Filhos do Poder – Devotas da Magia
7 Luz e Trevas
Notas iniciais
Depois de deixarmos Silas e Klérigo em seu transe futurista, Ariadne e Fedra me levaram para o salão do trono novamente; não sei como elas podiam ficar tão calmas, considerando que, como Maggie me falou, os gêmeos videntes eram a fonte de poder das feiticeiras.
– Eu lhe disse que Silas e Klérigo irão ficar bem, senhorita Sulley- falou Ariadne.- Não precisa se preocupar com eles; até porque se os gêmeos morre-rem, você nunca se tornará uma feiticeira, então para você é até vantajoso.
Eu a olhei com a testa franzida.
– Você acha que eu quero a morte deles? Eu nunca vou desejar isso Ariadne. E para com isso; por que você insiste tanto em ficar entrando na minha cabeça?
– Porque a sua mente é fraca. Você não tem o poder de que precisa para ocultar seus pensamentos; até mesmo um ninfa poderia te vencer em uma batalha, e ninfas são as feiticeiras mais fracas.
Eu bufei.
– Dane-se as ninfas, eu quero saber o que esta acontecendo. O que eu fiz com Silas e Klérigo?
– Você não fez nada, Taylor; pare de ficar se culpando por ter feito algo que eu já falei mais de mil vezes que você não fez. Eu a trouxe até aqui porque quero lhe contar uma história...
– Sério? Você acabou de ver que Silas e Klérigo estão tentando desvendar um pesadelo que eu tive com duas sombras que destruíram meu mundo e quer me contar uma história.
Ariadne olhou para Fedra e falou:
– Você não me avisou que ela era tão chata assim.
Eu olhei para ela e franzi a testa.
– Olha aqui Ariadne, eu posso não ser uma feiticeira, mas posso te dar uma surra se você não calar essa boca.
Aproximei- me dela com os punhos cerrados.
Foi então que a porta se abriu e três garotas entraram.
Uma delas eu reconheci como a garota que me ajudou na sala de treina-mento, Maggie, em seu vestido preto longo.
A garota á esquerda de Maggie era alta; não aparentava ter mais de dezenove anos de idade. Tinha cabelos pretos que, assim como os de Maggie, estavam trançados e jogados sobre os ombros, sua pele era quase reluzente, co-mo se fosse uma lua cheia. Ela usava um longo vestido prateado, mas, o que mais me chamou a atenção nela, foram os olhos. Eles eram púrpuras como o tom de uma violeta. Em seu pescoço ela tinha um colar em forma de lua cheia.
A outra garota era alta, tinha um corpo esguio e atraente, seus cabelos, vermelhos escuros, eram um pouco mais claros que os de Ariadne, e estavam presos em um coque apertado; os olhos, assim como os da outra garota, eram púrpuras, mas tinham uma tonalidade mais intensa. Os lábios dela eram volumosos e avermelhados e as maças do rosto eram rosadas; a pele clara como um nevoeiro. Ela usava um longo vestido verde esmeralda que marcava todas as curvas de seu corpo. Em seu pulso, ela tinha uma pulseira de prata reluzente.
– Febe? Astéria? O que fazem aqui?
A garota com o colar me olhou séria e disse, com uma voz que se assemelhava ao som de uma rajada de vento em uma noite escura.
– Precisamos de ajuda!- ela olhou séria para Ariadne — O Palácio de das 7 Luas foi atacado pelos Viajantes das Trevas.
Ariadne e Fedra se entreolharam sérias.
– Mas isso não é possível... todos os Viajantes foram mortos durante a grande batalha dos tempos antigos.
– Nós sabemos disso! – Ela apontou com o queixo para mim. – E quem é essa?
– Esta é Taylor Sulley, nós a trouxemos do mundo mortal, do Rio de Janeiro.
– Mas por quê?
– Porque elas acham que eu sou uma feiticeira- falei antes que Fedra ou Ariadne respondessem. – E vocês quem são?
– Eu sou Febe! – falou a garota. – E esta é minha irmã mais velha, Astéria. Nós somos as Selenitas, filhas de Selene, a deusa da lua.
– Mirian me falou de vocês.
– Ela é uma grande protetora, a Mirian. Foi ela quem cuidou de você no mundo mortal? – Eu assenti. – Sorte sua, a atenção que Mirian da aos seus protegidos é muito grande.
