Segui os dois gêmeos feiticeiros até uma sala grande que ficava do outro lado do castelo.

Era uma sala de feitiços para a adivinhação. Nas paredes da sala havia inúmeras janelas altas, tapeçarias antigas e empoeiradas, mesas pequenas com um monte de objetos antigos estranhos; encontrei até uma bola de cristal. Nas mesas também havia facas e cornucópias de prata. Cântaros de prata e ouro eram vistos nos quatro cantos da sala e exalavam um tipo de fumaça esverdea-da.

– Que lugar é esse?- eu perguntei a ninguém em especial.

Silas se voltou para mim e olhou em volta.

– Esta sala tem muitos nomes entre os estudantes de Ariadne. O mais comum é Manteio, que vem da palavra grega para adivinhação- ele me olhou e deu de ombros.- Uma falta de criatividade, se você quer saber a minha opinião.

Klérigo se sentou atrás de uma das mesas e me convidou a sentar na cadeira a sua frente. Eu obedeci.

A mesa em que sentamos era decorada com um pano roxo escuro que continha uma lua cheia no centro. Em cima da lua, repousava uma grande bola de cristal, que estranhamente tinha uma fumaça perolada dentro. Nas quatro extremidades da bola de cristal, havia uma adaga de prata com cabo envolto em couro preto. As laminas das adagas estavam apontadas para a bola de cristal.

Silas apareceu ao meu lado usando uma longa túnica pratada que cobria todo o seu corpo. Só quando o vi com essa túnica que eu percebi que Klérigo também a usava.

– Senhorita Sulley!- chamou Klérigo, me fazendo desviar a atenção das roupas de Silas. -Por favor, apóie suas mãos na bola de cristal.

Eu olhei para ele com desconfiança, mas enfim acabei obedecendo e colocando as mãos na bola. De imediato eu senti uma sensação gélida tomar conta do meu corpo. Mas não era uma sensação normal; parecia que minhas mãos tocavam a própria Morte.

– Relaxe sua mente, Taylor- falou alguém atrás de mim. Me virei e vi Fedra e Ariadne na porta.- Feche seus olhos e deixe que Klérigo viaje pela sua mente.

Eu olhei para ela bem séria.

– Você quer que eu o deixe entrar na minha mente? Nem pense nisso.

Tirei as mãos da bola de cristal e a sensação de morte se esvaiu.

– Taylor, precisamos da sua ajuda para descobrir suas raízes- falou Ariadne.- Não queremos lhe fazer mau algum. Apenas queremos saber o que você é.

Eu me levantei sobressaltada.

– Eu sei quem eu sou. Sou Taylor Sulley, uma estudante da faculdade normal que fui seqüestrada por um bando de garotas malucas que acham que são descendentes de deuses gregos.

– Você pode ser tudo, senhorita Sulley, menos uma garota normal- falou Silas atrás de seu irmão.

Eu olhei para ele e depois para Klérigo.

– Vai! Diga que sou anormal também. Você é o único que ainda não fez isso.

O feiticeiro me olhou com expressão séria.

– Eu, ao contrário de todos aqui, procuro saber a verdade antes de dar meu veredicto. Mas no seu caso, só poderei dar esse veredicto se você me permitir olhar a sua mente, se me deixar estudá-la, vou poder te dar as respos-tas que você tanto procura.

Eu olhei para ele séria.

– A morte do meu pai... a identidade da minha mãe...

– Tudo o que você quiser... ou até mesmo mais que isso.

Engoli em seco e olhei para Ariadne atrás de mim e depois me voltei para Klérigo.

– O que vai acontecer comigo enquanto você estiver olhando a minha mente?

– Nada...você estará em um transe, mas terá consciência das minhas ações sobre as suas memórias- falou Klérigo.- E você poderá me expulsar da sua mente a qualquer minuto, se assim desejar. Nem mesmo no mundo da magia nós nos esquecemos do assim chamado livre-arbítrio. Você tem liberdade para escolher o que achar melhor para si.

Eu olhei para ele seriamente.

– E se eu disser que não?

Klérigo deu de ombros.

– Você tem a minha palavra de que poderá ir embora quando quiser e ninguém irá te interromper.

Eu olhei para ele, para Silas e depois para Ariadne; enfim me voltei novamente para a bola de cristal e me sentei na cadeira, de frente para Klérigo.

– Faça!

Klérigo olhou para os outros que estavam na sala e falou para todos.

– Espero que vocês aprendam que não é forçando os convidados que teremos a confiança deles- depois ele olhou para mim. -Perdoe-me pela falta de hospitalidade deles, não toda dia que temos conosco uma feiticeira tão poderosa...

– Não sou uma feiticeira, senhor!- eu falei para ele.

– Isso é o que nós vamos descobrir.

Klérigo me pediu para colocar as mãos novamente na bola de cristal; dessa vez eu obedeci e fiquei com as mãos ali.

– Relaxe seu corpo, senhorita Sulley. Tente diminuir ao máximo seus batimentos cardíacos. Imagine-se entrando em um mundo do qual só você tem acesso.

