Fifty Shades of Doom
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Por Christian:
Que oportunidade maravilhosa. Se a vida fosse uma peça de teatro, ela tinha acabado de dar a deixa para eu entrar em cena. Por sorte, eu sempre carrego minha mala com roupa limpas no porta malas do carro, porque nunca se sabe quando eu vou precisar fazer uma viagem inesperada à trabalho.
– Não seria muito incômodo? — perguntei.
– Imagina, para mim seria até melhor. Eu me sentiria mal em saber que você dirigiu tanto à noite por minha causa.
Entramos no apartamento dela, que não era tão pequeno quanto eu imaginava ser. Aliás, era bem confortável. A recepção que tive ao entrar no apartamento não poderia ter sido melhor.
– Esse é o nego — ela disse segurando um cachorrinho no colo — ele é a minha companhia do dia a dia.
– Ei garoto — acariciei lhe a barriga.
Ela colocou o cachorro no chão e puxou minha mão até o quarto de hóspedes, que ficava na segunda porta à direita.
– Bom, você pode dormir aqui — ela disse — se quiser tomar banho, o banheiro é no final do corredor, e tem toalha no armário do banheiro — O diálogo foi interrompido pelo estridente barulho do telefone tocando. Ela saiu para atender e fiquei esperando-a terminar a conversa.
(…)
– Tudo bem, mãe… Está no aeroporto?… Vindo para minha casa?… Tudo bem…Não, eu não esqueci, pode vir pra cá, estou te esperando… Um beijo.
(…)
Foram essas as únicas frases que ouvi da ligação entre Ana e sua mãe. Quando ela desligou o telefone estava pálida como se algo lhe assombrasse, e realmente era isso que estava ocorrendo.
– O que aconteceu? — pude vê-la correr para o quarto de hóspedes arrancando todos os lençóis da cama.
Parecia um furacão arrumando todo o quarto, mas me surpreendeu ainda mais quando ela disse as seguintes palavras “você” “vai” “dormir” “no” “meu” “quarto”.
– N-no, no seu quarto? — engasguei com as minhas próprias palavras, e quase não acreditei na proposta.
Tudo bem que não era uma proposta, mas ela me pediu para dormir no quarto dela? Isso não poderia estar melhor.
– Se não for problema para você — ela disse enquanto arrumava as almofadas do sofá milimetricamente — meu pai viajou para o exterior, e minha mãe comprou passagens do Rio para cá. Eu esqueci completamente que ela estava vindo, e justamente hoje.
– Não quer que eu vá embora? — perguntei rezando por um “não” como resposta.
– Imagina — ela disse indo até a cozinha e tirando do congelador um daqueles pratos que se compra congelado e colocando no forno — seria grosseria de minha parte.
– Por que está tão nervosa? — perguntei, afinal, era só a mãe dela.
– É difícil explicar — ela sorriu pegando uma esponja para lavar o pouco de louça que havia na pia — digamos que desde que me mudei para São Paulo, e me considero “independente”, minha mãe exige de mim nada mais, nada menos que a perfeição. É claro que é impossível, portanto ela sempre vai reclamar de alguma coisa, seja o que for.
– E por que isso? — sorri — Quer uma ajuda?
– Na verdade, quero sim —ela disse pegando o pano de prato e enxugando toda louça para guardar em seu devido lugar — preciso que se for tomar banho, que seja agora. Coloque sua mochila no meu quarto, e por favor, minha mãe não pode nem sonhar que você é meu chefe, sei lá, finja ser meu namorado.
– Como assim? — perguntei incrédulo — Por quê?
– Ela jamais aceitaria o fato de um homem estar dormindo na minha casa — ela riu — sendo meu chefe então, pior ainda.
– Acha que vai ser muito melhor pedir para eu dormir na sua cama? — perguntei e ela riu.
– É um risco que eu vou ter que correr — ela riu — Aliás, minha mãe precisará usar o quarto de hóspedes.
– Eu vou tomar uma ducha —sorri — prometo que vou me esforçar para não fazer nada que te prejudique com sua mãe perfeccionista.
