Fear Of The Past
4 Hazel
Sento ao lado de meu amigo, Prem na roda de narguile que organizamos. Ele havia me convidado pra conhecer um grupo que não tinha nome, mas em que eles discutiam assuntos que exigiam mente bem aberta e maturidade mais alta. Um Oasis para mim, que lido com gente ignorante quase diariamente.
-Ah, Hazel, sabia que você vinha.- disse Prem, sorrindo. Sempre achei que ele tivesse o sorriso mais bonito do mundo, seus dentes brancos criavam um contraste lindo com seu tom de pele mais escuro.
-Perdi alguma coisa?- pergunto, colocando minha mochila num canto.
-Não muita.- respondeu Pooja, uma colega minha. Não a conhecia muito bem, mas estudamos juntas desde o pré. Seus piercings dourados cintilantes iluminavam a sala escura.
Tiro os sapatos e as meias, ficando descalço, como os demais. O cheiro de nicotina e outras substancias pode ser sentido de longe.
-Ei, ei, ei como vão vocês?- pergunta um homem alto segurando um livro grosso que parecia pesar toneladas.
-Vamos bem, bhaya.- diz um menino que não conheço.
-Gostei de ver, me chamando de irmão mais velho, Anand.- comenta o homem, se sentando ao lado de Prem.
-Sou um exemplo.- diz Anand, sorrindo. Meu Deus porque essas pessoas tem sorrisos tão bonitos?!
-Ah, e temos uma nova integrante! Como é seu nome, querida?
-Hazel Marie Patel.
-Hazel! Lindo nome! Assumo que seu amigo Prem a trouxe aqui, certo?
-Sim.- digo, timidamente.
-Ótimo! Garanto que vai adorar o grupo! Eu me chamo Rahul Karish, mas pode me chamar de Bhaya. Alguém pode explicar à Hazel os nossos princípios básicos?
Uma menina levanta o braço, fazendo suas pulseiras cintilarem.
-Diga, Parvati!
-Primeiro principio: tudo que é falado e discutido na sala do narguile fica na sala do narguile.- disse Parvati, orgulhosa. Não conhecia a menina, mas ela me parecia simpática. –Segundo...
-Calma, Parvati. – interrompeu Bhaya – Vamos deixar outra pessoa continuar. Que tal você, Samir?
-Claro. Segundo, nunca peça o narguile, sempre espere sua vez.- disse Samir, outro menino que não conehcia. – Posso continuar?
-De boa.- disse Bhaya, rindo ao ver a expressão indignada de Parvati.
-Terceiro principio: você é livre pra entrar e sair a hora que quiser do grupo, tambem é livre pra trazer amigos. Quarto principio, você é livre pra expressar sua opinião, qualquer que seja. Quinto principio, você não deve julgar ninguém por nada que fazem ou dizem aqui. Sexto e ultimo principio: nenhum assunto é irrelevante para nós. Honra ao grupo. Atchá!
-Atchá!- todos repetiram em coro.
-Então, de acordo com o grande livro...- Bhaya pigarreou duas vezes.
-Oh grande e sagrado livro!
-Obrigado, Anand. Pelo menos alguém se lembrou de saudar o livro. Enfim, o assunto a ser discutido hoje é bastante serio e está em alta no momento: Estupro. Quem gostaria de começar?
-Eu, por favor.- disse uma menina mais seria.
-Otimo, Laxmi, passe o narguile em sentido anti horário.
-Bem, eu acho que pra começar a falar de estupro em geral, tínhamos que ser mais específicos. Existem diversas formas de estupro.- disse Laxmi.
-Eu concordo.- disse Pooja, dando a primeira tragada no narguile.
-Bem, então vamos começar a falar sobre o estupro na mulher, coisa que é muito freqüente aqui em Nova Deli e em varias outras cidades da Índia.- disse Bhaya.
-Acho que o governo devia tomar previdências melhores contra o estupro. Fazer que nem na África e dar aquelas camisinhas que tem espinhos.- disse Pranav, outro conhecido meu, bem amigo de Prem.
-Camisinha com espinho?- perguntou Samir.
-É uma camisinha feminina, dai quando... Sabe, rola o ato, o membro do cara fica preso nos espinhos e dói pra caralho.- disse Pranav.
-Ai.- comentou Samir, com um olhar desconfortável.
Fiquei surpresa com o fato que eles falavam tão livremente sobre sexo, como se nenhum deles ligasse pro que o outro fosse pensar.
-Seria uma boa idéia, mas deve ser desconfortável andar por ai com uma camisinha. Já é super desconfortável andar com OB e absorvente.- disse Parvati.
-Isso é a mais pura verdade.- disse Pooja, passando o narguile.
-Mas prefiro isso do que ser estuprada.- murmurou Laxmi.
-Ah, não sei. Acho que deviam falar sobre isso na escola, pra saber o que fazer na hora. E também não fazer burrice tipo andar sozinha, ou andar de mini saia as 3 da manhã.- disse Anand, dando uma tragada de narguile.
-Hazel.- disse Bhaya, que só agora eu havia percebido que me encarava fixamente. – Você está com cara de quem tem algo a dizer. Não tenha medo.
-Bem...- engulo em seco.
-Diga, Haz.- encorajou Prem.
-Então... Eu acho que em vez do governo dar aulas para as meninas sobre o que fazer quando forem ser estupradas, deveria dar aula para ensinar os meninos que não deveriam fazer isso...
-Hm... Continue.- disse Bhaya.
-Tipo, deviam dizer aos meninos, desde pequenos que uma mulher deve ser respeitada, não importa com o que ela estiver vestida nem o horário do dia. Não é como se eles não conseguissem controlar seus instintos sexuais. Vão assistir pornô, sei la, mas uma mulher não pode ser julgada como vadia, prostituta, traficante só por causa das roupas que usa. A mulher não tem culpa de ser estuprada, quando começarmos a aceitar essa mentalidade, poderemos começar a resolver essa questão.
Quando terminei de falar, todos ficaram calados. Até que Bhaya deu um sorriso torto pra mim e disse:
-Atchá!
-Atchá!- disseram todos, aplaudindo, se levantando e passando mão em minha cabeça.
-Hazel Marie Patel, senhoras e senhores!- disse Bhaya, me abraçando. –Bem vinda ao grupo.
-O que foi que eu fiz?- perguntei à Prem.
-Você deu o melhor argumento da seção. Eles sempre fazem isso.
-Já fizeram isso com você?
-Já. Quando eu falei sobre aborto.
-Me sinto tão honrada agora.
Prem abriu seu famoso sorriso e me abraçou também.
-Eu sabia que você ia gostar.- ele sussurrou.
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