A garota se ajoelhou sobre o tapete e esperou, pacientemente, que sua pequena aula acabasse.

Ela estava em uma cabana grande e aconchegante, feita de tecido prateado. A garota usava uma camiseta grande demais para ela, que devia ter apenas uns cinco anos. Seu cabelo castanho, da cor de chocolate, estava preso em marias-chiquinhas, uma de cada lado da cabeça, e os cachos em espiral caiam sobre os ombros pequenos.

Os olhos dela brilhavam em duas cores diferentes. O direito azul cristal e o esquerdo verde grama.

–Entendeu? – perguntou a moça sentada de frente para a garota. Ela tinha um livro de inglês aberto em cima de um dos joelhos e um arco feito de madeira clara do seu lado. O cabelo ruivo escuro e longo tinha uma presilha prateada, que o mantinha preso atrás da orelha.

–Acho que sim – respondeu a garota. O sotaque dela era muito puxado para o espanhol e ela parecia ter tido alguma dificuldade para pronunciar corretamente aquelas palavras.

–Você não pode achar – a ruiva fechou o livro e ergueu o rosto da garota pelo queixo – Tem que ter certeza.

–Como? – a garotinha franziu a testa e bufou impaciente – Olha Ally, eu prefiro ficar aqui com vocês.

–E viajar pelo mundo inteiro? – a ruiva riu e se levantou, pegando o arco e o livro – Você já está indo para Nova Iorque.

–Então você não quer que eu entre para a caçada?

A ruiva suspirou, colocou o livro e o arco em uma mesinha redonda e se ajoelhou ao lado da menina.

–Eu quero. Mas o acampamento vai acolher você até que tenha idade suficiente – ela sorriu impressionada – E viu, você já está falando inglês!

–A mamãe disse que eu só posso falar inglês, pelo menos com ela... – a menina fez uma pequena pausa – E com vocês.

–Ela disse isso mesmo?

–Disse. Menos a parte do “com vocês” – a menina pegou uma adaga que estava repousada ao seu lado. Era feita de bronze celestial e a menina passava o dedo fino e longo de uma artista pelo cabo, entalhado com a cabeça de um lobo – Alyson?

–Sim? – Alyson estava distraída arrumando uma das marias-chiquinhas da menina.

–Você acha que eu vou... Que eu vou me dar bem? Quer dizer, vou para Nova Iorque em três dias e nem sei como vai ser! – ela parecia totalmente desesperado, os olhos grandes e brilhantes arregalados – E se eu não conseguir fazer nada no acampamento? Eu vou ser esmagada na minha primeira luta!

Alyson sorriu suavemente e tirou uma mecha de cabelo da frente do rosto da menina.

–Eu sei que você vai ter alguns momentos de dificuldade. Mas quero que se lembre de uma coisa, Dayannya. As estrelas só brilham na escuridão.

Sentei-me na cama e meu corpo estremeceu ao meus pés entrarem em contato com o assoalho frio.

Agarrei a borda do colchão e pisquei várias vezes até me acostumar com o escuro antes de me levantar e ir acender a luz.

Meus olhos arderam de inicio e cambaleei grogue pelo quarto em direção ao banheiro. Abri o armário de remédios em busca de uma escova de cabelo e um elástico.

Bufei em frente ao espelho, vendo a mim mesma escovar meu cabelo e depois prendê-lo em um rabo-de-cavalo, deixando a franja solta.

Era como um dia normal, tirando a parte de eu estar bem longe da minha casa. Lavai meu rosto e o sequei usando uma toalha pendurada ao lado do espelho.

Voltei ao quarto e ergui a camiseta pra trocar meu curativo quando senti falta de alguma coisa.

Olhei em volta procurando por Gael, porém ele havia sumido. Troquei as ataduras rapidamente e abri a gaveta do criado-mudo. Ela estava alí, repousada sobre a madeira, com sua lamina de bronze celestial e o cabo de ferro e madeira forte, entalhado no pomo em uma cabeça de lobo prateada.

Virei a adaga na minha mão. Foi aminha primeira arma, e me lembrei das caçadoras rindo ao ver minha expressão quando recebi a adaga.

Apertei o cabo resistente e passei o dedo levemente pelo fio da lamina, tomando cuidado para não me cortar. Eu sentia falta das caçadas, mesmo que Ártemis tivesse mentido para mim todos aqueles anos.

Respirei com força e coloquei a arma sobre o criado-mudo quase derrubando um copo vazio, exceto por uma rosa seca, as pétalas cinzentas e fendidas caídas dentro do copo.

Meu coração apertou ao ver a flor daquele jeito, acabada e sem vida. Peguei uma pétala e ela se desfez em pó na minha mão, caindo sobre o copo.

Deixei aquelas coisa de lado e abri a porta do meu quarto, levando um susto. As luzes do corredor estavam baixas, deixando um brilho suave e quase imperceptível.

Olhei para o despertador que marcava 05h37min da manhã, a hora que eu acordava na minha rotina de sempre. Acho que fiquei tão acostumada por teu voltado ao meu horário normal, que acordei no tempo dele.

Estreitei os olhos e fui para o corredor, fechando a porta do quarto sem fazer barulho. Caminhei devagar até as escadas, usando a parede para me orientar e pisando na ponta dos pés.

