Fifty Shades of Doom
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Por Christian:
– Por favor, acompanhe a Srta. Woodcook até a porta — pedi para Srta. Steele.
– Claro — ela respondeu — por favor, me acompanhe.
Ela direcionou a cliente até a porta, em seguida foi ao almoxarifado.
Percebendo que ninguém havia reparado, levantei-me e fui atrás dela.
– O que a está procurando? — perguntei, assustando-a.
– Que susto — ela riu — Vim buscar um material que o Sr. Muller pediu para mandar uma mostra ao cliente.
– Quer ajuda? — ela olhou para a prateleira alta — está lá em cima?
– Sim — sorriu — Maldita altura que não me permite pegar as coisas sozinha.
Apenas levantei os braços e peguei a peça que ela precisava. Ela me observava atentamente, o que era bom sinal.
– Aqui está — entreguei-lhe o material e olhei-a nos olhos profundamente — mal posso esperar para o nosso jantar.
Aproximei-me dela um pouco mais, ainda encarando-a nos olhos. Ela andou para trás até encostar-se em uma das prateleiras metálicas do almoxarifado, fazendo-a deslocar-se, e causando um enorme barulho.
– Opa — ela disse e sorriu — mal posso esperar.
Ela passou a língua devagar em seu lábio inferior, de forma quase imperceptível. O batom realçava as curvas de sua boca, tornando-a ainda mais sensual. Parecia um grande ponto turístico implorando para ser visitado. Já a minha boca, parecia um turista descontrolado para entrar no Beto Carreiro World. Já a ocasião em que estávamos, parecia o segurança, que serve para impedir a entrada do turista no parque.
Olhei diretamente para aquela boca avermelhada e mordi meu lábio inferior. Ela me encarou penetrando o olhar no meu profundamente, e no momento, a única coisa que senti foi todo meu corpo enrijecer, e fui tomado por toda tensão incontrolável que invadia meu corpo. Que mulher sexy, meu Deus.
– Você brinca com o perigo às vezes. Não faça isso — ela disse e saiu do almoxarifado.
Por Anastácia:
Eu só queria um pouco de televisão e brigadeiro, mas a vida me foi melhor. Ao chegar em casa ouvi o telefone tocar. Do outro lado da linha, ouvi uma voz masculina semi-rouca dizer as palavras “se” “arruma” “vou” “te” “buscar”.
– Seria interessante você me dizer coisas do tipo, como conseguiu meu telefone? — perguntei e pude ouvir a risada de Christian do outro lado da linha.
– Você tem cadastro na empresa, certo? — ele era genial. Ou melhor, eu era muito lenta.
– Bom, Sr. Grey, o senhor me chamou para jantar amanhã, e hoje quer sair também?
– Se para você não for problema…
– Não, não há problema algum. Que horas o senhor vem me buscar
– Por favor, me trate por “você” — ele sorriu, imagino.
– Tudo bem — sorri — que horas você vem me buscar?
– Em uma hora — ele disse.
Em uma hora exata ele chegou. Resolvir anotar “pontualidade” no meu caderno de qualidades que ele possuía.
– Pontualíssimo — disse ao entrar no carro dele, que por sinal, era maravilhoso.
– Você está linda — Galanteador. Outro tópico para minha lista.
– Obrigada — sorri apresentando um pouco da minha timidez.
Alguns minutos depois chegamos ao teatro, onde iríamos assistir uma peça chamada “A Máquina”, de Adriana Falcão. Os ingressoas haviam sido comprados com antecedência, o que me levou a pensar que tudo aquilo era um encontro armado por ele, ou seja, ele queria algo a mais. Sentamo-nos na terceira fila. Tinhamos uma visão privilegiada do palco. Ao terceiro sinal a peça começou e a linda história de amor entre Antônio e Karina, começou a ser lindamente contada.
"Antônio, eu quero ir pro mundo. Só lá eu vou conseguir ser alguém, e as pessoas vão dar devida importância à Nordestina"
“Mas Karina, como é que você quer que o mundo olhe para Nordestina? O mundo é grande demais para olhar pra uma cidadezinha tão pequena”
“E é por isso mesmo que eu quero ir pro mundo, Antônio”
“Você quer que Nordestina seja lembrada, mas está indo embora, assim como todos que já foram. Só que ninguém entende que Nordestina nunca vai para frente, se todo mundo fizer questão de deixá-la para trás”
“Mas você não entende Antônio. Eu preciso cruzar essa linha do horizonte. Linha que divide Nordestina do resto do mundo. Para eu saber se esse tal de mundo é tão bom, como dizem ser”
“Se é o mundo que você quer, Karina, então o mundo eu vou trazer a você”
(…)
“Lá de onde Antônio vem, é longe”
“Lá de onde Antônio vem, é longe demais”
“Lá de onde Antônio vem, é longe que só a gota”
A cortina se fechou e o público aplaudiu o espetáculo com veemência. Antes das pessoas começarem a sair, Christian pegou a minha mão para me guiar. Eu fiquei parada olhando para o palco e ele percebeu minha falta de reação totalmente despropositada.