– E você sabe muito bem disso, não é Febe?- falou Astéria.
A Selenitamais jovem olhou para a ruiva e ficou a encarando séria.
– O que você quer dizer com isso Astéria?
Astéria ficou olhando para a Febe e falou:
– Acho que todas nos sabemos do que eu estou falando.
– Eu não sei!- falei.
As quatro feiticeiras me olharam sérias até que Febe falou:
– E nunca irá sabe. Não por mim – ela se voltou para Ariadne.- Mas nós viemos até vocês para falar sobre o ataque dos Filhos Infernais.
– O que vocês esperam que nós do Castelo de Luz façamos?
– Nós viemos até aqui á mando de Lady Samantha pedir auxilio nos feitiços de proteção.
– Mas vocês tem a maior rede de proteções mágicas desse mundo. Por que necessitam da nossa ajuda para isso?
– A maioria de nossas guerreiras foi morta durante o ataque; uma delas foi Phoebe, que era a que tinha a magia mais poderosa do Palácio das 7 Luas, com exceção de Samantha é claro.
– Quem é Samantha?- perguntei.
– A líder das Selenitas. Ela comanda as garotas que seguem Selene.
Eu assenti.
– Tudo bem, mas e quem são os Viajantes das Trevas?
Febe me olhou e sorriu pela primeira vez.
– Quando foi que você começou seu treinamento?
– Não comecei. E nem pretendo começar.
– E por que não?- perguntou Astéria.
– Porque eu não sou feiticeira.
– Mentira!- falou a ruiva. – Você é sim uma feiticeira.
– E como você sabe disso?
– Sou filha da deusa da magia; assim como minha mãe, eu posso sentir o poder de uma feiticeira, e você, Taylor Sulley, possui esse poder.
– E por que você acha que sabe alguma coisa sobre mim?
Ela me olhou séria.
– Eu li sua mente, que, para ser sincera, eu não sei como ainda não foi possuída pelas forças malignas do seu mundo, fraca do jeito que ela é.
– E lá vamos nós de novo. Quando é que vocês, feiticeiras, vão parar de falar que a minha mente é fraca?
– Quando você aprender a se controlar.
Eu olhei para as cinco feiticeiras com raiva. A única que se mantinha ca-lada era Maggie, tanto é que quase me esqueci que ela estava ali.
– E você, Maggie? Qual é a sua opinião? Também acha que sou fraca?
A garota me olhou aflita e nervosa.
– Não, senhorita Sulley, eu...
– Não me chame de senhorita. – falei. – Elas são suas comandantes e não eu. Estou perguntando a sua opinião como sua amiga.
Maggie olhou para Ariadne e para Fedra.
– Não posso dar a minha opinião em casos como esse...
– E por que não?- perguntou Fedra. – Maggie, você é uma feiticeira como qualquer outra, seus poderes são mais poderosos do que você imagina.
Maggie olhou para mim e falou:
– Você não é fraca, Taylor, mas acho que sua aprendizagem mágica pode-ria ser mais bem treinada se você decidisse ficar conosco.
Olhei fundo em seus olhos e vi que ela não queria que eu ficasse apenas pelo treinamento de feiticeira.
Voltei-me para Ariane e falei:
– Tudo bem, eu irei ficar. – Ariadne abriu um largo sorriso. – Pela Maggie, não por vocês.
– Não me faz diferença pelo o que você vai ficar; o que me importa é que você aceitou o convite.
Meus olhos pesavam tanto que eu quase cai no chão, na frente de todas aquelas feiticeiras.
– Você esta cansada! – falou Fedra. – Maggie, por favor, leve Taylor ao seu aposento novamente.
– Não! – eu falei alto. – Eu estou bem. Ariadne, você me falou que queria me contar uma história sobre o seu povo. Fala das feiticeiras?
– Na verdade não... eu estava falando dos deuses.
– Deuses?
– Sim, nós, as feiticeiras, temos nossos poderes mágicos porque temos uma ligação com os deuses antigos- ela se virou e foi se sentar em trono doura-do. – Por favor, Taylor,acomodes-se.
Olhei de um lado para o outro, na havia onde eu me acomodar.
Fedra percebeu minha confusão e acenou com a mão; atrás de mim, uma pequena cadeira de pedra emergiu do chão. Eu me sentei.