Sai e fui até o banheiro no fim do corredor e tomei uma ducha rápida. Coloquei uma calça de moletom e uma blusa regata branca. Quando sai do banheiro, Ana estava colocando três pratos à mesa. A casa parecia outra, estava completamente arrumada. Não poderia uma pessoa normal achar um defeito naquele lugar. Não demorou muito para que a campainha tocasse, e Ana corresse para abrir a porta.
Por Anastácia:
– Mãe! — abracei-a fortemente — que saudade. Entre, por favor.
– Oi minha filha — ela entrou e colocou a pequena mala em cima do sofá — Seu pai e eu estávamos morrendo de saudade.
– Eu também, mãe — disse e olhei para Christian, que em um gesto cavalheiro pediu licença e levou a mala de minha mãe até o quarto de hóspedes, voltando logo em seguida.
– Prazer, Sra. Steele — ele a cumprimentou.
– Ora rapaz, me chame de Carla — ela sorriu — Você, quem é? — perguntou — Ora Ana, por que não me apresentou o rapaz?
– Eu sou Christian, dona Carla. Eu sou o n-namorado da Ana — ele gaguejou e eu segurei a mão dele para reforçar a não muito convincente afirmação.
– Namorado? — ela me olhou séria — Por que não me avisou antes, Ana?
– Bom, mãe… Eu… Não queria falar dessas coisas por telefone. E pode parar com esse espanto, eu tenho 22 anos — disse e ela me fulminou com o olhar.
– Bom, neste caso, como vocês se conheceram? — ela perguntou desafiadora.
– É… Teatro. Nos vimos no teatro — dessa vez a mentira partiu de Christian — Um acidente na saída.
– Acidente? — minha mãe perguntou.
– Café quente — eu disse — Ele derramou café em mim quando estávamos saindo do hall. Desde então a gente não parou de conversar.
– Bom, então tudo bem — dona Carla não pareceu estar convencida.
– Mãe, senta aqui, descansa. Eu já vou tirar o jantar do forno — disse e pisquei para que Christian fosse comigo até a cozinha.
Entramos e ele me encarou dando seu típico meio sorriso sedutor. Tirei a comida do forno e ele ainda estava me encarando, o que me deixou um pouco sem graça, confesso.
– Sua mãe não me pareceu muito convencida — ele disse — Aliás, adorei a história do hall.
– Minha mãe nunca aceita uma situação tão depressa — coloquei o prato quente em cima da bancada — Por isso é o seguinte, presta atenção. Estamos juntos há dois meses, você trabalha no shopping em uma loja de tecnologia.
– Dois meses — ele disse — Tudo certo. Acho melhor nós irmos, sua mãe vai desconfiar.
Servi o jantar, e dentre tudo que falamos enquanto comíamos, o assunto mais difícil, foi a minha “relação amorosa” com o Christian. Nunca consegui compreender bem o motivo que levou minha mãe a ser tão preocupada com minhas relações amorosas. Christian, entretando, estava se saindo bem. O que me deixava meio receosa, era o fato dele saber lidar tão bem com mentiras. Por sorte, devido o cansaço da viagem, minha mãe não prolongou muito os assuntos. Apenas comeu e foi se preparar para dormir. Christian foi para o meu quarto antes de mim, porque eu tive que arrumar toda cozinha. Minha mãe detestava acordar pela manhã e encontrar os pratos sujos. Ao entrar no meu quarto, percebi que Christian já havia dormido, portanto, o silêncio deveria ser preservado. Engano meu. Ao entrar no quarto a primeira coisa que fiz foi derrubar a luminária que ficava na estante, após puxar o fio com o pé, sem querer. Droga, maldito fio dos infernos.
– Está tudo bem? — ouvi a voz sonolenta.
– Sim, desculpe — sorri envergonhada — Só derrubei a luminária — peguei a minha camisola no armário e me tranquei no banheiro da suíte para poder trocar de roupa. Eu gosto dessa camisola porque não costumo conseguir dormir com roupas quentes ou que me prendem demais, portanto, eu considero essa camisola o ápice do conforto noturno. Voltei para o quarto em silêncio e me deitei na cama ao lado de Christian, estranhamente confortável ao dormir com um homem “semi-desconchecido”, que por acaso é o meu chefe.
– Não se sente desconfortável?— ele me perguntou — afinal, eu sou homem e, bom…
– É melhor apenas se virar para dormir — eu disse e entrei debaixo do lençol fino que eu utilizava para me cobrir nas noites mais quentes.