– Você está bem? — ele perguntou.
– Você acertou em cheio — sorri e apertei-lhe a mão — Eu adoro teatro, e essa peça mexeu muito comigo.
– A história de amor entre Antônio e Karina? — ele perguntou.
– Não tanto — sorri— me tocou mais a curiosidade e a força de Karina ao correr em busca do que ela acreditava ser sua verdade.
– Você se identifica com a Karina?
– Para falar a verdade, não. Se eu tivesse corrido atrás dos meus sonhos, como Karina, eu não estaria assistindo a peça, eu a estaria fazendo — sorri — mas eu preferi apostar em algo que me garantiria financeiramente. Até porque meus pais nunca me apoiariam se eu decidisse largar tudo para ser uma atriz.
– E por que não? É um ofício interessantíssimo — ele disse — Aliás, é realmente encantador.
– Encantador, mas não fornecedor — sorri.
Estávamos próximos à bilheteria do teatro quando fomos surpreendidos por um apagão repentino. O Blackout foi total, e mal conseguimos nos encontrar. Tentando apalpar o ambiente para me localizar, toquei, creio eu, que as costas dele. Este, por sua vez, segurou minha mão fortemente e me puxou para perto de si.
– Está tudo bem? — ele perguntou — Não se preocupe, com certeza tem gerador de energia aqui no teatro, logo volta a luz.
– Está tudo bem — me aconcheguei em seus braços e reparei o quão musculosos eram, mas me portei devidamente, é claro.
Em pouco tempo a luz voltou e eu me desprendi do abraço dele. Sorri ao vê-lo segurar minha mão com mais força para que eu não a soltasse. Corremos até o carro enfrentando a chuva que estava alagando o estacionamento.
– Nossa eu estou toda encharcada — entrei no carro e abracei meu próprio corpo tentando me aquecer.
– Toma — ele me entregou o casaco que vestia — Vista isso.
– Não, Christian — recusei — Não precisa, imagina. Você vai ficar com frio?
– Eu não estou tão molhado quanto você — me entregou novamente o casaco — Vista para não ficar doente.
– Obrigada — me cobri com o enorme casaco — Você gostou do espetáculo?
– Sim, e para falar a verdade, eu te trouxe aqui porque eu já conhecia a história, e achei que você iria gostar.
– Acertou — sorri — Você já assistiu a peça?
– Li o livro — ele sorriu.
Estávamos cruzando a rodovia quando nos deparamos com um engarrafamento quilométrico. Os carros estavam praticamente parados devido um acidente que havia ocorrido há pouco.
Pelo que ficamos sabendo, um carro foi atravessar um cruzamento e bateu frente à frente com um caminhão de carga. Haviam corpos jogados ao chão quando passamos, e pude sentí-lo apertar minha mão ao ver um corpo, praticamente, deformado.
– Ana, não olha isso, por favor. Não quero que você se sinta mal.
Tarde demais, eu já tinha olhado e estava com o estômago embrulhado. Acho eu, que eles já deviam ter coberto os corpos com lençóis, ou algo do tipo.
– Eles deviam ter coberto isso — disse e ele concordou.
Senti meus olhos marejados ao recordar da morte de uma grande amiga minha. Foi exatamente assim. Estávamos todos em um churrasco na casa do namorado dela, e decidimos sair para comprar mais cerveja.
– Por que está chorando, Ana? — ele perguntou ao encostar o carro no acostamento — Você está bem?
– Acidentes de carro sempre mexem comigo.
Ele soltou o sinto e se virou para mim. Eu já havia deixado todas as lágrimas escorrerem pelo meu rosto, então, ele se aproximou e deixou um beijo no meu rosto, em seguida secou minhas lágrimas.
– Vai ficar tudo bem — ele disse, olhando profundamente nos meus olhos.
– Não vai, Christian — segurei nas mãos dele que estavam segurando meu rosto — Essa lembrança nunca vai sair de mim.
