Filha de Apolo - Lights
4 Punição
*Isaac*
Já era a segunda vez que ela me dizia para não sair de casa.
“É perigoso, não vale a pena!” falava com a certeza na voz de que eu não dava a mínima “Se você se machucar de novo, saiba que não precisa nem passar por aquela porta!”
E, realmente, eu não estava dando a mínima. Nunca obedeci Sarah, porque obedeceria agora?
Eu pensava nisso enquanto caminhava pelos túneis vazios do metro abandonado com Gael saltitando alegremente a minha frente, as patas enormes fazendo um som suave e abafado contra o chão.
Desde o primeiro dia em que o lobo ficou o reformatório, Sarah vinha reclamando dos pelos soltos no tapete da biblioteca. Foi uma surpresa para todos encontra-la sentada no sofá da sala, de braços cruzados e a careta de desaprovação de sempre.
Mas, como sempre, eu não estava nem aí para o que ela dizia. Gael era um bom companheiro e sempre gostei de cães, ou seja, com Sarah querendo ou não, Gael ficaria no reformatório e pronto.
Eu não prestava atenção por onde andava e tropecei em um dos trilhos. Apoie-me sobre as mãos assim que cai, e fiquei alguns segundos encarando o chão, meu rosto a poucos centímetros dele. Gael aproximou-se e farejou meu rosto, o nariz gelado e úmido relando em minha testa.
–Eu estou bem – falei me sentando e deixando o lobo deitar a cabeça em meu joelho. Afundei os dedos no pelo macio no alto da cabeça dele por uns instantes antes de ouvir um sibilar no fundo do túnel.
Nós dois erguemos a cabeça ao mesmo tempo naquela direção, as orelhas de Gael erguidas prestando atenção em cada som, por menor que fosse. Levantei-me devagar e tirei duas facas do cinto, girando-as em minhas mãos suando de expectativa. Já fazia um tempo que eu não tinha uma luta, que eu não me divertia e tinha o prazer de fazer algo pesado e cansativo.
O sibilar ficou mais alto, como uma cobra muito grande. Um sorriso se formava involuntariamente em meus lábios quando ela surgiu, os corpos reptilianos deslizando pela poeira.
–É um tolo por ter vindo aqui, sssemideusss – sibilou, o rosto verde e escamoso enrugado de raiva.
–Discordo – acumulei o máximo de insolência que consegui na voz – Você quem não devia ter saído da toca. Não correria o risco de se machucar tanto.
A dracaena sorriu, os dois corpos de serpente no lugar de suas pernas se revolvendo impacientemente.
–Acha messsmo que pode comigo? – sussurrou com uma voz como facas raspando vidro.
–Se eu negasse tal coisa, estaria te iludindo – varri seu corpo com os olhos da forma mais irritante possível – E além do mais, você não está em boa forma.
Isso foi o bastante para tira-la do sério. O monstro sibilou ameaçadoramente, mas eu nem sequer saí do lugar. Ela avançou em uma velocidade surpreendente e me desviei a tempo, porém a ponta da cauda chicoteou minha perna, que cedeu.
Cai com um dos joelhos no chão e a dor correu minha perna, fazendo os músculos tremerem como a corda de um vilão que estivesse esticada demais e então arrebentasse. Pelo canto do olho pude ver Gael se lançando contra a dracaena e cravando os dentes em seu ombro.
O monstro rugiu de dor e agarrou o lobo, jogando-o de encontro a parede do túnel. Gael caiu e ganiu alguns instantes antes de ficar em silencio, o peito subindo devagar. Fiquei de pé, mesmo com a perna pulsando em agonia.
Quando a dracaena atacou de novo estendi uma das facas e consegui abrir um rasgo em sua barriga. O sangue escuro e venenoso escorreu, lambendo o tronco e os corpos de serpentes.
Ela se lançou outra vez, e agora enrolando minhas pernas com um dos corpos e puxou, me fazendo cair. Cortei o corpo com uma das lâminas, fazendo-o cair inerte, o sangue vertendo da ponta cortada. A dracaena berrou com fúria enquanto tombava. Tentei me arrastar para longe, mas ela se esticou e me prendeu com o corpo. O cheiro do monstro era quase insuportável, como algo azedo misturado a frutas que passaram do ponto.