Fiz o que ele mandou, fechei meus os olhos e me imaginei voltando ao meu mundo, o mundo normal, aquele do qual eu fui tirada. Nele eu vi Derick vindo em minha direção para me abraçar como se fosse um namorado normal; o Sr. Sherman também estava nesse mundo, sorrindo para mim. Havia árvores e flores de diversas cores, o sol brilhante iluminava meu rosto com um calor acon-chegante.

Então tudo desmoronou.

Derick e o Sr. Sherman foram sugados por um tornado de escuridão. O sol que antes iluminava o meu mundo foi coberto por uma espessa camada de trevas e uma grandiosa lua negra tomou seu lugar. As flores queimaram com fogo negro, as árvores caíram ao chão e o meu mundo fio reduzido a cinzas. Emquanto eu observava, uma grande forma negra se ergue diante de mim e tentou me bater com sua mão de cinzas; mas antes que a mão pudesse me tocar, eu voltei ao presente, com Klérigo recitando um encantamento em uma língua estrannha enquanto tocava minha testa.

– Solte-me!- eu ordenei á ele, mas o feiticeiro continuou a recitar o em-cantamento.- Klérigo, você me prometeu que me daria a liberdade de escolher.

Silas veio até mim e também tocou minhas testa.

– Durma senhorita Sulley; precisamos que você entre em seu mundo no-vamente para que saibamos o que esta por vir.

Eu tentei protestar mas minha visão ficou turva e eu perdi o consciência, voltando para aquele mundo de escuridão e cinzas.

Agora a cidade estava completamente destruída; os prédios altos se tor-naram escombros, as casas queimavam em fogo negro, o ar estava tomado por uma espessa nuvem de poeira escura e um grande abismo havia se aberto no chão.

Aquele abismo parecia não ter fim e o nevoeiro que tomava conta da cidade parecia que era originado dele. Em volta do abismo, estranhas formas se aglomeravam. Pareciam pessoas, mas seus rostos era uma mascara sem expres-são, os corpos eram translúcidos e não mais físicos, de maneira que todo e qual-quer obstáculo era ultrapassado por eles. Estavam mortos.

A forma negra que tentou me agarrar ainda estava ali, mas parecia ignorar minha presença, como se eu fosse só mais um dos espíritos ali.

Foi então que uma forma ainda mais escura se ergueu atrás de mim e agarrou meu pescoço.

Comecei a me debater e a chorar, mas nada adiantava. A coisa que me agarrou parecia não ter pressa para me soltar. Tentei virar a cabeça para olhar meu capturador, mas pude ver nada, apenas sombras e escuridão. Parecia que a fumaça do abismo havia se levantado e tomado qualquer forma, e escolheu a que mais se assemelhava á uma forma humana, mesmo que de forma estranha.

O ser enevoado me levou para frente e estendeu a mão que me segurava para a outra coisa, a que tentou me agarrar antes. Aquele ser era mais humano do que o primeiro, não fosse pelo tamanho e o fato de que nada no seu corpo era visível, apenas a silhueta. A criatura tinha mais de dez metros de altura e parecia vestir um longo e pesado vestido negros.

Enquanto a criatura que estava de vestido se inclinava par me pegar, uma luz branca brilhou no céu e várias formas luminosas se aglomeraram ao meu re-dor, como se estivessem me protegendo. Uma das formas pairou na minha frente enquanto as outras tentavam acertar as criaturas escuras com rastros de luz que pareciam espadas flamejantes. Ela parecia familiar a mim, mas eu não en-tendia o por que.

Então minha visão voltou a ficar turva e Ariadne me ajudou a levantar.

– O que aconteceu?- perguntei

Todos naquela sala me olhavam com rostos assustados e confusos. Eu não entendia o motivo de tanto apavoro. Foi só um sonho. Não foi?

– Será que da pra alguém me responder!- eu gritei nervosa.

Fedra deu um passo em minha direção.

– Acalme-se, Taylor.

– Me acalmar? Como posso me acalmar quando eu acabei de quase ser morta por uma coisa feita de fumaça e escuridão? Quero saber o está acontecendo. Agora.

Silas e Klérigo estavam em um canto as sala, ambos pareciam muito mal.

– O que eu fiz com eles?- perguntei

Ariadne me olhou e colocou as mãos nnas minhas costas.

– Vamos Taylor; eu tenho que te contar uma coisa.

– O que?

– Uma história antiga sobre o meu povo.

Eu olhei para os gêmeos no canto da sala e fiquei pensando no que eu fiz para deixá-los desse jeito.

– Mas e Klérigo e Silas? O que eu fiz com eles?

– Você não fez nada! As suas visões fizeram eles entrarem em um transe. Ambos estão consultando Moros sobre o que significa as suas visões.

– E eles vão ficar bem?

Ambas as garotas assentiram e me levaram para fora da sala, a porta se fechando enquanto eu observava os gêmeos mais poderosos da história tentando desvendar meu pesadelo.