Eu não conseguia falar nada.

– Taylor, você ta bem? – eu ouvi alguém me perguntar, mas a voz parecia estar a um quilometro de distância, e parecia que eu á ouvia em ecos.

Olhei para cada uma das pessoas que estavam diante de mim, mas todos eles pareciam completos estranhos para mim.

– Termine o ritual – foi tudo o que eu consegui dizer.

Jack me olhou sério e falou:

– Não, Taylor – ele se postou na minha frente. – Érebo não pode voltar a vida. Ele destruirá a todos nós.

– Eu não me importo mais – foi tudo o que eu consegui dizer.

Jack me olhou com uma expressão de horror estampado no rosto.

Nyx sorriu para mim.

Circe somente me olhou de modo observador.

– Você esta fazendo o que é certo, feiticeira – falou Nyx.

– Cala a sua boca, maldita – eu falei, rispidamente.

– Taylor, por favor... – Jack começou a falar.

– Quieto você também – eu falei para meu melhor amigo. Andei até Circe. – Faça!

Minha mãe me olhou séria.

– Eu te peço perdão por...

– Não peça... eu não concederei – eu olhei-a friamente.

– Você não entende...

– Tem razão... eu não entendo. Agora faça.

Circe me olhou séria uma última vez e pegou a foice que havia caído no chão.

Mas antes que ela pudesse cortar a minha garganta, um portal de luz se abriu á nossa frente em um tornado de luz branca e vários guerreiros luminosos desceram do céu, sendo liderados por meu Guardião.

– Ryan! – eu chamei-o mas meu Protetor não me ouviu.

Ao invés disso, ele e os demais guerreiros alados que o acompanhavam tomaram duas direções: alguns correram em direção á deusa da Noite e o outro grupo foi em direção á estatua de Érebo. No começo eu não entendi por que eles começaram a atacar a estátua, mas depois eu me dei conta do que estava acontecendo.

A estátua gigantesca do deus primordial das trevas parecia estar descascando, como se fosse uma serpente trocando de pele. O mármore negro que lhe cobria os braços já havia se transformado em poeira escura aos seus pés, os longos chifres retorcidos pareciam que haviam crescido mais e eu tinha quase certeza de que os braços de Érebo estavam pousados ao lado do corpo, e não á alguns centímetros á frente das pernas.

– O que ta acontecendo? – eu perguntei.

– Érebo esta voltando á vida – Ryan falou ao meu lado.

Meu Guardião estava vestindo uma armadura de couro completamente preta, com a imagem de uma caveira no peitoral e uma espada embainhada ao lado do corpo. Os olhos verdes dele brilhavam intensamente perante á escuridão que se abatia na Fortaleza de Nyx.

– Gostei da roupa – eu falei.

Ele sorriu.

– Como fazemos o chifrudo voltar a tirar uma soneca? – eu perguntei.

Ryan ficou olhando para a estátua por um longo tempo antes de responder:

– Não é o que faremos... é o que evitaremos que aconteça – eu olhei para ele com cara de confusa. – Temos que evitar que você seja sacrificada. Érebo não poderá voltar a vida á menos que você seja morta em sacrifício á ele.

– Me manter viva seria uma boa.

O anjo sombrio Thânatos já havia se recuperado, assim como Hipnos, e agora ambos se engalfinhavam com alguns dos guerreiros de Ryan. Nyx estava parada aos pés da estátua de Érebo, no centro de um circulo que ardia em luz vermelha. Circe havia desaparecido para dentro da Fortaleza.

– Eu tenho que fazer uma coisa – eu falei para Ryan.

– O que...? – ele começou a dizer mas eu já havia entrado na Fortaleza, atrás de minha mãe.

Ao adentrar o castelo de Nyx, eu fui envolvida por uma escuridão completa, então me concentrei nos castiçais de prata que havia nas paredes, imaginando-os acessos e queimando fogo, quente e iluminador. Os castiçais se acenderam antes que eu pedisse para que se acendam. Eu sorri feito uma boba, mas minha alegria durou pouco tem, pois no fim do corredor, havia uma criatura enorme que me encarava com olhos vermelhos sangue e sua boca, cheia de dentes pontiagudos, estava aberta.

Fiquei parada por um tempo, até que o bicho rugiu para mim e eu me virei para correr, com a criatura correndo atrás de mim.

Ryan surgiu atrás de mim.

– O que você ta fazendo – ele perguntou enquanto corríamos.

– O que você acha que eu to fazendo? To tentando ficar viva.

– Por que correu para dentro da fortaleza?

Eu olhei para ele seria.

– Eu encontrei minha mãe.

Ele me olhou com desespero.

– Você encontrou Circe?

