Emily

Encaro meu reflexo nas brilhantes maçãs vermelhas da banquinha de frutas de Nara, nunca fui muito fã de maçãs, mas estas pareciam tão suculentas e deliciosas. Sinto como se elas estivessem chamando meu nome. “Emily... Emily...”, elas sussurravam. Era tentador de mais.

O dono da tenda estava ocupado de mais preparando sushi para um cliente que parecia apressado. Provavelmente nem tinha notado minha presença. Com o passar dos anos eu aprendi a ser bem discreta.

Olho envolta, ninguém está prestando atenção em mim, então pego uma maçã e rapidamente a escondo em minha mala surrada.

Me viro para checar se alguém viu, mas o dono está em uma discussão séria em relação ao preço do sushi com um comprador. O cheiro de peixe fresco me deixa com mais fome ainda, não tenho um tostão se quer, nem pra comer no colégio.

Pego outra maçã e coloco na bolsa. Não pretendia roubar mais nada, já estava até indo embora, aliviada. Então de repente escuto uma mulher berrar:

-Ladra! Suína! Pegue essa ladra! Takeshi-kun, pegue essa nojentinha!

O dono da tenda se vira pra mim, segurando em suas mãos engorduradas uma enorme faca de cozinha. Ele aperta seus olhos e começa a correr atrás de mim. Eu nem penso duas vezes, saio correndo em disparada, sem olhar para trás. Apenas ouvindo os gritos do dono da tenda, que pareciam uma mistura entre urros e relinchos.

Para despistá-lo de uma vez por todas, subo em um dos telhados. O fato de que o homem era muito gordo não o ajuda em sua perseguição pela minha pessoa. Corro pelos telhados, ainda escutando os gritos do homem, ele parecia enfurecido.

Quando percebo que estou longe o suficiente, tomo um momento para contemplar minha vitoria, observo a cidade inteira, me sentindo no topo do mundo. O vento sopra em meu rosto enquanto o sol se põe, me fazendo sorrir. Aqui era o lugar mais lindo para ver o por-do-sol.

Desço do telhado e caminho até a peixaria do meu tio, provavelmente a menor da cidade.

Desde que consigo me lembrar, moro com meus tios e meu irmão, Allan num apartamento apertado bem em cima da loja. Meu tio é bem severo e quer o melhor para mim. Eu e Allan estudamos na melhor e mais cara escola de Nara apesar de as vezes mal termos o que comer.

-Oi, Oji-san.- digo, entrando na lojinha. Meu tio está fazendo algumas contas no papel.

-Olá, Emily.- diz ele, sem olhar pra mim –Chegou mais tarde da aula hoje, né?

-Pois é, o sensei nos segurou um pouco mais na aula.- digo.

-Ah é mesmo?- ele pergunta, sem olhar para mim.

-É.

-Me de a sua mochila.

-Pra que?

-Me de. Agora.- ele olha para mim e posso ver seus olhos faiscando. Suspiro e entrego minha mala à ele sem dizer nada.

Meu tio vasculha minhas coisas, então tira as duas maçãs roubadas e as coloca em cima da mesa. Eu sei que ele está decepcionado e bravo. Meu tio valoriza muito a honra de nossa família e um roubo é algo praticamente imperdoável.

-Emily, eu já lhe disse que não deve roubar comida! É desrespeitoso! Como você quer que se lembrem de nós?! Como uma família de ladrões?

-Eu sei, oji-san! Mas o Allan está com muita fome ultimamente! Ele só reclama!

-Você não deve roubar. Escutou?- ele me agarra pela gola de minha camisa com força.

-E-entendi. Desculpe.

-Que bom... Agh, igualzinha a mãe, não tem respeito próprio.

-Nao fale assim dela!

-Você nem a conheceu, tola. Agora va ajudar sua tia a limpar os peixes e cale essa boca. Ladra suja.- ele deu uma mordida na minha maçã e voltou a fazer contas.

Saio cabisbaixa e vou até o fundo da loja, onde minha tia corta peixes para tirar as entranhas.

-Emily! Veio me ajudar!- ela diz, ao me ver.

-Sim, tia.- digo, pegando a faca.

-O que foi? Seu tio andou brigando com você?

-Eu roubei, eu mereci.

Minha tia me encarou, então me abraçou bem forte. Só não chorei porque não gosto de mostrar fraqueza na frente de mais velhos.

-Calma, Em. Não ligue praquele velho rabugento. – ela suspirou – Você e seu irmão não mereciam morar conosco... Deveriam ter uma vida melhor. Seus pais eram tão bons para nós...

-Tia,- murmuro – O que aconteceu com os meus pais?