– O que eu vou te contar, Taylor, aconteceu a muitos anos, em um tempo anterior ao próprio Tempo, onde escuridão e trevas predominavam sobre tudo o que era bom em nosso mundo, tanto no meu, quanto no seu.
“ Havia uma deusa chamada Nyx, a deusa obscura da Noite e a rainha so-berana das trevas, que era a mãe dos maiores terrores que nos açoitam nos dias atuais: a Morte, as Guerras, as Matanças, a Discórdia, a Miséria, o Destino, en-tre outras aberrações desse mundo tão atormentado.
“ Mas mesmo sendo uma deusa da maldade, Nyx teve, ao se unir com seu marido, o deus da Escuridão, Érebo, crianças que eram a personificação do bem, que deram esperanças aos humanos. Hemera, a deusa primordial do Sol e da luz, e Éter, o deus luminoso, o Guerreiro da luz lunar. Ambos eram bons e não faziam uso do caráter mal e terrível dos seus irmãos das trevas.
“ Mas as crianças nunca foram bem recebidas, pois eram luminosas de-mais, o que causava aos seus irmãos demoníacos dores muito fortes. A própria Nyx os odiava, mesmo que fossem seus filhos. O ódio de Nyx pelos próprios fi-lhos era tanto que ela chegou a exilar Hemera e Éter nas profundezas da Terra.
“ Nos abismos de Gaia, a deusa-terra, os luminosos teriam morrido se a deusa ao os tivesse criado e ensinado á eles o controle sobre os próprios poderes. Foi a Mãe- Terra quem ensinou aos luminosos tudo o que deveriam saber para derrotar os desuses da escuridão.
“ Hemera e Éter, juntos de um exercito de outros deuses da luz que uma vez foram banidos da superfície para as profundezas da Terra por Nyx e Érebo, treinaram seus poderes durante muitos anos, até atingirem a maturidade e ter os verdadeiros poderes de um deus primordial. E então eles foram á guerra.
“ Durante o combate, que hoje em dia é conhecido como A Batalha entre o Bem e o Mal, ambos os exércitos lutaram com grande força e fulgor, fazendo uso de poderes que somente um primordial é capaz de ter. Nyx deu origem á mais de seus demônios, de modo que os luminosos tiveram que recorrer á poderes que eles próprios juraram jamais usarem: os poderes de Criação.”
– Mas por que eles não queriam fazer uso desses poderes?- perguntei.
– O deus Caos era o criador de tudo o que havia no mundo – explicou Fe-dra. — A Terra, Gaia, era sua filha mais velha, e ela foi seguida pelo Amor Cria-dor, o deus Eros, pelos abismos demoníacos do Submundo, o Tártaro, a Eterna Escuridão, Érebo, e, finalmente, nasceu a obscura Noite, Nyx.
– Assim sendo – falou Astéria – os poderes de Criação eram apenas uma dádiva do Caos, nenhum outro deus poderia fazer uso dele. Nyx já havia quebra-do essa regra ao dar a luz seus filhos satânicos, e nem Hemera, e nem Éter, ousavam infligir a lei novamente.
– E então... o que aconteceu? – perguntei.
“ Depois que Nyx e Érebo criaram mais demônios para combater os luminosos, Hemera e Éter, com o auxilio ancestral de Gaia, receberam a permissão do deus criador para que pudesse dar vida á novas formas de luz, que poderiam dar fim á Nyx e Érebo e trazer a paz para o mundo, nos libertando da tirania dos primordiais obscuros.
“ Éter, como sendo o deus luminosos que da vida á escuridão, canalizou uma quantidade consideravelmente grande de seu poder para que pudesse dar origem á um imenso globo de vidro prateado, uma forma de luz esbranquiçada que, mesmo com seu brilho tímido, ilumina até a mais sombria das trevas. Os mortais, até os dias de hoje, chamam esse globo de Lua.
“ Hemera, a poderosa deusa da luz incendiária, usou todo o seu poder para dar vida á uma grande estrela feita de ouro e fogo, uma fonte de iluminação celestial, que não só dava aos guerreiros da luz forças, como também, coragem para batalhar e combater os demônios da Noite. Sol é seu nome nos dias atuais.