– Sim, ela... – eu parei de correr e encarei o garoto. – Como você sabe quem é minha mãe?

Ryan não me respondeu.

– Você já á conhecia! – eu falei. – Por que não me falou nada?

– Me perdoe.

A criatura de olhos vermelhos apareceu atrás de nós e urrou novamente.

– Depois nós conversamos! – foi tudo o que eu consegui dizer.

Eu comecei a correr, mas parei quando vi que Ryan não estava me seguindo.

– Ryan – ele se virou para me olhar. – Vamos logo.

O Guardião olhou de mim para o monstro que avançava.

– Desculpe por não ter contado nada, Taylor.

Eu olhei para ele com raiva.

– Isso agora não me importa, depois você explica. Agora vamos.

Ryan veio até mim e me beijou o rosto.

– Algum dia você vai entender os motivos de Circe ter me criado.

Franzi o cenho ao olhar para ele com cara de duvida.

– Minha mãe te criou? Para que?

– Ela não queria que a filha crescesse desprotegida, então em sua último momento de liberdade, ela lançou uma magia de proteção sobre você, me dando á vida para cuidar de você.

A criatura já havia ultrapassado metade do corredor e estava quase nos alcançando. Meu Guardião pegou uma flecha da aljava de flechas que estava em suas costas e mirou no olho da besta; ao soltar a flecha, ela atingiu o centro do olho esquerda do demônio, que urrou de dor e começou a se debater.

– Você precisa ir, Taylor – Ryan disse. Ela me entregou o arco e a aljava de flechas. – Leve isto e se proteja.

– Mas e você?

Meu Protetor olhou-me e sorriu, tirando a espada da bainha.

– Vou fazer o que sei fazer de melhor.

Ele correu em direção ao monstro e começou a apunhalá-lo com a lâmina de fio duplo.

– Taylor... saí daqui – ele gritou quando a criatura o empurrou para a parede.

Eu olhei uma última vez para o meu Guardião, me virei e corri.

*****

A Fortaleza de Nyx era enorme. Em todos os cantos de todos os corredores, havia vasos de plantas, que se assemelhavam muito a papoulas negras. Nunca fui muito fã de plantas então eu não sei diferenciar um narciso de uma margarida.

Também ao longo dos corredores, eu encontrei estátuas de mais ou menos 1 metro de altura de seres que eu achava que eram os filhos de Nyx, pois uma das estátuas se assemelhava muito á Thânatos. Enquanto eu corria pelos corredores, eu acendia os castiçais, para me locomover rapidamente sem cair em um buraco qualquer.

Cheguei á uma sala grande e ampla, que na verdade mais parecia um salão de trono, como o do Castelo de Luz, mas, ao invés de o trono ser de ouro, como o de Ariadne, este era feito de um metal completamente negro.

Circe estava no centro do salão, dentro de um circulo de poder que brilhava em luz vermelha sangue.

– O que você ta fazendo? – eu perguntei.

A feiticeira me olhou e disse:

– Me protegendo. Nyx fará de tudo para que eu sofra por ter hesitado em te matar.

– Então venha conosco – eu disse. – Nós, eu e os guerreiros lá fora, podemos te proteger.

Circe me olhou séria.

– Por que você faria isso? Eu abandonei você.

Antes que pudesse responder, fui agarrada por Thânatos e Hipnos, que me arrastaram para fora da Fortaleza, onde Nyx me aguardava com um sorriso no rosto.

O deus Érebo que antes era apenas uma estátua, agora parecia que já hávia recobrado os movimentos que á muito tempo tinha perdido por ter sido transformado em uma estátua de mármore negro.

– Ele está quase desperto – a deusa da noite me olhou friamente. – Só falta uma coisa.

Eu cerrei os dentes e olhei-a.

– A minha morte – eu falei, enquanto os anjos filho de Nyx me seguravam com os braços para trás.

A deusa das trevas acenou para que Thânatos e Hipnos me soltassem, o que eles fizeram como bons filhos que eram; eu me debrucei sobre o piso de mármore da Fortaleza da Noite.

– Existe, porem, um empecilho no feitiço, que dita que a vitima a ser sacrificada deve entregar-se ao sacrifício por livre e espontânea vontade.

Eu fiquei olhando a deusa com raiva.

– Então o que ta esperando? Faça! – ela me olhou séria. – Eu, Taylor Sulley, dou minha vida em sacrifício á Érebo.

– Taylor... NÃO – Ryan gritou de algum lugar á minha esquerda.

Mas era tarde demais.

Nyx empunhou a foice, que havia caído no chão, e e cortou minha garganta com um movimento rápido, preciso e habilidoso.

Meus olhos se fecharam e tudo o que eu vi foram escuridão e trevas.