–Você é meu agora, filhote de deus! – ela sibilou, revelando as presas que pingavam veneno.
Eu nunca fui derrotado antes, muito menos por um monstro tão fácil quanto uma dracaena, e não seria agora. Preparei as facas, pronto para enterra-las no peito dela, quando esta paralisou e emitiu um som de engasgo no fundo da garganta. Então seu corpo caiu mole e empurrei-a para o lado. Uma espada estava cravada em suas costas.
E eu sabia exatamente o que acontecera.
–Eu tinha tudo sob controle – resmunguei me erguendo sobre os cotovelos. A luz no túnel era fraquíssima, mas ainda assim pude vê-lo se aproximando.
–Sei – Dakota estendeu a mão e a segurei, me erguendo com a ajuda dele. Minhas mãos latejavam e ardiam por tê-las raspado no chão áspero. Deviam ter algumas farpas nelas também – Você não tem um pingo de juízo.
Dei uma cotovelada no braço dele enquanto pegava minhas armas no chão. Minha perna atingida tremia com o esforço e parecia que não ia me aguentar mais por muito tempo.
Guardei as facas e manquei até Gael. Ele já havia acordado e agora balançava um pouco a cabeça, tentando se situar. Segurei-o pelo tronco e o coloquei de pé. O lobo cambaleou até que conseguisse se firmar e erguer os olhos alertas da minha perna para mim, preocupado.
Fiz um afago em sua cabeça para mostrar que estava tudo bem.
–Vamos logo – Dakota franziu a testa meio constrangido. Às vezes parecia que ele tinha ciúmes da amizade que eu tinha feito com o lobo – ou eu é quem vai se encrencar.
–Não pedi que viesse, garoto bode – murmurei indo atrás dele de volta a saída. Eu havia começado a chamar ele assim desde que decidiu deixar a barbicha crescer. Ele dizia que era propenso a “pelos no rosto com crescimento acelerado” e que estava cansado se sempre ter que fazer a barba. Então, o apelido de bode pegou.
–Já disse para não me chamar assim.
–Ah desculpe! – exclamei fingindo sinceridade – É que as garotas adoram, não é mesmo?
–Você está com inveja.
–Ah, claro.
–É verdade – ele ergueu as sobrancelhas – Não é culpa minha se você não é másculo o bastante para isso.
–Eu faço a barba, Dake, e isso se chama higiene facial.
–Uhum – ele resmungou e revirei os olhos. Eu sabia que ele estava só brincando, mas mesmo assim me chateava perder o posto de “Cara Mais Irritante”.
Peguei um pedaço de ambrosia que estava guardando e coloquei na boca, deixando o gosto de morango me envolver e fazer-me esquecer da dor na perna que foi sumindo aos poucos.
Andamos por alguns minutos em silencio até que ele disse:
–Sarah está uma fera com você.
–Grande novidade – murmurei. Eu nunca fui o mais comportado, e por isso Sarah mantinha os olhos especialmente em mim, e caso eu arranjasse encrenca – o que era quase sempre – ela me deixava no meu quarto. Mas eu saia pela janela e fazia o que? Ia arrumar mais encrenca ainda.
–Dessa vez é sério – ele olhou por cima do ombro – Ela disse que tem uma punição especial pra você.
Arqueei as sobrancelhas e sorri arrogante. Não tinha medo de Sarah, e quanto pior a punição mais eu me divertia.
–Qual? Me jogar no East? A única coisa ruim nisso é o cheiro do rio.
Ele riu baixo.
–Eu não sei o que – Dakota deu de ombros – Mas ela disse que vai ser horroroso.
Isso me fez rir.
–Acredito. Aposto que vai me deixar de castigo, sem poder ler livros por um mês.
–Esse é o tipo de coisa que ela faria.
Chegamos ao final do túnel e saímos para a rua. O sol queimou brevemente meus olhos, mas ainda pude ver Gael correndo até a praça e pulando no meio de um monte de pombos que saíram voando assustados.
Eu e Dakota entramos em um táxi e mantive a porta aberta para que Gael entrasse e quase me esmagasse com o peso assim que deitou em meu colo.
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