Filha de Apolo - Lights
12 Muro de Medo
Estiquei as pernas para baixo da cadeira de Isaac, me espreguiçando.
Estávamos sentados um de frente para o outro, dizendo alguma coisa de vez em quando e esperando a omelete ficar pronta. Incrivelmente, estava demorando bastante.
–Acho que você devia falar um pouco mais da sua vida – disse Isaac depois de um minuto – Tipo, você sabe tudo sobre mim e eu não sei quase nada sobre você.
–Minha vida não é interessante – falei recolhendo as pernas e me inclinando para frente, apoiando meus cotovelos nelas.
–Se tem você no meio, deve ser um pouco sim – ele sorriu de lado e senti meu rosto esquentando.
–Tudo bem – sentei-me ereta e pensei no que dizer – Bem... Não tenho a menor ideia de por onde começar.
–Eu já sei que você e Ártemis são bem próximas. Começa daí.
–Ok – suspirei e me preparei, como se fosse contar uma história muito longa – Então... Quando minha mãe estava grávida, ela ficou doente. E quando eu nasci os médicos acharam que ela fosse morrer e Apolo pensou a mesma coisa. Então ele pediu que Ártemis cuidasse de mim até que a situação melhorasse.
–E ela te levou para o Olimpo, mesmo sabendo da profecia?
–É – cruzei minhas pernas em cima da cadeira e continuei – Assim que minha mãe ficou melhor, Ártemis me devolveu, mas continuou... Cuidando de mim. E até isso, a profecia já havia se concretizado – esperei que Isaac fizesse algum comentário, porém ele estava prestando atenção – Então eu continuei indo para a caçada, e com cinco anos os monstros começaram a aparecer e minha mãe achou que já estava na hora de virmos para cá. Nos mudamos, passei praticamente minha vida toda no acampamento, e então... – franzi a testa, tentando evitar o olhar dele – Eu conheci você. E minha vida deu uma guinada completa.
Um sorrisinho surgiu nos cantos dos lábios dele.
–Eu posso dizer o mesmo.
Ergui o olhar, o coração batendo forte, quando um barulho de algo pipocando veio da frigideira no fogão. Levantei-me e tirei a tampa de panela que havíamos colocado sobre a frigideira, e óleo fervendo espirrou no meu dedo. Soltei uma exclamação aguda quando deixei a tampa cair no chão fazendo um estrondo alto. Isaac se ergueu e desligou o fogo rápido, ligando a torneira da pia e colocando meu dedo embaixo.
–Você consegue se machucar até na cozinha? – murmurou preocupado. Ele abriu o congelador e pegou a forma de gelo, envolvendo dois cubos numa toalha de mão.
–É inevitável – minha mão tremia ligeiramente, espirrando água no balcão. O pedaço do meu dedo em carne viva latejava, quente e inchado.
Isaac desligou a torneira e puxou meu pulso levemente, colocando a toalha com gelo sobre a queimadura. Mordi a língua quando o frio fez doer mais de início, mas então aliviou a agonia.
–Você devia tomar mais cuidado – ele me deu a toalha e foi procurar alguma coisa no armário em cima da geladeira. Quando voltou, trazia um band-aid. Isaac me segurou pelo pulso de novo, e dessa vez retesei meu braço – Não vou machucar você – ele segurou minha mão delicadamente enquanto colocava o curativo, como se eu pudesse quebrar. O toque dele me enviou ondas de eletricidade pelo corpo, assim como o jeito carinhoso que ele segurava minha mão.
Quando terminou, dobrei o dedo fazendo-o arder um pouco e olhei feio para a omelete na frigideira.
–Malditos – resmunguei pegando a frigideira e despejando o conteúdo em um prato.
–Coloque a culpa no ovo – Isaac se sentou e dividiu a omelete no meio – Nunca fui com a cara dele mesmo.
Ri e me sentei, cortando minha parte em pedaços pequenos. Depois peguei um pedaço e coloquei na boca.
–Acho que a gente se esqueceu do sal.
Ele engoliu um pedaço de omelete e depois franziu o nariz.
–Você acha?