– Tudo bem — ele se apoiou em um dos braços e olhou para mim — boa noite “namorada” — ele fez aspas com as mãos, o que me fez rir.
– Boa noite, “namorado”.
Fechei os olhos a fim de dormir, mas senti o canto da minha boca esquentar, ao receber um beijo rápido. Não sei se foi, ou não, proposital, mas fingi não perceber. Ou melhor, tentei. Apertei, involuntariamente, os olhos e cerrei o punho por baixo do lençol. Percebi então, que não havia sido proposital, porque quando abri os olhos ele me encarava, e sua expressão era de dúvida.
– Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
– É que você… É… Nada — tentei não bancar a virgem, mas não consegui.
– Eu o que? — ele se aproximou um pouco mais, fazendo eu me afastar.
– Você…Me beijou — senti que já estava no limite da cama.
– E isso é bom ou ruim? — ele se aproximou ainda mais, fazendo-me desacreditar na possibilidade de ter sido acidental.
– É melhor eu dormir na sala — disse e me levantei rapidamente da cama — É melhor, essa situação é meio estranha, você é meu chefe, não pega bem.
– Ana — ele se levantou e puxou um travesseiro — Não vou permitir que saia do seu próprio quarto por minha causa. Eu durmo no chão, fica tranquila.
Não sei se naquele instante eu fiquei feliz, ou insatisefeita. Por mais que eu me sentisse absurdamente desconfortável por estar “dormindo” com meu chefe, algo dentro de mim queria que isso acontecesse.
Por Christian:
O dia seguinte começara agitado. Às seis da manhã, o despertador de Ana tocou anunciando mais uma jornada de trabalho. Ela, por sua vez, levantou da cama como um verdadeiro furacão. Arrumando a cama e separando todo seu material de trabalho. Eu ainda hesitei em levantar, mas ela fez questão de me arrancar do travesseiro e me empurrar para o chuveiro.
– Ei, pra que essa pressa toda? — perguntei e ri da cara de dúvida que ela fez.
– Eu tenho que trabalhar, não posso me atrasar — ela desviou o olhar e passou à arrumar os travesseiros que estavam no chão.
– E quem vai reclamar se você se atrasar um pouco hoje? — disse e percebi que ela me ignorou — Eu não vou reclamar — sorri.
– Vai logo, toma um banho — ela disse — E rápido que eu também tenho que tomar banho.
– Por acaso estou fedendo? — disse e ela riu.
– Anda logo, vai — me empurrou para o chuveiro.
Tranquei a porta e tirei minhas roupas. Após perceber que ela havia me empurrado para o banheiro, e não havia sequer me entregado as roupas que, à principio, eu precisava vestir após o banho, enrolei uma toalha no quadril e fui até o quarto.
– Você viu minhas roupas? — perguntei-lhe.
– É… Eu acho… Que você deixou em cima da poltrona — apontou para a poltrona desviando o olhar do meu corpo.
Fui até a poltrona e as peguei, levando-as para o banheiro.
(…)
– Não! Não! Não — bati na mesa e me levantei — Eu não vou trocar o layout. O Fernando sabe muito bem que é impossível fazer essa merda em um dia.
– Christian, o que podemos fazer se ficou errado?
– Errado porra nenhuma — disse furioso — O Fernando teve um mês para dizer que a arte estava errada, e esperou para dizer isso um dia antes?
– Ele não recebeu o layout há um mês, Christian, você sabe disso.
– Um instante — peguei o telefone — “Srta. Steele, faça o favor de trazer impresso o email passado para o Sr. Fernando no dia 18 de setembro, obrigado”
Não demorou muito para que a eficiente secretária me trouxesse o material solicitado.
– Olhem essa merda aqui — joguei o papel na mesa — O que me dizem? Enviado no dia 18 de setembro, estamos no dia 19 de outubro. Sr. Adriano, faça o favor de ler este email, em alto e bom som.
O velho começou a ler: “Prezado Sr. Fernando, segue em anexo o layout do anúncio para o dia 20 de outubro. Qualquer erro na arte, ou no anúncio, avise-me para alterar com, no mínimo, 15 dias de antecedência”.
– Assunto encerrado — levantei-me e sai da sala de reuniões, deixando-os sozinhos.
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