Filha de Apolo - Lights
5 Sarah
*Isaac*
Abri a porta do carro e Gael saltou para fora, o rabo balançando com força e fazendo um barulho alto ao bater contra um poste de ferro.
Dakota pagou o motorista e estávamos subindo a escada da varanda da frente quando a porta se abriu. Sarah saiu e cruzou os braços o rosto vermelho de raiva.
–Porque você nunca me escuta? – perguntou com a voz baixa e trêmula, tentando se controlar.
–A pergunta é: porque eu deveria?
Ela respirou fundo e fechou os olhos. O cabelo dela descia liso e negro até o comprimento dos ombros, cobertos por uma blusa azul escuro de manga comprida.
–Vá para dentro – ela me lançou um único olhar severo, os olhos escuros brilhando de um jeito estranho. Então se virou e entrou, altiva.
–Alguém está bem ferrado – riu Dakota entrando na casa. Olhei de lado para Gael que fez a mesma coisa e fechamos um acordo.
Fui até a varanda seguido pelo lobo e entrei, fechando a porta de carvalho atrás de mim.
Subimos as escadas em espiral até o terceiro andar e tranquei a porta do meu quarto. Gael deitou-se na cama, os pelos pretos e compridos caindo no lençol branco ao ele se esfregar. Suspirei enquanto pegava uma toalha e entrava no banheiro, esperando que a água levasse embora todas as minhas preocupações.
Coloquei a toalha envolta do pescoço e passei os dedos pelo cabelo úmido, estreitando os olhos enquanto me examinava no espelho. Eu havia emagrecido um pouco naquele mês, de modo que meu rosto parecia mais fino que o normal. Também havia olheiras fundas e escuras sob meus olhos e um corte pequeno no meu lábio, que até então eu não havia notado.
Vesti a camiseta pendurada atrás da porta e saí do banheiro, jogando a toalha molhada em um cesto de roupa que ficava no canto do meu quarto. Gael roncava na cama, chutando o nada de vez em quando.
Desde que chegou eu notei que ele fazia aquilo com frequência enquanto dormia, como se tivesse pesadelos. E quando acordava, ficava assustado e um pouco agressivo, até perceber que ele tinha me chutado para fora da cama. Várias vezes eu acordei no chão porque ele me chutava com força e me empurrava, tomando a cama para si. Eu já havia dito que se ele quisesse ficar ali em cima, tinha que ser no pé, mas ele não me escutava.
Abri a porta com cuidado para não fazer barulho e desci as escadas descalço, os passos abafados na madeira fria. Sarah estava na cozinha, massageando as têmporas enquanto Sirena tinha a mão em suas costas e me olhava feio.
–Eu não sei mais o que fazer com ele... – murmurou Sarah. O cabelo escuro dela estava bagunçado e ela parecia mais cansada e estressada que o habitual.
–Porque você não pergunta? – resmunguei. Eu sei que não deveria ter dito isso, mas já estava irritado dela agir assim comigo.
–Isaac! – Sirena me repreendeu, se levantando da cadeira. Sarah segurou o braço dela.
–Não – ela meneou com a cabeça a cadeira do outro lado da mesa e me sentei, cruzando os braços sobre a mesa e esperando a bronca.
–Você já deve estar sabendo que dessa vez não vou deixar passar – disse se sentando ereta e me olhando de nariz empinado. Ela achava que fazer isso me intimidava.
–É, um pouco – ergui uma sobrancelha – O que vai ser dessa vez? Sangue de centauro na minha sopa?
Ela sorriu ligeiramente, mas não havia nada de amistoso no gesto.
–As ninfas em Manhattan disseram hoje de manhã que viram Licáon no Central Park.
Dei de ombros.
–Grande coisa, já lutei com ele várias vezes.
–Exatamente. Bem, você sabe o que Licáon tem, não é mesmo?
–Sarna, cheiro de cachorro molhado, pulgas...
–Não isso! – Sarah ergueu a mão pedindo que eu parasse e torceu o nariz de nojo – Estou falando do medalhão.
Franzi a testa e olhei para Sirena, meu coração parecia bater ligeiramente mais rápido. Ela deu de ombros e realmente parecia que não sabia de nada.
–O que é que tem? – perguntei, tendo quase certeza de que sabia do que ela estava falando.
–Vou mandar alguns semideuses atrás dele para tentar pegar o medalhão de volta. E você vai ficar em casa.
Sorri zombeteiro.
–Você acha mesmo que...
–Desde que você tenha que cuidar da garota. Sim.
O sorriso sumiu imediatamente dos meus lábios. Meu coração definitivamente batia mais rápido.
–O-o que?
–Se Licáon voltou, com certeza é por causa daquela garota... Como ela se chama mesmo? Dayannya? Bem, seja o que for, quero que você a traga para cá e tome conta dela. Não podemos deixar que corra perigo.
Eu mal ouvia o que ela dizia.
Durante aquele tempo não consegui tirar Dayannya da minha cabeça, desde os mínimos detalhes como a pele morena clara ou o jeito como o cabelo dela cacheava e envolvia meus dedos quando eu o tocava. Os olhos dela, principalmente, me assombravam a noite quando eu tinha pesadelos que a envolviam, pesadelos onde ela se machucava.
Cerrei os punhos, as juntas se sobressaindo brancas.
–E você realmente espera que eu simplesmente apareça no apartamento dela e diga: “Ei, tem um vira-lata maníaco atrás de você e minha instrutora quer que eu te proteja. Porque você não vem comigo pra Long Island onde vai perder mais alguns dias da sua vida importante fora do nosso mundo!”.
–Espero – Sarah apontou para a porta na frente da casa – E vá logo. Quando a buscar, esperem Dakota no Central Park.
Trinquei os dentes, me levantando lentamente. Chamei Gael e peguei uma faca em cima da mesa de centro na sala. Vesti as botas que havia deixado ao lado da porta.
–Isaac? – chamou Sirena quando eu havia aberto a porta e me preparava para sair – Tome cuidado.
Revirei os olhos.
–Eu só tenho que trazer ela aqui.
–Não é disso que eu estou falando – ela me lançou um último olhar preocupado e voltou para a cozinha.
Respirei fundo e encarei a rua por alguns segundos antes de reunir coragem e sair para me reencontrar com meu pior pesadelo.
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