Eu ri de novo e olhei para a folha de papel onde ele estivera escrevendo minutos atrás. Estava dividia em uma linha bem no centro, e de um lado parecia estar escrito nomes de lugares. Do outro, de pessoas.
–O que é isso? – perguntei esticando o braço e puxando a folha para perto.
–Possíveis lugares onde Elijah e Licáon podem e estar. E também pessoas que podem saber disso.
Examinei as palavras e uma delas me chamou a atenção. Estava em latim.
–O que é... – estreitei os olhos tentando ler direito – Oblitus?
–“Esqueça” – ele traduziu – É uma boate.
Ergui uma sobrancelha.
–Uau. Consigo até imaginar Elijah em uma boate.
–Eu não disse que ele estaria lá.
Franzi a testa.
–Então...
–A Oblitus é uma casa noturna para monstros e semideuses – ele explicou – Qualquer mortal que entre lá, vai esquecer completamente da noite que teve. Por isso “Esqueça”. E além do mais, os lobisomens passam um bom tempo lá.
–Ah. Eu não fazia ideia de que isso existia.
–Eu vou lá pelo menos uma vez por mês. Conheço um cara que com certeza sabe onde Licáon está.
–Quem?
Isaac apontou para um nome grifado na segunda coluna. Erik Gustav.
–Lobisomem? — perguntei desconfiada.
–Não. Mas ele mantém contado com os mafiosos do mundo licantropo.
Cruzei as pernas e soltei meu rabo-de-cavalo, arrumando o cabelo logo em seguida.
–O que ele é então?
–Filho de Ceres. Poderoso.
Deixei a folha de lado e encarei Isaac. Os olhos azuis dele brilhavam com a expectativa de futuramente conseguir arranjar uma briga.
–Vamos para lá?
Ele franziu a testa parecendo atônito.
–Eu não falei nada de você ir.
Abri a boca, mas as palavras ficaram entaladas no meio do caminho. Ele disse aquilo mesmo?
–Como assim?
–É perigoso. Se nós formos você vai ficar aqui.
–Você não...
–Eu tenho o direito sim de dizer para onde você pode ir – ele arqueou as sobrancelhas, arrogante.
–Isso não é justo! – me levantei e tive que me segurar para não socar a mesa.
–Quando aceitou vir para cá – ele também se levantou, e quando estava bravo parecia ainda mais alto do que realmente era – eu não mencionei que haveria alguma coisa justa.
–Mas...
–Você tem que entender – ele me interrompeu – que eu faço isso para te proteger. Eu me preocupo, Dayannya, eu não quero per...
–O que está acontecendo? – a pergunta veio de trás de mim.
Virei-me em um pulo e encontrei Sirena, as faces enrubescidas. Ela olhava confusa de mim para Isaac.
–Nada – murmurei – Onde está Gael? – dirigi a pergunta para Isaac.
–Na sala de treinamento – ele respondeu. Quando me virei para ir até lá, ele me segurou pelo braço – Dayannya...
Puxei o braço me livrando dele e, sem dizer nada, passei por Sirena e subi as escadas correndo.
Dos últimos degraus pude ver que a porta da sala de treinamento estava aberta, lançando uma luz tênue no corredor.
Quando terminei de subir as escadas, comecei a andar devagar por ele, querendo não fazer barulho para não acordar Dakota e Chris. Cheguei à sala e empurrei a porta com cuidado, e mesmo assim suas dobradiças rangeram suavemente, como em um filme de terror. Gael estava deitado no meio da sala, a cabeça negra sobre as patas dianteiras, porém ele ergueu-se assim que me viu. Ajoelhei-me e depois me sentei com as pernas cruzadas ao seu lado e o lobo se deitou novamente, dessa vez com a cabeça apoiada em meu joelho.
Uma pergunta veio a minha cabeça e ficou voltando em meus pensamentos: “Quem é você?”. Aquela altura eu já tinha certeza de que Gael nem sempre fora um animal, um lobo. Ele era inteligente demais para isso, não que os lobos fossem burros. Mas Gael agia de um jeito especial, de um jeito humano, de um jeito que muitos humanos já se esqueceram de que é o jeito certo de agir.
A pergunta surgiu novamente, clara e convicta. Fiquei tentada em fazê-la, mas duvidava de que Gael fosse responder. Era impossível.
