Felix Felicis
1 Encontro à meia-noite.
Notas iniciais
"Quem ama por dois, chora sozinho."
Durante o jantar, Harry estava muito cansado para comer. Sentado ao lado de Ron, que devorava furiosamente seu prato cheio de batatas e asas de frango, engolindo com pressa sem mastigar direito, Harry girava seu garfo entre os dedos, distraído. Havia tantas coisas passando por sua mente que até mesmo a ideia de comer agora fazia seu estômago revirar.
— Está se sentindo bem, Harry? – Hermione perguntou, com um tom de preocupação. Ela sempre sabia quando algo não estava certo. Harry duvidava que, na verdade, sabia até mais do que ele mesmo.
— Estou... – ele respondeu, automaticamente, sem nem perceber.
— Sua cicatriz está doendo de novo? – ela tocou seu ombro, olhando fixamente para sua testa.
— Já disse que estou bem, Hermione! – a irritabilidade no tom de sua voz surpreendeu até ele próprio. Ele não tivera a intenção de gritar com a melhor amiga – a pessoa que sempre estaria do seu lado, independente do que fosse –, mas Harry estava tão cansado de tudo que acabou escapando.
Percebendo a expressão de choque de Hermione, Harry murmurou um pedido de desculpas atravessado e seguiu para o dormitório, com passos apressados. Tudo que ele mais precisava no momento era de um tempo sozinho com seus pensamentos.
***
Deitado na cama, ouvindo os roncos altos de Ron, Harry espiava o Mapa do Maroto. Ele estava muito agitado para tentar dormir, sua cabeça dava voltas como um carrossel acelerado. Aquilo era muito para processar – a pressão de Dumbledore, a volta de Voldemort, o medo de perder seus amigos. Ele só desejava que tudo aquilo parasse, pelo menos por alguns segundos, para que Harry pudesse respirar.
Tentando se distanciar de tudo aquilo, ele observava os passos dos outros bruxos que andavam pelo castelo: Dumbledore em seu escritório, indo de um lado para outro, Mr. Filtch andando apressado pelos corredores do segundo andar, seguido por sua gata, Madame Nora, provavelmente tentando pegar Pirraça, o poltergeist da escola, fazendo algo de errado.
Algo fora do comum chamou sua atenção. Draco Malfoy andava rapidamente pelos corredores do sétimo andar, parando de vez em quando – provavelmente para se certificar que não estava sendo seguido, achava Harry. Que diabos Malfoy fazia no sétimo andar a essa hora da noite?, questionou-se Harry.
Por um instante, Harry pensou em segui-lo e ver o que o garoto fazia se escondendo em corredores desertos à meia noite. Afinal, com sua Capa da Invisibilidade, Malfoy jamais saberia que estava sendo seguido. Mas, a voz da razão implorava que não o fizesse. Nunca é uma boa ideia andar sozinho pelos corredores a noite, pensou, relembrando de todas as vezes que tinha sido pego por Filch e se metido em encrenca.
Ignorando a voz dentro de sua cabeça que dizia que aquilo não era uma boa ideia, Harry calçou seus calçados e vestiu a Capa por cima de seus pijamas listrados. Tomando cuidado para não fazer algum ruído que acordasse seus colegas de quarto, ele desceu as escadas e passou pelo retrato da Mulher Gorda, que reclamou ao ser acordada de seu sono profundo.
— Esses garotos... – ela rosnou, enquanto a porta abria fazendo um ruído baixo.
Apressando-se pelos corredores, Harry subiu as escadas o mais depressa que pode, checando a cada pouco o progresso de Malfoy no mapa e procurando por Filch, que por sua sorte ainda se encontrava a vários andares abaixo dele.
Quando finalmente chegou aos corredores do sétimo andar, Harry estava ofegante. O bonequinho de Malfoy deu mais alguns passos e desapareceu do mapa, como se nunca estivesse lá em primeiro lugar.
— Que diabos? – Harry exclamou, um pouco mais alto do que deveria.
Como alguém simplesmente some do mapa? Isso nunca havia acontecido antes. Ele correu para o local que os pés de Malfoy estiveram por último, um canto empoeirado com nada de interessante, mas não havia nem uma evidência sequer da presença do garoto da Sonserina.
Foi quando Harry espiou, com o canto do olho, uma leve movimentação na parede. A parede sólida de pedra fria estava se mexendo lentamente, criando pequenas espirais, que esculpiam a pedra como se fosse manteiga.
Devo estar ficando louco, Harry pensou consigo mesmo.
À medida que as linhas ficavam mais reais na parede, Harry entendeu o desenho que elas traçavam. Uma porta! Uma enorme e majestosa porta dupla, com uma grande moldura espiralada no estilo medieval.
Ao completar seu desenho, a porta se abriu soltando um guincho baixo. Harry prendeu a respiração e entrou na sala que abriu a sua frente. A Sala Precisa, ele se lembrara. Hermione já havia mencionado inúmeras vezes enquanto estudavam na biblioteca, embora ele não tivesse prestado total atenção. Ele não sabia exatamente qual era sua função, e muito menos o motivo que Malfoy se espreitara nela aquela hora da noite.
