essas palavras tiraram-no do sério. Ele virou-se para o pai, tão pequeno e frágil, mas com punhos rígidos de fúria.

- Era importante!

- Pare de falar Kouyou, já está me enchendo!

- Você podia ter salvado ela!

O pai deu outra risada sarcástica, dez vezes mais perigosa ao vivo. Era o que antecedia seu mau gênio.

- Veio bem a calhar se você quer saber – disse, esquecendo-se do cigarro. Aproximou-se do filho, e encarou-lhe arrogantemente — Se ela era tão valiosa para você por que você mesmo não deu um jeito de salvá-la? – o garoto ficou estático com aquilo — Agora anda moleque que eu tenho mais o que fazer – e puxou Kouyou pelo braço, arrastando-lhe dali.

A enfermeira levou as mãos aos lábios, incrédula.

***

É mentira quando dizem que o tempo cura as feridas.

As dele nunca cicatrizaram.

Ainda hoje sangram. Sangram por ela.

As trevas chegaram há muito tempo, meu amor.

As lágrimas de Takashima Kouyou, no entanto, secaram.

Assim como seu coração.

Ele cresceu aos cuidados dos empregados da casa, calado durante as refeições e trancado a maior parte do tempo no quarto. Sua relação com Miyamoto não melhorou e ele pouco pensava no pai.

A adolescência chegara e com ela o melhor da rebeldia instaurou-se em sua mente: Visual Kei. Conhecera esse estilo do colegial para o ginasial depois que vira um grupo de garotos de sua sala lendo uma revista sobre bandas desse estilo. Relutara no começo, mas tinha que admitir que a música o contagiara.

Pura rebeldia.

A partir disso, comprava CDs sempre que podia e isso o distraiu bastante do torpor ao qual normalmente se acostumara. Os empregados reprovavam aquela excentricidade, mas como eram apenas empregados, resignavam-se.

- Gosta de Luna Sea, cara?

Ele não respondeu. Sequer sabia que alguém lhe dirigira a palavra, de tão acostumado que estava a ninguém lhe dirigir palavras.

- Não vai responder? – o garoto continuou olhando insistente de Kouyou para o encarte de Cd em sua carteira.

- Ele está com fones no ouvido – avisou-lhe o colega ao lado.

- Ah... Ei! – ele bateu nos ombros de Kouyou, que de susto, quase derrubou seus livros. – Falei com você.

- Desculpe, não ouvi – murmurou, tirando os fones. – O que foi?

- Perguntei se gosta de Luna Sea.

- Hã...? Sim. Muito. – respondeu, estranhando a pergunta.

- Então deve gostar de X-Japan, certo? – deduziu o outro, sentando-se de frente para Kouyou, sorrindo.

Ele estranhou a atmosfera descontraída daquele colega desconhecido. Praticamente não sabia o nome de nenhuma pessoa que estudava em sua classe e não via importância em sabê-lo.

- Sim, também gosto. – respondeu, introvertido.

- Hmmm... Um fã de Visual Kei! – exclamou, erguendo o polegar (u.u’, sem piada)- Qual o seu nome?

- Takashima Kouyou.

- Takashima? – espantou-se, fazendo uma cara pensativa — Acho que já ouvi falar nesse nome...

(QUEEEEEEMMMMMMM NÃO CONHECE O HOTELEIRO MIYAMOTO?!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!)

- É mesmo? – disse ele, irritando-se e colocando os fones de ouvido. Não daria brechas para os significados do sobrenome que carregava como um fardo.

O desconhecido acabou desistindo de conversar e foi embora.

Ao final da aula, Kouyou jogou a mochila nas costas e saiu num caminhar lento, sem perspectiva ou ânimo.

- Ei, Kou-chan! – chamaram-no enquanto ele andava pelo corredor.

“Chan?”, pensou Kouyou, olhando para trás. O garoto que falara com ele mais cedo passou o braço por seu ombro, como um velho amigo. Vinha acompanhado de um pequeno grupo misto que se amontoou ao redor dele, fazendo-o parar.

- Você gostaria de sair com a gente? – ele convidou, com um sorriso malicioso.

- Depende de onde vocês vão. – respondeu Kouyou, cauteloso.

- A um bar de stripers.

- O quê?!

- Relaxa, ‘tô brincando. É um lugar legal, eu garanto.

- É? – duvidou ele, desconfiado — E por que está me convidando?

- Nunca é tarde para fazer amigos – explicou maroto – Sou Keitarô. E então, você vem?

- Tudo bem – concordou Kouyou, sem pensar. E, tirando o braço do outro de seu ombro, prosseguiu.

- Nos encontre no ponto de ônibus da escola às nove! – lembrou-lhe o garoto.

***

Na hora do jantar Kouyou entregou o boletim bimestral para o pai do outro lado da mesa. Miyamoto o abriu, olhou as notas e o fechou sem dizer uma palavra. Ele continuou comendo, já sabendo que seria assim, apesar de sempre criar uma expectativa involuntária de que o pai pudesse elogiá-lo pelas ótimas notas.

- Kouyou... – disse o pai, ao término da refeição, se levantando da mesa.

- Sim? – ele levantou minimamente os olhos para indicar que estava escutando.

- Quero você longe disso – disse Miyamoto, imperativo, jogando os CDs das bandas de Visual Kei em cima da mesa – Por favor, não me dê mais desgosto escutando uma coisa dessas, já basta você ser um completo inútil. – e retirou-se friamente. Kouyou esperou e recolheu os CDs, sem nenhuma intenção de jogá-los fora. Ao invés disso, saiu e foi se encontrar com os seus... Novos amigos.

- Pontual, hein? – disse Keitarô, as mãos nos bolsos, sua turma já o rodeava, uns conversando, outros fumando.

- Vamos ou não? – desconversou Kouyou, ansioso por transgressões.

- Infelizmente não, não podemos ir hoje naquele lugar de que falei – respondeu ele, enquanto Kouyou se aproximava da roda de garotos — Mas garanto que na minha casa vai ter uma festa bem divertida, está afim?

- Tanto faz, com tanto que eu não tenha que voltar para aquela casa que eu desconfio ser o inferno. – suas palavras foram acompanhadas por sorrisos de aprovação e uma garota que estava junto à Keitarô riu.

- Gostei de você – disse ela. Kouyou deu de ombros.

Estava aceito. Colocara-se dentro daquela estrada delirante.

\"Misato-san,

Misato-san, descanse em paz!

Notas finais
Não sei porque, mas essa parte da fic escrita pela minha mana [Humanoid Girl] sempre me deixa triste. Mas que belo modo de ver a natureza humana! Tão sombrio e angustiante que é como se, por um momento, você se pussesse no lugar do personagem.
Dá vontade de chorar, sabe? (Mentira)

Agradecemos por lerem, deixem reviews se possível, pois é sempre bom saber onde acertamos e onde erramos, okay?
A mana[Humanoid Girl] mandou lembrar que segunda é aniversário dela, então... Tô nem aí. (Brinks)
Pontos de popularidade para quem conseguir o Aoi-san embrulhado em papel celofane pra ela, viu? ^^'
Um feliz Círio para todos (que moram no Pará, rá!)