Como se fosse muito distante, pude ouvir Sirena e Isaac conversando na cozinha, entretanto não conseguia entender uma palavra do que diziam. Pensar em Isaac fez algo ecoar em meu peito, um sentimento profundo. Doía como a amargura, a agonia, mas ao mesmo tempo era um sentimento que quanto mais, melhor para mim. Era algo que eu queria continuar sentindo, como um tipo de dor familiar que te faz se sentir bem.
Senti minha garganta apertada e meu estômago gelar quando algo duro bateu contra a parede no andar de baixo. Esperei, mas não ouvi mais nada por alguns segundos. O medo me abateu feito uma onda gigante, mas então eles continuaram a conversar. E ainda assim, não senti alivio. Eu estava apavorada. Para mim, Isaac era capaz de qualquer coisa, e então me lembrei do que ele disse de Sirena, que ela era como uma irmã para ele. Não, ele não a machucaria. O medo continuou lá, como um muro resistente que se desmorona tijolo por tijolo, muito lentamente.
Gael ergueu as orelhas, atento a qualquer som suspeito. Uma porta bateu e, um minuto depois, passos apressados subiam a escada. Como em um filme invertido, todos os tijolos do meu muro de pavor voltaram ao seu lugar, reconstruindo meus piores desesperos.
Então, uma camada de concreto de secagem rápida caiu sobre o muro quando Sirena apareceu à porta, amedrontada e com lágrimas nos olhos.
–Ele foi embora – disse com a voz falha, e o único tijolinho de esperança que restara se quebrou em mil pedaços.
O nervosismo tomava conta de mim, e aos poucos ameaçava quebrar o muro de medo como uma enchente chegando.
Já eram 6:30 da manhã, Isaac não atendia o telefone e os garotos não haviam acordado, assim como Sarah. Eu e Sirena estávamos trancadas no quarto dela, usando seu telefone para ligar para Isaac. Sempre caía na caixa postal.
–Devíamos chamar Dakota – falei quando pensei em desistir de tentar – Ele vai saber onde...
–Não – Sirena andava pelo quarto impaciente. Havíamos deixado Gael do lado de fora, de guarda – Sarah poderia acabar acordando, e isso só prejudicaria Isaac.
Respirei fundo e fiz outra tentativa, mas dessa vez a voz irritante de mulher anunciou que os créditos tinham acabado. Me joguei na cama e cobri o rosto com as mãos, frustrada.
–Ótimo – resmunguei com a cara no travesseiro. Senti Sirena sentar-se ao meu lado na cama e segurar meu braço. Virei um pouco a cabeça para olha-la através dos meus dedos.
–Nós vamos encontrar ele.
Abri os braços, minhas mãos penduradas para fora do colchão.
–Pense em algum lugar que... Que ele goste de passar o tempo – falei, me lembrando do motivo de termos brigado.
De repente, foi como se uma lâmpada se acendesse na cabeça de Sirena.
–White Rabbit.
–O que? – franzi a testa, confusa.
–É um bar, do outro lado de Long Island – Sirena parecia animada por ter se lembrado desse lugar. Ela se levantou e foi pegar uma blusa no seu guarda-roupa – Ele vive lá.
–O que Isaac iria fazer em um bar? – exclamei me sentando.
–Tudo o que se faz em um bar – ela vestiu a blusa e abriu um baú, procurando algumas armas – Beber, fumar, quebrar alguns narizes...
–Ele fuma?! – arregalei os olhos, espantada.
–Não. Mas faz todo o resto – ela me olhou de cima a baixo, o olhar desaprovador – Você devia ir trocar de roupa.
Mas eu não me mexi. Fiquei encarando meus pés, meu coração apertado e minha cabeça latejando. Ele ia se meter em encrenca, por minha causa.
–Dayannya?
Ergui a cabeça e olhei para ela. Inesperadamente, além do medo, senti uma vontade imensa de dar uma bronca em Isaac, de liberar toda a raiva acumulada. Por mais que eu gostasse dele, achei que estava na hora de dar a volta por cima. Ele ainda não tinha o direito de dizer o que eu podia ou não fazer.
–Vamos logo.
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