– O que? – eu falei.

Circe terminou de arrumar os objetos na mesa e me olhou.

– Aquilo, Taylor – ela apontou para a estátua de Érebo atrás de mim – não é simplesmente uma estátua. Aquele é o verdadeiro Érebo, o Guardião da noite.

– Mas Érebo está preso nas profundezas do Mundo Inferior.

– Não, minha criança, não esta. Ele nunca esteve.

– Mas...

– Taylor, se acalme – ele pousou ambas as mãos nos meus ombros. – Você precisa saber que Nyx precisa do seu sangue para que o feitiço de ressurreição dê certo.

– Eu não vou dar... não darei o meu san..,

– Acontece que você não tem escolha... ela obterá seu sangue com ou sem o seu consentimento.

– Então o que eu faço?

Circe olhou para Nyx, que estava ajoelhada aos pés da “ estátua “ de Érebo.

– Pegue isto – ela me entregou uma adaga de 12 centímetros. – E esconda.

– Pra que?

– Esconda.

– Circe – Nyx se levantou e veio até nós. – Esta preparada?

Eu olhei para o céu acima de nós e vi a lua completamente cheia entre as nuvens noturnas.

– A lua atingiu o ápice – Circe falou. – Sim, minha deusa... podemos começar.

Nyx sorriu.

– Excelente – a deusa falou antes de se virar e chamar. – Hipnos! O garoto.

O guerreiro de asas negras voltou para o pátio, mas dessa vez ele não estava sozinho. Duas pessoas estavam com ele.

Uma delas eu reconheci.

– Jack!!! – eu gritei e corri até ele.

Meu melhor amigo estava desacordado. Seus lindos e brilhantes cabelos louros estavam sujos e pareciam ter sido queimados nas pontas, pois estas estavam pretas e desalinhadas. Os olhos azuis claros de Jack estavam inchados e roxos. Seu rosto estava completamente tomado por hematomas nas maças do rosto, na testa, nos lábios volumosos e até no pescoço. A camisa vermelha e a calça jeans preta dele estavam rasgadas e os braços dele sangravam, assim como o super cílio e a boca.

– Detenham-na!!

Um garoto surgiu das sombras e me encarou.

Ele era um sujeito alto , mais ou menos 1,75 de altura; ele tinha cabelos longos, como os de Hipnos, mas negros como a escuridão que nos envolvia. Também possuía um corpo grande e esguio, com braços fortes e grandes. As asas desse sujeito eram iguais as de Hipnos, negras e sedosas, parecendo um véu de escuridão. Os olhos eram completamente negros, sem nenhum resquício de vida humana neles.

Mas foi seu toque que me tirou o fôlego.

Ao sentir suas mãos firmes ao redor do meu corpo, parecia que a vida estava sendo sugada de mim, como se o toque daquele “ anjo “ me tirassem a força vital. Eu quase desmaiei em seus braços mas me forcei a manter a consciência.

– Traga-a para mim, Thânatos – Circe falou para a coisa que me pegará.

Fui arrastada até a mesa em que Circe havia preparado os objetos.

A feiticeira me olhou profundamente e virou-se para o altar, pegando a pedra brilhante que estava mais perto.

– Este é o momento – ele falou com uma voz forte e poderosa. – Esta é a hora. Em nome da poderosa Noite e do onipotente Caos, eu invoco Érebo, Guardião de fronteira, primordial das trevas, senhor da escuridão.

Enquanto ela falava com a noite ( com a noite de verdade, não com Nyx, só para deixar claro ) a deusa da escuridão sorria.

Circe fez sinal para Thânatos, e o anjo atrás de mim me puxou até a feiticeira, que me esperava com uma adaga na mão direita. A filha de Hécate me olhou profunda e intensamente e falou:

– Perdoe-me por fazer isso – ela olhou para Nyx que nos observava. – Mas eu tenho um dever para com a minha deusa.

A deusa da noite sorriu.

– Continue, Circe.

Circe apertou o punho da adaga e fez um corte rápido na base do meu polegar, de onde uma fina linha escarlate abriu-se, fazendo meu sangue escorrer. Algumas gotas pingaram no chão de mármore preto antes que a feiticeira pegasse um cálice de prata e o colocasse em baixo da minha mão. O sangue que escorreu para dentro da taça, encheu metade da taça, como se Circe tivesse feito algo para que o sangue coagulasse mais rapidamente.

– E agora? – eu perguntei.

Circe olhou para a estátua de Érebo e fez sinal para que Thânatos me levasse para junto dela.

O anjo das trevas me colocou de joelhos aos pés do primeiro Guardião que existiu e se postou ás minhas costas. Logo que meus joelhos tocaram o chão, Circe veio para junto de mim, com a faca encurvada que eu vi na mesa em mãos.

– Levante-se, feiticeira.

Eu obedeci.

Circe então colocou a foice em minha garganta e pressionou-a em minha jugular.

– Taylor!! O que você ta fazendo?

Jack havia acordado e me encarava, preso pelos braços de Hipnos.

– Me desculpe, Jack; eu precisava te encontrar.

– Não!!! – ele gritou, mas Hipnos tapou sua boca com uma das mãos.

Voltei-me para Circe.

– Faça.

Ela me olhou séria, abaixou os olhos para a minha mão e depois voltou a me olhar.

– Você sabe o que fazer! – ele falou em um sussurro.

Franzi a testa mas logo entendi o que ela falava.

Apertei o cabo da adaga que Circe me dera e, com a lâmina virada para trás, finquei-a na perna de Thânatos.

O anjo berrou de dor e eu corri para Jack.

Hipnos tentou me parar mas Jack deu-lhe uma cabeçada no nariz e o garoto alado curvou-se, ajoelhando-se no chão.

Nyx apenas observava tudo.

– Não há como escapar daqui, feiticeira – ela sorriu. – Você e esse seu guerreiro estão fadados á morte em sacrifício ao meu amado Protetor.

Eu olhei-a seria.

– Você me prometeu que soltaria Jack.

A deusa não mudou sua expressão.

– E vou honrar essa promessa – ela olhou para Jack. – Jack Brandy poderá voltar ao Castelo de Luz, a sede dos feiticeiros luminosos; mas você, querida Taylor, será sacrificada pelas mãos de Circe, minha feiticeira das trevas.

Olhei para Circe.

– Me ajude... por favor.

Nyx riu de mim.

– Você acha que ela irá te ajudar? Circe te abandonou uma vez.. e irá te abandonar novamente.

Franzi o cenho ao olhar da feiticeira para a deusa.

– Circe... do que ela ta falando?

– Você ainda não se deu conta, feiticeira? – Nyx me olhava com uma expressão de divertimento nos olhos.

– Circe!! – eu insisti.

A feiticeira me olhou com os olhos marejados ao dizer as palavras que quase me fizeram desmaiar:

– Eu sou sua mãe, Taylor, e fui eu quem te abandonou.