A sala que apareceu a sua frente era fria e escura. Móveis escuros de madeira nobre cobriam a sala. Uma enorme cristaleira, cheia de troféus e louças caras se estendia por toda a lateral da sala, que não era muito grande. Do outro lado, havia uma enorme cama, coberta por um véu branco translúcido. O ambiente emanava uma energia pesada, como se estivesse cheio de magia negra coisas ruins, fazendo as estranhas de Harry revirarem. Caminhando até a cristaleira, Harry espiou os troféus com cuidado. Havia troféus de todos os tipos, tamanhos e cores, ornamentados com pedras preciosas. O sobrenome Malfoy aparecia em todos eles, embora ele não reconhecesse os nomes estranhos que o precediam.
Um gemido baixo trouxe Harry de volta a realidade. Por um segundo ele havia se esquecido o que viera fazer em primeiro lugar. Malfoy se encolhia em um canto da sala, ajoelhado sobre os pés com a cabeça enfiada nos braços. Seu corpo tremia. Harry demorou alguns segundos até entender o porquê. Ele estava chorando. Seu corpo inteiro balançava, para frente e para trás, e ele murmurava palavras inaudíveis e sem sentido.
Aliviado por estar escondido sob sua capa, Harry se aproximou alguns passou do menino e se ajoelhou alguns metros seu lado, tomando cuidado para não fazer barulho.
Draco ergueu o rosto e examinou a sala. Suas bochechas estavam cor de rosa e seu rosto inundado por lágrimas. Seus cílios caiam sobre sua face e seu cabelo estava todo bagunçado. Ele estava uma bagunça.
Harry se sentiu mal por ele. Ele nunca imaginara que alguém como Malfoy teria sentimentos em primeiro lugar, quanto mais se escondesse em uma sala secreta em Hogwarts para poder chorar em paz.
— Eu sinto muito... – o menino murmurava baixinho, voltando a enfiar seu rosto nos joelhos e se balançando como uma criança. – Minha culpa...
Sem saber o que fazer, Harry olhou para sua volta. Que lugar era aquele?, pensou Era como um cômodo de uma casa, uma casa chique. Os móveis eram notavelmente caros, de madeiras nobres e cobertos por ornamentos de ouro e pedras preciosas. Algo sobre a cama chamou sua atenção.
Se aproximando, com passos cuidadosos e silenciosos, Harry percebeu o que era. Uma fotografia envelhecida, com as pontas dobradas e marcas de mofo, como se ficasse guardada por muito tempo em um local não arejado.
Embora a foto não estivesse muito clara, Harry distinguia quatro pessoas nela. Um homem adulto de cabelos longos e prateados abraçado a uma mulher baixa, loira de olhos claros – Lucius e Narcissa Malfoy, reconheceu Harry. Eles tinham expressões sérias e narizes empinados. Ao lado deles, havia duas crianças. Um menino e uma menina, ambos de cabelos brancos, olhos prateados e expressões frias. Eles posavam educadamente com as mãos para trás, como miniaturas de adultos. Eles não deviam ter mais do que quatro ou cinco anos de idade. Malfoy e... quem era a menina ao seu lado? A semelhança entre os dois era tão grande que Harry tinha certeza que tinham que ser parentes, primos talvez.
Para uma foto de família, havia algo que não parecia certo a respeito dela. Era muito... formal. As crianças pareciam duras, como bonecos, e tristes. Não havia nem um pingo de felicidade naquela foto. Harry se sentiu mal de olhar para ela.
Abruptamente, Malfoy, que agora não chorava mais, levantou-se e caminhou até onde Harry estava. Seu coração parou de bater em seu peito por um segundo. Ele levou a mão aos seus lados para se certificar que a capa ainda o cobria, e respirou aliviado quando percebeu que ainda estava escondido.
O menino loiro parou alguns metros dele, e tomou a foto que Harry examinara em suas mãos. Com medo de se mexer, Harry ficou parado ao seu lado, concentrado em seus movimentos.
Ele ergueu a fotografia e a rasgou no meio sem piedade. Soltando um grunhido, tornou a rasgá-la várias vezes, até que ela se resumisse a míseros pedaços de papel irreconhecíveis. A respiração dele estava acelerada, como se o que acabara de fazer exigisse um enorme esforço.
Malfoy espalhou os pedaços pelo chão e, respirando fundo, caminhou até o canto da sala e saiu pela porta, deixando Harry sem reação.
O que acabara de acontecer?, ele pensou consigo mesmo. Tudo se repetia na cabeça de Harry, inúmeras vezes. Malfoy encolhido no canto da sala. Suas lágrimas escorrendo pelo seu rosto pálido. A fotografia. A menina loira, parada ao seu lado, como uma estátua. O olhar nos olhos das crianças, frio e insensível.
Harry deve ter ficado na Sala Precisava por algumas horas, ele estimava. Ele perdera completamente a noção do tempo. Incapaz de retornar ao seu dormitório, ele se aninhou na cama que ficava no canto da sala e fechou os olhos, revivendo os acontecimentos daquela noite repetidamente, uma vez atrás da outra.
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