Desci as escadas e parei no último degrau, espantada.

A sala estava iluminada pela luz branca e resplandecente da cozinha.

Fiquei parada na base da escada, meu coração parecia estar pulsado na garganta.

Ouvi algo parecido com cerâmica sendo colocada suavemente sobre a mesa de madeira da cozinha. Soltei a respiração devagar e caminhei sem pressa até lá, minhas pernas tremendo ligeiramente. Coloquei a mão no batente do portal da cozinha e parei de respirar novamente.

Isaac estava sentado à mesa, segurando um lápis que pairava sobre uma folha de papel. Ele ergueu o olhar, confuso, porém totalmente acordado. O garoto franziu a testa e apertou a asa da caneca bege repousada ao lado da folha de papel.

–Porque você acordou tão cedo?

Dei de ombros e fui em direção à geladeira, tendo total consciência do meu short curto, exibindo praticamente minhas pernas inteiras.

–Estou sem sono.

Ele pareceu não acreditar, mas mesmo assim voltou sua atenção para a folha e o lápis.

Abri a geladeira, meu rosto ardendo quando olhei rapidamente sobre o ombro. Isaac se mexeu desconfortável e apoiou o queixo na mão. Ele usava jeans e uma camiseta cinza amassada, como se tivesse dormido com aquelas roupas.

Respirei fundo e examinei o que havia na geladeira.

Quase nada.

Na porta, um galão de leite quase vazio e cinco ovos em péssima aparência.

Na gaveta havia um pedaço de queijo embolorado e meio tomate maduro.

Torci o nariz e olhei por cima do ombro novamente. Isaac me observava ainda com a cabeça apoiada sobre a mão. Ele ergueu uma sobrancelha e encolheu os ombros.

–O que foi?

–Do que vocês vivem? – perguntei indignada.

–Delivery, comida japonesa – ele cruzou os braços sobre a mesa – Pelo menos eles. Nem lembro quando foi a última vez que comi alguma coisa decente.

E aquilo era minha culpa. Era minha culpa ele estar mal daquele jeito, minha culpa sua vida ter sido praticamente destruída.

–Você me odeia, né? – murmurei apoiando minhas costas em uma cadeira.

–É claro que não! – a cadeira dele arrastou-se ligeiramente no chão, como se ele tivesse dado um pulo, surpreso – Porque eu odiaria você?!

Respirei fundo e fechei a porta da geladeira. Eu não ia chorar na frente dele.

–Eu estraguei sua vida, eu... – funguei o mais disfarçadamente possível. Eu não conseguiria continuar sem que as lágrimas viessem.

Ouvi ele se levantar e se aproximar de mim. Fechei os olhos quando ele colocou a mão gelada em meu ombro, apertando de um jeito carinhoso e consolador. A mão dele tinha mais cicatrizes do que eu me lembrava.

–Tudo o que está acontecendo, isso não é culpa sua – ele me virou de frente para ele e tive que erguer a cabeça para poder olha-lo nos olhos – E além do mais, minha vida nunca foi exatamente um mar de rosas.

–Mas... – passei a mão pelo meu rosto, frustrada. Aquilo não levaria a lugar algum, e eu não queria brigar com ele – Ok, só... Me promete uma coisa.

Ele deu de ombros.

–Nunca mais tente fazer eu me sentir melhor dizendo que nada disso é culpa minha.

Isaac sorriu de lado, ressentido, e me soltou.

–Se está pedindo – ele me empurrou de leve e tomou meu lugar em frente à geladeira – Agora, se não posso fazer nada para fazer você se sentir melhor...

–Isaac... – murmurei enquanto ele abria a geladeira e a analisava.

–Vou fazer seu café da manhã. Acha que isso ajuda?

Eu ri e segurei-me na borda da mesa.

–Você esta falando sério?

–Estou – ele pegou uma tigela do escorredor de louça e colocou o meio tomate, os ovos e o galão de leite – Quando eu não falo sério?

–Quase sempre – peguei a tigela das mãos dele e fechei a geladeira com o pé – Se vai mesmo fazer isso, vou ajudar você.

Isaac sorriu e pegou uma caneca em um armário, junto com um pote de chocolate em pó.

Tirei as coisas de dentro da tigela e depois quebrei um ovo nela. Podre.

–Acho que a gente não vai conseguir uma omelete com isso – resmunguei jogando o ovo viscoso e esverdeado no ralo da pia, antes que o cheiro se espalhasse.

–Deve ter pelo menos um que esteja bom – Isaac colocou no balcão a colher que usara para mexer o conteúdo da caneca, que ele pôs no micro-ondas.

Depois de mais duas tentativas, finalmente achei os ovos que não estavam estragados.

Cortei o tomate e bati tudo junto na tigela, usando um garfo. Isaac colocou a caneca com achocolatado na mesa, a fumaça doce espiralando no ar até sumir.

Ele pegou óleo e uma frigideira e os colocou no fogão.

–Sabe – ele acendeu o fogo e se apoiou no balcão -, faz um bom tempo que eu não faço nada tão... Comum.

Sorri e encarei os olhos azuis dele por um momento. Naquele momento, eu não liguei por estar usando uma roupa curta demais ou por meu mundo estar uma bagunça.

Eu não ligava para nada.

Eu só estava aproveitando ser comum.

–É. Eu também.