“ Após criarem o Sol e a Lua, os primordiais da luz unificaram os poderes de seus aliados e deram vida ás Estrelas, e as usaram como armas esféricas con-tra os filhos da noite. Muitas Estrelas morreram na grande batalha, mas outras sobreviveram para contar as suas histórias. “
– Você esta me falando que as estrelas eram como... deuses? – interrom-po novamente.
– Sim... e não! – eu á olhei bem séria. – É difícil de explicar, Taylor, mas as Estrelas são como corpos celestiais que possuem vida própria, motivo pelo qual algumas delas caminham pelos céus.
“ E com o uso das Estrelas e os poderes onipotentes dos exércitos luminosos, as forças do bem e da luz venceram a grande batalha, exilando os primordiais das trevas para a parte mais profunda do Submundo, o Tártaro. Nyx foi separada de seu consorte para não voltasse a tramar contra a luz, sendo atirada nas partes mas obscuras do Tártaro, enquanto que Érebo foi aprisionado pelos poderes de Hemera e Éter nas profundezas do rio Aqueronte, a fronteira entre o mundos dos vivos e o país dos mortos. “
O salão ficou silencioso ao fim da narrativa de Ariadne.
Varias perguntas me enchiam a cabeça, mas, naquela hora, nada prendia a minha atenção. Enfim, eu consegui perguntar:
– E o que isso tem a ver com tudo o que aconteceu hoje?
Ariadne olhou pára Astéria e ambas ficaram se encarando, aflitas, como se soubessem de algo que não podiam revelar aos demais.
– O que vocês sabem? – perguntou Febe.
Eu olhei para ela e depois para Ariadne e Astéria.
– O que vocês sabem? – fiz a mesma pergunta.
Ariadne respirou fundo.
– Eu sou uma feiticeira imortal – ela falou. – Tem mais de mil anos que caminho por esse mundo e já vi muitos deuses das trevas mas nenhum teve a presença mais forte e assustadora do que a que eu vi no seu pesadelo. Um ser as-sim, com tanto poder de magia negra,... eu só consigo pensar um que tenha tanto poder de destruição.
– Hades? – perguntou Febe.
Astéria fez que não.
– O poder da criatura do seu sonho – ela falou para mim – é o poder de um deus primordial ... nenhum outro possui tanto poder para destruir um mun-do inteiro em poucos segundos, como aconteceu em seu pesadelo.
Eu olhei para as duas feiticeiras seriamente.
– Você esta dizendo que a criatura do meu pesadelo é um deus... ou uma deusa... primordial?
– E não qualquer deusa – falou Astéria. – Nyx!
Olhei para Febe, que estava quase tão espantada quanto eu, e falei:
– Nyx? A deusa primordial das trevas apareceu em meu sonho? Para que? Dar um oi?
Ariadne me olhou com ar de reprovação.
– Isso não é piada, Taylor. Nyx é a deusa mais perversa que já caminhou pela Terra, foi a criadora dos nossos maiores medos; nada nessa história é piada.
– Mas se for mesmo Nyx a coisa que apareceu no meu sonho, por que essa agitação toda? Você não falou que ela foi presa na parte mais fundo da Terra?
Astéria comprimiu os lábios e olhou séria para Ariadne, falando como se eu e as outras garotas não estivéssemos ali.
– Então isso explicaria a aparição repentina dos Viajantes das Trevas.
– Quem são esses Viajantes das Trevas? – perguntei de novo.
– São os lobos infernais criados por Nyx e por um de seus primeiros filhos, Fenrir, o grande lobo que, segundo a mitologia nórdica, se erguerá contra as for-ças de Odin, o deus da guerra, e o devorará por inteiro no fim dos tempos.
– Isso é verdade?
– Depende daquilo em que você acredita.
– Como assim?
Antes que ela pudesse responder, as portas tornaram a se abrir e um homem entrou no salão e eu prendi a respiração.
O homem era alto e levemente musculoso, com seus cabelos claros e olhos de um verde profundo, como nas vezes em que tinha que dar uma bronca em algum babaca que conversava durante suas explicações. O terno fora trocado por uma armadura de bronze luminosa até demais para que meus olhos pudessem enxergá-lo direito. Ele continuava com o ar carismático estampado nos olhos, mas esse carisma dividia espaço com um ar de força e superioridade que ele possuía.
Prendi a respiração até que não pude mais segurá-la e falei, indignada.
– Sr. Sherman?
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