– Lembrança? — ele perguntou e afastou-se curioso.
– Nosso acidente — enxuguei minhas próprias lágrimas — Estávamos comemorando que o namorado da Renata havia passado no vestibular para medicina na USP, então fizemos um churrasco na casa dele. Resolvemos sair para comprar mais cerveja e enquanto cruzávamos a rodovia, um carro bateu de frente com o nosso. Davi e eu estávamos de cinto, portanto não foi tão ruim para nós. Mas a Renata estava sentada no banco da frente sem cinto e…
Nessa hora não me contive e comecei a chorar mais, e ele segurou em minhas mãos.
– Olha, eu poderia dizer para você não chorar — ele apertou minhas mãos e olhou no fundo dos meus olhos — Mas eu não tenho o que dizer.
Enxuguei minhas lágrimas e tentei me conter. Pouco tempo depois eu já estava mais tranquila.
– Gosta de música? — ele perguntou ao retomarmos o caminho.
– Adoro — sorri e esperei-o colocar algo para tocar.
– Los Hermanos — ele sorriu — gosta?
– Não é possível que você saiba tanto sobre meus gostos — sorri — Eu só te conheço há alguns dias. E sim, eu amo Los Hermanos.
"Eu quero a sina de uma artista de cinema
Eu quero a cena onde eu possa brilhar
Um brilho intenso, um desejo
Eu quero um beijo, um beijo imenso
Onde eu possa me afogar”
– Lisbela — disse e ele sorriu — A melhor versão dessa musica é essa gravada por Los Hermanos. Você gosta de quais tipos de musica?
– Gosto de tudo, mas eu facilmente colocaria Chico Buarque de Holanda, Cazuza e Renato Russo em um patamar inalcançável — sorriu — E você tem razão quanto à Lisbela.
– Adoro Cazuza, minha música preferida dele é “faz parte do meu show” — sorri.
"Faço promessas malucas, tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby
É pra te proteger da solidão
Faz parte do meu show,
Faz parte do meu show
Meu amor”
Ele cantou essa parte da música enquanto dirigia até Capão Redondo. Tive que adicionar “canta bem” na minha lista de qualidades.
Por enquanto ele já era “pontual”, “galanteador”, e “cantor”. Faltava incluir o fato dele ser um homem inteligênte, que adora cultura, musica e teatro. E que tem “o dom” de adivinhar os meus gostos. Ele estava me saindo melhor do que a encomenda.
– Antes de deixá-la em casa, vamos comer? — ele disse rindo — McDonalds
– Gordura hidrogenada — sorri — Claro, por que não?
– Não importa o que é, desde que seja bom — ele sorriu.
Ele passou no drive thru para poupar tempo, já que já passavam das onze horas da noite, e amanhã estaríamos às sete horas no trabalho.
“Para mim uma promoção do Big Mac com Coca-Cola. Ela vai querer a promoção do McChicken com suco de laranja, sem gelo”
Após sairmos de lá, ele me entregou os lanches e pediu para que eu os abrisse. Estava dirigindo, portanto não poderia ficar segurando as comidas.
– Batata, por favor — peguei umas duas batatas e coloquei na boca dele.
– O que acha deu me vestir de submissa e lhe servir uvas na boca te abanando com uma folha de parreira? — sorri e coloquei o canudo em sua boca, para ele beber o refrigerante.
– Seria melhor do que eu tirar as mãos do volante para pegar as batatas e o carro perder o controle, capotar, rolar a ribanceira, pegar fogo e explodir — ele riu.
– Um pouco dramático — ri junto a ele — Não brinca com isso.
– Tem uma coisa que eu não entendo — ele riu — você está se afundando em gordura hidrogenada, mas pede suco, e não uma coca bem gelada — ele riu.
– Não sou viciada em refrigerante — sorri — prefiro uma cervejinha, ou vinho.
Em menos de cinco minutos o carro dele estacionou em frente ao meu prédio. Ele desceu do carro e, educadamente, abriu a porta para que eu saísse. “Cavalheiro”. Hoje a lista de qualidades encheu. O que é muito bom.
– Está entregue — ele disse.
– Vai dirigir sozinho até o centro de São Paulo à essa hora? — perguntei.
– Se eu não for, eu não vou chegar em casa — sorri — você vai ficar bem aqui sozinha?
– Eu fico aqui sozinha desde que me mudei para São Paulo — sorri — mas não quer dormir aqui? Dirigir à noite me parece tão perigoso. Você pode dormir no quarto de hóspedes.
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